Mãe, poema de Stella Leonardos

22 12 2020

Maternidade

Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919 – 1990)

óleo sobre placa, 41x 33 cm

 

Mãe

 

Stella Leonardos

 

Tudo que há na fonte pura

Vem da mina de onde brota

E do fundo da espessura

Nasce a sombra de uma grota.

Todo verdor de uma planta

Deve à terra seu verdor.

Todo pássaro que canta

Herdou raça de cantor.

Qualquer gesto bom que eu tenha,

Toda vez que eu ficar triste,

Todo sonho que me venha,

Tudo que em mim houve e existe

Será teu, Mãe. Porque és água,

Pedra e chão, rama e raiz

De meu mundo: quer na mágoa

Quer no momento feliz.

 

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 45

 





Uma influência marcante…

11 05 2014

 

 

Mamãe, aniversário, 73 anos, foto do MarcusMinha mãe, aos 73 anos.

 

Do muito que ela me ensinou, ficou também o exercício diário da leitura.

Minha mãe foi quem incendiou meu hábito da leitura. Desde o momento em que corri para ela, encantada, dizendo que conseguia ver, como em um sonho, as coisas que lia no livro, minha mãe tomou as rédeas do meu desenvolvimento como leitora. Lembro-me muito bem, ela estava cozendo, alguma coisa pequena, à mão. Parou tudo para me dizer que era assim mesmo, que eu estava mostrando que estava lendo muito bem e que há algum tempo ela esperava que eu lhe trouxesse essa notícia. Eu tinha acabado de fazer seis anos.

A influência de minha mãe foi crucial para que eu me tornasse uma leitora. Sua direção foi firme, sem que eu sentisse, e durou até o final dos meus primeiros anos na adolescência. Foi ela quem me apresentou à leitura de “gente grande”, quando aos dez anos me deu O tronco do ipê, seguido depois de A Moreninha, A pata da gazela, Helena, A mão e a luva. Livros lidos e relidos através da adolescência e mantidos até hoje entre os “muito queridos”. Assim foi a minha estréia na imaginação romântica da menina-moça, cercada dos clássicos brasileiros. Mas, sabiamente mamãe nunca me proibiu ler nada – houve uma exceção, única. Dos dez aos quatorze anos li quase todos os clássicos no século XIX no Brasil, os românticos; assim como li dezenas de volumes da Biblioteca das Moças; dezenas de mistérios de Agatha Christie, Ellery Queen, Charlie Chan, Arsène Lupin, Maigret, além dos grandes livros de aventuras de Alexandre Dumas e Julio Verne. Ela lia e eu lia. Ela lia primeiro. Era importante para mim ver minha mãe lendo esses livros e depois recebê-los de suas mãos, dizendo “muito bom, você vai gostar”. Mamãe gostava do que ela chamava romances de capa-e-espada. Dumas, principalmente. Mas lemos as aventuras do Zorro, numa tiragem de livro de bolso baratinha.

Esses anos, que hoje se chamam pré-adolescência, foram caracterizados por terem a leitura como principal meio de entretenimento. Víamos televisão, mas ela não foi nunca a primeira fonte de prazer. E as férias eram passadas na praia de manhã cedo e na poltrona, sentada de lado, com o rosto de encontro ao estofamento, as pernas encolhidas e os livros empilhados ao lado. Vez por outra íamos ao cinema, não muito. A leitura era o bastante.

Desses hábitos de leitura o único que não vingou foi a leitura em espanhol. Por volta dos meus dez, onze anos, mamãe me apresentou ao livro Platero y yo. Reclamei que era em espanhol, mas ela me disse que eu lesse, que acabaria entendendo, e qualquer dúvida que tivesse que a consultasse. Minha mãe era professora, formada em línguas neo-latinas e lia com facilidade tanto em espanhol quanto em francês. Esse foi a primeira de muitas pequenas histórias e poemas que li em espanhol. Mas o gosto por essa leitura nunca me seduziu. Anos mais tarde, com os meus dezesseis anos, já fluente em francês, graças à Aliança Francesa, não tive problema em ler em francês, mas nunca me senti confortável com a leitura em espanhol, até hoje.

Se continuo a ler muito devo à minha mãe esse maravilhoso entretenimento. A leitura foi um dos maiores elos de união entre nós duas; personalidades tão diferentes, com gostos tão semelhantes.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014.




Quadrinha para o Dia das Mães

10 05 2014

 

 

Mãe  e filha, gatinhoIlustração, desconheço a autoria.

 

– “Não há mãe melhor que a minha”

diz a filha à mamãezinha.

E a mãe, sorrindo: – “Filhinha,

melhor que a tua era a minha”…

 

(Lia Pederneiras de Faria)





Quadrinha para o Dia das Mães

9 05 2014

 

 

mãe ninando o bebe. frederick richardson, 1975Ilustração de Frederick Richardson, 1975.

 

Tão pequenino e, no entanto,
traduz o amor mais profundo;
que nome existe, mais santo,
do que o teu, mãe, neste mundo?

(Cecília Cerqueira Cavalcanti)





Quadrinha para o Dia das Mães

8 05 2014

 

 

mãe com criança, tombo, jardim, guarda-sol, ilust walter craneIlustração de Walter Crane.

 

Ó minha mãe! em meus cantos,
num grato e eterno estribilho,
bendigo a Deus que, entre tantos,
me escolheu para teu filho!

(J.G. de Araújo Jorge)





Quadrinha para o Dia das Mães

7 05 2014

 

 

mãe e filha vestidos iguaisIlustração de moda, assinatura ilegível, 1930 (França).

 

Mamãe, boa mamãezinha,

Deus a proteja e abençoe;

mãezinha, minha rainha,

se sou ingrata, perdoe!

 

(Maria Guiomar Galvão Coelho Leal)





Quadrinha pelo Dia das Mães

6 05 2014

 

 

mãe e filho, Elizabeth Tyler WolcottIlustração de Elizabeth Tyler Wolcott.

 

Teu dia, Mãe, se reveste
dos remorsos que chorei:
pelo muito que me deste
pelo pouco que te dei.

 

(Roberto Medeiros)





Mamãezinha, poesia de Alceu Maynard Araújo

5 05 2014

 

 

mãe e filho, capa Good Housekeeping, junho 1928Ilustração Capa da Revista Good Housekeeping, junho de 1928.

 

Mamãezinha

 

Alceu Maynard de Araújo [Almayara]

 

Quando o dia rompe

Vermelho e risonho,

Meu doce sonho

Se interrompe,

— Acordo pensando em você, mamãezinha.

 

Quando o dia some

Na linha azul do horizonte,

Antes que a treva desponte,

Só me lembro de um nome

E é o doce nome de você, mamãezinha.

 

Quando o dia já dorme,

Eu genuflexo, sozinho,

Digo bem baixinho

Na minha solidão enorme:

— Penso só em você, mamãezinha.

 

De noite ou de dia,

A todo momento,

Quer no sofrimento,

No prazer ou na alegria,

Sempre eu penso em você, mamãezinha.

 

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 368-9

 

 





Tal mãe, tal filha?

3 07 2013

Cassatt_Mary_The_Bath_1891-92

Banho infantil, 1893

Mary Cassatt (EUA, 1844-1926)

Óleo sobre tela, 100 x 66 cm

The Art Institute of Chicago, EUA

Há datas que são indeléveis para cada um de nós.  O aniversário de minha mãe é uma delas, para mim.  Hoje ela faria 88 anos.   E é só agora, 6 anos após sua morte que começo a vê-la no espelho que me reflete pela manhã.  Sempre fomos muito diferentes, minha mãe e eu.  Física e emocionalmente.  Dois dias antes de seu falecimento, e após viver comigo e com meu marido pelos últimos cinco anos em que lutava contra doença incurável, minha mãe, num gesto de boa vontade, nos chamou para dizer: “sim, eu poderia ter vivido com vocês.”   Como se  até então não o tivesse feito.  Era uma admissão final de que havíamos encontrado uma área comum, uma faixa em que nossos comportamentos, por mais divergentes que fossem, haviam se mesclado e atingido uma zona de conforto.  Eu me surpreendi. Para mim nunca houve qualquer resistência em ter minha mãe comigo, muito pelo contrário, sempre gostei de sua companhia.  Era uma mulher inteligente, informada, sensível.  Só não aprovava grande parte do meu comportamento.  E porque saí de casa muito cedo, para ela, eu provavelmente parecia mais estranha do que realmente era.  Mesmo que tivesse vindo visitá-la nos últimos 20 anos antes do meu retorno oficial ao Brasil, por um mês, uma ou duas vezes por ano.  Ter morado no exterior e adquirido hábitos mais estrangeiros do que brasileiros certamente contribuiu para que ela sentisse um estranhamento que não era recíproco.

Enquanto ela era muito linda, com cabelos naturalmente negro-azulados, olhos verdes com uma estrela amarelo-dourada dentro deles e a pele branco-leite, um tipo comum na Europa do norte, principalmente na Irlanda; eu nasci de cabelos vermelhos cor de cenoura que, depois de caírem, viraram louros e mais tarde louro-escuro bem cor de chumbo; olhos azuis, pele muito clara,  mais para o dourado.   Enquanto nela, as cores lilás e tons frios de azul e rosa caíam bem; em  mim essas mesmas cores tornavam a pele amarelada; só os tons de terra, o verde-musgo, os beges, coral e marrons coloriam favoravelmente.  E, no entanto, hoje ao acordar e me olhar no espelho, com freqüência vejo minha mãe refletida,  a olhar-me de volta.  Temos algo em comum,  a idade anda nos fazendo semelhantes. O cabelo de repente é igual ao corte que ela usava?  Ou será que é a maneira como as rugas aparecem em volta dos olhos?  Temos a mesma boca, isso é verdade, larga, pronta para o riso, nós duas ríamos com facilidade. É de família.  Mamãe era mignon, ombros pequenos, mãos alongadas como as de sua mãe, unhas ovaladas.  Eu tenho as mãos de papai, largas e quadradas, ombros largos; e não demonstro fragilidade.  E, no entanto, sou eu a “manteiga derretida”, cujas lágrimas são incontroláveis quando me machucam emocionalmente. À moda inglesa, — que ela não era – mamãe conseguia manter o famoso “stiff upper lip” que me escapa.  Nas dores físicas fomos semelhantes, duras e sem choros.  Não sou ciumenta; não escondo o jogo; detesto manipulação emocional.  Não me incomodo com o que os outros pensam de mim; não faço grandes sacrifícios pela vaidade; não tenho medo de médico, de dentista e nunca vou a eles acompanhada.

???????????????????????????????Nós duas, Praia do Flamengo, Rio de Janeiro

Mamãe contava uma história que leu quando era criança na Revista Tico-tico.  Era sobre um menino pobre que vivia no andar térreo de um edifício e que tinha por vizinho de cima um menino rico.  Da janela o menino pobre via os papéis de bala coloridos que o menino rico jogava fora e para não se sentir mal, o menino pobre imaginava os papéis de bala serem borboletas, que voavam coloridas pelo jardim.  Essa historieta infantil descreve as diferenças entre mãe e filha.  Mamãe era uma sonhadora.  Seus pés finos e pequeninos  a mantinham levemente presa ao chão; eu por outro lado provavelmente teria colecionado os papéis coloridos do menino do andar de cima.  Tenho os pés quadrados, largos, romanos, que fazem meus sonhos serem bastante atados à realidade que me cerca.   Sou aventureira, flor selvagem, rústica; mamãe era flor de estufa, delicada e caprichosa.

Mas então o que herdei dela para que a veja a me olhar do outro lado do espelho?  Dela, herdei  a sensibilidade para as artes visuais; a curiosidade, a necessidade de estar em dia com as notícias;  herdei também a facilidade para línguas, a necessidade de viver em um ambiente belo e confortável; a  impaciência, o humor quase apalhaçado e a dificuldade de lidar com bebês.  Nós duas sempre preferimos as crianças quando elas já sabem falar.  E, no entanto, há horas em que sinto que um gesto meu é um eco dela; que uma observação que faço, ela teria feito; que o modo como ando na rua reflete o andar dela.  É,  por mais diferentes que tenhamos sido, a semente não cai nunca muito longe da árvore.  Feliz aniversário minha mãe.

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2013.





Mãe — poema de Martins Fontes

9 05 2013

mãe e filha primaveraCartão postal início do século XX.

Mãe

Martins Fontes

Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma

Para me abençoar e proteger.

Teu puro amor o coração me acalma;

Provo a doçura do teu bem querer.

Porque a mão te beijei, a minha palma

Olho, analiso linha a linha, a ver

Se em mim descubro um traço de tu’alma

Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a mão aberta,

Pela tua clareza, me desperta

Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer — Mãe — este M tão  perfeito,

E com certeza, em minha mão foi feito

Para, quando eu for bom, pensar em ti.

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 131.








%d blogueiros gostam disto: