Natal, por Murilo Mendes

18 12 2019

 

 

 

Lucia de Lima (Brasil, contemp) NatalNatal

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica

 

 

“Natal é ver os magos, não reis, que trazem a cultura, a sabedoria, a fascinação do oriente geográfico e do oriente interno de cada um; é ver a riqueza e variedade da terra, a multiplicação compulsória dos pães e dos peixes, a re-unificação da família humana numa assembleia universal, o prazer das futuras viagens, o cérebro eletrônico, a subida aos espaços interestelares; é ver a invisibilidade de Deus, que escapa à televisão.”

 

Em:Chaves para a festa do Natal, Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980, p.410.





Natal, por Murilo Mendes

15 12 2019

 

 

 

Rosina Becker do Vale, NatividadeNatividade com Reis Magos, 1964

Rosina Becker do Valle (Brasil, 1914 – 2000)

guache sobre papel, 36 x 28 cm

 

 

“Natal é ver a festa, a alegria, a visagem do sobrenatural ao alcance de todos, a imediata matéria corporal, máximo emblema, a própria substância de Deus-homem encarnado.  É ver a necessidade do enigma para poder um dia decifrá-lo.”

 

Em: Chaves para a festa do NatalTransístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980, p.409.





Murilo Mendes sobre o Natal

2 12 2019

 

 

 

ANTONIO POTEIRO (1925 - 2010)Nascimento de Cristo,1979,o.s.t. 44 x 49Nascimento de Cristo, 1979

Antônio Poteiro ( Brasil, 1925 – 2010)

óleo sobre tela, 44 x 49 cm

 

 

“Natal é ver a festa, ora pacífica, ora sangrenta, do futuro. É ver um menino que nasce; mediador entre a culpa e o perdão, vive na rua dos homens,dialoga com eles, assume a força do pão e do vinho, morre crucificado pelo poder de Roma, o clero e a polícia de Israel, para resumir no seu corpo e espírito o drama existencial de todos nós dilacerados, ressucitando-se e ressucitando-nos para a vida futura que será inteira mudança de valores, metamorfose, fundação de uma nova sociedade não consumidora, de um novo céu e uma nova terra.”

 

Em: Chaves para a festa do Natal, Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980, p.409.





Caravaggio, nas palavras de Murilo Mendes

2 09 2019

 

 

 

Crucifixion_of_Saint_Peter-Caravaggio_(c.1600).jpgCrucificação de São Pedro, c. 1600

Michelangelo Merisi da Caravaggio (Itália, 1571 – 1610)

óleo sobre tela,  230 x 175 cm

Igreja de Santa Maria do Povo, Roma

 

 

♦ “Michelangelo Merisi dito il  Caravaggio porque nascido em Caravaggio, aldeia da região Bergamasca: aos 16 anos já com a pintura no sangue transfere-se para Roma onde executará obras capitais,  a vocação de Mateus na Igreja de San Luigi de Francesi, Paulo a caminho de Damasco e Pedro crucificado, em Santa Maria del Popolo.

♦  De natureza selvagem irreverente anticonformista, prestigiam-no altos senhores, altas putas, eclesiásticos. Divide-se em rixas discussões de rua taverna bordel. Desafia inimigos a duelo, fere, é ferido.

♦  Ataca a rude matéria da vida. Ajudado pela técnica do claro-escuro inventa a pintura objetiva. O povo participa da ação.  Cresce o gênio do detalhe. O realismo transpõe os esquemas herdados, adianta-se em concisão e intensidade: Caravaggio fixa as coisas na sua consistência corpórea, torna polêmica a luz, que passa do elemento secundário a protagonista.

♦  É um deus, o deus Caravaggio. Entre seus numerosos descendentes, Velásquez e Rembrandt. Qual dos três o maior? Nenhum; os três são maiores.

♦  Caravaggio durante uma rixa mata à força de espada um certo Ranuncio Tommaso, que só por isto é inaugurado. Temendo a fúria pontificia foge para Malta onde o grão-mestre da ordem, Alof de Wignacourt, recebe-o em fasto e lhe empresta dois escravos para segui-lo. Futuramente aparentado a Rimbaud, apesar da glória Caravaggio permanece inadaptável, feroz, surdo ao diálogo. Tateando no claro-escuro, bêbado seminu sem flores vagueia pela Itália.

♦  Praia de Porto Ercole (Toscana). Contrai malária. Perde os papéis de identidade, a bagagem e as telas que trouxera de Malta. Tendo litigado com o grão-mestre, os esbirros deste desencadeiam a vingança. Ferido, golpeado no rosto, grita em vão por socorro. Apostrofa os cães e suas fezes. Michelangelo Merisi dito il  Caravaggio, outrora chama, desespera-se de não poder pintar — escuro demais — o abismo do nada que já desvenda; e — claro de mais — o espaço da própria morte.

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980, pp. 214-215.





Ainda sobre Magritte, texto de Murilo Mendes

21 08 2018

 

 

Magritte, a clarividencia, 1936A clarividência, 1936

[La clairvoyance]

René Magritte (Bélgica, 1898-1967)

óleo sobre tela,  54 x 64 cm

Art Institute of Chicago

 

 

“Magritte esclarece-nos: “L’art de peindre — tel que je le conçois — se borne à la description de la pensée que unit — dans l’ordre qui évoque le mystère — ce qui le monde manifeste de visible“. Mais ainda: “Les figures vagues ont une signification aussi nécessaire, aussi parfaite que les précises“.

Uma de suas tarefas principais consiste portanto em dar forma concreta ao impreciso, onde ele se encontraria com um seu antípoda, Max Bense, que aconselha o artista a elaborar os pensamentos como formas.  As perigosas fronteiras entre poesia e pintura foram de há muito estreitadas por Magritte, ao enquadrar elementos alógicos ou arbitrários numa trama plástica, pelo que poderia ser também aparentadoao Max Ernst dos grandes momentos.  Já se disse que Magritte combate a razão com as armas desta.Mas alguém imaginaria justapor Lautréamont à Descartes? A obra de Magritte, que sabe domesticar o absurdo, leva-nos a crer nesta possibilidade”.

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980,p.189-190.

 

 





Sobre Magritte, Murilo Mendes

26 07 2018

 

 

Magritte, o sobretudo de Pascal, OST, MenilO sobretudo de Pascal,  1954

[Le manteau de Pascal]

René Magritte (Bélgica, 1898-1967]

óleo sobre tela, 59 x 49 cm

The Menil Collection, Texas

 

 

“Todavia certos pintores — como também certos escritores — apesar de praticarem o culto do sonho e do inconsciente, que muito antes de Freud os ligava aos românticos (especialmente a Novalis, Achim von Arnin, Hoffmann e Nerval), não eram de fato uns instintivos, mesmo porque percebiam nitidamente a polaridade entre forças cerebrais e forças ancestrais. Em breve fundou-se uma linha divisória da teoria e da prática. Pascal escrevera: “Nous sommes automate autant qu’esprit“. Os revisionistas poderiam alterar a fórmula e dizer “Nous sommes esprit autant qu’ automate“. Não foi por acaso que alguns adeptos da doutrina passaram sem choque para o marxismo, que comporta, além de seu aspecto destruidor e polêmico, toda uma construção. O surrealismo, teoricamente inimigo da cultura, tornou-se num segundo tempo um fato de cultura; e muitos surrealistas, superando a técnica do automatismo, dispuseram-se a trabalhar com um método planificador. Por isso mesmo, quando há uns vinte anos atrás Breton procedeu em Nova Iorque à revisão analítica do movimento, a contragosto incluía Magritte entre os pintores surrealistas, insinuando que o seu processo de compor não era automático, antes plenamente deliberado”.

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980,p.188-9.

 





Turner, anotações de Murilo Mendes

28 01 2016

 

 

111turnePaisagem com rio e baía ao fundo, 1835-40

Joseph Mallord William Turner (GB, 1775-1851)

óleo sobre tela, 93 x 123 cm

Museu do Louvre, Paris

 

 

♦  Vive? Pseudônimo, isolado numa casa de Chelsea, domínio da desordem e da poeira. O irmão de Ruskin refere que nunca viu nada tão impressionante “desde Pompéia”.

 

♦  Ignoram-no os acadêmicos ou não. Entre sábado e segunda-feira eclipsa-se na periferia londrina, instala-se nos bordéis: decifrará ou não o enigma do sexo, suas cores mordentes?

 

♦  Habita, familiar, a faixa do relâmpago, as ruínas do maremoto, a chama extinta, o reino das ondas giróvagas, o balanço dos navios correlativos, a fantasmagoria de Veneza que dorme esquecida em si própria, auto-espectra, a subversão da luz. Não “representa” coisa alguma. O pincel clandestino precede a marcha do impressionismo.

 

♦  É William Turner. A luz interna e a luz externa conjugam-se no seu quadro, onde a manhã anoitece.

 

1973

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980, p. 217.





Giorgio de Chirico, anotações de Murilo Mendes

5 01 2016

 

hector-and-andromacheHeitor e Andrômaca, 1917

Giorgio de Chirico (Grécia, 1888-1978)

óleo sobre tela, 90 x 60 cm

Coleção Particular

 

 

♦ Giorgio de Chirico  foi um dos ídolos da minha mocidade. Nessa época eu admirava seus quadros somente de fotografia: mais tarde, ao conhecer os originais, notei que muitos ganham com a reprodução. Alguns poemas da minha fase inicial descendem — direta ou colateralmente — do primeiro de Chirico aquele dos manequins, dos interiores “metafísicos”, do deserto melancólico das praças, italianas ou não, transpostas a uma situação particular de sonho; o poeta de uma Grécia heterogênea, mental e plástica, infinitamente recomeçada, onde o absoluto serve o relativo. Pintura, certo, de evasão, de recriação da memória, mas com implicações revolucionárias: contra o predomínio da mecânica, contra a prepotência da razão, contra certos postulados da civilização burguesa.

 

♦  O segundo de Chirico, involuindo numa direção quase acadêmica, constitui para a crítica um enigma: vestido com uma roupagem do século 17, dirige perguntas a Édipo que se surpreende ao ver renegada a arte moderna por um de seus próprios criadores, a quem André Breton definiu figura maior do surrealismo, com seu irmão e inspirador Alberto Savinio.

 

♦  Desde a primeira época da formação do surrealismo informei-me avidamente sobre essa técnica de vanguarda, a qual, embora eu não adotasse como sistema, me fascinava, compelindo-me à criação de uma atmosfera insólita, e ao abandono de esquemas fáceis ou previstos. Tratava-se de um de dever da cultura. O Brasil, segundo Jorge de Sena, é surrealista de nascimento, de modo que a minha “conversão”, ainda é parcial, àquele método, não foi difícil. Fenômeno análogo verifica-se com Ismael Nery. Não é um pintor surrealista ortodoxo, mas em muitos quadros e desenhos levanta uma realidade “autre”, na linha surrealista da invenção e metamorfose; sem perder a força plástica. Entre os anos de 20 e 30 ele fora à Europa duas vezes, conhecendo alguns membros do grupo em Paris. Trouxe-me abundante documentação sobre o movimento, em especial sobre de Chirico e Max Ernst (outro que me inspirou), cujos nomes ainda estavam longe da irradiação atual.

 

♦  Instalando-me em Roma, logo contatei escritores e artistas. Fui visitar de Chirico (que, a convite de Ungaretti, assistira na universidade à minha aula inaugural). Sua casa da Piazza di Spagna acha-se estupendamente situada junto daquela onde morreu Keats, com vistas para Trinità dei Monti e a Villa Medici. Claro que estava bem informado sobre sua involução, conhecendo muitos quadros dos últimos períodos. Apesar disto, julguei que seu ambiente conservasse vestígios dos tempos do primeiro de Chirico. Enganei-me: os móveis, a decoração, os quadros do próprio pintor (nus medíocres, auto-retratos com chapéus, emplumados), aproximavam-se do gosto burguês. Felizmente lá conheci sua sobrinha, a bela Angelica, filha de Savinio, diretora duma galeria d’arte em Roma; que escapou até hoje de ser retratada pelo segundo de Chirico, e da qual me tornei amigo. Já com o pintor é difícil fundar uma amizade: seu orgulho e excessivo narcisismo dificultam a comunicação.

 

♦  Não importa. Mesmo admitindo que ele reúna em sua pessoa Dr. Jekyll e Mister Hyde, mesmo estranhando o ambiente de sua casa, tão diverso dos interiores “metafísicos”, mesmo reprovando o inimigo da arte moderna que implica o personagem bufo, rival de Dali, a brilhar na televisão, para mim (e, certamente, para muitos) o primeiro de Chirico, fabuloso, permanece. Procedido, talvez, apenas por Monsiu Desiderio, ele é um anunciador de novos tempos, o criador de uma nova dimensão do sagrado, de um espaço específico da pintura de situações enigmáticas e alusões secretas, fautor da passagem a infra-estrutura do subconsciente à supra-estrutura artística, operação esta completada pela sua considerável novela-poema em prosa “Ebdómero”.

 

1971

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980, pp. 218-220.





Joan Miró, anotações de Murilo Mendes

8 05 2015

harlequins-carnivalO Carnaval do Arlequim, 1925

Joan Miró (Espanha, 1893-1983)

óleo sobre tela, 66 x 90 cm

Albright-Knox Art Gallery, Buffalo

 

 

Joan Miró

 

 

♦ Miró declara que não pode separar a poesia da pintura. Rompe a linha convencional do discurso realista, criando a sigla, o número plástico, a alusão.

 

♦ Exorciza o lado mecânico do nosso tempo. Organizando a infância futura, consegue, em todos os casos, conciliar sonho e disciplina racional.

 

♦ Sacrifica a quantidade da informação à qualidade lírica, a espessura à sutileza.

 

♦ Nem surrealista, nem abstrato ortodoxo, escapa às etiquetas.

 

♦ Sabe que o mundo através de seus sistemas gastos impede por exemplo o pássaro de telegrafar à pedra; impede as estrelas de jogarem aos dados; a formiga de pedir a palavra; um cachorro de puxar aquela moça por um cordel.

 

♦ Encontrei Miró em Paris, Barcelona, Palma de Maiorca, Roma. Vi-o, artesão refinado, atento à transposição da forma, ao limite do objeto. Traduz a cenografia do mar, decifra o enigma da bola, do peixe, do triângulo. Põe o cosmo no bolso. Calígrafo, criador de signos, invencível inventor.

 

♦ Miró extrai o maravilhoso da coisa imediata, visível; transforma em realidade a faixa onírica.

1973

 

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980,pp. 224-25.





Rembrandt, anotações de Murilo Mendes

12 03 2015

 

 

100portrHendrickje Stoffels à janela, 1657

Rembrandt van Rijn (Holanda, 1606 -1669)

óleo sobre tela, 76 x 60 cm

Staatliche Museen, Berlim

 

 

Rembrandt

 

♦  Sustentado por ácidos e ásperos instrumentos de pintura e de gravura, atento aos corpos sucessivos de Saskia ou Hendrickje e às metamorfoses de Tito, investiga o objeto, os sentidos, a vida imediata ou alegórica — lá fora ou no interno da Bíblia; rejeitando a alternativa do bem e do mal, sob a tensão constante dum pensamento ordenador do caos. Navios da Europa e do Oriente trazem-lhe ouro, pedras raras, telas, tapeçarias e outro símbolos fora da palavra. Depois de abraçar a faixa dos séculos, pela ciência do claro-escuro divide-a. Segurando a vida, explode-lhe energia. Assiste à crucificação, logo depois aborda o Cristo na  tenda de Emaús.

 

♦ Até que circundado de credores, expulso dos florins e das categorias do supérfluo, alinha-se entre párias, despedidos, judeus, renegados,  contestadores da lógica. Esgotados os dissensos do filho pródigo e o catálogo dos corpos asteroides ou não, assume ao máximo a densidade da condição humana. Prosseguindo a linha da posteridade de Jó sem assistência no diálogo, procurando em vão, através numerosos autorretratos, identificar-se, entrevendo no último instante o moinho do seu pai a moer o tempo, Rembrandt van Rijn morre, abolido pela restrita memória dos homens que nas ruas aguadas e curvas de Amsterdã repetem este outro mal-entendido: a técnica insistente da palavra “viver”.

 

 

Em: Transístor, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980,p.216.

 








%d blogueiros gostam disto: