Oceano, poema de Manuel Bandeira

2 04 2018

 

 

il_340x270.1167755797_2ng2

 

 

Oceano

 

Manuel Bandeira

 

Olho a praia. A treva é densa.

Ulula o mar, que não vejo,

Naquela voz sem consolo,

Naquela tristeza imensa

Que há na voz do meu desejo.

 

E nesse tom sem consolo

Ouço a voz do meu destino:

Má sina que desconheço,

Vem vindo desde eu menino,

Cresce quanto em anos cresço.

 

– Voz de oceano que não vejo

Da praia do meu desejo…

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 30.





Resenha: “Um beijo de Colombina” de Adriana Lisboa

22 09 2017

 

 

illustration_j_c_leyendecker_9330225_clipped

Ilustração de C. J. Leyendecker, 1933, para capa da revista Saturday Evening Post, número de 25 de fevereiro.

 

 

Gosto imensamente da poesia de Manuel Bandeira.  Acho-o, se não o maior poeta do século XX, certamente entre os três mais importantes poetas brasileiros da época.  Acredito ter lido quase toda sua obra.  Um atrativo a mais para o livro Um beijo de Colombina de Adriana Lisboa é que Manuel Bandeira está presente, ou melhor, é a alma, do romance.  Por isso tive grandes expectativas ao abrir o livro.

Adriana Lisboa, por outro lado, só conheço de um livro anterior: Rakushisha.  Por ele, a autora passou a figurar no rol de escritores/ poetas favoritos, pois me lembro de sua prosa delicada, cheia de surpresas e  inusitadas visões dos temas do cotidiano.

 

ArquivoExibir.aspx

 

Acreditei, portanto, quando escolhi a leitura desse livro, que iria ter dupla apreciação, que iria ter deleite ao quadrado.  A prosa de Adriana Lisboa continua límpida, delicada, mesmo nesta obra, que  não é tão poética quanto minha memória atribuía a ela. Manuel Bandeira continua um dos grandes poetas brasileiros de todos os tempos.  Mas o poeta Manuel Bandeira perdeu-se nesse texto e Adriana Lisboa não mostrou a mágica de sua prosa-poética vista em outras de suas obras .

A trama se desenrola a partir de um casal de namorados, num relacionamento recente, em que de repente, a namorada, Teresa, morre afogada.  Para melhor entender o que acontece o rapaz revê a história deles até o afogamento em Mangaratiba (RJ). Aos poucos um retrato mais detalhado de Teresa, jovem escritora  às portas de um sucesso literário retumbante, começa a se firmar e surge a dúvida:  teria ela, excelente nadadora , sofrido um golpe do acaso? Ou o afogamento teria sido deliberado, um  suicídio?

 

image001Adriana Lisboa

 

A narrativa corre bem pelo primeiro terço do livro, para se perder e chegar a um final quase forçado, como se tivesse sido planejado de antemão e encontrasse dificuldade de desabrochar.  O mistério sobre a morte de Teresa, que poderia ser visto como um gancho para puxar o leitor a cada página não parece tão importante nem para o leitor, nem para o namorado narrador.  Não vi na trama secundária, seu envolvimento com uma antiga namorada, qualquer propósito a não ser o de lembrar o lugar de residência de Manuel Bandeira.

Enfim, uma ideia boa, com uma narrativa leve, que tinha tudo para ser mais do que só agradável, que infelizmente não chegou a encantar essa leitora.  Uma oportunidade perdida.  Adriana Lisboa continua com uma bela prosa, mas quase não chega ao que se propõe.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





O último poema, Manuel Bandeira

4 09 2017

 

 

1927 Jane Rogers Interior SceneInterior, 1927

Jane Rogers (EUA, 1896 – ?)

óleo sobre tela

 

 

O último poema

 

Manuel Bandeira

 

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, p. 119

 





A estrela, poesia de Manuel Bandeira

10 05 2016

 

 

ceu estrelado de outono, jenifferCéu estrelado de outono, ilustração Jennifer

 

A Estrela

 

Manuel Bandeira

 

Vi uma estrela tão alta,

Vi uma estrela tão fria!

Vi uma estrela luzindo

Na minha vida vazia.

 

Era uma estrela tão alta!

Era uma estrela tão fria!

Era uma estrela sozinha

Luzindo no fim do dia.

 

Por que da sua distância

Para minha companhia

Não baixava aquela estrela?

Por que tão alta, luzia?

 

E ouvi-a na sombra funda

Responder que assim fazia

Para dar uma esperança

Mais triste ao fim do meu dia.

 

 

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1978, 10ª edição,pp: 110-111.

 





Profissão de Fé, soneto de Carvalho Júnior

7 01 2016

 

 

Malcolm_Liepke_Pensive.2001, litografia, 47 x 58 cmPensativa, 2001

Malcolm Liepke (EUA, 1953)

Litografia, 47 x 58 cm

 

 

Profissão de Fé

 

Carvalho Júnior

 

Odeio as virgens pálidas, cloróticas,

Beleza de missal que o romantismo

Hidrófobo apregoa em peças góticas,

Escritas nuns acessos de histerismo.

 

Sofismas de mulher, ilusões óticas,

Raquíticos abortos do lirismo,

Sonho de carne, compleições exóticas,

Desfazem-se perante o realismo.

 

Não servem-me esses vagos ideais

Da fina transparência dos cristais,

Almas de santa e corpo de alfenim.

 

Prefiro a exuberância dos contornos,

As belezas da forma, sem adornos,

A saúde, a matéria, a vida enfim.

 

Publicado em 1879.

 

Em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, editado por Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro: 1951, p. 56

 

Francisco Antônio de Carvalho Júnior (Brasil, 1859-1929)

 





Poema de finados, Manuel Bandeira

1 11 2014

 

 

 

 

George_Edmund_Butler_-_A_roadside_cemetery_near_Neuve_EgliseCemitério de estrada, próximo a Neuve Église

George Edmund Butler (Inglaterra, 1872 – 1936)

aquarela

 

 

Poema de finados

 

Manuel Bandeira

 

Amanhã que é dia dos mortos

Vai ao cemitério. Vai

E procura entre as sepulturas

A sepultura de meu pai.

 

Leva três rosas bem bonitas.

Ajoelha e reza uma oração.

Não pelo pai, mas pelo filho:

O filho tem mais precisão.

 

O que resta de mim na vida

É a amargura do que sofri.

Pois nada quero, nada espero.

E em verdade estou morto aqui.

 

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1978, 10ª edição,pp: 88-89.





Belo belo, poema de Manuel Bandeira

19 08 2014

 

ARTHUR TIMÓTHEO DA COSTA - (1882 - 1923) Ziza no atellier - ost - 65 x 54 - cie - 1919Ziza no ateliê, 1919

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)

óleo sobre tela, 65 x 54 cm

 

Belo Belo

 

Manuel Bandeira

 

Belo belo minha bela

Tenho tudo que não quero

Não tenho nada que quero

Não quero óculos nem tosse

Nem obrigação de voto

Quero quero

Quero a solidão dos píncaros

A água da fonte escondida

A rosa que floresceu

Sobre a escarpa inaccessível

A luz da primeira estrela

Piscando no lusco-fusco

Quero quero

Quero dar volta ao mundo

Só num navio de vela

Quero rever Pernambuco

Quero ver Bagdá e Cusco

Quero quero

Quero o moreno da Estela

Quero a brancura da Elisa

Quero a saliva da Bela

Quero as sardas da Adalgisa

Quero quero tanta coisa

Belo belo

Mas basta de lero-lero

Vida noves fora zero.

 

Petrópolis, fevereiro de 1947.

 

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1978, 10ª edição,pp: 135-136.

 

 





Rondó do capitão, poesia de Manuel Bandeira

19 11 2012

Soldadinho de chumbo, s/d

Marysia Portinari ( Brasil, 1937)

óleo sobre tela, 30 x 20 cm

Rondó do capitão

Manuel Bandeira

Bão balalão,

Senhor capitão.

Tirai este peso

Do meu coração.

Não é de tristeza,

Não é de aflição:

É só de esperança,

Senhor capitão!

A leve esperança,

A aérea esperança…

Aérea, pois não!

Peso mais pesado

Não existe não.

Ah, livrai-me dele,

Senhor capitão!

8 de outubro de 1940

Em: Manuel Bandeira Antologia Poética, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio:1978, 10ª edição





Vou me embora para o passado — Jessier Quirino, para continuar o proveito dessas férias!

31 07 2011




Este é um vídeo para a diversão de final de férias.  Voltamos com postagens regulares, a partir de amanhã.





Canto de Natal — poema de Manuel Bandeira

7 12 2009

Nascimento de Jesus

Arte folclórica dos Estados Unidos, anônimo

 

Canto de Natal

 

                                                                          Manuel Bandeira

——–

O nosso menino

Nasceu em Belém

Nasceu tão-somente

Para querer bem.

———-

———

Nasceu sobre as palhas

O nosso menino.

Mas a mãe sabia

Que ele era divino.

——-

——-

Vem para sofrer

A morte na cruz,

O nosso menino.

Seu nome é Jesus.

———

———

Por nós ele aceita

O humano destino:

Louvemos a glória

De Jesus menino.

—–

—–

Em: Bandeira, antologia poética, Rio de Janeiro, José Olympio:1978, 10ª edição.

—–

 

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968)  poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

Obras:

3 Conferências sobre Cultura Hispano-americana,  1959  

50 poemas escolhidos pelo autor , 1955  

A Autoria das Cartas Chilenas, 1940  

A Cinza das Horas, 1917  

A Cópula, 1986  

A Leste do Éden, 1958  

A Morte, 1965  

A Versificação em Língua Portuguesa    

Alumbramentos, 1960  

Andorinha, Andorinha  1965  

Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos  1946  

Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana  1938  

Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica  1937  

Antologia dos Poetas Brasileiros: fase moderna  1967  

Antologia dos Poetas Brasileiros: Fase Simbolista  1937  

Antologia Poética  1961  

Apresentação da Poesia Brasileira  1944  

Auto Sacramental do Divino Narciso, de Sóror Juana Inés de la Cruz    

Carnaval  1919  

Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira  1958  

Colóquio Unilateralmente Sentimental  1968  

Crônicas da Província do Brasil  1937  

De Poetas e de Poesia  1954  

Discurso de Posse de Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras  1941  

Em Busca do Verso Puro, de Pedro Henríquez Ureña  1946  

Estrela da Manhã  1936  

Estrela da Tarde  1960  

Estrela da Vida Inteira  1966  

Flauta de Papel  1957  

Francisco Mignone  1956  

Glória de Antero  1943  

Gonçalves Dias  1952  

Guia de Ouro Preto  1938  

Itinerário de Pasárgada  1954  

Itinerários  1974  

Libertinagem  1930  

Literatura Hispano-americana  1949  

Macbeth, de Shakespeare  1958  

Mafuá do Malungo  1948  

Maria Stuart, de Schiller  1955  

Mário de Andrade: animador da cultura musical brasileira  1954  

Meus Poemas Preferidos  1967  

Noções de História das Literaturas  1940  

Noturno do Morro do Encanto  1955  

O Melhor Soneto de Manuel Bandeira  1955  

Obras Poéticas  1956  

Obras Poéticas de Gonçalves Dias  1944  

Obras-primas da Lírica Brasileira  1943  

Opus 10  1952  

Oração de Paraninfo  1946  

Os Reis Vagabundos  1966  

Panorama das Literaturas das Américas  1958  

Pasárgada  1960  

Poemas Traduzidos  1945  

Poemas-gráficos: 3 ensaios tipográficos no centenário do poeta  1986  

Poesia do Brasil  1963  

Poesia e prosa  1958  

Poesia e Vida de Gonçalves Dias  1962  

Poesias  1924  

Poesias completas  1940  

Poesias Escolhidas  1937  

Poesias, de Alphonsus de Guimaraens  1938  

Portinari  1939  

Recepção do sr. Peregrino Júnior  1947  

Recordações de Manuel Bandeira nos Arquivos Implacáveis de João Condé  1990  

Rimas, de José Albano  1948  

Rio de Janeiro em Prosa & Verso  1965  

Rubaiyat, de Omar Khayyan  1965  

Sonetos Completos e Poemas Escolhidos, de Antero de Quental  1942  

Um Poema de Manuel Bandeira  1956








%d blogueiros gostam disto: