Sobre Conan Doyle, texto de Michel Houellebecq

1 04 2019

 

 

 

André Dérain (1880-1954) Femme assise lisant, ostSenhora sentada, lendo

André Dérain (França, 1880 – 1954)

óleo sobre tela

 

 

“Em cada romance de Sherlock Holmes pode-se reconhecer, naturalmente, os traços característicos do personagem, mas por outro lado o autor nunca deixa de introduzir um aspecto novo (a cocaína, o violino, a existência do irmão mais velho Mycroft, o gosto pela ópera italiana… certos serviços prestados no passado a famílias reais europeias… o primeiro caso resolvido por Sherlock, ainda adolescente).  A cada novo detalhe revelado desenham-se novas zonas de sombra e afinal surge um personagem realmente fascinante: Conan Doyle consegue criar uma mistura perfeita entre o prazer da descoberta e o prazer do reconhecimento.”

 

Em: Plataforma, Michel Houellebecq, tradução Ari Roitman e Paulina Wacht, Rio de Janeiro, Editora Record: 2002, p. 107





Um alerta a tempo? Resenha: “Submissão”, Michel Houellebecq,

30 07 2015

 

Batalha de Poitiers, em outubro de 732, 1837, Charles de Steuben, (Alemanha, 1788-1856),ost, 542x465cm,Palacio de VersalhesOutubro de 732, Batalha de Poitiers, 1837

Charles de Steuben (Alemanha, 1788-1856)

óleo sobre tela, 542 x 465 cm

Palácio de Versalhes, França

 

 

Há livros que se lê pelo prazer da prosa, da trama, do suspense.  Submissão de Michel Houellebecq não é nenhum desses.  É um livro que força uma reflexão sobre o momento atual da Europa, da França, especificamente. É uma fantasia tão plausível, tão próxima da realidade, que o leitor se vê forçado a considerar possibilidades improváveis como quase certas, e o impensável torna-se realidade.  É chocante. O romance, passado por volta de 2022, ou seja meros 7 anos no futuro, de maneira racional, considera a possibilidade da eleição de um governo muçulmano na França.

Talvez o que seja mais desconcertante nessa narrativa é a lógica.  Por exemplo, quando Houellebecq menciona as forças armadas francesas necessitando de milhares de novos recrutas a cada ano e simultaneamente considera que a população tradicional francesa cada vez tem menos filhos, enquanto a muçulmana tem muitos, a lógica nos leva a admitir que em futuro próximo as forças armadas francesas serão em sua maioria muçulmanas. Esse é um aspecto da realidade francesa que nunca havia cruzado os meus pensamentos.

 

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Isso é complexo?  Estranho? Desagradável? É.  Por que?  Porque teocracias como as defendidas pelos regimes islâmicos estão diametralmente opostas à herança cultural do oeste.  Temos que considerar se é esse é o futuro que se quer ter.  É essa a guinada que queremos dar no nosso presente?  O que ganhamos com ela?  Como mulher criada no ocidente, com valores de autoconfiança, de respeito próprio, com dedicação a uma profissão, que vota, dirige, se veste como quer, que se acha no direito de escolher o parceiro de vida, não acredito que venha a me adaptar às limitações de qualquer  uma das variações das teocracias islâmicas.  E não estou exagerando. Basta lermos relatos que aparecem diariamente nos jornais, livros como Infiel de Ayaan Hirsi Ali, entre outros para saber que o conflito cultural seria ou será gigantesco.

 

Michel HouellebecqMichel Houellebecq

 

Submissão não é uma obra para ser julgada pelos seus méritos literários.  Em geral, romances que defendem uma causa têm a tendência a serem enjoados, porque explicações são necessárias e rapidamente diálogos se tornam solilóquios didáticos.  Ainda que Houellebecq flerte com esse pecado, sua habilidade em fazer paralelos entre o escritor Huysmans e a própria vida do professor universitário que narra o romance esvazia um tanto o dogmatismo inerente desse tipo de criação.  Mas há passagens bastante aborrecidas, principalmente para leitores não familiarizados com a obra do escritor, ensaísta, crítico de arte francês Joris-Karl Huysmans.

Apesar dessa reserva recomendo a leitura como uma obra que ajuda a compreender parte do dilema europeu deste século.  Que haverá um embate entre essas crenças e filosofias de vida parece inevitável.  Resta saber quando.





Michel Houellebecq sobre literatura

27 07 2015

 

 

bramine-hubrecht-lecture Alphons Joseph Marie Antoine Grandmont lendo para duas jovens italianas, década de 1900  [DETALHE]

Bramine Hubrecht (Holanda, 1855-1913)

óleo sobre tela, 100 x 100 cm

Rijksmuseum, Amsterdam

 

“Quando se trata de literatura, a beleza do estilo, a musicalidade das frases têm sua importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas um autor é antes de tudo um ser humano, presente em seus livros; que escreva muito bem ou muito mal, em última análise, importa pouco, o essencial é que escreva e esteja, de fato,presente em seus livros…”

 

Submissão, Michel Houellebecq, Rio de Janeiro, Alfaguara: 2015, p.11





A literatura — Michel Houellebecq

24 07 2015

 

the-spoonful-of-milk-1912.jpg marc chagallA colherada de leite, 1912

Marc Chagall (Rússia/França, 1887-1985)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

“Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar esse contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que comove, o interessa, o excita e repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo – por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido.”

 

Submissão, Michel Houellebecq, Rio de Janeiro, Alfaguara: 2015, pp, 10-11








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