Um amor de Carnaval… Maria Helena Cardoso

10 11 2020

 

 

Haydea Santiago,Carnaval na rua das laranjeiras, OST 80 x 64,1938Carnaval na rua das Laranjeiras, 1938

Haydéa Santiago (Brasil, 1896 – 1980)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm

 

“A primeira vez que o vi foi numa batalha de confetes. O dia tinha sido chuvoso. De vez em quando uma bátega d’água caía, prenunciando uma tarde com aguaceiro. A todo instante chegava {a janela para olhar o tempo. Logo naquela tarde em que pretendia estrear meu vestido novo, a chuva queria estragar os meus planos.

De cada vez que sondava o céu com os olhos, mamãe, que no meio de seus afazeres me observava, dizia:

— Não adianta olhar para o céu, hoje não tem batalha alguma. À tarde vamos ter temporal.

Nos entreolhávamos, eu e minha prima e respondia, mal-humorada:

— A senhora tá agourando pra gente não brincar. Bem que no seu tempo gostava de aproveitar.

Lá pela tardinha o tempo melhorou, o céu tingiu-se de uns laivos rosa.

“Graças a Deus”, pensei.

Ao escurecer, saímos. Vestia o famoso vestido novo. DE seda bois-de-rose, saia plissada, gola de pelerina, uma gravata de laço, estampada. A praia se achava repleta. Os passeios cheios de gente que ia e vinha, blocos de toda espécie, que passavam cantando, interrompendo o trânsito. Os carros circulavam vagarosamente, conduzindo foliões de outros bairros, famílias, moças e rapazes que lançavam serpentinas e confetes sobre a multidão que estacionava no passeio. Em frente ao posto 4 se achava o palanque para os membros do concurso de samba. Parou um carro e dele desceram os juízes que iriam julgar qual o melhor do carnaval daquele ano. O povo se comprimia mais ainda naquele ponto, paralisando completamente a circulação. Junto a um banco, eu olhava a multidão que se divertia. A orquestra começou a tocar o Olha, escuta meu bem …, que foi acompanhado pelo vozerio da multidão alegre. As luzes se acenderam, o burburinho era cada vez maior. Milhares de rolos de serpentinas coloridas eram atiradas dos carros, entrelaçando-se por sobre os fios, caindo na calçada em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Bandos de mulatas fantasiadas, se requebrando, em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Um frio nas pernas e, instintivamente, levei a mão às meias. Olhei em torno e não vi ninguém que me pudesse ter atirado lança-perfume. “Provavelmente, algum esguicho extraviado”, pensei, continuando a olhar os carros que passavam. A banda do palanque atacava agora uma marchinha do meu agrado, muito em voga na época.

Foi quando senti de novo o frio nas pernas. Evidentemente, desta vez era comigo. Procurei com os olhos entre a multidão que se encontrava próximo de mim e não vi ninguém conhecido. Um vozerio acompanhado de palmas fez-se ouvir por minutos. Acabava de subir ao palanque, sendo reconhecida pela multidão, que a aplaudia freneticamente, uma conhecida cantora popular. Às palmas e ao vozerio vieram juntar-se as buzinas dos vários carros parados ao longo da praia. Tentava abrir caminho entre o povo, sufocada pelo aperto que se fizera ao redor, quando o mesmo esguicho frio nas pernas me fez lançar um olhar rápido à minha frente: à distância de um metro mais ou menos, o vi pela primeira vez, que sorria para mim. Siegfried ou outro herói de Wagner, pois só podia ser um herói de lenda alemã. Correspondi-lhe ao sorriso e a partir de então começou o tempo do amor, o tempo do sofrimento, o tempo pelo qual esperava, o mais belo momento da minha vida.”

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 120-1





Festa de reis, texto das memórias de Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930)

10 09 2020

Rodrigues Lessa (Brasil, 1972)Folia de Reis,2006,ast,30 x 40 cmFolia de Reis, 2006

Rodrigues Lessa (Brasil, 1972)

acrílica sobre tela, 30 x 40 cm

Reunidas as famílias na Marmota, partiu o imenso terno às oito ou nove horas da noite. Cada família levava alguns de seus agregados que tinham filhas que dançassem bem o lundu, única dança então conhecida em nossa terra, à exceção de uma valsa de que depois falarei. Eram também convidados alguns desses agregados só pela estima ou deferência que mereciam do proprietário; iam como meros espectadores. Algumas senhoras iam a cavalo, bem como os homens. Todas as famílias, porém, levavam carros puxados a bois, não só para as senhoras que preferiam aquele modo de transporte, como para os meninos, agregados e mucamas. porque iam também as que dançavam bem ou tinham boa voz para tirar os reis.

Os instrumentos musicais eram ordinariamente flauta, rebeca e violão. Chegando a certa distância apeavam-se os que iam nos carros, cujo chiado estridente podia ser ouvido na vivenda. Os que iam a cavalo prosseguiam até mais perto. Então, reunidos, a pé, no maior silêncio, dirigiam-se à casa do proprietário. Não tanto para causar surpresa aos donos da casa, que haviam sido avisados, mas para que se conservassem as portas fechadas e em silêncio, talvez para simular surpresa. Era a praxe.

No silêncio profundo da noite, rompiam de repente os sons das vozes e instrumentos. Era de um efeito agradabilíssimo. Às trovas em referência ao nascimento do Messias, seguiam-se as de saudações aos donos da casa e outros membros da família. Vinham depois as quadras mais ligeiras e alegres,  pedindo para ser aberta a porta. Com pequenas variantes, tudo isto era obedecido até há pouco tempo. Aberta a porta, era a sala invadida em alegre alvoroço. Não ricamente mobiliada, como acontecia com as nossas vivendas campestres, todas muito simples, a sala estava, porém, adornada com o mais precioso adereço para os hóspedes. a alegria e bom acolhimento dos donos da casa. Então, todos em pé formavam a circunferência de um grande círculo vazio que devia ser ocupado pelos que dançavam. Somente os instrumentistas tinham cadeiras.

As mais peritas cantadeiras entoavam as alegres cançonetas chamadas chulas, acompanhadas dos instrumentos e palmas dos assistentes. Algumas dessas chulas não deixavam de ter o sainete da graça e o espírito popular. Depois, o que dirigia o samba, logo que terminava a última copla, saía na roda dançando, acompanhado dos instrumentos. Os homens não tinham em grande apreço o lundu baiano, executado pelo sexo masculino. Portanto, só saíam dançando para ter lugar de tirar as belas raparigas. Davam algumas pernadas, sempre em ar de galhofa, e iam topar –– era  o termo —em uma das dançadeiras. Cantavam então a segunda copla no final da qual saía à roda a rapariga. Se era bonita e conhecido seu mérito dançante, as palmas dobravam de entusiasmo e estrepitosos bravos cruzavam-se no ar. Isto não durava muito tempo: todos desejavam o descanso depois da caminhada. Era dado o sinal, e a dançarina topava mo instrumentista da viola ou do violão. Eram oferecidas bebidas, e todos se dispersavam pelas salas e outros aposentos, conversando alegremente.

Findo o breve descanso, devia recomeçar o samba. Desta vez, porém, não foi assim. Todos ardiam na impaciência de ver as danças altas — assim eram chamadas — que iam ser executadas pelos sobrinhos de minha mãe. Estas danças eram de bem poucos ali conhecidas, e foi tal a aglomeração de espectadores, que com dificuldade deixaram o espaço, no centro da sala, para a execução das mesmas. Vi, pela primeira vez, a gavota, a cachucha, o minueto, o fandango e o solo inglês, que foi o mais apreciado em razão das múltiplas figuras ou modos de dançar. O rapaz mais moço, Manoel Paulino, de treze anos, era muito vivo e engraçado, sendo por isso muito aplaudido. Do mais velho, Pedro da Trindade, já sério e refletido, diziam: “Dança bem, mas não tem a graça do outro.” Depois houve a repetição do samba, a que não assisti, Minha mãe nessas ocasiões tratava de arranjar um cômodo para agasalhar-me o sofrimento dos olhos, que foi o constante martírio de minha vida, não me permitia perder as noites,  e ela, pouco apreciadora do samba, não voltava à sala.

Pela manhã, encontrei as senhoras cuidando dos preparativos do almoço. Todas, parentas e amigas, auxiliavam a dona da casa, embora não fosse preciso, visto o crescido número de escravas empregadas em todas as casas no serviço doméstico. Mas é que todas aquelas senhoras tinham muito garbo de boas donas de casa e gostavam de ostentar seus conhecimentos culinários, embora muito simples, como era tudo naquele tempo. Os homens, ao se levantarem da mesa, dispersavam-se pelas salas da frente, e as senhoras agrupavam-se nos aposentos interiores, onde estas conversavam sobre coisas domésticas e costuras, que mostravam, comentando a beleza ou os defeitos. Em todas as casas havia costureiras e rendeiras escravas que trabalhavam para a família. Depois do suculento almoço, todos voltavam às suas vivendas satisfeitos,  a combinar novos reisados, que repetiam na maior parte das casas.

Em: Longos Serões do Campo; infância e juventude, Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930), volume II, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:1992, pp 52-55





Meus dias de menino, Oscar Negrão de Lima

26 05 2020

 

 

cavalgando

 

“Os meus dias de menino eram bem movimentados, não obstante a pacatez da vida do arraial. Trançando da rua para o quintal, em carreirinhas espertas, entrava eu em casa e atravessava a sala de jantar onde furtava biscoito fofo e broa de fubá mimoso, toda vez que roçasse pelo grande armário rústico, encostado à larga parede sem janelas.

Mas, ai de mim! Nem tudo era flores na boa vidinha da roça! O meu cavalo Brinquinho, pequira e pedrês, escorregou certa tarde de chuca, no facão da estrada de carro e pinchou-me no barranco, virando-se de costas. Apertou-me a perna esquerda que não se quebrou por milagre. Uma outra ocasião, um cachorro de boiadeiro, cortando a capoeira, da estrada de carro para o trilho de cavaleiros, surgiu-me pela frente, e o Brinquinho refugou, rodando, imprevisto, nos pés. Largou-me de borco na poeirinha do caminho.”

 

Vocabulário

pequira – raça brasileira de cavalos dóceis,  marchadores e de fácil manejo

borco — voltado para baixo

 

Em: Tamboril, Oscar Negrão de Lima, Rio de Janeiro, editora José Olympio: 1961, p.27-8





Meu amor pela leitura, texto de Maria Helena Cardoso

23 05 2020

 

 

Luke Martineau (Inglaterra, 1970)ww.lukemartineau.com,óleo s tel,Ollie-Imogen-and-Tati-oil-on-canvas-24-by-38-ins-2013-680x429Ollie, Imogen e Tati, 2013

Luke Martineau (Inglaterra, 1970)

óleo sobre tela, 60 x 96 cm

http://www.lukemartineau.com

 

“Os anos da Rua Paraíba, 214 marcam um período intenso na minha vida.  Meu amor pela leitura era tal que chegava a descurar dos estudos para me dedicar aos romances. Burlava com a maior facilidade a fiscalização de mamãe, que nesse ponto era bastante severa. Assim que me apanhei lendo em francês, nem ela nem meus irmãos (que só vieram a ler nessa língua algum tempo depois), puderam controlar minhas leituras.  Após as aulas, aos domingos e feriados, passava inteiramente entregue à minha paixão: lia tudo que me caía sob os olhos, não havendo nada que me interessasse tanto, nem cinema, nem festas, nada. Os meus estudos de inglês, muito me serviam nesse particular. Tinha um professor que preferia conversar com mamãe sobre jardinagem e galinhas, sendo suas aulas de meia hora, no máximo, com exceção de quando papai se achava em casa. Para mamãe, entretanto, inglês era a matéria de que eu mais gostava e à qual mais me dedicava, isto não só porque o professor nos ajudava a tapeá-la, falando conosco na sua presença, aquelas frases de principiantes:”What is this?“, “Where is the door?”, “How are you?“, “What is the matter with you?” e outras da mesma categoria, como também entre os compêndios adotados por ele havia um, o Inglês sem Mestre, que me auxiliava a mistificá-la.  Era um livro de tamanho bem maior do que o comum de estudo, capa dura, marrom. Metia dentro o romance que lia no momento e passava o dia com ele aberto ostensivamente, fingindo que preparava as lições para o dia seguinte. À noite, enquanto ela conversava com as irmãs, sentadas ao redor da mesa da sala de jantar, lá estava eu, absorta no estudo, pensava ela. De vez em quando, porém, reclamava:

— Helena, não sei que estudo é esse seu, ouvindo conversa ao mesmo tempo, assim não pode aprender.

Não respondia nada, mergulhada que estava na leitura apaixonante, de onde nem um tiro de canhão me arrancaria.  Quando, porém, as reclamações se amiudavam muito, abandonava a sala, indo para o meu quarto.

Dias havia, entretanto, em que, receosa de que acabasse desconfiando da minha grande dedicação ao estudo de inglês, mudava de tática.  Despedia-me dizendo que ia à casa de vovó, trancava a porta do meu quarto (cada um de nós tinha o seu naquele casarão), saindo pela porta da frente. Assim que transpunha o portão de ferro, parava uns passos adiante e, depois de alguns minutos de espera, voltava de manso, inspecionando o corredor da entrada para ver se tinha alguém e, se não, entrava rápida, pulava a janela do meu quarto, que deixara aberta de propósito. Metia-me debaixo da cama e ali passava o dia lendo romances, na maior felicidade, apesar dos sobressaltos e a despeito da posição incômoda, deitada de costas. De vez em quando, mamãe, na sua faina de dona de casa caprichosa, vinha varrer e catar as folhas secas que poderiam ter caído nos vasos de begônia que se alinhavam ao longo da entrada.

 

7_Henri_Lebasque_(French_artist,_1865-1937)_Girl_with_Flowers_1909Menina com livro, 1909

Henri Lebasque (França, 1865 – 1937)

óleo sobre tela

 

Ouvia, com o coração batendo, o ruído dos seus chinelos, pra lá pra cá, a vassoura de palha varrendo, louca de medo que me descobrisse. Mas nunca acontecia: continuava seu trabalho, longe de suspeitar que me achava ali bem perto. As horas passavam na maior rapidez e eu lia, lia, completamente esquecida do mundo e da realidade, vivendo apenas aquilo que o livro contava.

À hora do jantar saía de debaixo da cama, pulava de novo a janela e entrava pela porta da frente como se estivesse chegando naquele momento da casa de vovó. Deitada debaixo da cama, com luz insuficiente, os braços cansados de manter o livro à altura dos olhos, lia toda uma enfiada de livros a mais disparatada possível: Capitain, Pardaillan, Fausta Vencida de Miguel Zevacco, O Piano de ClaraO Violino do Diabo, Anjos da Terra, de Perez Escrich, Memórias de um Médico, Visconde de Bragelone, Vinte Anos Depois, Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas, quase tudo de Júlio Verne, todos os fascículos de Sherlock Holmes, Nick Carter e Arsène Lupin e os primeiros romances de Paul Bourget, em grande moda da Bibliotèque de Ma Fille, a Filha do Diretor do Circo, que me pôs triste muitos dias, tudo misturado com Recordações da Casa dos Mortos, Le Crime de Sylvestre Bonnard, Le Lys Rouge, Crime e Castigo e muita coisa de que não me lembro. Mas não havia livro que chegasse para a minha enorme sede. Como não tinha dinheiro para comprar, recorria às colegas do colégio, lia escondido os do meu tio e o vendeiro vizinho nos emprestava alguns: O Judeu Errante, de Eugênio Sue e vários fascículos dos Dramas do Novo Mundo de Gustavo Aymard, além de alguns de Escrich. Siô Mané e Siô Chico, além de nossos fornecedores de gêneros, contribuíam também para o nosso desenvolvimento intelectual. Quando não havia outra fonte onde buscar, lá ia atrás deles , que sempre desencavavam algum velho romance de Escrich o façanhas de índios americanos. Outro meio de arranjar eram os amigos de Dauto, sendo necessário, porém, que lhe pagasse quatrocentos réis para comprar cocada baiana na venda de Zé Miliano, botequineiro da esquina da rua. Como pagamento era sempre adiantado, passava antes pela venda, comprava as cocadas e depois então ia em busca de Caio Líbano ou outro que tivesse livros. Em casa, esperava impaciente, chegando à calçada de minuto em minuto para ver se ele aparecia na esquina. Mas, qual, as horas passavam e nada. Já sabia, era só procurá-lo no quintal e encontrava-o trepado no mais alto galho do , pois abacateiro. Tinha conseguido entrar num dos momentos em que estava no interior e subira na árvore para se livrar de mim. Não podia atingi-lo, pois não tinha coragem de subir tão alto. Embaixo, pedia, chorava, ameaçava e ele, nada.

Só descia depois que tinha acabado de ler o livro que eu tinha pago para que buscasse pra mim. Mas não me corrigia: era só faltar leitura e me deixava seduzir pelas suas promessas de que daque vez procederia diferente.”

 

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 59-60

Maria Helena Cardoso, professora, escritora, ficcionista e memorialista.  Nasceu em Diamantina, MG em 1903 e faleceu  no Rio de Janeiro em 1994.  Passou a infância em Curvelo, MG, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os em Belo Horizonte, onde se formou na Escola de Farmácia.  Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1923.  [Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: 1711-2001, Nelly Novaes Coelho]

Obras:

Por onde andou meu coração, memórias, 1967

Vida,vida, romance, 1973





Lendo: “Autobiografia” de Agatha Christie

8 08 2018

 

 

DSC03893Autobiografia

Agatha Christie

Rio de Janeiro, Editora Globo: 1979, 560 páginas

 

SINOPSE:

O mundo inteiro conhece o virtuosismo literário de Agatha Christie. Sua extraordinária habilidade em desvendar os segredos ocultos da alma humana produziu oitenta e seis livros que continuam encantando gerações e gerações de leitores em todo o mundo. Qual o segredo de Dame Agatha? Que mistérios cercavam a personalidade daquela pacata dona de casa que, ao escrever, transformava-se na diabólica Rainha do Crime? Essa resposta você encontra na Autobiografia que narra, com absoluta honestidade e lucidez, todos os pormenores de sua vida, desde a infância na pequena cidade de Torquay até os devaneios de sua mais remota vida amorosa.

 

NOTA:

Estou lendo este livro em inglês, no Kindle.  E me encantei tanto com ele que comprei um volume em português, para poder colocar algumas passagens no blog.





Resenha: “Assunto pessoal”, W. Somerset Maugham

27 01 2018

 

 

 

john-kingsley Escócia. 1956. cap-ferrat, ost, 75 x 75 cm.jpgCap Ferrat

John Kingsley (Escócia, 1956)

óleo sobre tela, 75 x 75 cm

 

 

Assunto pessoal é um livro delicioso! Podia não ser.  Trata-se das memórias de Somerset Maugham sobre o período da Segunda Guerra Mundial.  Apesar dos trâmites do início da guerra retratados pelo autor, não é um livro pesado. É uma leitura sedutora pela prosa eloquente, fluida, com o gosto de causos contados  no fim do dia, na varanda ou próximo à lareira; uma tradução impecável de Leonel Vallandro, que faz o português rolar pelo texto sem nenhuma lembrança do original em inglês, um português correto,  formal, como era também o inglês de Maugham; e sobretudo a visão de alguém que apesar de ter vivido grande parte de sua vida fora da Grã-Bretanha manteve alguns traços na escrita que associamos aos ingleses:  ironia, soberba, fino senso de humor. Há um ponto de vista definitivamente inglês que diverte mesmo quando é cáustico.

Maugham foi um dos mais importantes escritores da primeira metade do século XX, além de um dos mais bem pagos.  Escritor e dramaturgo também trabalhou para serviço secreto britânico quando residiu na Suíça e na Rússia antes da revolução. Morou na Índia e no sudeste asiático durante a Primeira Guerra. Já havia permanecido na infância fora da Inglaterra, quando voltou, aos dez anos, órfão de pai e mãe, estudou no Kings College, e foi fruto de chacota dos colegas de turma, por falar o inglês com alguns erros, já que sua língua mãe havia sido o francês. Nascera em Paris onde seus pais moravam.  Talvez toda essa experiência no exterior justifique a facilidade que tem de analisar ingleses e europeus com alguma distância, como vemos nessa obra.

 

ASSUNTO_PESSOAL_151147230249460SK1511472303B

 

Essas memórias começam quando a Alemanha invade a Polônia e parece lógico que a França seria a próxima a cair no domínio germânico.  Maugham, que reside já há tempos em Cap Ferrat, no sudeste do território francês,  primeiro escreve alguns artigos sobre a situação na França do início dos anos 30 até mais tarde, por volta de 1940, quando tendo feito contato o serviço secreto britânico, passa a  reportar sobre posicionamento e estado das tropas francesas no continente.   Os arredores de Nice, na Côte d’Azur, na década de 1930, foram locais onde grandes milionários construíram belas casas de verão e também local onde muitos ingleses, não tão ricos, escolheram para morar, pois suas rendas, aposentadorias, tinham por lá, maior poder aquisitivo do que teriam na Inglaterra. Às vésperas da submissão da França à Alemanha, Maugham e outros ingleses fazem a difícil travessia do Mediterrâneo para a Inglaterra, como refugiados.  São viagens de navio difíceis, onde testemunha muito sofrimento e onde vemos que os ricos também tiveram que passar por sofrimento, mortes e restrições raramente lembradas hoje. Ter um relato de primeira mão sobre essa travessia, seus perigos e Londres sob ataque de bombardeios e a reação de seus habitantes  é algo valioso e interessante.  Muito melhor ainda quando bem escrito com um certo humor e ironia que não suscita melodramas.

 

MaughamWilliam Somerset Maugham

 

Somerset Maugham adapta sua prosa muito bem ao serviço das memórias.  Suas observações sobre as pessoas e acontecimentos que o cercam são tratadas com ironia e temperadas pela precisa observação do ser humano. Mais valiosa ainda é a descrição da época e de seu modo de pensar.  Por exemplo aprendemos que se pensava que Hitler estivesse blefando.  Por outro lado, Londres sob pressão alemã é relatada vividamente. Mesmo assim é um livro de leitura fácil, agradável, cuja ironia não passa despercebida. O realismo é contido e o momento histórico preservado. É, sim, uma aula de história, mas delicada, leve e atraente.  Aprendemos sem sentir.  E termina com uma dose de otimismo sobre o futuro da Inglaterra.  Recomendo.  Está esgotado, no Brasil. Mas vale a pena procurar.

PS: Você encontrará neste blog alguns trechos que achei deliciosos e postei.  Eles lhe darão uma ideia da encantadora narrativa.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Um encontro inesperado, W. Somerset Maugham

30 12 2017

 

 

Alfred Lyndon Grace (British, 1867-1949) After Dinner, Port and PipesDepois do jantar, porto e cachimbos

Alfred Lyndon Grace (GB, 1867-1949)

óleo sobre tela, 61 x 76 cm

 

 

“Minha segunda aventura foi do gênero humorístico. Estava sendo conduzido através da zona rural por uma mulher que muito fazia, como algumas outras inglesas e americanas caridosas, para melhorar a sorte dos infelizes refugiados; como principiasse a fazer-se tarde, eu disse que precisava tratar de arranjar um quarto em algum hotel, para passar a noite.

–Não se preocupe com isso — respondeu ela. — Tenho uns primos distantes que moram nestas redondezas e o acolherão com prazer. São provincianos, gente muito siples, mas ótima, e lhe darão um bom jantar.

— Muito gentil da parte deles — retruquei.

Minha companheira não mencionou o nome dos seus parentes e não me ocorreu perguntar-lho. Do que ela havia dito depreendi que se tratava de gente pobre que vivia muito modestamente; foi, por isso, uma surpresa para mim quando, ao anoitecer, entramos numa cidadezinha e paramos diante de uma casa que, ao lusco-fusco, tinha um aspecto assaz imponente. Fomos recebidos por um homem gordo, de estatura baixa, xom um rosto vermelho de feições comuns. Trajava uma roupa preta que não lhe sentava muito bem e tinha a aparência de um típico burguês francês. Conduziu-me a um quarto bem aquecido, confortavelmente mobilado, e notei com satisfação que havia um banheiro ao lado. Disse-me ele que o jantar era às sete e meia. Tomei um banho e, como me sentisse muito cansado, dormi um pouco. À hora marcada desci e tratei de encontrar o living, em cuja lareira ardia um belo fogo de troncos. Meu anfitrião, que ali se achava, ofereceu-me um cálice de xerez. Afundei-me numa vasta poltrona.

— Encontrou uma garrafa de conhaque no seu quarto? — perguntou-me ele.

— Não procurei — respondi.

— Sempre tenho uma garrafa de conhaque em todos os quartos de dormir da casa, até nos quartos das meninas. Elas nunca tocam nessas garrafas, mas agrada-me saber que as têm consigo.

Achei a ideia esquisita, mas não disse nada. Pouco depois o meu cicerone feminino entrou em companhia de uma senhora morena e magra, a quem fui apresentado. Era irmã do dono da casa, mas não lhe apanhei bem o nome. De algumas frases pronunciadas durante a conversa inferi que o meu anfitrião era solteiro e a irmã hospedara-se em sua casa com duas filhas pelo tempo que durasse a guerra, pois seu marido tinha sido mobilizado. Rumamos para a sala de jantar, onde já nos aguardavam duas mocinhas, respectivamente de quatorze e quinze anos presumíveis, com uma empertigada governanta. Fomos servidos por um velho mordomo e uma criada.

— Abri em sua intenção o meu último garrafão de clarete, um Château-Larose de 1874 — disse o dono da casa.

Eu nunca tinha visto ainda um garrafão de clarete. Fiquei impressionado. O vinho era delicioso. Para um parente pobre, pareceu-me que o dono da casa ia bastante bem de vida. A comida era excelente — verdadeira comida francesa do campo, copiosa, talvez um tantinho pesada e muito temperada, mas saborosíssima. Um dos pratos estava tão bom que não pude deixar de comentá-lo.

— Estimo que tenha gostado — disse o anfitrião. — Na minha casa todos os pratos são cozidos com conhaque.

Começou a parecer-me que aquela casa era realmente muito estranha e desejei, mais do que nunca, saber quem era o hospitaleiro indivíduo. Terminamos de jantar e tomamos um cafezinho, após o que o mordomo trouxe uns copos grandes e uma imensa garrafa de conhaque. Eu já tinha ingerido uma boa quantidade de clarete e, em vista de me achar entre estranhos, achei prudente não tomar mais álcool. Recusei, portanto, o conhaque.

— Como! — exclamou o meu anfitrião, caindo para trás na poltrona. — O senhor vem passar a noite em casa de Martell e enjeita um copo de conhaque!

Eu havia jantado em casa do maior negociante mundial de conhaque.

— E olhe bem! — acrescentou ele. — Este conhaque não está à venda. É um tipo que eu reservo para o meu consumo particular.

Diante disso, força me foi abandonar a minha circunspecção.  O resto do serão passou-se bem depressa, ouvindo-lhe contar o romântico episódio do descobrimento do conhaque e os dois séculos de história da sua firma. Parti no dia seguinte, com um cordial convite para voltar quando a guerra houvesse terminado.”

 

Em: Assunto pessoal, William Somerset Maugham, Globo: 1959, tradução de Leonel Vallandro, pp 93-96

 





Música catártica: lembrando meu pai e Francisco Mignone

3 09 2017

 

 

DSC03294Meu pai, Celso.

 

O finalzinho de agosto é sempre uma época emotiva para mim.  Meu irmão mais novo faleceu abruptamente no dia 30 e lá se vão 14 anos, e meu pai comemorava seu aniversário no dia 31.  Este ano ele teria feito 105 anos. Morreu cedo pelos padrões atuais. Morreu há 36 anos.  Ambos fazem-me falta.  Em geral escrevo alguma coisa, posto uma foto, faço um aceno a ambas as datas.  Este ano foi exceção.  Tentei mas não consegui.  Ando distraída.  Muita coisa a fazer e está difícil refletir. Hoje, no entanto, uns poucos dias após essas datas, uma onda de memórias me tomou de surpresa, desencadeada por um concerto no Planetário do Rio de Janeiro celebrando os 120 anos de nascimento de Francisco Mignone, organizado por Nelson de Franco.

Quando estudava piano, tive um objetivo: queria poder tocar as valsas brasileiras em particular as de Francisco Mignone, as valsas de esquina.  Cheguei a tocar umas delas mas logo desisti do piano.  Foram muitos anos de aprendizado.  Até pouco tempo tive piano em casa.  Aprendi a tocar no piano herdado de minha avó paterna, uma excelente pianista.  E até oito anos atrás, quando meu apto comportava, tive piano em casa, exceto pelos anos de estudante nos EUA.  Logo que pude, já estabelecida profissionalmente, comprei um de meia cauda que muitos anos depois trouxe comigo para o Brasil. Mas não toco para esse nível.  Era o meu Lamborghini na sala de casa, à maneira de Eike Batista. Hoje me lembrei da minha infância enquanto ouvia Mignone.  Lembrei-me do quanto a música fez parte do meu dia a dia, nos primeiros 12 anos de vida. Porque foi  na infância a decisão de estudar para tocar valsas brasileiras. Era fascinada pelas composições de Alberto Nepomuceno a Mignone, ambos entre meus compositores favoritos, mesmo naquela época.   Música é como perfume. Passa por nós e é capaz de trazer aqueles momentos quase primordiais em que primeiro sentimos acordes ou perfumes específicos.

 

DSC03278Meus pais, em Petrópolis, Museu Imperial.

 

Memórias são interessantes.  O mesmo evento e cada participante se lembra de uma coisa diferente.  Já tive discussões incríveis com meus irmãos sobre memórias de família.  Sou a mais velha desta geração e por isso sinto a responsabilidade das memórias.  Porque houve, na minha família, dois tipos de família: antes e depois do infarto do miocárdio de meu pai.  Eu tinha 12 anos.  Ele 48.  Meus irmãos mais novos tinham quase 9 e 5.  Eles praticamente só se lembram de meu pai de uma maneira.  Enquanto, eu, me lembro do que chamo de meu pai jovem.

Meu pai jovem  nadava na praia, depois da arrebentação até o perdermos de vista! Meu pai jovem era um homem alegre e apaixonado por música.   Eram dele, compras suas e de mais ninguém, aqueles discos de música clássica, de ópera, de orquestras estrangeiras, discos grandes de cerâmica, antes dos long-plays, que eram guardados em álbuns; pelo menos na nossa casa eram. Meu pai, o cientista, formado em química industrial, o professor de física (formou-se em física quando eu era criança, me lembro de ir à sua formatura) era um homem de fortes emoções, contidas sob a máscara da ciência. Era também um homem que se entregava às paixões.  Dessas a família se lembra de algumas: as modificações que fazia em seu carro, dos peixes de aquário e  da fotografia de planta e flores. Hoje, me lembrei de seu amor pela música.

 

DSC03280A família toda, em um Carnaval. Eu tinha oito anos e meio, meu pai 44.

 

Ele deveria estar feliz com as minhas aulas de piano. Ainda que não me lembre de ter dito isso um dia.  Meu pai era daquele tipo antigo.  Duro na queda.  Jamais diria essas coisas que os pais modernos dizem:  eu te amo; estou orgulhoso de você!  Essas coisas de cinema americano que os pais brasileiros de hoje parecem ter adotado. Não. Papai não falava essas coisas.  Era para entendermos que ele nos amava e isso era suficiente. Mas imagino que ele estivesse esperançoso com o meu aprendizado de piano – que não me foi imposto, foi pedido por mim.  Digo isso porque fui com ele inúmeras vezes a alguns concertos, e ainda aos recitais de alunos da Escola Nacional de Música.  Esse era um programa que fazíamos juntos.  Eu toda prosa, de vestido de passear, ia com papai; em casa ficavam minha mãe com meus irmãos.  Quantas vezes? Não sei, acredito que fossem aos sábados, à tarde, os recitais de alunos e professores, de canto e piano.  Talvez ele também quisesse me ajudar a controlar o pânico que sempre tive de tocar para o público.  Recitais, para mim, eram um inferno pessoal.  Nunca me esqueço do primeiro vexame: congelar no palco ao interpretar, uma sonatina de Khulau, tempos depois, a mesma paralisia na sonata para piano de Mozart nº 16 em dó maior, uma lindeza de peça.  Peças que eu podia tocar perfeitamente bem em casa, ou para minha professora. Para mim, o piano, a música, o tocar piano, foi sempre uma experiência íntima.  Não queria ninguém prestando atenção naquele dialogo que eu travava com o compositor através dos meus dedos (que erravam muito quando eu sabia ter plateia). Papai não falava sobre música, não sei se tinha conhecimento para isso, mas se deixava emocionar, como deixava que eu também me emocionasse com minhas preferidas.

 

DSC03290Meu pai, acredito que na sua formatura na Escola Nacional de Química.

 

Sua mãe havia sido uma excelente pianista, ela e o irmão também:  Sara e Jayme. Não os conheci.  Mas já ouvi histórias de pessoas fora da família – minha avó materna entre elas, que eram conhecidos os saraus organizados na casa deles na antiga e tradicional Tijuca.  Mas minha avó ficou doente e permaneceu internada por 26 anos.  Foi para a Casa de Saúde (já soube o nome; não me recordo agora) quando meu pai tinha 19 anos.  E me pergunto hoje se parte da emoção dele com a música não seria também porque ela o lembrava dos bons tempos da adolescência, quando ainda ouvia vovó tocar piano, antes do evento catastrófico de sua internação.

Este pai, amante da música, gostava de ópera, de algumas árias em especial. Foi com ele que aprendi a reconhecer as árias mais famosas das mais conhecidas óperas.  Poucos dias antes de falecer, quando ele e minha mãe me visitavam nos EUA, fiz questão de levá-los ao Metropolitan.  A ocasião foi dedicada à Tosca de Puccini.  Foi importante levá-los lá, um reconhecimento de sua educação, talvez, principalmente, quando mais tarde, refleti sobre a ocasião, depois que ele faleceu meros 20 dias após essa aventura nova-iorquina.

 

DSC03287Papai aos 60 anos.

 

Ontem, para surpresa de meu marido sentado a meu lado no concerto, me debulhei em lágrimas ouvindo Francisco Mignone e suas belas valsas de esquina. Todo um passado de aprendizagem, de sonhos inatingíveis, ocasiões especiais, vieram à mente.  Valsas choronas, tão brasileiras, por tanto tempo longe dos meus ouvidos radicados no estrangeiro, arrancaram alguns dos melhores momentos de minha infância do cantinho obscuro em que se encontravam . Além da nostalgia,  senti também a responsabilidade de lembrar aos familiares, desse pai, avô,  e hoje bisavô, que amava a música clássica e não só as ciências.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, setembro 2017.

 

 





Lembranças das procissões no Rio de Janeiro, Ladyce West

14 04 2017

 

 

ROMANELLI, ARMANDO (1945). Procissão, óleo s eucatex, 20 X 20. Assinado no c.i.d. e no verso datado (1979).Procissão, 1979

Armando Romanelli (Brasil, 1945)

óleo sobre eucatex, 20 x 20 cm

 

 

Fui surpreendida por uma pequena procissão passando pela minha rua no Domingo de Ramos. Surpreendida porque moro, há muitos anos, a meio quarteirão de uma igrejinha do século XIX, tombada pelo IPHAN, na rua principal do bairro.  Não me lembro dessa procissão no calendário da minha janela. Foi pequena, mas muito linda e delicada, cantada, e percorreu rapidamente a rua onde moro.  Essa procissão recorda a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém, evento mencionado nos quatro evangelhos cristãos. Da igreja minha vizinha só me lembro da procissão de Sexta-feira Santa, talvez a mais triste das procissões católicas. Silenciosa, ela percorre o bairro, no meio da tarde, ao som de uma catraca levada pelo padre, que é tocada a cada cinquenta metros, quando todos param por alguns segundos e logo retomam seu caminho.

Procissões eram mais comuns no Rio de Janeiro. Tenho lembranças de infância de imensas procissões, em outro bairro carioca.  Venho de uma família católica semi-praticante.  Meu pai, filho de um provedor da Igreja de Santa Luzia no centro da cidade e de uma católica dedicada à teosofia, foi educado inicialmente em escola de padres e depois no Colégio Pedro II. Físico e químico industrial era católico perfunctório.  Minha mãe, professora de línguas, filha de um advogado agnóstico e uma católica, ficou mais religiosa à medida que os anos chegaram. Resultado: três filhos, uma superficialmente católica, um católico seriamente praticante e um seriamente agnóstico.  Íamos à missa nas ocasiões especiais.  Papai raramente.  Fomos batizados, fizemos primeira comunhão.  Mesmo sem grande comprometimento religioso havia ritual e respeito quando passavam as procissões.  Morávamos num edifício antigo construído no estilo Art Nouveau com as típicas janelas-portas, muitas vezes chamadas de portas francesas, que, de cada cômodo, se abriam numa sacada que dava para a frente da rua.  Quando as procissões passavam, em dias especiais, mamãe tirava do armário duas colchas bordadas e outra de origem italiana em veludo grená com desenhos em amarelo ouro — que eu me lembre, nunca usadas em outras ocasiões — e colocávamos essas colchas nas sacadas, penduradas por sobre o patamar, como se fossem grandes e respeitosas bandeiras homenageando a procissão que passava.  Lembro-me de ter visto, mais de uma vez,  uma procissão em particular que passava à noite, com as pessoas segurando velas, protegidas por cones de papel, para que as chamas não se apagassem. Cena muito impressionante para essa menininha. Um pouco depois de completar meus sete anos nos mudamos e nunca mais tive a oportunidade de encontrar tanto fervor religioso nas ruas do Rio de Janeiro. Só aos 22 anos, quando fui ao Peru, com uma bolsa de estudos, encontrei procissão semelhante em fervor e devoção, além de ver também janelas dos sobrados no centro de Lima com parapeitos cobertos com colchas, tapetes e panos coloridos. Era a procissão celebrando o dia de San Martin de Porres, santo peruano, que tem o curioso atributo de levar uma vassoura na mão.

Quando finalmente me dediquei ao mestrado em história da arte, encontrei em  quadros europeus dos século XVIII e XIX cenas que me remeteram à infância, com  sacadas cobertas com colchas e veludos nas ocasiões religiosas, hábito que mais tarde, por pura curiosidade, descobri vir desde os tempos da Baixa Idade Média, dos grandes festivais na praça principal das cidades.  Uma pena que tenhamos perdido esse belo e respeitoso hábito, que nos liga diretamente às nossas origens europeias.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2017

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A evolução da casa no Rio de Janeiro … texto de Pedro Nava

3 11 2015

 

CAROLLO, Edy Gomes (1921) Solar, o.s.t. - 73 x 60Solar, s.d.

Edy Gomes Carollo (Brasil, 1921-2000)

óleo sobre tela, 73 x 60 cm

 

 

“A casa era uma dessas belas construções do fim do século passado, com jarrões na cimalha, florões, monograma, cinco janelaços de fachada, com gradis prateados  onde dragões simétricos ficavam frente a frente, ladeando o ornamento central; jardim de gramado liso, duas palmeiras imperiais e a fonte de pedra que escorria seu fio de prata sobre limos e peixes vermelhos; portão com pilastras de granito; o clássico caramanchão de cimento imitando bambu e o colmo de palha e todo trançado de trepadeiras. O prédio de D. Adelaide era de porão habitável (cujo pé-direito era mais alto que os dos apartamentos de hoje) e de andar superior luxuoso, cheio de ornatos esculpidos nos tetos, vidraças biseautées, vastos salões, lustres com pingentes de cristal; um sem-número de quartos; portas almofadadas com maçanetas lapidadas; pias, bidês e latrinas de louça ramalhetada; vastas banheiras de mármore onde a água chegava pelo bico aberto de dois cisnes de pescoço encurvado e feitos de metal amarelo sempre reluzentes do sapólio. Bela casa, na segunda etapa de sua existência. Porque a primeira e inaugural era sempre a residência de grande do Império ou figurão da República. A segunda, pensão familiar. A terceira, casa de cômodos. Depois cabeça-de-porco — substituída pelos arranha-céus de hoje. Lá está o atual, com os apartamentos que encimam a Casa Cabanas e a Papelaria Dery. Mesmo número: 252.”

 

Em: Balão Cativo:memórias/2, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio: 1973, p. 188.








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