Música catártica: lembrando meu pai e Francisco Mignone

3 09 2017

 

 

DSC03294Meu pai, Celso.

 

O finalzinho de agosto é sempre uma época emotiva para mim.  Meu irmão mais novo faleceu abruptamente no dia 30 e lá se vão 14 anos, e meu pai comemorava seu aniversário no dia 31.  Este ano ele teria feito 105 anos. Morreu cedo pelos padrões atuais. Morreu há 36 anos.  Ambos fazem-me falta.  Em geral escrevo alguma coisa, posto uma foto, faço um aceno a ambas as datas.  Este ano foi exceção.  Tentei mas não consegui.  Ando distraída.  Muita coisa a fazer e está difícil refletir. Hoje, no entanto, uns poucos dias após essas datas, uma onda de memórias me tomou de surpresa, desencadeada por um concerto no Planetário do Rio de Janeiro celebrando os 120 anos de nascimento de Francisco Mignone, organizado por Nelson de Franco.

Quando estudava piano, tive um objetivo: queria poder tocar as valsas brasileiras em particular as de Francisco Mignone, as valsas de esquina.  Cheguei a tocar umas delas mas logo desisti do piano.  Foram muitos anos de aprendizado.  Até pouco tempo tive piano em casa.  Aprendi a tocar no piano herdado de minha avó paterna, uma excelente pianista.  E até oito anos atrás, quando meu apto comportava, tive piano em casa, exceto pelos anos de estudante nos EUA.  Logo que pude, já estabelecida profissionalmente, comprei um de meia cauda que muitos anos depois trouxe comigo para o Brasil. Mas não toco para esse nível.  Era o meu Lamborghini na sala de casa, à maneira de Eike Batista. Hoje me lembrei da minha infância enquanto ouvia Mignone.  Lembrei-me do quanto a música fez parte do meu dia a dia, nos primeiros 12 anos de vida. Porque foi  na infância a decisão de estudar para tocar valsas brasileiras. Era fascinada pelas composições de Alberto Nepomuceno a Mignone, ambos entre meus compositores favoritos, mesmo naquela época.   Música é como perfume. Passa por nós e é capaz de trazer aqueles momentos quase primordiais em que primeiro sentimos acordes ou perfumes específicos.

 

DSC03278Meus pais, em Petrópolis, Museu Imperial.

 

Memórias são interessantes.  O mesmo evento e cada participante se lembra de uma coisa diferente.  Já tive discussões incríveis com meus irmãos sobre memórias de família.  Sou a mais velha desta geração e por isso sinto a responsabilidade das memórias.  Porque houve, na minha família, dois tipos de família: antes e depois do infarto do miocárdio de meu pai.  Eu tinha 12 anos.  Ele 48.  Meus irmãos mais novos tinham quase 9 e 5.  Eles praticamente só se lembram de meu pai de uma maneira.  Enquanto, eu, me lembro do que chamo de meu pai jovem.

Meu pai jovem  nadava na praia, depois da arrebentação até o perdermos de vista! Meu pai jovem era um homem alegre e apaixonado por música.   Eram dele, compras suas e de mais ninguém, aqueles discos de música clássica, de ópera, de orquestras estrangeiras, discos grandes de cerâmica, antes dos long-plays, que eram guardados em álbuns; pelo menos na nossa casa eram. Meu pai, o cientista, formado em química industrial, o professor de física (formou-se em física quando eu era criança, me lembro de ir à sua formatura) era um homem de fortes emoções, contidas sob a máscara da ciência. Era também um homem que se entregava às paixões.  Dessas a família se lembra de algumas: as modificações que fazia em seu carro, dos peixes de aquário e  da fotografia de planta e flores. Hoje, me lembrei de seu amor pela música.

 

DSC03280A família toda, em um Carnaval. Eu tinha oito anos e meio, meu pai 44.

 

Ele deveria estar feliz com as minhas aulas de piano. Ainda que não me lembre de ter dito isso um dia.  Meu pai era daquele tipo antigo.  Duro na queda.  Jamais diria essas coisas que os pais modernos dizem:  eu te amo; estou orgulhoso de você!  Essas coisas de cinema americano que os pais brasileiros de hoje parecem ter adotado. Não. Papai não falava essas coisas.  Era para entendermos que ele nos amava e isso era suficiente. Mas imagino que ele estivesse esperançoso com o meu aprendizado de piano – que não me foi imposto, foi pedido por mim.  Digo isso porque fui com ele inúmeras vezes a alguns concertos, e ainda aos recitais de alunos da Escola Nacional de Música.  Esse era um programa que fazíamos juntos.  Eu toda prosa, de vestido de passear, ia com papai; em casa ficavam minha mãe com meus irmãos.  Quantas vezes? Não sei, acredito que fossem aos sábados, à tarde, os recitais de alunos e professores, de canto e piano.  Talvez ele também quisesse me ajudar a controlar o pânico que sempre tive de tocar para o público.  Recitais, para mim, eram um inferno pessoal.  Nunca me esqueço do primeiro vexame: congelar no palco ao interpretar, uma sonatina de Khulau, tempos depois, a mesma paralisia na sonata para piano de Mozart nº 16 em dó maior, uma lindeza de peça.  Peças que eu podia tocar perfeitamente bem em casa, ou para minha professora. Para mim, o piano, a música, o tocar piano, foi sempre uma experiência íntima.  Não queria ninguém prestando atenção naquele dialogo que eu travava com o compositor através dos meus dedos (que erravam muito quando eu sabia ter plateia). Papai não falava sobre música, não sei se tinha conhecimento para isso, mas se deixava emocionar, como deixava que eu também me emocionasse com minhas preferidas.

 

DSC03290Meu pai, acredito que na sua formatura na Escola Nacional de Química.

 

Sua mãe havia sido uma excelente pianista, ela e o irmão também:  Sara e Jayme. Não os conheci.  Mas já ouvi histórias de pessoas fora da família – minha avó materna entre elas, que eram conhecidos os saraus organizados na casa deles na antiga e tradicional Tijuca.  Mas minha avó ficou doente e permaneceu internada por 26 anos.  Foi para a Casa de Saúde (já soube o nome; não me recordo agora) quando meu pai tinha 19 anos.  E me pergunto hoje se parte da emoção dele com a música não seria também porque ela o lembrava dos bons tempos da adolescência, quando ainda ouvia vovó tocar piano, antes do evento catastrófico de sua internação.

Este pai, amante da música, gostava de ópera, de algumas árias em especial. Foi com ele que aprendi a reconhecer as árias mais famosas das mais conhecidas óperas.  Poucos dias antes de falecer, quando ele e minha mãe me visitavam nos EUA, fiz questão de levá-los ao Metropolitan.  A ocasião foi dedicada à Tosca de Puccini.  Foi importante levá-los lá, um reconhecimento de sua educação, talvez, principalmente, quando mais tarde, refleti sobre a ocasião, depois que ele faleceu meros 20 dias após essa aventura nova-iorquina.

 

DSC03287Papai aos 60 anos.

 

Ontem, para surpresa de meu marido sentado a meu lado no concerto, me debulhei em lágrimas ouvindo Francisco Mignone e suas belas valsas de esquina. Todo um passado de aprendizagem, de sonhos inatingíveis, ocasiões especiais, vieram à mente.  Valsas choronas, tão brasileiras, por tanto tempo longe dos meus ouvidos radicados no estrangeiro, arrancaram alguns dos melhores momentos de minha infância do cantinho obscuro em que se encontravam . Além da nostalgia,  senti também a responsabilidade de lembrar aos familiares, desse pai, avô,  e hoje bisavô, que amava a música clássica e não só as ciências.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, setembro 2017.

 

 





Música Brasileira, soneto de Olavo Bilac

1 12 2015

 

 

Candido Portinari,Samba,1956,ost,BancoCentraldoBrasil, BrasiliaSamba, 1956

Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela

Pinacoteca do Banco Central do Brasil, Brasília

 

 

Música Brasileira

 

Olavo Bilac

 

Tens, às vezes, o fogo soberano

Do amor: encerras a cadência, acesa

Em requebros e encantos de impureza,

Todo o feitiço do pecado humano.

 

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza

Dos desertos, das matas e  do oceano:

Bárbara poracé, banzo africano,

E soluços de trova portuguesa.

 

És samba e jongo, xiba e fado, cujos

Acordes são desejos e orfandades

De selvagens, cativos e marujos:

 

E em nostalgias e paixões consistes,

Lasciva dor, beijo de três saudades,

Flor amorosa de três raças tristes.

 

Originalmente publicado em Tarde, Livraria Francisco Alves, RJ, 1919, p.p. 16-17. Aqui em: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, ed. Manoel Bandeira, 3ª edição, Rio de Janeiro, Departamento da Imprensa Nacional:  1951. pp: 231.





O virador de páginas de David Leavitt – Resenha

4 09 2014

 

 

caillebotte-gustave-jovem tocando piano, 1876, ost, col partJovem tocando piano, 1876

Gustave Caillebotte (França, 1848-1894 )

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

Nas mãos de Guy de Maupassant esse romance teria sido exemplar. Levaria todas as cinco estrelas que tenho direito a dar. Digo isso porque há algo de Maupassant na leveza com que a narrativa se desenrola e na intenção sócio-realista. Infelizmente falta a David Leavitt o cuidado com a estrutura da trama e com os diálogos, características em que o escritor francês se esmerava. Assim como está, esse romance dá a impressão de uma obra feita às pressas, na coxa, sem finesse. Por vezes a narrativa muda de ponto de vista abruptamente e ênfase é dada a personagens secundários em detrimento de um aprofundamento nas emoções e nas razões do comportamento dos que identificamos como principais. Por que certos detalhes são acentuados roubando o vigor à história? Toda a narrativa, da estrutura ao diálogo, do ritmo ao desfecho – e este é inconcluso — poderia ter sido trabalhada e como resultado O virador de páginas seria uma obra de impacto. Falta conteúdo psicológico e emocional.

 

O_VIRADOR_DE_PAGINAS_1235948831P

David Leavitt é um desses nomes que aparecem em conversas literárias aqui e ali, um nome com peso social, amplamente divulgado nos círculos gays e literários. É possível que eu tenha escolhido para minha apresentação ao autor um de seus livros mais fracos. Pena, porque vou custar a abrir outra publicação dele.

Os temas, os assuntos, são de primeira linha. Todos são temas universais, tratando das dificuldades por que passam os seres humanos. Em primeiro plano: a difícil, frustrante, aniquiladora descoberta das nossas limitações. Saber que sonhos afagados por anos, por uma vida inteira, não poderão jamais se concretizar, porque sonhamos além das nossas habilidades. Em segundo: a apresentação, quando ainda se é muito jovem, aos desencontros amorosos, para os quais a vida parece ser terreno fértil — o dar-se a quem não merece, a quem não dá valor; e o ser desejado por quem não temos atração; assunto explorado por muitos e tão sucintamente colocado no esplêndido poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. Esses dois temas recheiam o que há de melhor na produção literária há séculos e permanecem em pauta porque falam de condições inerentes ao ser humano. Falam da paixão.

 

118David Leavitt

As ideias centrais em O virador de páginas são boas, mas pobremente executadas. Como está, o livro é medíocre. Sérgio Viotti que fez a tradução, escreve na orelha: “Ouvido de uma precisão teatral, que suas cenas dialogadas podem facilmente ser diálogos para ver e escutar…” Infelizmente Viotti numa tentativa de exaltar o romance, se concentrou justamente no que achei de mais leviano na obra. Os diálogos são sim, como falamos. E nossa fala é repetitiva, muitas vezes vazia, sem qualquer intenção de criatividade. Obrigar o leitor a ler diálogos que não levam a nada é desmerecer a atenção que o leitor lhe dá. Não é estofo para uma obra literária. Vamos a um exemplo de muitos:

“– Alô?
— Alden?
— Não, Paul.
— Paul, aqui é Joseph Mansourian. Como vai?
— Estou bem. – Sentando-se, Paul tirou o som da televisão, ajeitou o cabelo para trás, com a mão.” [p.156]

Sinto não poder recomendar O virador de paginas. Sei que em breve o terei esquecido, porque ainda há obras literárias que merecem o  cuidado da minha atenção.





Palavras para lembrar — Daniel Pennac

11 08 2014

Élisabeth Jacquet de La Guerre painted by François de TroyÉlisabeth Jacquet de La Guerre

François de Troy (França, 1645-1730)

 

“O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver.”

 

Daniel Pennac





Dia 12: inspirado em uma música, desafio da escrita, #PHpoemaday

12 06 2014

 

 

Cláudio Dantas ( Brasil, contemporâneo) Gerações, 2007, ost, 90x120Gerações, 2007

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela

 

Arpejo da memória

Há três semanas, passando por uma rua residencial, ouvi alguém ensaiando os acordes de Le Lac de Côme, no piano. E uma onda de memórias, muito antigas, de antes dos meus seis anos, borbulharam, trazendo com elas emoções há muito enterradas. Os arpejos desse noturno estão entre as minhas primeiras memórias musicais.

Sempre tivemos piano em casa, herdado de minha avó paterna. Por muito tempo ninguém tocava. Eu era muito pequena para aprender. Minha mãe havia estudado, mas não tinha jeito para a música. Só duas pessoas tocavam lá em casa: meu avô, que violonista e seresteiro na época de jovem boêmio, arriscava uma ou outra pequena melodia, e minha tia Yedda, que estudara piano quando adolescente, e tocava todo fim de semana quando nos visitava. Titia não dominava o instrumento. Sabia algumas músicas de cor. Depois do lanche sábados à tarde, quando ainda noivava meu futuro tio, minha tia se sentava ao piano e por um tempo dedicava-se a tocar o que sabia de memória. Danúbio azul, Pour Elise faziam parte de seu repertório, mas eu não gostava destas tanto quanto de Le Lac de Côme. Sua melodia é muito bonita, mas o que me fascinava era ver os acordes serem tocados em arpejo, com as mãos fazendo uma onda, o polegar tocando primeiro e o mindinho um segundo mais tarde… Aquele movimento, ondulante, me fascinava. E assim que meus pais conseguiram me colocar estudando piano, meu único objetivo era aprender a tocar aquela música. Nunca cheguei a contar para tia Yedda a influência que ela havia tido no meu aprendizado de música. Mas não importa, porque quando morreu, muitos anos depois ela já sabia que havia tido um grande impacto em minha vida, dessa vez, através das quartas-feiras de matinês no cinema do bairro.

Uma melodia é como perfume, intangível, mas cria raízes profundas na nossa memória.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014





Soneto de Bernardino Lopes do livro Cromos (1881)

31 03 2014

ANITA MALFATTI (1889 - 1964),O Samba, 1940,ost, 39x49cmO Samba, 1940

Anita Malfatti (Brasil, 1889-1964)

óleo sobre tela, 39 x 49 cm

XXII

Bernardino Lopes

Homens e moças, crianças,

Todos vêm fora, ao terreiro.

Um deles, chamando às danças,

Põe-se a rufar no pandeiro…

Principia a cantarola…

Um camponês de unha adunca

Ponteia alegre a viola.

Faz um luar como nunca!

Salta um rapaz no fadinho;

Uma mulher, de corpinho,

Vem requebrando de lá;

E a meninada bizarra

Faz uma grande algazarra

Brincando de tempo-será*.

* O negrito é do texto original.

Em: Cromos, Bernardino Lopes, 1881

Abaixo a  brincadeira tempo-será.

Tempo será — brincadeira de pique. As crianças escolhem um pegador. Ele e as outras crianças então recitam o seguinte:

Pegador — Tempo será.
Crianças — De cericecó.
P — Laranja da China.
C — Pimenta em pó.
P — Pinto que pia?
C — Pi-pi-ri-pi.
P — Galo que canta.
C — Cocorocó
P — Quem é o durão?
C — Só eu só.
P — Olha que lhe pego.
C — Não é capaz.
P — Olha que lhe pego.
C — Se for capaz…

Todos fogem do pegador. O primeiro que for pego será o pegador seguinte.





Muito além do coração: uma joia musical

8 03 2014

open_bookChansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

Também conhecido como Chansonnier Cordiforme (em formato de coração)

[Paris, Biblioteca Nacional, Ms. Rothchild, 2973]

Há mais ou menos um mês, através de uma aluna, descobri alguns manuscritos em forma de coração.  Foram novidade para mim, mas diga-se não sou medievalista.  Tudo indica que não são muitos. Dentre eles, talvez o mais divulgado seja o Chansonnier  de Jean de Montchenu (Cancioneiro de Jean de Montchenu) que recebeu recentemente uma edição maravilhosa em fac-símile.  Esse manuscrito foi encomendado na França, em  Savoy [Saboia] entre 1460 e 1477.  Encomenda feita por Jean, cânone de Montchenu — daí sua designação — que  mais tarde, em 1477,  se tornou Bispo de Agen e Bispo de Vivier (1478-1497).  O cancioneiro é composto por 43 músicas.  Entre elas há obras de Guillaume Dufay (Du Fay, Du Fayt) nascido em 5 de agosto, acredita-se que de  1397 e falecido a 27 de novembro de 1474.

DufayBinchoisDufay, retratado aqui à esquerda e Gilles de Binchois à direita no manuscrito em Martin le Franc, “Champion des Dames”, Arras 1451.

Dufay foi um dos compositores dos Países Baixos mais conhecidos na época do Renascimento, figura central na Escola da Borgonha, onde desempenhou o papel mais famoso e influente na Europa em meados do século XV.  Sua música foi copiada, distribuída e cantada em todos os lugares que a polifonia tinha criado raízes. Quase todos os compositores das gerações seguintes absorveram alguns elementos do seu estilo. A ampla distribuição de sua música é ainda mais impressionante, considerando que morreu décadas antes a disponibilidade de impressão de música. Ou seja, suas músicas tinham que ser copiadas à mão. 

gc178-4Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

Há também algumas cantigas de Gilles de Binche, contemporâneo de Dufay, nascido por volta do ano 1400, tendo falecido em 1460 e que foi também um compositor muito influente. Suas músicas apareceram em cópias décadas após sua morte, e muitas vezes foram usados ​​como fontes para a composição de Missas  por compositores posteriores. Sua música é simples e clara.  Empregado pelo Duque de Borgonha, Binchois  (como era também chamado) escreveu todo tipo de música: as canções seculares de amor além das músicas sacras que atenderam as expectativas e satisfizeram o gosto de seu patrão.  Outros compositores como Ockeghem , Busnoys também têm composições incluídas nesse manuscrito único.

montchen_m_1Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

O livro fechado tem a forma de um coração, aberto parece uma borboleta formada por dois corações. Os românticos veem nisso dois corações amantes. As canções são em francês e italiano e escritas para diferentes vozes.  Quando a palavra coração aparece no texto ela é representada por um imagem de um coração delicado.

montchenu4Página do Manuscrito de Montchenu, em que a palavra coeur [coração] aparece substituída pela imagem de um coração.

Duas ilustrações de página inteira aparecem no códice. Na primeira, um Cupido atira flechas contra uma jovem, enquanto ao seu lado Fortuna gira sua roda. No outro, dois amantes se aproximam um do outro com amor.  em todo o manuscrito, os pentagramas, música e poemas de amor são cercados por bordas de animais, pássaros, cães, gatos e todos os tipos de flores e plantas em ouro abundante e desenhos delicados. A encadernação é  em veludo cor vermelho, como apropriado  à  forma.

montchenu2Detalhe da página do manuscrito de Montchenu ilustrada na primeira fotografia desta postagem.

James de Rothschild recebeu este manuscrito junto a uma enorme coleção de seu pai Henri de Rothschild, e doou-o para a Biblioteca Nacional da França.

746299c15092a4867af370b608eac528Detalhe de uma das bordas do manuscrito de Montchenu.




Música e sucesso de mãos dadas

19 10 2013

Cláudio Dantas ( Brasil, contemporâneo) Sonata em sol, 2010, ost, 70 x 100Sonata em sol, 2010

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela, 70 x 100 cm

No fim de semana passado  li o artigo Is music the key to success? de Joanne Lipman no The New York Times, onde a autora relata um fato curioso: muitas das pessoas de sucesso nos EUA tiveram anos e anos de dedicação à música.  E mesmo que não tenham levado adiante a profissão de músico — os exemplos são muitos: Condolezza Rice, Allan Greenspan, Bruce Kovner entre outros – essas pessoas se  referem à educação musical como importante em suas vidas profissionais.

Levando em consideração as  diferentes interpretações de  sucesso, gostaria de me adicionar à lista das pessoas que sentem que a educação musical foi importante no desenvolvimento profissional. Tenho consciência, já há muito tempo, que por menores que sejam as minhas conquistas pessoais, todas foram, até certo ponto, conseqüência de dois treinos que recebi muito cedo: o estudo de uma língua estrangeira, no meu caso o francês, que comecei a estudar aos 9-10 anos; e os anos de aprendizado do piano, começados mais ou menos aos 11 anos, o que já era considerado ‘tarde’ quisesse eu ter me dedicado a uma carreira musical como pianista.

O primeiro ensinamento que esses  cursos  extra-curriculares me deram foi: disciplina, disciplina, disciplina.  Segundo: repetir, repetir, repetir até fazer certo.  Depois, “errar é aprender”. E voltar a fazer a mesma coisa, inúmeras vezes, e uma vez mais ainda quando a língua ou os dedos já estão cansados, quando a exaustão parece querer nos dominar,  até  fazer certo.  Isso foi válido para o francês e certamente para o piano.

Ingres Speltri - Violinos - Óleo sobre madeira - 50 x 70 cm - 2008Violinos, 1998

Ingres Speltri (Brasil, 1940)

óleo sobre madeira, 50 x 70 cm

O francês se tornou a minha segunda língua e só não se impôs mais fortemente, porque fui fazer todo o meu treino profissional como historiadora da arte nos Estados Unidos.   Mas o piano foi mais do que um hobby, muito mais do que uma complementação na educação, ele foi meu amigo do peito na adolescência, lugar onde derramei as lágrimas de frustração e de alegria como jovem rebelde. Ambos os treinos vieram a ser essenciais na minha vida adulta.  Fui fazer a faculdade de letras em francês que abandonei para seguir história da arte, onde eventualmente acabei envolvida com diversos períodos da arte belga, cultura parcialmente francófona.

O piano permaneceu como uma enorme ferramenta para a introspecção.  Diferente dos que se dedicaram por um pouco mais de dez anos de aprendizado, nunca cheguei a ser uma grande intérprete.  De todos os compositores para tocar prefiro Bach. De longe.  Porque faz sentido. É lógico.  Ele acerta os meus ponteiros internos.

Mas – e agora é que vem o ponto estranho do meu relacionamento com o piano – sempre me dediquei mais aos exercícios de escalas do que a qualquer outro tema. Poderia e posso passar umas quatro horas ao piano aumentando as dificuldades a cada volta, sem me aborrecer [certamente devo frustrar os que por acaso me ouvem]. Não sou uma pessoa dedicada à música como performer;  sou uma pessoa dedicada ao encantamento  provocado pela repetição de uma escala, com variações cada vez mais difíceis, quando meus dedos mecanicamente repetem os movimentos ao correr do teclado,  repetidamente, incessantemente.  Há cinco anos pratico ioga e a meditação.  O resultado é semelhante. Não é igual.  Acredito que o efeito dessa disciplina, da repetição do som e do exercício das mãos, seja como rezar o terço, o rosário, em voz alta, nas igrejas.  Há aquela magia do som repetido infinitamente,  a muitas vozes, um coro ritmado e mecânico, que eleva a alma, e a leva à outra realidade, que não é desse mundo, que não é de outro mundo, é entre – mundos.  Preciso desse lugar para equilibrar o meu interior, minhas emoções, diariamente.





Sinfonia cotidiana, poema de J. G. de Araújo Jorge

29 09 2013

Reynaldo Fonseca, Senhora ao piano, 1985, óleo sobre papel, 70x 70 cmSenhora ao piano, 1985

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre papel, 70 x 70 cm

Sinfonia cotidiana

J. G. de Araújo Jorge

A manhã surge

aos sons do Concerto nº 1 de Grieg

no rádio madrugador de meu vizinho.

A tarde chega

acampanhada pelo Prelúdio  nº 24 de Chopin,

num piano sem lugar.

A madrugada se embala

com a música do mar.

Em: A outra face: poesia, J. G. de Araújo Jorge, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1957, p. 157





Precisa prestar atenção? Ouça Mozart

22 07 2013

musica romanticaPato Donald quer ouvir música romântica, ilustração Walt Disney.

Uma recente pesquisa parece dar apoio ao que muitos já sabiam na prática, inclusive esta Peregrina: escutar Mozart – a pesquisa fala de minuetos —  ajuda à concentração das pessoas que conseguem então ignorar informações irrelevantes ao seu redor. Os sons suaves de um minueto de Mozart aumentam a capacidade de crianças e idosos na concentração durante as tarefas que têm que cumprir e ignorar informações irrelevantes.

O estudo chegou a conclusão também que músicas dissonantes têm o efeito oposto, mas que podem ajudar quando precisamos chegar a uma aceitação ou a um acordo entre sentimentos opostos, como por exemplo a aceitação da morte de uma pessoa próxima.

O estudo liderado por Nobuo Masataka da Universidade de Kyoto e Leonard Perlovsky da Universidade de Harvard continua outro estudo feito anteriormente pela mesma equipe, que descobriu que ouvir Mozart nos ajuda a lidar com a dissonância cognitiva, com o profundo desconforto que sentimos quando nos damos conta que duas de nossas crenças estão em desacordo. Juntos, esses resultados sugerem que a música pode nos ajudar a ver com mais clareza, uma situação complexa ou confusa.  E, a  lidar com ela de forma muito mais eficiente.

Para maior detalhamento:  Pacific Standard








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