Resenha: A maçã envenenada, Michel Laub

1 06 2020

 

 

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Monika Luniak (Alemanha, contemporânea)

óleo sobre tela

 

Há escritores que surpreendem com a justaposição de eventos que escolhem para nos revelar a trama de um romance. Com isso mostram sua maneira de pensar, como retêm o que veem, a essência do que os preocupa. Formam uma colcha de retalhos que os leva  à sabedoria, à lição do que observaram.  Fora do Brasil, Julian Barnes é um escritor que seduz com similaridades que descobre em coisas aparentemente assimétricas. Este tipo de narrativa faz parte do charme da prata da casa, o escritor brasileiro Michel Laub.  Seguir paralelos que não apresentam conexão imediata é um dos prazeres de seus livros e de A maçã envenenada.

Narrado na primeira pessoa, o personagem, jornalista de quarenta anos,  procura respostas, para entender o motivo do suicídio de sua primeira namorada, Valéria. Oscilando entre dois eventos que, justapostos, o intrigam: o suicídio do músico Kurt Cobain e a entrevista de Immaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio de Ruanda ele transita entre essas duas forças cujo ponto em comum é a preservação ou não da própria vida. Há,  de um lado, um cantor, compositor, músico de sucesso,  admirado no mundo inteiro, ídolo de uma geração, que despreza a vida e se suicida.  De outro está a jovem africana, desconhecida e pobre, feita heroína pelas circunstâncias, porque preza a vida a ponto de sobreviver nas piores condições imagináveis, por um longo tempo. É no equilíbrio entre essas duas forças que o jornalista encontra o caminho da ponderação sobre eventos e sentimentos.

 

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Fragmentos  da letra Drain me, de Kurt Cobain, são usadas, para titular duas partes da narrativa.  ‘A não ser que seja sobre mim’  [I don’t care what you think unless it is about me], apropriada para descrever a narcisista Valéria, e ‘Que sorte ter encontrado você’, ironicamente, aplicável ao nosso narrador [One baby to another says: I’m lucky I’ve met you]. Enquanto o título A maçã envenenada continua a referência à letra da música de Kurt Cobain, é usado  em contraposição,  [You’ve taught me everything without a poison apple]; pois o suicídio de Valéria é de fato verdadeira maçã envenenada para o homem maduro que revive a juventude, em busca do significado do suicídio de Valéria.

Ainda que estas referências sejam óbvias, a mim, a procura do protagonista e sua conclusão sobre o que é o suicídio, o que significou o suicídio de Valéria e o efeito que tem sobre os que estão à volta de quem o comete,  lembrou duas conhecidas frases do escritor Patrick Ness “Nós somos as escolhas que fazemos” do livro The Knife of Never Letting Go e “Dizer que você não teve escolha é omitir sua responsabilidade”, do livro Monsters of Men.

 

fotografia-do-editorial-mondadori-do-escritor-brasileiro-michel-laub-1364849951116_300x420Michel Laub

 

Este é o terceiro livro de Laub que leio.  Ainda que seja parte de uma trilogia pode  ser lido separadamente.  Com ele termino o grupo.  Para mim, dos três, o livro imperdível é Diário da Queda, que me encantou e comoveu. É o mais emotivo dos três, revelando, com genuína delicadeza, a fragilidade do narrador.  Depois, a Maçã envenenada, que trabalha o texto de uma forma mais intelectual, com emoções menos explícitas e por fim O tribunal da quinta-feira, cuja óbvia dor psicológica do personagem principal é transmitida com ironia e distanciamento.  De qualquer jeito, recomendo a leitura dos três livros em qualquer ordem que você queira colocá-los.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 





Sublinhando…

31 05 2020

 

 

Ivanov, Anatoly - Woman w Book, Table by WindowMoça com livro em mesa junto à janela

Anatoly Ivanov (Cazaquistão- Rússia, 1928 – 2012)

óleo sobre tela

 

“O suicídio é uma traição aos  outros e a si mesmo, ao que você poderia se tornar no futuro, uma pessoa diferente que nunca poderá existir porque a linha foi interrompida antes que os erros sejam corrigidos.”

Em: A maçã envenenada, Michel Laub, São Paulo, Cia das Letras: 2013, p. 103





Resenha: “Diário da queda”, de Michel Laub

5 06 2017

 

 

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H.  Weiss (Polônia, contemporâneo)

óleo sobre tela

 

Que boa surpresa a leitura de Diário da queda de Michel Laub. Há uns poucos meses eu havia lido outro de seus livros: O Tribunal de quinta-feira. Apesar de ter chegado ao fim, foi um livro que não me entusiasmou. Mas, meu amigo Gilberto Ortega Jr insistiu que eu lesse Diário da queda, lembrando que este seria o primeiro de uma trilogia, da qual O Tribunal é a última obra.   Numa sala de espera comecei a leitura e não a deixei de lado.  24 horas foi o período necessário para ler o livro todo.  E o considero muito bom, muito bom mesmo!

É uma obra pequena, 152 páginas, densa, mas fácil de ler, abrangendo diversos tópicos complexos: a definição de amizade – de Aristóteles até hoje um assunto que ocupa filósofos no mundo inteiro;  duas passagens na vida de um homem — a adolescência (treze anos) e maturidade (aos quarenta),  a importância da memória e da herança cultural numa família, conflitos entre pais e filhos. É a vida. Algumas preocupações triviais, mas importantes pontuam o texto:  primeira traição,  primeira experiência sexual, dependência do álcool.

 

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Michel Laub é iconoclasta na narrativa. Há capítulos com parágrafos numerados, outros discorrendo de modo tradicional. Há passagens com entradas interessantes de um diário positivo, de como as coisas deveriam ser num mundo idealizado. Há entradas em diários. Essa combinação transforma a narrativa num texto de grande vivacidade e fácil entendimento. Breve. Talvez o que mais surpreenda seja a força emocional que o texto carrega nas incansáveis repetições de incidentes que o narrador considera importantes marcos em sua vida.  A menção a certos fatos, a volta a eles, a análise deles, o retorno novamente aos momentos cruciais, cada vez de uma maneira, trazendo ao leitor uma ponta a mais de conhecimento do que aconteceu, mas sob um novo ângulo, uma gota de conhecimento, pequena  e essencial de informação desconhecida até então, tudo nessa construção do texto leva a uma angústia pulsante, à espera de que haja uma resolução ao que o personagem principal incessantemente descreve e destrincha.

 

Michel-LaubMichel Laub

 

É um texto intenso. Cuja ternura e carinho só se revelam no final, culminando de modo pungente.  Não soluciona problemas.  Como a vida, a história fica em aberto, mas a narrativa dá entendimento e provoca reflexão sobre a obsessão do autor cujos passos acompanhamos sem hesitar.  Nas duas últimas páginas completa-se um ciclo, fecha-se o todo. Percebe-se finalmente a força motivacional desse confessionário do qual participamos. E aí sim, percebemos a  força da carga emocional que define a história.  Os olhos umedecem.  O impacto é forte e excelente.

Agora vou ler A maçã envenenada, segundo volume da trilogia e reler Tribunal da quinta-feira. Quem sabe se não terei melhor impressão deste último tendo lido os anteriores?  Leitura recomendada, com ênfase.

 

 

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Resenha: “O tribunal da quinta-feira” de Michel Laub

6 02 2017

 

 

 

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Mike no chuveiro do vestiário

Nathaniel Wyrick (EUA, contemporâneo)

acrílica e gloss sobre tela, 40 x 60 cm

Há pouco tempo durante a disputa à presidência dos Estados Unidos, uma gravação de um dos candidatos se gabando de conquistas amorosas em termos chulos vazou na rede social criando polêmica.  A raiz do problema era, em parte, o linguajar usado numa conversa particular, classificada pelo autor como “papo de homem, papo de vestiário”, onde a vanglória sexual e linguagem grosseira são socialmente permitidas. Semelhante problema se desenvolve na vida de José Victor personagem principal de O tribunal da quinta-feira.  Tendo trocado emails com seu melhor amigo Walter sobre fantasias e feitos sexuais, usando imagens e linguagem grosseiras,  ele se encontra mais tarde vitima do vazamento de seus textos. Sem dúvida, a perda de privacidade é um tema atual mas este livro aborda outros  assuntos controversos,  que servem de teste para a ética contemporânea.

Entre os assuntos abordados estão o roubo de informações particulares e a disseminação desses dados pelas redes sociais; assim como a obrigação ética de se revelar uma doença sexual transmissível, como a AIDS. Há outro aspecto ético não tão óbvio que permeia o texto: a escolha de certas expressões grosseiras seria de fato o retrato de um preconceito?  Ou pode ser escusado justamente por ser de uso comum em certos ambientes?  E pode ser usado em conversas privadas?  No momento, tendemos a crer na força da palavra falada ou escrita.  Há aqueles que defendem a mudança de palavras em canções folclóricas, como “Atirei o pau no gato” ou na supressão de certas marchinhas consideradas preconceituosas dos bailes de Carnaval, festa em que tradicionalmente burlam-se as regras sociais. O comportamento  ético e o politicamente correto estão em foco.

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Grande maestria foi necessária para atingir o nível de simplicidade quase jornalística do texto que à primeira vista parece sem arte.  Há também o excelente desenvolvimento do personagem principal, cujas obsessões e humor abrem a porta da simpatia para o leitor.  A linguagem e os pequenos capítulos dão a falsa impressão de um trabalho solto e inconsequente.  Mas a trama é desenvolvida com pontos bem fechados que sustentam o ritmo acelerado.  A prosa de Michel Laub, que conheço até agora só por esse livro, lembrou-me a do escritor americano Phillip Roth: clara, sem requintes literários tratando da desintegração da sociedade, da guerra entre os instintos carnais e os morais num contexto de grande contemporaneidade e explorando a obsessão do narrador consigo mesmo.

É, no entanto, justamente nesse ponto que o autor me decepciona, porque os problemas de José Victor, ainda que honestamente alcançados são produto de uma realidade tão imediata que o mero espaço entre a escrita do texto e sua publicação já mostra defasagem de hábitos. Hoje pouquíssimo de pessoal é comunicado através de emails. Senhas escritas, com a possibilidade de serem perdidas e encontradas em mãos alheias têm o gosto de passado, de já visto. Bastante explorado.  Esse é uma das dificuldades em se firmar uma história numa realidade que muda muito rapidamente.  Além disso, enraizar uma história com problemas tão corriqueiros e datáveis limita o escopo que a própria obra poderia ter adquirido.  Mas para que esse livro permaneça viável por mais de uma década, essas questões deveriam ter tido outro meio de serem apresentadas ao leitor.  A pergunta ética existe, mas está entrelaçada a uma trama com data de validade.

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Fora essa observação, O tribunal da quinta-feira é um livro bom, de leitura rápida que nos faz pensar e questionar assuntos do cotidiano e nosso posicionamento ético a respeito deles.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

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