Mulheres pintoras documentando a Primeira Guerra Mundial

8 03 2019

 

 

 

Women's Canteen at Phoenix Works, Bradford, 1918, by Flora Lion,ost 106 x 182 cm, Imperial War MuseumCantina das Mulheres na Metalúrgica Phoenix Works, 1918

Flora Lion (GB, 1878 – 1958)

óleo sobre tela, 106 x 182 cm

Imperial War Museum, Londres

 

Uma iniciativa britânica de documentar o que mais tarde seria conhecido como Primeira Guerra Mundial levou algumas pintoras já estabelecidas a pintarem cenas que tinham a ver com a guerra, quer na linha de batalha, quer na terra natal, testemunhando as mudanças na vida diária do país.

 

Olive Mudie-Cooke, Numa ambulância, uma enfermeira acendendo cigaroo para paciente, aquarela sobre papel,29 x 21 cm,Imperial War MuseumInterior de uma ambulância, enfermeira acende cigarro para o paciente

Olive Mudie-Cooke (GB, 1890 — 1925)

aquarela sobre papel, 29 x 21 cm

Imperial War Museum, Londres

 

Grande parte da documentação existente refere-se a mulheres pintoras da Grã-Bretanha.  Mas a Austrália e  a França também têm obras feitas por mulheres durante a Primeiro Guerra Mundial.

 

A Bus Conductress, 1919, by Victoria Monkhouse. aqaurela sobre papel,39 x 27 cm, Imperial War MuseumMotorista de ônibus, 1919

Victoria Monkhouse (GB, 1883 – 1970)

aquarela sobre papel, 39 x 27 cm

Imperial War Museumm Londres

 

Ainda que tenha havido procura para que documentação da guerra estivesse nas mãos de mulheres, ela foram muito poucas quando passamos os olhos sobre aqueles que testemunharam e pintaram o dia a dia do período da guerra.  Aqui vão mais imagens de pintoras “guerreiras”.

 

Clare Atwood (1866–1962) Christmas Day in the London Bridge YMCA Canteen, 1920, ost, 152 x 182 cm, Imperial War MuseumDia de Natal, na Cantina YMCA em London Bridge,  1920

Clare Atwood (GB, 1866–1962)

óleo sobre tela, 152 x 182 cm

Imperial War Museum, Londres

 

After the War, a VAD ambulance bringing in French peasants wounded by shells left on the Somme Battlefield. Beaulencourt Convoy, by Olive Mudie-Cooke © IWM (Art.IWM ART 3087)Depois da Guerra, uma ambulância trazendo feridos civis franceses feridos por balas encontrados nos campos de guerram Beaulencourt Convoy

Olive Mudie-Cooke (GB, 1890 — 1925)

Imperial War Museumm Londres

 

Käthe Kollwitz (German, 1867–1945). Mothers (Mütter), 1919. Lithograph,52 x 70cm). The Metropolitan Museum of Art, New York,Mães, 1919

Käthe Kollwitz (Alemanha, 1867–1945)

Litografia, 52 x 70 cm

The Metropolitan Museum of Art, New York

 

Natalia Goncharova (French [born Russia], 1881–1962). Christian Host from Mystical Images of War, 1914. Lithograph, 30 x 22cm,The Metropolitan Museum of Art, New YorkHóstia cristã da série Imagens Místicas da Guerra, 1914

Natalia Goncharova (Rússia – França, 1881–1962)

Litografia, 30 x 22 cm

The Metropolitan Museum of Art, New York

 

 

The Scottish Women's Hospital, In The Cloister of the Abbaye at Royaumont, 1920, ost, 114x139 cm, by Norah Neilson-Gray.Hospital Feminino da Escócia, no Claustro da Abadia de Royaumont, 1920

Norah Neilson-Gray (GB, 1882- 1931)

Óleo sobre tela,  114 x 139 cm

 

War Allotments in a London Suburb by Dorothy Coke, 1918Loteamento de Guerra em um subúrbio de Londres, 1918

Dorothy Coke (GB, 1897 – 1979)

 

(c) Michael M. Atwood; Supplied by The Public Catalogue FoundationEstação Victoria, 1918

Corpo da Cruz Verde, Ambulância da Reserva de Mulheres, dirigindo soldados em licença, pintado em 1919

Clare Atwood (GB, 1866–1962)





Uma mulher botânica no século XVII

8 03 2019

 

 

 

Mary_Capel_(1630–1715),_Later_Duchess_of_Beaufort,_and_Her_Sister_Elizabeth_(1633–1678),_Countess_of_Carnarvon (2)DETALHE — Lady Mary Capell, Duquesa de Beaufort

Peter Lely (Holanda-Inglaterra, 1618 – 1680)

óleo sobre tela, 130 x 170 cm

Metropolitan Museum of Art, Nova York

 

 

Lady Mary Somerset [Capell], primeira Duquesa de Beaufort na Inglaterra, (1630 -1715) manteve um grande complexo de jardins na sua propriedade em Badminton.  Foi muito mais do que uma pessoa dedicada ao canteiros e jardins, foi uma séria estudiosa e investigadora de plantas.  Seus jardins não eram um hobby para ela, suas observações e experimentos documentam interesse científico sério que trouxe ao conhecimento da época muitas novidades.

Ativa em se corresponder com botânicos conhecidos como Southwell e Sir Hans Sloane e também com Sir Robert Southwell, Presidente da Royal Society, ela manteve notas preciosas sobre plantas, observações sobre a manutenção delas, germinação de sementes, poda e alimentação de plantas raras.

Selecionou folhas e flores colocando-os em livro. Desenhou com cuidado plantas de seu interesse que ainda podem ser vistos hoje nos 12 volumes que formam o seu Herbário.  Infelizmente sua obra nunca foi publicada.  Mas sobreviveu por mais de 300 anos e hoje se encontra na Biblioteca Botânica do Natural History Museum, Londres.

 

duchess-of-beauforts-hortusSpecimens from the Duchess of Beaufort’s Hortus Siccus, Natural History Museum, London.Espécimes do Hortus Siccus,  da Duquesa de Beaufort, no Museu de História Natural de Londres.

 

A propriedade em Badminton no século XIX

BadmintonMorris_edited

Hoje

Badminton_House

 

5b3b80dea040d01037b8b6fc_IMG_7376

 

Abaixo a obra completa dos retratos das irmãs Capell

 

Mary_Capel_(1630–1715),_Later_Duchess_of_Beaufort,_and_Her_Sister_Elizabeth_(1633–1678),_Countess_of_Carnarvon (3)Lady Mary Capell, Duquesa de Beaufort e sua irmã Elizabeth Capell, Condessa de Carnarvon




8 de março: retratos de mulheres brasileiras, por eles!

8 03 2017

 

 

 

MANOEL SANTIAGO (1897 - 1987) Mulher com Chapéu azul, o.s.t. - 41 x 33 cmMulher com chapéu azul

Manoel Santiago (Brasil, 1897-1987)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

 

 

Oscar Pereira da Silva (1867-1939), Mulher, 1907, Óleo sobre tela, 51 x 41 cmMulher, 1907

Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867-1939)

óleo sobre tela, 51 x 41 cm

 

 

CHANINA (1927-2012). Dama de Vestido Azul, óleo stela, 73 X 50. Assinado e datado (1968)Mulher de vestido azul, 1968

Chanina Luwisz Szejnbejn (Polônia/Brasil 1927 – 2012)

óleo sobre tela,  73 x 50 cm

 

 

Décio_Villares_-_Retrato_de_Moça,_1891Retrato de moça, 1891

Décio Villares (Brasil, 1851 — 1931)

óleo sobre tela

 

 

GastãoWORMS,Mulher com Flor na Mão,óleo s tela ccmadeira(década de 1940)65 x 54 cmMulher com flor na mão, década de 1940

Gastão Worms (Brasil,  1905-1967)

óleo sobre tela colada em madeira, 65 x 54 cm

 

 

T.Kaminagai csua moldura própria - ost - lindos traços da figura feminina 1950 - 55x46 cmMulher com lenço, 1950

Tadashi Kaminagai (Japão/França, 1899- 1982)

óleo sobre tela, 55 x 46 cm

 

 

VIRGILIO DIAS (1956),Repouso[ filha do artista], 2006, ost, 160 x 120 cmRepouso (filha do artista), 2006

Virgílio Dias (Brasil, 1956)

óleo sobre tela,  160 x 120 cm

 

 

CARLOS CHAMBERLLAND (1884-1950) -Portrait de Jovem com Brinco, óleo sobre tela, med. 40 x 32cmRetrato de jovem com brinco

Carlos Chambelland (Brasil, 1884-1950)

óleo sobre tela, 40 x 32 cm

 

 

Douglas Okada (Brasil) africana, 2014, ÓLEO SOBRE TELA 50X70CMAfricana, 2014

Douglas Okada (Brasil, 1984)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

 

 

HENRIQUE BERNARDELLI - Figura feminina, O.S.T.105x95 cm.Figura feminina

Henrique Bernardelli (Chile/Brasil, 1857-1936)

óleo sobre tela, 105 x 95 cm

 

 

Humberto da costa (1948) Figura de Mulher, o.s.t. - 27 x 22. Ass. dat 87Figura de mulher, 1987

Humberto da Costa (Brasil, 1948)

óleo sobre tela, 27 x 22 cm

 

 

José Maria Ribeiro,Figura Feminina, 1978, ost, 48 x 40 cmFigura feminina, 1978

José Maria Ribairo (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 48 x 40 cm

 

 

Wladimir Krivoutz (1904-1972)MulherÓleo sobre tela55 x 46 cmMulher

Wladimir Krivoutz (Rússia/Brasil, 1904-1971)

óleo sobre tela,  55 x 46 cm

 

 

Severino Ramos (1963)Mulher com rosa vermelhaÓleo sobre tela60 x 80 cmMulher com rosa vermelha

Severino Ramos (Brasil, 1963)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

Quissak Jr, Jóvem e Rosa, acrilico sobre tela, 30 x 40.jpgJovem com rosa

Ernesto Sérgio Silva Quissak Júnior (Brasil, 1935-2001)

óleo sobre tela,  30 x 40 cm

 

 

LYDIO BANDEIRA DE MELLO - (Brasil,1929)Figura - óleo sobre tela - 92 x 65 cm - 1960 -Figura, 1960

Lydio Bandeira de Mello (Brasil, 1929)

óleo sobre tela, 92 x 45 cm

 

 

Antonio Joaquim Franco Velasco (Brasil 1780-1833) Retrato de senhora, 1817

Retrato de senhora, 1817

Antônio Joaquim Franco Velasco (Brasil, 1780-1833

Pintura a óleo

 

 

CÂNDIDO PORTINARI. Retrato feminino - o.s.t. - 61 x 50 cm - assinado e datado 58 no cid. (Registrado no Projeto).Retrato feminino, 1958

Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela, 61 x 50 cm

 

 

CHAPMAN, Grover -Figura feminina, O.S.E,1978, 40x30 cm.Figura feminina, 1978

Grover Chapman (EUA/Brasil, 1924-2000)

óleo sobre eucatex,  40 x 30 cm

 

 

Dimitri Ismailovitch (1892-1976), Dedé, ost, 1944, 81x65Dedé, 1944

Dimitri Ismailovich (Rússia/Brasil, 1892-1976)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm

 

 

Eliseu Visconti,A Visita de Louise,OST 81 x 65 Rio 1928 ACIEA visita de Louise, 1928

Eliseu Visconti (Itália/Brasil, 1866-1944)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm

 

 

Emiliano DI CAVALCANTI (Brasil,1897 - 1976)Marina Montini, 1971, ost, 80 x 60 cmMarina Montini, 1971

Emiliano Di Cavalcanti  (Brasil, 1897 – 1976)

óleo sobre tela, 80 x 60 cm

 

 

Luis Claudio Morgilli (Brasil, 1955) Moça com chapéu de palha, ostMoça com chapéu de palha

Luís Cláudio Morgilli (Brasil, 1955)

óleo sobre tela

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De mulheres e rainhas …

5 02 2016

 

 

Joan Beaufort, Queen of Scotland, wife of King James IJoana Beaufort, Rainha da Escócia, esposa do Rei Tiago I, Foremont Armorial, 1562.

 

Frequentemente em aula, meus alunos se surpreendem com o grande número de herdeiros de tronos e de rainhas que morrem em idade que hoje consideraríamos jovem.  A rainha aí acima ilustrada Joana Beaufort (1404-1445) não sofreu desse mal tendo morrido aos 41 anos. Sobreviveu o primeiro marido Rei James I (1394-1437), e ainda casou outra vez com James Stewart, o Cavaleiro Negro de Lorn (1399-1451).  Sorte dela.  Conseguiu dar a luz a muitos filhos que sobreviveram!  Deixou portanto uma longa descendência que se espalhou e multiplicou pela Europa: Jaime II da Escócia (1430-1460), Margaret Stewart, princesa de França (1424-1445), John Stewart, Primeiro Duque de Atholl (1440-1512), James Stewart, Primeiro Duque de Buchan (1442-1499), Joana Stewart, Condessa de Morton (1428-1486), Eleonora da Escócia (1433-1480), Anabella da Escócia (1436-1509), Mary Stewart, Condessa de Buchan (1428-1465), Isabel da Escócia (1426-1499), Andrew Stuart, Bispo de Morray (?- 1501).  John, James e  Andrew Stewart foram filhos do segundo casamento.  Tal feito era incomum, mesmo no início  do século XV, como é o caso.

Quando voltamos os olhos para a Alta Idade Média, a realidade é outra.  Tomemos o caso da Rainha Hildegarde, esposa de Carlos Magno (742 (?) – 814), que casou com ele em 771. Vinha de uma influente família da Alemannia.  Sua união a Carlos Magno durou 12 anos, nos quais ela deu a luz a nove filhos, antes da idade de 25 anos, quando morreu.  Quando seu primeiro filho nasceu, ela mal havia completado 14 anos.  Só três herdeiros homens ficaram desse casamento de Carlos Magno que imediatamente se casou com Fastrada, filha de um conde francês.  A mortalidade infantil era tão grande nessa época que reis procuravam assegurar filhos homens legítimos que pudessem herdar o trono.  Carlos Magno se desapontou com a união a Fastrada que em onze anos lhe deu só duas filhas mulheres, portanto nenhum herdeiro para o trono.  Ela morreu em 794, aos 29 anos.

Carlos Magno não era um homem insaciável.  Mas para assegurar herdeiros ao trono, acabou se casando cinco vezes. Suas esposas foram Himiltrude, Desiderata, Hildegarda de Vinzgouw, Fastrada, Luitegarda da Alemanha.  E muitos filhos.  Filhos legítimos, com Himiltrude: Pepino (v.770-811); com Hildegarda: Carlos (v.772-811), Adelaide (?-774), Rotrude (v.775-810), Pepino de Itália (777-810), Luís I, o Piedoso (778-840), Lotário (778-779), Berta (v.779-823), Gisela (781-ap.814), Hildegarda (782-783).  Com Fastrada: Teodrada (v.785-v.853), Hiltrude (ou Rotrude, Rothilde) (v. 787-?).  E filhos ilegítimos com concubinas: com Madelgarda: Rotilde (790-852), com Gervinda: Adeltruda, com Regina: Drogo (801-855) e Hugo (v.802-844) e com Adelinda: Thierry (807-ap.818).

A procura por herdeiros homens foi uma constante na história.  Não prover qualquer reino com um legítimo herdeiro foi sempre culpa da mulher, muitas vezes desconsiderada por sua inabilidade de salvar as alianças políticas, colocada de lado, divorciada legalmente ou não, abandonada, assassinada.  Levou muito tempo para a mulher ser considerada uma pessoa além de provedora de filhos homens.

Ainda temos vestígios desses problemas.  Uma das preferências por filhos homens das mais conhecidas é a que levou a China a ter, hoje, uma superpopulação de cidadãos do sexo masculino.  O governo chinês, para conter o crescimento populacional no século XX, proibiu famílias de terem mais de um filho (essa regra acaba de ser mudada em 2016, para dois filhos).  Com isso bebês do sexo feminino sofreram infanticídio nas mãos dos próprios pais que procurariam mais tarde por um filho homem.

Com esse conhecimento é praticamente impossível que não se apoie o  feminismo.  Eu sou feminista.  E você?





Mulheres notáveis: Galla Placídia, texto de Francisco da Silveira Bueno

10 07 2015

 

 

Aelia_Galla_PlacidiaRetrato atribuído a Galla Placídia, séc. III a V

Pintura em miniatura, medalhão de vidro

Museu Cívico Cristão, Bréscia

 

 

Galla Placídia

 

Se do pai tinha sangue espanhol, tinha sangue oriental, pelo lado materno, e dessa mistura saiu tão raro tipo de mulher política, administradora, de grande visão artística e sumamente religiosa. A sua entrada no mundo político de Roma foi, justamente, num momento angustioso da Cidade Eterna: Alarico vencia os romanos, ele que aprendera os segredos da guerra sob as ordens de Teodósio, saqueava e devastava toda a Itália com as suas hordas de visigodos. O momento era trágico e dentre as cinzas e labaredas da destruição de Roma, surge Galla Placídia para vencer, sozinha, esses bárbaros. E de que jeito? Pelo sacrifício de todo o seu orgulho. Ela, filha de Teodósio, o Grande, grega pelo nascimento, aceita casar-se com Ataulfo, cunhado de Alarico, com uma condição, os visigodos iriam para a Espanha a fim de destruir os Vândalos. Era o ano 414. Integrada agora na gente visigótica, acompanha Ataulfo: os Vândalos são batidos, expulsos, jogados da Espanha para o norte da África. Mas na batalha final, no ano 415, morre Ataulfo e Placídia está livre. De volta a Roma, onde seu irmão Honório é o imperador, casa-se com Constâncio, o maior capitão do momento. Nascem-lhe dois filhos: Honória e Valentiniano. Escolhida Ravena para capital do império romano pelo próprio Honório, ei-la que aí sonha o seu sonho maior: colocar no trono o seu próprio filho. Era uma criança, como seria possível? A sua tenacidade, a sua habilidade, jogando contra as próprias ideias do irmão todo poderoso, prepara toda a ascensão de Valentiniano. A morte de Honório vem ajudar os seus projetos: Valentiniano sobre ao trono, mas quem reina, de verdade, é a Galla Placídia e reinará por trinta – cinco anos.

 

Em: Pelas estradas do sol, Francisco da Silveira Bueno, São Paulo, Saraiva: 1967, pp. 108-109.





Alguém em quem se espelhar…

20 12 2014

 

monroe-pop-art-roy-lichtensteinNão me importo em viver em um mundo de homens, desde que eu possa ser uma mulher nele…” Ilustração à maneira de Roy Lichtenstein.

[Não consegui nenhuma referência idônea sobre a autoria dessa obra].

 

 

A conversa entre amigas questionava em quem nos espelhamos quando adolescentes.  O grupo de mulheres de idades e experiências variadas, entre elas umas que haviam quebrado paradigmas e sucedido onde anteriormente acreditava-se que não poderiam, constatou que teria sido muito bom, se na nossa juventude tivéssemos tido exemplos de mulheres, que pensando fora da “caixa social”, tivessem servido de modelo para o caminho do sucesso. Ninguém confundiu sucesso com fama, o que acontece com frequência. Falávamos de sucesso como realização pessoal ou profissional, atingindo gols e preenchendo sonhos que vão além do que é esperado do sexo feminino na nossa sociedade. Surpreende que nenhuma das presentes teve o apoio de um exemplo a seguir, de uma pessoa em quem se espelhar.

Nas últimas décadas, ocasionalmente, ao terminar um livro ou ver um filme, ponderei: “Se eu tivesse tido acesso a essa informação…; se eu tivesse tido conhecimento de que mulheres podiam…”  minha vida talvez tivesse sido diferente. Não que eu fosse rodeada de maus exemplos. Não é isso, mas o meu temperamento aventureiro e rebelde encontrou pouca repercussão na família, quase nenhum entendimento e raríssimas palavras de incentivo. Nossos valores eram por demais tradicionais, enraizados na classe média carioca. Além do mais, era mais fácil para a família não dar permissão do que ter que se questionar sobre atitudes tomadas automaticamente. Essa falta de “aprovação familiar” muito me custou em termos de timidez e coragem para enfrentar sozinha os tabus que me rodeavam.

Era difícil imaginar uma reprovação familiar maior do que minhas atitudes e desejos já incitavam. Permanecer no seio familiar e enfrentar um estresse diário por querer um rumo divergente daquele para o qual eu havia sido programada, teria sido mais fácil, muito mais fácil, se eu tivesse tido um exemplo de sucesso à minha frente, que houvesse de alguma maneira quebrado tabus, superado dificuldades. Não que eu quisesse fazer coisas do arco da velha, mas havia muita circunscrição às profissões possíveis, aos namorados, aos amigos, ao ir e vir. Tudo, uma grande bobagem que não levava em consideração a jovem de dezesseis, dezessete anos, mas unicamente os medos e preocupações sociais dos mais velhos. Hoje, não sei se teria sido uma boa médica. É provável que não. É provável que tivesse, enfim, depois de erros e acertos, encontrado o meu caminho nas ciências humanas como de fato o fiz, mas voltando os olhos para o passado, acredito que teria sido mais satisfatório, e muito menos dramático, ter tido a oportunidade de errar por mim mesma.

Essa longa divagação sobre as escolhas que jovens mulheres fazem tem muito a ver com uma sincronicidade de eventos, todos na mesma semana: o encontro com essas amigas, a leitura do livro de Maria Thereza Wolff, Minha vida em Ipanema, o filme O Sorriso da Monalisa e o conhecimento recentemente adquirido de algumas ONGs americanas dedicadas a dar exatamente esse tipo de apoio a jovens que queiram expandir os papeis para os quais estão programados. Ter conhecimento de pessoas que passaram por dificuldades semelhantes pode certamente abrir as portas da mente, deixar entreabertas as passagens, para que a coragem de enfrentar as lutas se faça sentir.  Essas lutas fazem parte do crescimento emocional, interior, de um adulto responsável. Como os americanos, acredito que “role models”, pessoas em quem podemos nos espelhar, são importantes para o adolescente e ajudam a que se ultrapasse as barreiras pessoais com maior facilidade.





O papel das mulheres no século XII

2 09 2014

 

 

CodexManesse-1305-40-ManinBasket -- a medieval illumination from the Codex Manness, c. 1304- c 1340Mulher elevando o namorado na cesta até seus aposentos, Codex Manness, c. 1304- c 1340

 

 

Na sala de aula é comum vermos a imaginação das jovens se incendiar quando imagens de belas senhoras ou senhoritas, vestidas como princesas são projetadas na tela para esclarecimento de pontos históricos em um programa de iluminuras medievais.  Realmente há ocasiões em que as roupas parecem maravilhosas, e as festas na cortes coloridas, não se desbotam mesmo passados mais de cinco, seis, sete, séculos.  No entanto a cabeça de quem vive no século XXI tem dificuldade de entender tudo o que era esperado de uma mulher… além é claro de tudo que lhe era proibido na idade média.   Para entender esse período precisamos ler muito. A pesquisa sobre o comportamento social das “pessoas invisíveis” durante a idade média só foi levada a sério na segunda metade do século XX.  Pessoas invisíveis são todas aquelas que não lideraram um território geográfico, que não foram nobreza nem clero de importância, que não foram pensadores.  São as pessoas comuns, mercadores, comerciantes, trabalhadores, homens e mulheres.  Essas últimas só mesmo as mais importantes tiveram ocasião de serem lembradas. Assim, a pesquisa sobre o comportamento desses invisíveis requer muito lida em documentos de difícil acesso  e de difícil leitura.  Mas historiadores europeus, principalmente franceses, deram um grande empurrão nesses conhecimentos.  Hoje sabemos muito mais da textura social na idade média.  O parágrafo que segue é ilustrativo do que era esperado do comportamento de uma mulher na corte, desde a adolescência até viuvez.

 

“No século XII, padres e guerreiros esperavam da dama que, depois de ter sido filha dócil, esposa clemente, mãe fecunda, ela fornecesse em sua velhice, pelo fervor de sua piedade e pelo rigor de suas renúncias, algum bafio de santidade à casa que a acolhera. Era o dom último que ela oferecia a esse homem que a deflorara bem jovem, que se abrandara em seus braços, cuja piedade se reavivara com a sua e que depositara numerosas vezes em seu seio o germe dos rapazes que mais tarde, na viuvez, o apoiaram e que ela ajudaria com seus conselhos a conduzirem-se melhor. Dominada, por certo. Entretanto, que se tranquilizavam clamando bem alto sua superioridade nativa, que a julgavam contudo capaz de curar os corpos, de salvar as almas, e que se entregavam nas mãos das mulheres para que seus despojos carnais depois de seu ultimo suspiro fossem convenientemente preparados e sua memória fielmente conservada pelos século dos séculos”. 

 

Em: As damas do século XII, Georges Duby, São Paulo, Companhia das Letras: 2013, p. 248.








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