O califa e o ancião, texto de Latino Coelho

21 10 2014

 

 

an_arab_horseman-large 13Um cavaleiro árabe, 1865

Gustave Boulanger (França, 1824-1888)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

O Califa e o Ancião

Latino Coelho

 

Ia o califa Harum-al-Raschid por um campo, aonde andava a folgar à caça, quando sucedeu de passar por pé dum homem já muito velho, que estava a plantar uma nogueirinha. Então disse o califa aos do seu séquito:
— “Em verdade, bem louco deve ser este homem em estar a plantar agora esta nogueira, como se estivesse no vigor da mocidade, e contasse como certo vir a gozar dos frutos desta planta.” Indo-se então o califa em direitura ao velho, perguntou-lhe quantos anos tinha. “– Para cima de oitenta”, respondeu o velho; “mas, Deus seja louvado, sinto-me ainda tão robusto e saudável, como se tivesse apenas trinta.” “– Sendo assim”, redarguiu o califa, quanto pensas tu que ainda hás de viver, pois que nessa idade já tão adiantada estás a plantar uma árvore que por natureza só daqui a largos anos dará fruto?” “– Senhor, disse o velho, tenho grandes contentamentos em a estar plantando, sem inquirir se serei eu ou outros atrás de mim quem lhe colherá os frutos. Assim como nossos pais trabalharam por nos legar as árvores que nós hoje desfrutamos, assim é justo que deixemos outras novas, com que nossos filhos e netos venham a utilizar-se e a enriquecer-se. E, se hoje nos sustentamos dos frutos do seu trabalho e se foram nossos pais tão cuidadosos do futuro, como havemos de retribuir em desamor aos nossos filhos o que de nossos pais recebemos em carinho e previdência ? Assim, semeia o pai para que o filho possa vir a colher.”

 

[Exemplo de narrativa demonstrativa]

 

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 201

 

Texto usado hoje em alguns colégios no 6º ano do ensino fundamental.





A Inveja em texto de Teolinda Gersão

11 09 2014

 

 

Talbot Hughes - The New DressO vestido novo, s/d

Talbot Hughes (Inglaterra, 1869-1942)

óleo sobre tela, 57 x 41 cm

 

 

“Por sorte, logo no início tinha havido um acaso que viera dar força à versão que lhe convinha: Dora Flávia mandara-lhe coser um pedaço da bainha de um vestido, no lugar onde o fio rebentara. Era já tarde e ela tinha perguntado se podia fazer esse trabalho em casa. Dora encolhera os ombros, era-lhe indiferente, não precisava do vestido agora.

Assim, levara-o consigo, deixara-o toda a semana pendurado no quarto da costura. E no meio das provas, mencionava sempre que tinha que acabá-lo, antes de quarta-feira. Era da dona da casa no Sommershild.

Em geral nem sequer era ela a puxar a conversa. O vestido falava por si, atraía logo os olhos das freguesas.

Deixara-o ali como um talismã que a livrasse, e ela do mundo dos armazéns baratos d’ A Feira ou do Lorenzo Marques Mercantil, na rua dos Irmãos Roby. Como se o vestido, suspenso da cruzeta, fosse o sinal exterior de uma mudança.

Só na terça-feira seguinte, à noite, lhe coseu a bainha. Difícil, porque a mousselina parecia desfazer-se nas mãos. Mas era também um prazer tocar-lhe — suave, leve, se havia tecido vaporoso era aquele.

Vestiu-o da própria depois de pronto. Um corpo tão parecido, as medidas iguais, ficava-lhe até melhor a ela, achava-se tão mais bonita do que Dora. Mas os vestidos pertenciam a umas, e não a outras mulheres. Mesmo quando uma mulher os talhava e cosia com as suas mãos eles pertenciam a outra. As vidas não se trocavam.

Dora nunca lhe pagaria o preço justo por nada, soube. Ninguém lhe pagaria. Nem ela poderia explicar. Se tentasse, neste caso, enumerar os problemas em volta do vestido, falaria da textura tão leve que parecia areia movediça, onde os alfinetes e a agulha escorregavam sempre, e Dora assentaria, distraída, com um movimento de cabeça, julgando que ela queria justificar um acréscimo no preço por esse trabalho extra,  diria, sim, sim, impaciente, sem ouvir, porque tanto lhe fazia pagar um pouco menos ou um pouco mais, e no fundo essa conversa aborrecia. Nunca poderia dizer-lhe que o problema não tinha sido o trabalho, mas aquele nó na garganta, como uma mão de ferro, que a deixava sem ar.

Podia fazer um vestido assim, pensou ainda, rodando levemente sobre si própria no espelho. Saberia fazê-lo, tal e qual, nem um ponto a menos. Mas o que parecia uma coisa próxima, concreta, era ao mesmo tempo impossível, irreal.  Mesmo que houvesse ali à venda aquele tecido e ela tivesse dinheiro para comprá-lo (duas coisas já de si improváveis), nunca teria ocasião de vesti-lo, porque não tinha acesso aos lugares onde esse tipo de roupa se usava.

Despiu-se devagar, no espelho. Como pudera, alguma vez, ter-se alegrado,  com as idas a  Sommershild, com o que dentro de si, na euforia do primeiro momento, chamara “a época do Sommershild”. Como pudera ser tão louca. Acreditar que uma mudança acontece só porque alguém passa a ir regularmente a um lugar.”

 

Em: A árvore das palavras, Teolinda Gersão, São Paulo, Planeta: 2004, pp 86-87.

 

 





Minutos de sabedoria — Eça de Queiroz

26 08 2014

 

 

david emile joseph de NoterCozinheira na cozinha,  1861

David Emile Joseph de Noter (Bélgica, 1818-1892)

óleo sobre tela, 77 x 64 cm

Coleção Particular

 

 

“O homem põe tanto do seu caráter e da sua individualidade nas invenções da cozinha, como nas da arte.”

 

biografia-e-obras-de-eca-de-queirosEça de Queiroz




A árvore das palavras de Teolinda Gersão

28 06 2014

 

 

Acacias-in-Flower-Moralana-Scenic-Drive-800x531Kevin watersAcácias em flor na estrada cênica Moralana [Austrália]

Kevin Waters (Austrália, contemporâneo)

 

 

A leitura de A árvore das palavras me fascinou pela linguagem na primeira parte do romance, quando vemos o mundo através das impressões de Gita, menina crescendo em Moçambique nos anos anteriores à independência. Filha de uma portuguesa que se casa por conveniência com Laureano Capítulo, moçambicano, Gita, branca, de olhos claros, tem um relacionamento de cumplicidade com seu pai, de distanciamento com a mãe e de aproximação emocional com os negros do país.  O romance dividido em três partes com diferentes narradores, nesta primeira voz narrativa é de grande apelo emocional, fascinante mesmo, sobretudo quando percebemos a aproximação da menina aos africanos e seus costumes.

Na segunda parte conhecemos o mundo de Amélia, a portuguesa, que ganha a vida em Lourenço Marques [hoje Maputo] como costureira.  Sabemos suas ambições e frustrações. Os sonhos. A amargura. A desilusão financeira e emocional.  Descobrimos como decide se casar e ir de encontro ao desconhecido.  Mas, sobretudo somos apresentados à sua enorme inveja, aos ciúmes do sucesso dos outros, de qualquer outro.  Nessa parte também aprendemos, em menor detalhe é verdade, sobre os sonhos de Laureano Capítulo, quando procura uma esposa para formar uma família, com uma mulher decente, e que por ela se apaixonou simplesmente pela fotografia mandada de Portugal.

 

 

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Na terceira parte vemos Gita jovem adulta, resolvendo sua vida da melhor maneira que lhe é possível, re-avaliando o papel de Amélia em sua vida, tentando entendê-la. Seus primeiros romances e frustrações amorosas são pinceladas impressionistas. Moçambique cresce. É hora da independência.  O poder de Lisboa está desgastado, não vale nada. Voltamos a saber dos personagens secundários que fizeram parte de sua vida de criança. Tudo indica que eles aparecem unicamente para que se feche o ciclo narrativo e para que se vislumbre o futuro de um país descolonizado. Eles não fizeram parte ativa da trama nem na primeira parte nem na ultima.

O romance prende a atenção. É uma lição de prosa poética. Mas a narrativa oblíqua,  ainda que belíssima, fica sem direção. Há um único conflito que se resolve na segunda parte.  A história peca pela falta de diálogos, pela caracterização indireta dos personagens, com exceção de Amélia.  Essa sim, é um verdadeiro camafeu, um loquaz perfil de mulher, principalmente quando se apresenta com toda a pequenez de pensamento e emoção, e com toda sua aversão à verdade.  De fato, é justamente Amélia que é a personagem complexa da história,  a mais interessante. Todos os outros,  de Laureano a Gita, de Roberto a Loia não são desenvolvidos o suficiente para que se entenda suas angústias, suas frustrações no plano emocional.  Fazem parte de um pano de fundo.  Se éramos para saber tanto de Amélia e das possíveis frustrações e preconceitos do português vivendo na colônia, porque então ela praticamente não aparece na primeira parte e definitivamente não se encontra na terceira e última parte do romance?

Teolinda-Gersao2Teolinda Gersão

Por esses motivos, pela falta de tensão na trama, pela falta de resolução não posso considerar este romance uma obra prima de Teolinda Gersão. Desconheço suas outras publicações. Sei que é autora que já ganhou uma dezena de prêmios de literatura em Portugal. Mas fora sua prosa poética, pouco restou para mim de A árvore das palavras.





A bela prosa de Teolinda Gersão — trecho de “A árvore das palavras”

24 06 2014

 

 

 

Maluda_Lisboa_30_1985[1]Lisboa XXX, 1985

Maluda (Goa, 1934 – 1999)

[Maria de Lourdes Ribeiro]

óleo sobre tela, 75 x 92 cm

Coleção Particular

 

 

“Estendes as folhas do jornal em cima da mesa e acendes devagar um cigarro abrindo o maço sem olhar, só pelo tacto, como se fosses cego. Não direi nada, não quero interromper-te agora. Respiro devagar, estou unida ao mundo pela boca. O hálito é um sopro, o sopro do vento. Partilho-o com o vasto horizonte em volta, faço parte dele como ele de mim.

A cidade cerca-nos, com seus muito braços, os seus muitos círculos, nenhum dos quais nos exclui. Ninguém nos pode tirar essa sensação de pertencer, de estar contido. Somos parte de um todo, uma cidade viva. Algures os barcos passam, entram no porto e partem. Na praia as crianças brincam, os fatos de banho serão manchas claras ao sol. Haverá barcos de recreio mais ao longe e saindo a barra paquetes, vapores e transatlânticos. Abarcar-se-á tudo isso de um ponto alto, de um mirante, ou mesmo a partir de uma pérgola florida.

Nada vejo, aqui sentada diante da mesa redonda do café, e no entanto essas coisas longínquas, como os barcos passando, o movimento dos barcos, fazem parte deste minuto, em que tudo está contido. Rodo a colher no gelado, levo-a devagar à boca. Creme vermelho, de groselha, derretendo. Sabor do Verão. Mais alto, contra o céu, balançarão as acácias. O que penso não tem nitidez, e talvez só uma aproximação inexacta. A vida cabe numa colher de gelado, respira-se, devora-se com a boca.

Tudo acontece agora muito devagar, os barcos têm todo o tempo para partir ou para entrar no porto, as crianças riem de puro gozo de brincar nas ondas. Devagar, devagar. O tempo é um hálito, um sopro. Não tem nenhuma pressa, demora-se, por momentos parece ficar parado para sempre.

Mas já de novo em volta a cidade se agita — cresce, multiplica-se como um caleidoscópio. Andaremos pelas ruas, sabemo-las de cor. De algum modo elas estão em nós, como linhas gravadas na palma da mão. Paralelas, perpendiculares — geométricas — outras que seguem apenas os seus cursos próprios como os da água ou do vento. A cidade é um corpo vivo respirando, o meu, o teu, o dos outros, o do mundo, é uma infinita intercessão de corpos, dos momentos incontáveis do tempo, repetida como as ondas do mar. E é inútil tentar olhá-la como é inútil olhar as ondas — ainda mal se levantaram e já se desfazem na areia, e também o nosso olhar se desfaz com elas.

Dizem que este verão vai ser mais quente que no ano passado, anuncias sem levantar os olhos. E para a semana começam saldos sensacionais no Fabião.”

 

Em: A árvore das palavras, Teolinda Gersão, São Paulo, Planeta: 2004, pp. 43-44





Presença de espírito de um árabe, texto de Latino Coelho

19 06 2014

 

 

1860_corot_le_peintre_dumax_01O pintor Dumax em trajes árabes, 1860

Camille Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela, 33 x 22 cm

Coleção Particular

 

Presença de espírito de um árabe

Latino Coelho

 

El Hadjaje, governador de uma província de África, saíra um dia com seus grandes oficiais a caçar, e como seguisse tenazmente uma rês, afastou-se dos que o acompanhavam a ponto, que não sabia depois como voltasse.
Quando estava a meditar no que devia fazer viu um árabe velho, em um próximo campo, a mirá-lo muito atento.
— Donde és tu? disse o governador.
— Daquela cabana que vês além.
— Não és dos de Beni-Adjel?
— Tu o disseste: este campo pertence-lhe.
— Ora, conta-me cá bom velho, que se diz por aí dos agentes do governo?
— Diz-se que são homens sem honra, sem fé, e sem vergonha, que roubam, perseguem e oprimem os habitantes.
— E tu formas deles a mesma opinião?
— A mesma exatamente.
— E que me dizes de El Hadjaje?
— Digo que é o pior de todos. Deus o faça tão negro como um carvão, e amaldiçoe o Califa que lhe confiou o mundo.
— Sabes com quem estás falando?
— Em verdade, não sei.
— Pois eu sou El Hadjaje.
— Folgo em conhecer-te, disse o ancião sem perturbar-se. E tu sabes quem eu sou?
— Não, respondeu o governador maravilhado.
— Chamam-se Zeid-ben-Aamer, e sou o louco de Beni-Adjel. Todos os dias, um pouco antes do sol posto, perco a razão. São quatro horas talvez; não me pode tardar muito o acesso.
O governador não procedeu contra o pobre do homem, e depois de lhe perguntar pelo caminho que devia seguir, deu-lhe algum dinheiro, e abalou.

***

Em: O Panorama: semanário literário e instrutivo, volume IX, primeiro da terceira série, publicado em 5 de setembro de 1846 a 15 de dezembro de 1852. Lisboa: 1852, p. 312.

 





Palavras para lembrar — José Luís Peixoto

28 05 2014

Philip MaliavinJovem com livro, 1895

Filipp Andreevich Malyavin (Rússia, 1869 — França, 1940)

óleo sobre tela

 

 

“Escrever é um momento em que se olha para dentro, é, muitas vezes, recordar com os olhos abertos”.

José Luís Peixoto








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