Nove livros recomendados por Mário Vargas Llosa

29 04 2017

 

 

Michael Rohani. Retrato de MushkaRetrato de Mushka

Michael Rohani (GB, contemporâneo)

 

 

No ano passado Mario Vargas Llosa foi indagado sobre os livros favoritos  que  recomendaria para leitura. Aqui está a seleção.

1 — Mrs. Dalloway de Virgínia Woolf

2 –  Lolita de Vladimir Nabokov

3 –  Coração das trevas de Joseph Conrad

4 – Trópico de Cancer de Hanry MillerO palhaço

5 – Auto da fé de Elias Canetti

6 – O grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald

7 – Doutor Jivago de Boris Pasternak

8 – O leopardo de Giuseppe Tomasi de Lampedusa

9 —  O palhaço de Heinrich Böll

 

Já leram?  Confesso que não li todos.  Não li o livro de Canetti, de Böll, de Lampedusa e só vi o filme sobre o livro de Pasternak.  E vocês?  O que leram?

Salvar





Sobre a cultura: Mário Vargas Llosa

12 12 2016

 

 

marita-pena-mora-peru-1968-mulher-lendo-com-pavao-ostMulher lendo com pavão

Marita Peña Mora (Peru, 1968)

óleo sobre tela

 

 

“A cultura pode ser experimentação e reflexão, pensamento e sonho, paixão e poesia e uma revisão crítica constante e profunda de todas as certezas, convicções, teorias e crenças. Mas não pode afastar-se da vida real, da vida verdadeira, da vida vivida, que nunca é a dos lugares-comuns, do artifício, do sofisma e da brincadeira, se  risco de se desintegrar. Posso parecer pessimista, mas minha impressão é de que, com uma irresponsabilidade tão grande como a nossa irreprimível vocação para a brincadeira e a diversão, fizemos da cultura um daqueles castelos de areia, vistosos mas frágeis, que se desmancham com a primeira ventania.”

 

 

Em: A civilização do espetáculo, Mário Vargas Llosa, Rio de Janeiro, Objetiva:2013, página 67.





Um vislumbre da formação de Mario Vargas Llosa

16 09 2015

 

Juan Ardohain (Argentina, 1963, Mujer leyendo,Mulher lendo, 2010

Juan Ardohain (Argentina, 1963)

óleo sobre tela

 

 

 

“Aconteceu em Lima, por volta de 1955. Tinha acabado de me casar pela primeira vez e precisei acumular vários trabalhos para ganhar a vida. Cheguei a ter oito, enquanto continuava os estudos universitários. O mais pitoresco deles era fichar os mortos das quadras coloniais do cemitério Presbítero Maestro, de Lima, cujos nomes haviam desaparecido dos arquivos da Beneficência Pública. Fazia isso aos domingos e feriados, indo ao cemitério equipado com uma escadinha, fichas e lápis. Depois de realizar meu escrutínio das velhas lápides, elaborava listas com nomes e datas, e a Beneficência Pública de Lima me pagava por morto. Porém o mais grato dos meus oito ganha-pães não era esse, e sim o do ajudante de bibliotecário do Clube Nacional. O bibliotecário era meu professor, o historiador Raúl Porras Barrenechea. Minhas obrigações consistiam em passar duas horas diárias de segunda a sexta no elegante edifício do Clube, símbolo da oligarquia peruana, que naqueles anos celebrava seu centenário. Teoricamente, precisava dedicar essas poucas horas a fichar as novas aquisições da biblioteca, mas, não sei se por problemas de verbas ou se por negligência da diretoria do Clube Nacional já quase não adquiria livros naquela época, de modo que eu podia dedicar aquelas duas horas a escrever e ler. Eram as duas horas mais felizes daqueles dias, em que da manhã até a noite eu não parava de fazer coisas que me interessavam pouco ou nada. Não trabalhava na bela sala de leitura do térreo do Clube, mas num escritório do quarto andar. Ali descobri com felicidade, dissimulada atrás de uns discretos biombos e de umas cortininhas pudibundas, uma esplêndida coleção de livros eróticos, quase todos franceses. Ali eu li as cartas e fantasias eróticas de Diderot e Mirabeau, o marquês de Sade e Restif de la Bretonne, Andréa de Nerciat, Aretino, Memórias de uma cantora alemã, Autobiografia de um inglês, Memórias de Casanova, Ligações perigosas de Choderlos de Laclos e não sei quantos outros livros clássicos e emblemáticos da literatura erótica.

Ela tem antecedentes clássicos, evidentemente, mas irrompe de verdade na Europa no século XVIII, em pleno auge dos philosophes e suas grandes teorias renovadoras da moral e da política, sua ofensiva contra o obscurantismo religioso e sua apaixonada defesa da liberdade…”

 

Em: “O desaparecimento do erotismo“, A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, Mario Vargas Llosa, Rio de Janeiro, Objetiva: 2013, tradução Ivone Benedetti, pp. 99-100.





Um Nobel mais do que merecido: Mário Vargas Llosa

7 10 2010

Marie-Jose com vestido amarelo, 1950

Henri Matisse, ( França, 1869-1954)

Aquatinta

 

Raramente um prêmio Nobel de literatura é dado a algum escritor cuja obra eu conheça.  E se o conheço é por um único livro.  Recebi então com surpresa e grande prazer a notícia de que Mario Vargas Llosa, o grande escritor peruano, recebeu hoje o Prêmio Nobel de Literatura.  Dele conheço muitos livros.  A impressão que tenho é que suas obras me acompanham desde sempre e reconheço a importância de sua palavra escrita não só para o meu próprio desenvolvimento como leitora, mas para aquele de uma inteira geração de leitores latino americanos.  O que faz Mário Vargas Llosa maior do que seus livros, maior do que sua constante preocupação com sua terra natal, com o Peru e com a estabilidade dos princípios democráticos na América Latina, é a sua permanente preocupação com o ser humano, com suas emoções e principalmente com as paixões humanas.  Sem paixão, é a mensagem sua obra, não somos nada; a vida de nada serve.  Quer nos seus romances de fundo político, quer naqueles que se caracterizam por explorar a estrutura emocional de seus personagens, Vargas Llosa demonstrou do início de sua carreira até hoje um enorme fôlego criativo.

Meu primeiro contato com Vargas Llosa foi com Tia Júlia e o Escrevinhador, uma obra que me fez rir e muito, mesmo quando a lia em lugares públicos, como no ônibus ou no metrô.  Sou, por mim mesma responsável pela compra de pelo menos 11 volumes desse romance que dei de presente através dos anos, a cada re-edição, até mesmo na sua versão em inglês, para amigos na época em que morei nos Estados Unidos.

Depois vieram Conversa na Catedral – um deslumbrante diálogo político com o período de uma ditadura no Perú, nos  anos 50:  um livro que me marcou muito, com sua acidez, com sua irreverência.   Nas minhas leituras, que não seguem necessariamente a ordem de publicação, seguiu-se quase imediatamente  Quem matou Palomino Molero?  Um quase-mistério que continua com a mesma preocupação de descortinar os meios pelos quais uma ditadura permanece no poder. 

 Pantaleão e as visitadoras veio a seguir.  Apesar de sua popularidade, este não é o meu favorito.  Mas sem dúvida é uma obra repleta de ironia e humor e mostra as atitudes e os desmandos — enquanto abre os nossos olhos — das gastanças do poder público na América Latina e a freqüência com que projetos governamentais estão fadados a meter os pés pelas mãos.  Mais tarde fui de encontro à ditadura da República Dominicana lendo o pequeno romance, um grande conto, uma novela talvez, chamado A festa do bode.   Depois disso descansei por alguns anos da leitura de Vargas Llosa, só para voltar a me apaixonar por sua escrita, de novo, em 2006 com Travessuras da menina má

 Hoje, ao descobrir que Vargas Llosa – este grande escritor – foi premiado com o Nobel, vibrei.  Este incansável defensor dos direitos humanos, que tem como os grandes humanistas o homem como medida exata de seus trabalhos, nunca se acanhou de lutar com unhas e dentes pelos valores democráticos em seu país e fora dele.   Agora, sinto-me tentada a ler suas outras obras, aquelas com as quais ainda não consegui me deliciar.  É um compromisso pessoal.    Devemos todos nos orgulhar de tão justo prêmio a um infatigável batalhador pela justiça social.





Travessuras da menina má, de Llosa

4 01 2010

Café em Montparnasse, Paris

David Azuz ( Israel, 1942)

Lito

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Travessuras da menina má não foi o meu primeiro romance de Mário Vargas Llosa.  Através dos anos eu já me apaixonei por Tia Júlia e o Escrevinhador, — minha apresentação ao autor –, por Conversas na Catedral, Palomino Molero e alguns outros títulos.   Travessuras da menina má mostrou logo, desde o início, os bons dotes de narrativa de Llosa, já conhecidos, que fazem seus livros fáceis de serem lidos de uma ponta à outra.  Ele tem um ritmo fascinante, que também é característico dos trabalhos que conheço, um ritmo que não deixa o leitor se cansar do assunto ou até mesmo do personagem.  Na verdade, Llosa é tão suave na narrativa que seduz o leitor desde a primeira página.

 

No entanto, neste livro os personagens principais  me incomodaram.  Porque a menina má é muito má. E o nosso herói, ou talvez eu deva dizer o nosso anti-herói, Ricardo, é um mosca-morta, não tem punho, vontade própria ou orgulho.    Assim, com um par de personagens com os quais eu não me importava, levei algum tempo para chegar a ter prazer com a leitura desse texto, cuja questão principal é:  o que é o amor?  Como ele se manifesta?  E as perguntas que produzem o nosso diálogo com esta história, só podem começar com esta questão central.  O que é o amor?

O amor é algo que necessite da dedicação, da subjugo de um ego ao outro?   É o amor algo que precise ser tão total, que nos leve a ir contra a nossa própria  sobrevivência?  São perguntas que nos perseguem,  os seres humanos, desde que nos conhecemos.  Perguntas que são de interesse nosso, e que valem a pena serem respondidas.

Mario Vargas Llosa

 

—-

Cheguei a ver, em outros lugares e na internet reclamações sobre a reconstituição das diferentes décadas da segunda metade do século XX em que a história se passa.  Dizem que há erros de localização, de datas específicas como: “quando esta moda foi sucesso em Londres”;  “se este ou aquele restaurante estava corretamente localizado em Paris”.  A preciosidade dessas perguntas é coisa de intelectual da torre de marfim, quase que um jogo de perguntas e respostas admirado por estudantes de pós-graduação.   Mario Vargas Llosa não está escrevendo História.  Não há nenhum aviso: “ esta reconstituição de Paris, nos anos… é absolutamente verídica e documentada”.  A um escritor como ele, um romancista, temos que dar maior espaço;  no todo acho que ele foi além do necessário para trazer às nossas mentes o espírito das épocas, das diversas décadas,  em que nossos personagens viveram.

Por causa da importância das perguntas tecidas no texto, sobre o amor e suas conseqüências, sobre as diferenças entre o amor e a paixão, entre a paixão e obsessão, creio que este livro, assim como muitos de seus outros romances, será letura obrigatória para aqueles que interessados em questões pertinentes à  nossa existência.

01/12/2006





Você conhece os 10 mais importantes intelectuais de 2008?

2 07 2008

 

A revista inglesa Prospect, fundada em 1995, tem feito jus ao seu slogan: “a conversa inteligente da Grã-Bretanha”.  Sempre apresenta uma faceta diferente da visão mundial e gosto de seguir suas reportagens.  Junto com a revista Foreign Policy, a Prospect  faz de tempos em tempos uma enquête para descobrir quem seus leitores consideram ser os 100 maiores pensadores da atualidade.  A última tomada de pulso foi em 2005 quando Noam Chomsky, professor de Linguística  no MIT, foi o primeiro colocado.  Seguido de Umberto Eco, escritor, crítico e professor de semiótica em segundo lugar e por Richard Dawkins, eminente zoólogo, professor da Universidade de Oxford.  Seguiram-se Vaclav Havel, escritor e dramaturgo, Christopher Hitchens,  jornalista e crítico literário, Paul Krugman, economista e jornalista,  Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo,  Amartya Sen, economista laureado com o Nobel, Jared Diamond,  biólogo evolucionário, fisiologista, biogeógrafo e Salman Rushdie, escritor.  Estes foram os dez primeiros colocados há três anos. 

 

Quando a revista fez a mesma enquête este ano, ficou surpresa ao receber mais de meio milhão de votos, e mais ainda com o resultado da pesquisa.  A lista publicada agora, no mês de julho, mostra que os nomes dos 10 mais votados são todos de intelectuais muçulmanos.   Os organizadores logo procuraram saber se havia um hacker atrás da votação, e que tipo de campanhas haviam sido montadas e para que nomes.   E é claro que o vencedor deste ano, Fethullah Güllen, escritor, pensador e filósofo Suni, teve uma grande campanha por votos dentro da Turquia, a partir de maio quando Zaman o jornal de maior circulação no país e associado ao movimento de Güllen, publicou que havia esta competição para pensadores influentes.   Como explica Tom Nuttal em uns dos artigos deste mês na revista, antes de publicarem a lista, Prospect e Foreign Policy se certificaram da validade dos votos e das campanhas existentes.

 

 

  

 

 

 

 

 

 

Fethullah Güllen

Veja: 

https://peregrinacultural.wordpress.com/2008/07/16/fethullah-gulen-%E2%80%93-quem-e-o-intelectual-n%C2%B0-1-do-mundo/

 

https://peregrinacultural.wordpress.com/2008/08/12/muhammad-yunus-quem-e-segundo-mais-votado-intelectual/

 

  

 

Houve campanhas a favor de Mario Vargas Llosa, de Al Gore, Gary Gasparov, para dar alguns nomes, mas nenhuma delas vingou.  Provavelmente porque nenhuma destas campanhas teve a disciplina entre seus seguidores de manter o interesse pela votação vivo e a disciplina de arrecadar votos, que os seguidores de Güllen tiveram.  Cada eleitor poderia sugerir 5 nomes.  Mesmo assim, como é amplamente explicado em considerações sobre a lista, nenhuma campanha, poderia justificar o posicionamento de 10 muçulmanos entre os maiores e mais influentes pensadores do momento. 

 

O que estamos testemunhando, como diz Tom Nuttal, é a emergência de um novo tipo de intelectual, aquele que tem uma grande corrente de amigos e seguidores, que podem ser facilmente mobilizados.  Entre os nomes que apareceram entre os 10 mais votados estão também Yusuf al-Qaradawi, Amr Khaled .  Yusuf al-Qaradawi que já tinha aparecido na lista em 2005, subindo da posição 56 para a 3ª colocação e  Amr Khaled religioso muçulmano e produtor de programas televisos, que entrou na lista este ano, obtendo a 6ª posição.  Ambos seguidores próximos de Güllen com campanhas angariando votos, bem organizadas no Facebook.  Muhammad Yunus, economista e banqueiro em Bangladesh e Shirin Ebadi, advogada e ativista sobre direitos humanos no Iran, foram ambos agraciados com o Nobel da Paz e também tiveram bastante sucesso.

 

Os outros nomes entre os 10 mais votados em 2008 são: o escritor Orhan Pamuk;  Aitzaz Ahsan, advogado, membro da Suprema Corte do Paquistão e ativista em direitos humanos;  Abdolkarim Soroush o filósofo,  Rumi estudioso; Tariq Ramadan professor universitário e pensador muçulmano e Mahmood Mamdani, antropólogo e sociólogo,

 

A lista completa dos 100 mais votados se encontra aqui.  Em parênteses a colocação de cada um na enquête de 2005.  Asterisco significa que esta é a primeira vez que esta pessoa está sendo citada. 

 

 

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