Mariette em êxtase, de Ron Hansen

2 05 2010

 

 

Santa Teresa em êxtase, 1645-1652       [DETALHE]

Gian Lorenzo Bernini ( Itália, 1598-1680)

Escultura em mármore

Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma.

Não sei exatamente porque escolhi recentemente a leitura  de Mariette em êxtase, [Editora Objetiva: 1996] romance do escritor americano Ron Hansen, um livro que já fazia moradia na minha estante há alguns anos.  Não sei tampouco como esse livro  “apareceu aqui em casa” tendo um perfil tão diferente do que costumo comprar.  Mas estou grata às circunstâncias que me levaram a ele, pois essa foi uma leitura cativante, rica e inesperadamente marcante.

A história se passa no início do século XX, no convento das  freiras Irmãs da Crucificação, no interior do estado de Nova York.  Mariette, uma bela jovem de dezessete anos, filha de um médico local, decide entrar para esse convento, o mesmo escolhido anos antes por sua irmã mais velha, também chamada para a vida monástica.  Mariette é uma jovem devota, extremamente espiritual, dada a sonhos e transes, que se realiza na vida doméstica e regrada das religiosas.  Com essa abertura, seria difícil imaginar que o cotidiano de um convento, com rotinas de orações, horas para meditação, jantares em silêncio seria evocado de tal maneira que ler o texto até o final poderia tornar-se uma obsessão tão aguda quanto se essa história fosse um conto de espionagem.

E é.  Foi assim que me senti.  Acho que esta é de fato uma história de quase espionagem, uma história de mistério.  Não da espionagem como a entendemos entre nações rivais, companhias multinacionais roubando novas idéias umas das outras.  Nem mesmo uma história de mistério com algum crime por resolver.  Mas há  semelhanças com a espionagem porque depois de seis meses de vida conventual Mariette recebe sinais de que suas preces e sua devoção são respondidas.  Sua fé talvez esteja sendo agraciada por poderes espirituais desconhecidos por meros mortais.   Agraciada por quem?  Como ela conseguiu esse canal de comunicação com o mundo espiritual?  Porque não qualquer outra freira do convento?  Fervorosa nas suas orações, zelosa ao manter suas penitências, obstinadamente dedicada à sua crença, Mariette é arrebatada por eventos fora de seu controle:  estigmas que aparecem em suas mãos, sangue que jorra de feridas no seu corpo.   Esse é o mistério que a abraça, que a faz diferente das outras irmãs. 

 

A natureza da diferença de Mariette em  relação às suas companheiras é o fator de divisão nessa pequena comunidade.  Devemos acreditar ou não nos sinais de fé da Mariette?  São verdadeiros ou forjados?   Logo, logo o convento se divide.  O mistério invocado pelos estigmas é onipresente,  devastador.  Nesse aspecto, o romance chegou a me lembrar do filme O anjo exterminador de Luís Buñuel (1962).  Não que haja perigo de morte para os habitantes do convento, mas a presença do mistério, do indescritível poder de uma força diferente, exterior, alienígena leva a revelações íntimas sobre as próprias freiras.  As conseqüências são as dúvidas sobre o próprio mistério, são a inveja, são as inseguranças de cada membro afloradas.  Tudo isso me lembrou forçosamente da parede invisível que condena os convidados de um jantar a uma clausura indefinível do filme mexicano.

O sucesso dessa narrativa deve-se principalmente à magnífica prosa de Ron Hansen, — em grande parte deixada intacta pela excelente tradução de Marcos Santarrita —  que não usa uma palavra a mais do que o necessário; que mantém até o final o enigma dos mistérios testemunhados pelos personagens e pelo leitor.  O ritmo da narrativa é fundamental nesse romance.  Determinado a não se acomodar a soluções fáceis e a dar ao leitor a opção de solucionar o que se passa por si mesmo, Ron Hansen consegue produzir uma pequena obra prima que nos leva a considerar a natureza da fé e do milagroso.  Esse é um livro fascinante.  De leitura rápida e bem ritmada, sua história fica na nossa imaginação sendo revivida de diversas formas, sendo aludida com freqüência.  Uma ótima leitura.

Ron Hansen





O deserto dos tártaros: Dino Buzzati

24 02 2009

pieter-stevens

Paisagem com vilarejo à distância,

Pieter Stevens (Antuérpia, 1567-1624)

Nanquim sobre papel e aguada cinza

22 x 32cm

 

 

 

 

Senti-me como Miss Marple, um dos personagens mais conhecidos dos livros de Agatha Christie, uma senhora que resolve crimes pela lógica e pelo conhecimento que tem da natureza humana ao ler O deserto dos Tártaros de Dino Buzatti [São Paulo, Clube do Livro: s/d].  Para Miss Marple um ingrediente necessário na arte de desvendar mistérios é a catalogação mental que faz das pessoas à sua volta: umas sempre lembram outras e seu comportamento consequentemente não deve ser diferente.  Assim, todos os problemas que aparecem na região da aldeia de St. Mary Mead, residência da boa detetive,  podem ser resolvidos pelo trabalho extraordinário de associações entre pessoas que ela executa.

 

Em O deserto dos Tártaros também fiz minhas associações à maneira de Miss Marple.  À medida que lia imagens de quadros e filmes que assisti vieram a preencher a minha imaginação.  A história quase simples e previsível é a de um homem, de um país desconhecido, numa época qualquer, que ao entrar para o exército, tem como  sua primeira missão,  uma permanência indefinida numa estação fronteiriça,  enfiada atrás das montanhas de mais difícil ultrapassagem.  O objetivo final é o Forte Bastiani, obra protetora de uma fronteira esquecida.  Lá o marasmo impera e se entranha por tudo e por todos.  Visivelmente alerta para a estranheza do forte, Drogo, o personagem principal desta aventura, pede para ser colocado em outro local.  Mas depois de uma conversa com um superior aceita ficar por quatro meses.  Estes aos poucos se transformam em quinze anos, graças à acomodação de Drogo, graças às escolhas que faz durante sua estadia e ao estranhamento que sente quando depois de quatro anos no forte volta à cidade natal, onde já não reconhece nada, nem mesmo a si mesmo.

 

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A primeira associação que tive veio pela descrição inicial da viagem de Drogo rumo ao Forte Bastiani.  Não consegui tirar da minha memória as paisagens maneiristas do século XVI.  Principalmente as da Europa do norte, tais como as de Pieter Stevens.  

 

Lá se vão Giovanni Drogo e seu cavalo, diminutos, no flanco das montanhas que se tornam sempre maiores e mais selvagens.  Ele continua subindo para chegar ao forte ainda durante o dia, porém mais rápidas que ele, do fundo, de onde rumoreja o riacho, mais rápidas que ele sobem as sombras.  A um certo ponto elas estão justamente à altura de Drogo, na vertente oposta da garganta; parecem por um instante reduzir sua corrida, como que para não desencorajá-lo, depois deslizam por cima dos penhascos e dos rochedos, e o cavaleiro permanece embaixo.

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Mais adiante, quando Drogo começa a achar razões para permanecer no forte lembrei-me incessantemente de um dos filmes mais extraordinários que já vi, um filme do espanhol Luis Buñuel, Anjo Exterminador, 1962.   O roteiro, a história, o vazio são paralelos perfeitos para o Deserto dos Tártaros:   Após uma extravagante e farta refeição, os convidados se sentem estranhamente incapazes de deixar a sala de jantar e, nos dias que se seguem, pouco a pouco, caem as máscaras de civilização e virtude e o grupo passa a viver como animais. 

 

E enquanto as sombras do outro lado da montanha, depois da fronteira mexiam com a imaginação dos soldados no forte, suas descrições mexiam com as minhas memórias das paisagens desertas de De Chirico, um pintor também italiano e contemporâneo de Dino Buzzati:  Interrompeu-se porque do alto de um paredão cinzento, pendente sobre eles, chegara um som de desmoronamento.  Ouviam-se os baques dos rochedos que explodiam contra os penhascos e ricocheteavam com ímpeto selvagem pelo abismo, entre nuvens de poeira.  Um estrondo de trovão repercutia de parede a parede.  No coração dos despenhadeiros, o misterioso desmoronamento continuou por alguns instantes, mas exauriu-se nos profundos canais antes de chegar embaixo; nos cascalhos, por onde subiam os soldados, só chegaram duas ou três pedrinhas.

 

 

 

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A angústia da partida, 1913-1914

Giorgio De Chirico (Itália, 1888-1978)

Óleo sobre tela

Albright-Knox Art Gallery Búfalo, EUA

 

E assim fui de memória em memória saindo do mundo da literatura para o mundo das artes plásticas, até o final do livro peregrinando pelas imagens desérticas, pelo sentido de desalento e de paralisação, até que cheguei às minhas memórias do conto The Beast in the Jungle, 1903, de Henry James (EUA 1843 – Inglaterra 1916) que no Brasil foi editado como um pequeno livro com o título de  A Fera na Selva: a história de um homem a quem nada absolutamente acontecera, como resultado das decisões que tomara ou que deixara de tomar, sempre à espera de um grande evento. 

 

 

Afinal a que todas essas conexões me levam?  O que elas têm em comum é a exploração do fantástico, da fantasia pessoal, do imaginário individual.  Apesar de alguns críticos ligarem a obra de Dino Buzzati  a escritores como Kafka, Sartre e Camus, principalmente nesta obra O deserto dos Tártaros, originalmente publicado em 1940, na minha opinião esta história, com o desenvolvimento dado, pertence mais ao campo da fantasia do imaginário,  algo mais fluido e menos desesperador, mais na tradição de Edgar Allan Poe e de outros autores transcendentalistas.   Quer coloquemos este livro entre os surrealistas ou os transcendentalistas, não importa.  É simplesmente um livro que deve ser lido, pela narrativa, pela abstração e pelo descobrimento de nós mesmos.

 

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O escritor Dino Buzzati (1906-1972)








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