Palavras para lembrar: Doris Lessing

14 09 2021

Este é o nosso canto, 1873

Sir Lawrence Alma Tadema (Holanda-Inglaterra, 1836-1912)

óleo sobre madeira, 56 x 47 cm

Museu Van Gogh, Amsterdam

 

 

“Pais deveriam deixar livros em todos os cantos rotulados ‘proibido’, se quisessem que seus filhos lessem.”

 

Doris Lessing





Sublinhando…

29 08 2021

Menina que lê, 1971

Cesare Peruzzi (Itália, 1894- 1995

óleo sobre tela

“Às vezes eu ficava com a impressão de que por conta das minhas leituras frequentes eu me chocava menos facilmente do que as pessoas ao meu redor, que eu sabia mais informações factuais — sobre sexo sim, mas também sobre furacões, danças folclóricas e Zoroastrismo. …”

Em: A esposa americana, Curtis Sittenfeld, tradução de Natalie Gerhardt, Rio de Janeiro, Editora Record: 2010, p. 341





Imagem de leitura — Édouard Vuillard

15 07 2021

Moça lendo, 1916

Édouard Vuillard (França, 1868-1940)

pastel sobre papel, 71 x 73 cm





Leitura de verão do Bill Gates

22 06 2021

O estudante

Jeannette Perreault (Canadá, 1958)

óleo sobre tela

Há um hábito nos Estados Unidos que bem poderíamos copiar.  Copiamos tanta coisa que não se aplica ao Brasil e deixamos de lado algo que é aplicável, interessante, informativo e incentiva a leitura:  todos fazem uma lista do que lerão no verão.  Do pensador importante, ao aluno nos primeiros anos escolares, o hábito de ler no verão, nas férias de verão está inculcado no modo de viver americano.  Por isso mesmo, por volta de final de maio e início de junho não é raro vermos nas revistas sugestões de leituras para o verão, para as férias, para o tempo de lazer.  Muitas figuras da mídia prestam serviço à leitura, publicando os livros que levarão para a praia, montanha, estação de águas.  Hoje republico aqui a lista de Bill Gates. 

SINOPSE

Depois de causar tantos danos ao planeta, será que conseguimos transformar a natureza, mas dessa vez para nos salvar? Em reportagem original, Elizabeth Kolbert, vencedora do Pulitzer pelo alarmante A sexta extinção, entrevista biólogos, engenheiros genéticos e atmosféricos e outros especialistas para tentar responder a essa pergunta e nos mostrar como os cientistas estão remodelando a Terra. Com uma linguagem direta e por vezes bem-humorada, este livro é uma injeção de esperança e informação, e aponta que ainda há tempo de corrigir os problemas que colocam em risco a vida como a conhecemos.

A autora examina com atenção o mundo novo que estamos criando. Ao longo de sua trajetória, Kolbert encontra biólogos tentando preservar o peixe mais raro do mundo, que vive em uma pequena piscina no meio do Mojave; engenheiros transformando a emissão de carbono em pedras na Islândia; pesquisadores australianos desenvolvendo um “supercoral” capaz de sobreviver a temperaturas mais altas; e físicos analisando a possibilidade de atirar fragmentos de diamantes na estratosfera para refrescar a Terra.

Segundo Kolbert, a civilização pode ser vista como um exercício de dez mil anos desafiando a natureza. Em A sexta extinção, ela explorou como nossa capacidade de destruição remodelou o mundo natural. Dessa vez, reflete como muitas formas de intervenção que colocaram a Terra em risco estão cada vez mais sendo vistas como a única esperança para sua salvação. Sob um céu branco é uma investigação surpreendente dos desafios que enfrentamos.

SINOPSE

Um relato íntimo e fascinante da história em formação — feito pelo líder que nos inspirou a acreditar no poder da democracia.

No comovente e aguardado primeiro volume de suas memórias presidenciais, Barack Obama narra, nas próprias palavras, a história de sua odisseia improvável, desde quando era um jovem em busca de sua identidade até se tornar líder da maior democracia do mundo. Com detalhes surpreendentes, ele descreve sua formação política e os momentos marcantes do primeiro mandato de sua presidência histórica — época de turbulências e transformações drásticas.

Obama conduz os leitores através de uma jornada cativante, que inclui suas primeiras aspirações políticas, a vitória crucial nas primárias de Iowa, na qual se demonstrou a força do ativismo popular, e a noite decisiva de 4 de novembro de 2008, quando foi eleito 44º presidente dos Estados Unidos, o primeiro afro-americano a ocupar o cargo mais alto do país.

Ao refletir sobre a presidência, ele faz uma análise singular e cuidadosa do alcance e das limitações do Poder Executivo, além de oferecer pontos de vista surpreendentes sobre a dinâmica da política partidária dos Estados Unidos e da diplomacia internacional. Obama leva os leitores para dentro do Salão Oval e da Sala de Situação da Casa Branca, e também em viagens a Moscou, Cairo e Pequim, entre outros lugares. Acompanhamos de perto seus pensamentos enquanto monta o gabinete, enfrenta uma crise financeira global, avalia a figura de Vladímir Pútin, supera dificuldades que pareciam insuperáveis para aprovar a Lei de Assistência Acessível (Affordable Care Act), bate de frente com generais sobre a estratégia militar dos Estados Unidos no Afeganistão, trata da reforma de Wall Street, reage à devastadora explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon e autoriza a Operação Lança de Netuno, que culmina com a morte de Osama bin Laden.

Uma terra prometida é extraordinariamente pessoal e introspectivo — o relato da aposta de um homem na história, da fé de um líder comunitário posta à prova no palco mundial. Obama fala com sinceridade sobre os obstáculos de concorrer a um cargo eletivo sendo um americano negro, sobre corresponder às expectativas de uma geração inspirada por mensagens de “esperança e mudança” e sobre lidar com os desafios morais das decisões de alto risco. É honesto sobre as forças que se opuseram a ele dentro e fora do país, franco sobre os efeitos da vida na Casa Branca em sua esposa e em suas filhas e audacioso ao confessar suas dúvidas e desilusões. Jamais duvida, porém, de que no grande e incessante experimento americano o progresso é sempre possível.

Brilhantemente escrito e poderoso, este livro demonstra a convicção de Barack Obama de que a democracia não é uma bênção divina, mas algo fundado na empatia e no entendimento comum e construído em conjunto, todos os dias.

SEM TRADUÇÃO NO BRASIL

How could General Electric—perhaps America’s most iconic corporation—suffer such a swift and sudden fall from grace?

This is the definitive history of General Electric’s epic decline, as told by the two Wall Street Journal reporters who covered its fall.

Since its founding in 1892, GE has been more than just a corporation. For generations, it was job security, a solidly safe investment, and an elite business education for top managers.

GE electrified America, powering everything from lightbulbs to turbines, and became fully integrated into the American societal mindset as few companies ever had. And after two decades of leadership under legendary CEO Jack Welch, GE entered the twenty-first century as America’s most valuable corporation. Yet, fewer than two decades later, the GE of old was gone.

Lights Out examines how Welch’s handpicked successor, Jeff Immelt, tried to fix flaws in Welch’s profit machine, while stumbling headlong into mistakes of his own. In the end, GE’s traditional win-at-all-costs driven culture seemed to lose its direction, which ultimately caused the company’s decline on both a personal and organizational scale. Lights Out details how one of America’s all-time great companies has been reduced to a cautionary tale for our times.

SEM TRADUÇÃO NO BRASIL

The Overstory, winner of the 2019 Pulitzer Prize in Fiction, is a sweeping, impassioned work of activism and resistance that is also a stunning evocation of—and paean to—the natural world. From the roots to the crown and back to the seeds, Richard Powers’s twelfth novel unfolds in concentric rings of interlocking fables that range from antebellum New York to the late twentieth-century Timber Wars of the Pacific Northwest and beyond. There is a world alongside ours—vast, slow, interconnected, resourceful, magnificently inventive, and almost invisible to us. This is the story of a handful of people who learn how to see that world and who are drawn up into its unfolding catastrophe.

SINOPSE

Um paciente com câncer terminal consegue recuperar sua vida. Um talentoso médico desafia o HIV. Duas mulheres com doenças autoimunes descobrem que seus corpos se viraram contra elas. Imune entrelaça de maneira única essas histórias com o desejo e os esforços da humanidade para desvendar os mistérios da saúde e da doença, lançando nova luz sobre o sistema imunológico.

O sistema imunológico é a linha essencial de defesa do corpo, um guardião vigilante que enfrenta doenças e cura feridas, mantendo a ordem e o equilíbrio para que possamos continuar vivos. Suas legiões de soldados microscópicos — das células T até as “exterminadoras naturais”” — patrulham nosso corpo, passando informações por uma rede quase instantânea de comunicação. Com o decorrer dos milênios, ele foi aperfeiçoado pela evolução para encarar um número praticamente infinito de ameaças.

Apesar de toda a complexidade impressionante, o sistema imunológico pode ser danificado por cansaço, estresse, toxinas, idade avançada e nutrição pobre — características quase indispensáveis da vida moderna — e até mesmo por excesso de higiene. Paradoxalmente, é uma arma magnífica mas frágil, que pode se voltar contra o próprio corpo com resultados alarmantes, levando desordens autoimunes a níveis epidêmicos.

De maneira clara e fácil, Richtel guia seus leitores em uma investigação científica que vai da Peste Negra, passando por importantes descobertas do século XX, como vacinas e antibióticos, até os laboratórios de tecnologia de ponta que estão revolucionando a imunologia — talvez a história mais extraordinária e significativa da medicina de nossa época. Imune torna acessível revelações sobre imunoterapia para o tratamento de câncer, microbiomas e autoimunologia que estão mudando milhões de vidas, além de capturar em detalhes como estas terapias poderosas, junto com nosso comportamento e ambiente, interagem com o sistema imunológico, muitas vezes com consequências positivas, mas sempre com o risco de causar um desequilíbrio desastroso. Fazendo uso de sua experiência como jornalista do The New York Times e entrevistando dezenas de cientistas renomados mundialmente, Matt Richtel produziu um livro notável: tanto uma investigação dos enigmas profundos da sobrevivência quanto uma reportagem incrivelmente humana sobre a vida a partir do ponto de vista de seus quatro personagens principais, cada um contribuindo com um detalhe essencial de nosso sistema de defesa.

Escolha um desses títulos, leia e se insira no debate mundial sobre a nossa sobrevivência no planeta.  Eu, certamente irei ler pelo menos dois desses livros, assim que terminar A dança do universo, de Marcelo Gleiser.  Outro livro imperdível.





O grupo Papalivros, escolhe as melhores leituras do ano!

6 12 2020

Livraria

Willy Belinfante (Holanda, 1922-2014)

óleo sobre tela, 30 x 49 cm

 

 

O grupo Papalivros leu os seguintes livros em 2020. 

Três irmãs, três rainhas, Philippa Gregory

O desvio, Gerbrand Bakker

Os sete maridos de Evelyn Hugo, Taylor Jenkins Reid

Os segredos que guardamos, Lara Prescott

A vida pela frente, Émile Ajar

A paciente silenciosa,  Alex Michaelides

Pátria, Fernando Aramburu

Eleanor Oliphant está muito bem, Gail Honeyman

A espiã vermelha, Jennie Rooney

O crepúsculo e a aurora, Ken Follett

A herdeira, Daniel Silva

Trânsito, Raquel Cusk

Todos os anos nas reuniões de dezembro escolhemos as melhores leituras.  Cada membro vota nas três melhores leituras do ano, em ordem de preferência.  Para cada primeiro colocado são atribuídos três pontos, para o segundo colocado atribuímos dois pontos e um ponto para o terceiro colocado por leitor.  Ao final somamos todos os pontos e o livro com o maior número ganha.  Sim, em nossos dezessete anos de leituras já tivemos empates.  Mas isso não aconteceu em 2020.  A preferência neste ano passado dentro de casa, na maioria dos meses, a preferência foram os livros de ficção histórica.  Aqui vai então a cédula de votação e o resultado.

 

Em 3º lugar:  Pátria, Fernando Aramburu

Em 2º lugar: Três irmãs, três rainhas, Philippa Gregory

  • Em primeiro lugar: O crepúsculo e a aurora, Ken Follett

Neste ano de pandemia, houve clara preferência pelos livros de ficção histórica, nem sempre essa é a escolha para esse grupo. Mas é interessante notar que dos doze livros, nove foram mencionados pelos leitores como parte dos três melhores do ano.  Isso não é comum.  Em geral há um ou dois preferidos e os votos se dividirem mais no terceiro lugar.  Muito bom, porque mesmo que alguém não tenha gostado de uma ou duas leituras, foi também capaz de ler um ou dois livros que achou muito bons. 

E assim hoje, com no dia que seria nossa festa natalina, nossa votação foi por Whatsapp e o encontro será hoje à noite via internet. Terminamos na telinha do computados o ano de leituras e encontros do Papalivros, que em 2021, completará 18 anos de existência.  Boas leituras a todos.  Ficam aqui, dessa forma, algumas sugestões para presentes neste fim de ano.

Os livros restantes em ordem de preferência:

4º lugar: Os sete maridos de Evelyn Hugo, Taylor Jenkins Reid

5º lugar, empate: A espiã vermelha, Jennie Rooney e A vida pela frente, Émile Ajar





Um amor de Carnaval… Maria Helena Cardoso

10 11 2020

 

 

Haydea Santiago,Carnaval na rua das laranjeiras, OST 80 x 64,1938Carnaval na rua das Laranjeiras, 1938

Haydéa Santiago (Brasil, 1896 – 1980)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm

 

“A primeira vez que o vi foi numa batalha de confetes. O dia tinha sido chuvoso. De vez em quando uma bátega d’água caía, prenunciando uma tarde com aguaceiro. A todo instante chegava {a janela para olhar o tempo. Logo naquela tarde em que pretendia estrear meu vestido novo, a chuva queria estragar os meus planos.

De cada vez que sondava o céu com os olhos, mamãe, que no meio de seus afazeres me observava, dizia:

— Não adianta olhar para o céu, hoje não tem batalha alguma. À tarde vamos ter temporal.

Nos entreolhávamos, eu e minha prima e respondia, mal-humorada:

— A senhora tá agourando pra gente não brincar. Bem que no seu tempo gostava de aproveitar.

Lá pela tardinha o tempo melhorou, o céu tingiu-se de uns laivos rosa.

“Graças a Deus”, pensei.

Ao escurecer, saímos. Vestia o famoso vestido novo. DE seda bois-de-rose, saia plissada, gola de pelerina, uma gravata de laço, estampada. A praia se achava repleta. Os passeios cheios de gente que ia e vinha, blocos de toda espécie, que passavam cantando, interrompendo o trânsito. Os carros circulavam vagarosamente, conduzindo foliões de outros bairros, famílias, moças e rapazes que lançavam serpentinas e confetes sobre a multidão que estacionava no passeio. Em frente ao posto 4 se achava o palanque para os membros do concurso de samba. Parou um carro e dele desceram os juízes que iriam julgar qual o melhor do carnaval daquele ano. O povo se comprimia mais ainda naquele ponto, paralisando completamente a circulação. Junto a um banco, eu olhava a multidão que se divertia. A orquestra começou a tocar o Olha, escuta meu bem …, que foi acompanhado pelo vozerio da multidão alegre. As luzes se acenderam, o burburinho era cada vez maior. Milhares de rolos de serpentinas coloridas eram atiradas dos carros, entrelaçando-se por sobre os fios, caindo na calçada em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Bandos de mulatas fantasiadas, se requebrando, em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Um frio nas pernas e, instintivamente, levei a mão às meias. Olhei em torno e não vi ninguém que me pudesse ter atirado lança-perfume. “Provavelmente, algum esguicho extraviado”, pensei, continuando a olhar os carros que passavam. A banda do palanque atacava agora uma marchinha do meu agrado, muito em voga na época.

Foi quando senti de novo o frio nas pernas. Evidentemente, desta vez era comigo. Procurei com os olhos entre a multidão que se encontrava próximo de mim e não vi ninguém conhecido. Um vozerio acompanhado de palmas fez-se ouvir por minutos. Acabava de subir ao palanque, sendo reconhecida pela multidão, que a aplaudia freneticamente, uma conhecida cantora popular. Às palmas e ao vozerio vieram juntar-se as buzinas dos vários carros parados ao longo da praia. Tentava abrir caminho entre o povo, sufocada pelo aperto que se fizera ao redor, quando o mesmo esguicho frio nas pernas me fez lançar um olhar rápido à minha frente: à distância de um metro mais ou menos, o vi pela primeira vez, que sorria para mim. Siegfried ou outro herói de Wagner, pois só podia ser um herói de lenda alemã. Correspondi-lhe ao sorriso e a partir de então começou o tempo do amor, o tempo do sofrimento, o tempo pelo qual esperava, o mais belo momento da minha vida.”

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 120-1





Lendo e lembrando do que leu

8 08 2020

 

 

Convent Lily, Marie Spartali Stillman, 1891Lírio do convento, 1891

Marie Spartali Stillman (GB, 1844 – 1927)

aquarela

Ashmolean Museum, Oxford

 

 

Leio por volta de quarenta e cinco livros de ficção por ano.  E muitos livros de não ficção. Livros de ficção recentes têm tido muito pontos em comum, temas que estão em pauta, aparecem com maior frequência.  Assim aos poucos, se não tomo nota dos personagens, daquilo que achei interessante, acho difícil voltar e me lembrar exatamente do que li em que livro.  Faço parte de três grupos de leitura e nem sempre o que leio é algo que eu teria escolhido.  Portanto nem sempre os autores são conhecidos meus, ou nem sempre trata-se de temas e minha preferência.  Não me importo com isso, porque quero que a leitura abra meus horizontes.  No entanto, à medida que o tempo passa, acho que meu sistema de anotações sobre o que estou lendo está se tornando obsoleto.

Com isso me mente procuro um sistema um pouco mais fácil.  No kindle, onde leio provavelmente metade dos livros, é mais fácil marcar e fazer notas e depois resgatá-las, separá-las.  Selecionar por temas é importante.  Uma coisa que sempre me dá dor de cabeça é guardar o nome dos personagens.  Conheço leitores que fazem isso com cuidado.  Não consigo.  Então saí pela internet à procura de sistemas de anotações de livros.  Hoje mostro o sistema de Bobbie Powers, que li no Medium.  Vou tentar e digo depois se funcionou.

 

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Ele usa três passos:  asterisco, sublinhar, e notas nas páginas finais do livro.

Com o asterisco, esse sinal gráfico em forma de estrela, é usado para passagens que ele considera importantes.  Se for muito importante, ele coloca um círculo ao redor do asterisco.  Esses asteriscos com círculo em geral são o que irá para as páginas em branco no final do livro.

Sublinhar é para citações ou ideias importantes que deveriam ser lembradas palavra por palavra. Sublinhar é uma coisa muito pessoal.  Às vezes marca-se uma passagem porque ela lembra outro livro, ou uma situação pela qual já passamos.  É muito pessoal.

Notas no final do livro, marcando a página onde são encontradas, elas são, de fato, a sua experiência ao ler, aquilo que você acho importante anotar, porque está certo de que faz parte do que o livro quis trazer à tona.

Bobbie Powers ainda anota no rodapé, o significado de palavras que encontrou no texto cujo significado procurou no dicionário..

Lista de personagens – Vou tentar essa maneira na minha próxima leitura.  Com uma adição: no avesso da capa detrás vou escrever o nome dos personagens, para que na hora da conversa sobre o livro eu não fique procurando: “aquela menina loura que era aborrecia muito porque chorava a toa…” esperando que alguém me ajude com o nome… .Teresa!”  Pois é, vamos ver se funciona.

 

Para você ler o artigo de Bobbie Powers na íntegra, clique aqui:  Use this Simple   Technique to Get More Out of Every Book You Read

 





Imagem de leitura — Albert Edelfelt

7 08 2020

 

 

 

Albert Ederfelt, Reading 1885,Lendo, 1885

Albert Gustaf Aristides Edelfelt ( Finlândia, 1854-1905)

óleo sobre tela





Famosa e invisível: Mrs. Grundy

28 06 2020

 

 

5c8dfa62a28072ff19e9316cc791fae7No teatro, 1928

Prudence Heward (Canadá, 1896 – 1947)

óleo sobre tela, 101 x 101 cm

 

Uma curiosidade literária: famosa personagem teatral que nunca foi vista no palco, torna-se tão popular que passa para a história da língua inglesa, como personagem que lembra decência, propriedade, disciplina, mais tarde considerada como autoridade de censura e tirania social.

Mrs. Grundy foi apresentada ao público inglês pela primeira vez por Thomas Morton, (1764-1838) famoso dramaturgo britânico, na peça Speed-the-plough, (1798) cuja melhor tradução para o título seria Seguindo em frente.  Procurei por uma tradução desta comédia em 5 atos no Brasil, não encontrei de pronto. Para essa postagem não valeria a pena procurar muito além da internet.  Nesta comédia, Mrs. Grundy é um personagem a quem outros personagens se referem, mas que nunca aparece, desde a primeira cena, quando Dame Ashfield, coberta de inveja, chega em casa e comenta com o marido que, a vizinha, Mrs. Grundy conseguiu melhor preço do que eles na manteiga e no trigo. Daí por diante,  passa a ter uma obsessão com a vizinha achando que até o sol sempre parece brilhar mais na terra alheia do que na dela.

Why don’t thee letten Mrs. Grundy alone? I do verily think when thee goest to t’other world, the vurst question thee’ll ax ‘ill be, if Mrs. Grundy’s there?” [Por que não deixas Mrs. Grundy de lado? Na verdade, acho que quando chegares no outro mundo, a primeira pergunta que farás, se Mrs. Grundy está lá?]

 

800px-Sadlers_Wells_Theatre_editedUma performance em Sadler’s Wells, c. 1808

 

Durante o século XIX Mrs. Grundy cresceu em sua importância, adquiriu algumas outras características de disciplina, defensora da moral aparecendo como autoridade dos costumes sociais e censura.  Quase quarenta e cinco anos depois de sua estreia na peça de Morton, Mrs. Grundy volta ao mundo das letras, no romance Phineas Quiddy (1842) de outro dramaturgo inglês, John Poole (1786–1872).  E em 1869, John Stuart Mill, filósofo inglês, publica o livro Sujeição das mulheres, em que defende igualdade para as mulheres, e menciona “quem tem mulher e filhas, tem reféns de Mrs. Grundy.  Daí por diante, ela é mencionada como árbitra dos costumes sociais em grande número de obras:

A feira das vaidades (1848), William Makepeace Thackeray

Tempos difíceis (1854), Charles Dickens

Mulherezinhas (1868), Louisa May Alcott

Erewhon (1871), Samuel Butler

A arte de ganhar dinheiro (1880), P.T. Barnun

Lobo do mar (1904), Jack London

Music at Night, (1931), Aldous Huxley

That Hideous Strength, (1945) C.S. Lewis

Entre muitos outros Aimée Crocker, Oscar Wilde,  William Gilbert,  G. K. Chesterton,  James Joyce, Robert A. Heinlein, Philip José Farmer, Mohandas Gandhi, Thomas Hard também se referem a Mrs Grundy.

Ficou famosa e nunca esteve no palco.  Famosa sem mostrar a cara.  Definitivamente outros tempos, sem redes sociais.

 

Citação do diálogo da peça,

Em: The Reader’s Handbook of Allusions, References, Plots and Stories, E. Cobham Brewer, London, s/d (possivelmente 1919)





Meu amor pela leitura, texto de Maria Helena Cardoso

23 05 2020

 

 

Luke Martineau (Inglaterra, 1970)ww.lukemartineau.com,óleo s tel,Ollie-Imogen-and-Tati-oil-on-canvas-24-by-38-ins-2013-680x429Ollie, Imogen e Tati, 2013

Luke Martineau (Inglaterra, 1970)

óleo sobre tela, 60 x 96 cm

http://www.lukemartineau.com

 

“Os anos da Rua Paraíba, 214 marcam um período intenso na minha vida.  Meu amor pela leitura era tal que chegava a descurar dos estudos para me dedicar aos romances. Burlava com a maior facilidade a fiscalização de mamãe, que nesse ponto era bastante severa. Assim que me apanhei lendo em francês, nem ela nem meus irmãos (que só vieram a ler nessa língua algum tempo depois), puderam controlar minhas leituras.  Após as aulas, aos domingos e feriados, passava inteiramente entregue à minha paixão: lia tudo que me caía sob os olhos, não havendo nada que me interessasse tanto, nem cinema, nem festas, nada. Os meus estudos de inglês, muito me serviam nesse particular. Tinha um professor que preferia conversar com mamãe sobre jardinagem e galinhas, sendo suas aulas de meia hora, no máximo, com exceção de quando papai se achava em casa. Para mamãe, entretanto, inglês era a matéria de que eu mais gostava e à qual mais me dedicava, isto não só porque o professor nos ajudava a tapeá-la, falando conosco na sua presença, aquelas frases de principiantes:”What is this?“, “Where is the door?”, “How are you?“, “What is the matter with you?” e outras da mesma categoria, como também entre os compêndios adotados por ele havia um, o Inglês sem Mestre, que me auxiliava a mistificá-la.  Era um livro de tamanho bem maior do que o comum de estudo, capa dura, marrom. Metia dentro o romance que lia no momento e passava o dia com ele aberto ostensivamente, fingindo que preparava as lições para o dia seguinte. À noite, enquanto ela conversava com as irmãs, sentadas ao redor da mesa da sala de jantar, lá estava eu, absorta no estudo, pensava ela. De vez em quando, porém, reclamava:

— Helena, não sei que estudo é esse seu, ouvindo conversa ao mesmo tempo, assim não pode aprender.

Não respondia nada, mergulhada que estava na leitura apaixonante, de onde nem um tiro de canhão me arrancaria.  Quando, porém, as reclamações se amiudavam muito, abandonava a sala, indo para o meu quarto.

Dias havia, entretanto, em que, receosa de que acabasse desconfiando da minha grande dedicação ao estudo de inglês, mudava de tática.  Despedia-me dizendo que ia à casa de vovó, trancava a porta do meu quarto (cada um de nós tinha o seu naquele casarão), saindo pela porta da frente. Assim que transpunha o portão de ferro, parava uns passos adiante e, depois de alguns minutos de espera, voltava de manso, inspecionando o corredor da entrada para ver se tinha alguém e, se não, entrava rápida, pulava a janela do meu quarto, que deixara aberta de propósito. Metia-me debaixo da cama e ali passava o dia lendo romances, na maior felicidade, apesar dos sobressaltos e a despeito da posição incômoda, deitada de costas. De vez em quando, mamãe, na sua faina de dona de casa caprichosa, vinha varrer e catar as folhas secas que poderiam ter caído nos vasos de begônia que se alinhavam ao longo da entrada.

 

7_Henri_Lebasque_(French_artist,_1865-1937)_Girl_with_Flowers_1909Menina com livro, 1909

Henri Lebasque (França, 1865 – 1937)

óleo sobre tela

 

Ouvia, com o coração batendo, o ruído dos seus chinelos, pra lá pra cá, a vassoura de palha varrendo, louca de medo que me descobrisse. Mas nunca acontecia: continuava seu trabalho, longe de suspeitar que me achava ali bem perto. As horas passavam na maior rapidez e eu lia, lia, completamente esquecida do mundo e da realidade, vivendo apenas aquilo que o livro contava.

À hora do jantar saía de debaixo da cama, pulava de novo a janela e entrava pela porta da frente como se estivesse chegando naquele momento da casa de vovó. Deitada debaixo da cama, com luz insuficiente, os braços cansados de manter o livro à altura dos olhos, lia toda uma enfiada de livros a mais disparatada possível: Capitain, Pardaillan, Fausta Vencida de Miguel Zevacco, O Piano de ClaraO Violino do Diabo, Anjos da Terra, de Perez Escrich, Memórias de um Médico, Visconde de Bragelone, Vinte Anos Depois, Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas, quase tudo de Júlio Verne, todos os fascículos de Sherlock Holmes, Nick Carter e Arsène Lupin e os primeiros romances de Paul Bourget, em grande moda da Bibliotèque de Ma Fille, a Filha do Diretor do Circo, que me pôs triste muitos dias, tudo misturado com Recordações da Casa dos Mortos, Le Crime de Sylvestre Bonnard, Le Lys Rouge, Crime e Castigo e muita coisa de que não me lembro. Mas não havia livro que chegasse para a minha enorme sede. Como não tinha dinheiro para comprar, recorria às colegas do colégio, lia escondido os do meu tio e o vendeiro vizinho nos emprestava alguns: O Judeu Errante, de Eugênio Sue e vários fascículos dos Dramas do Novo Mundo de Gustavo Aymard, além de alguns de Escrich. Siô Mané e Siô Chico, além de nossos fornecedores de gêneros, contribuíam também para o nosso desenvolvimento intelectual. Quando não havia outra fonte onde buscar, lá ia atrás deles , que sempre desencavavam algum velho romance de Escrich o façanhas de índios americanos. Outro meio de arranjar eram os amigos de Dauto, sendo necessário, porém, que lhe pagasse quatrocentos réis para comprar cocada baiana na venda de Zé Miliano, botequineiro da esquina da rua. Como pagamento era sempre adiantado, passava antes pela venda, comprava as cocadas e depois então ia em busca de Caio Líbano ou outro que tivesse livros. Em casa, esperava impaciente, chegando à calçada de minuto em minuto para ver se ele aparecia na esquina. Mas, qual, as horas passavam e nada. Já sabia, era só procurá-lo no quintal e encontrava-o trepado no mais alto galho do , pois abacateiro. Tinha conseguido entrar num dos momentos em que estava no interior e subira na árvore para se livrar de mim. Não podia atingi-lo, pois não tinha coragem de subir tão alto. Embaixo, pedia, chorava, ameaçava e ele, nada.

Só descia depois que tinha acabado de ler o livro que eu tinha pago para que buscasse pra mim. Mas não me corrigia: era só faltar leitura e me deixava seduzir pelas suas promessas de que daque vez procederia diferente.”

 

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 59-60

Maria Helena Cardoso, professora, escritora, ficcionista e memorialista.  Nasceu em Diamantina, MG em 1903 e faleceu  no Rio de Janeiro em 1994.  Passou a infância em Curvelo, MG, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os em Belo Horizonte, onde se formou na Escola de Farmácia.  Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1923.  [Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: 1711-2001, Nelly Novaes Coelho]

Obras:

Por onde andou meu coração, memórias, 1967

Vida,vida, romance, 1973








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