Sucesso! BIO-EYES um projeto para o estudo da ciência.

26 08 2008
Paulistinhas

Paulistinhas

BIOLHOS  — esta foi a melhor tradução que encontrei para o nome de um projeto de grande sucesso nos EUA — chamado Bio-EYES – que até o momento compreende as cidades de Baltimore, em Maryland, Filadélfia na Pensilvânia e South Bend no estado de Indiana.  Este programa de incentivo aos estudos, direcionado a crianças pobres, de bairros carentes destas cidades, propaga conhecimentos de ciências naturais, incentiva os estudos da genética e ajuda a demonstrar métodos científicos de pesquisa aos que muitas vezes nem pensariam que poderia haver um futuro para eles em semelhante setor.

 

Como quase todo bom projeto, BIO-EYES surgiu organicamente, como por acaso, para preencher um vazio no seio das comunidades pobres.  Não foi pensado por um governo e então aplicado.  Cresceu de uma necessidade e se enraizou pela infinita boa-vontade dos muitos profissionais que o lideram.  Começou inicialmente de graça, num laboratório local, servindo a uns poucos alunos.  Hoje é uma ONG que já cobre as necessidades de tres comunidades em cidades distantes, entre si, mas semelhantes em carência.

 

Em 2001, o biólogo americano Dr. Steven A. Farber acabava de inaugurar seu primeiro laboratório na universidade Thomas Jefferson na Filadélfia.  Um sonho de qualquer cientista que se preze, este laboratório repleto com maquinaria de ponta, levava o seu nome na porta, uma indicação que de que as pesquisas ali realizadas estavam todas sob sua responsabilidade.  Enquanto ainda desempacotava caixas de papelão e em meio a muita bagunça, Dr. Farber fazia planos para continuar a pesquisa que vinha fazendo sobre a genética da digestão de gorduras.  Por isso, seu laboratório, comportava além dos instrumentos científicos esperados um aquário onde cardume de peixes Paulistinhas fazia repetidas viagens de um canto ao outro, movendo-se incessantemente.  O Danio rerio nome científico do peixinho listrado que no Brasil chamamos de Paulistinhas é um dos seres mais usados em alguns tipos de experimentos científicos hoje em dia por serem de manutenção barata, por se reproduzirem rapidamente e por terem seus corpos transparentes, o que ajuda em muito o entendimento de qualquer processo biológico.  

 

Desde 1993, todos os anos, no dia 24 de abril, nos EUA, há a campanha [“Take your kid to work Day”]  Leve seu filho para o trabalho hoje,  uma campanha nacional (hoje em dia inclui o Canadá também) organizada para expor crianças ao ambiente de trabalho de seus pais, deixá-las curiosas sobre o mundo adulto, assim como, no futuro, ajudá-las a decidir sobre planos de carreira.  Crianças de 6 a 15 anos participam deste evento, no país inteiro.  Em 2001, enquanto ainda arrumava seu laboratório, alguém guiando um grupo de crianças pelo hospital vizinho sugeriu:  “ Ei, depois dessa visita, passem lá no laboratório do Dr. Farber para verem o aquário com os Paulistinhas.”

 

As crianças que visitaram o então recém inaugurado laboratório ficaram fascinadas.  Naturalmente intrigadas por animais, neste laboratório elas foram apresentadas ao elementos básicos da ciência biológica podendo apreciar os órgãos internos dos peixes – porque são translúcidos – puderam achar maneiras de descobrir o peixe macho do fêmea,  puderam “caçar” um macho e uma fêmea para serem colocados num aquário exclusivamente usado para reprodução e  na discussão sobre a aparência dos futuros peixinhos chegaram às linhas gerais do estudo de genética.  Todos estes conhecimentos foram passados de maneira esquemática, mas bastante interessante para instigar os alunos a considerarem as ciências seriamente.  Dr. Farber mostrou às crianças através de seu poderoso microscópio o coração dos peixes vivos bombeando células vermelhas.  O sucesso foi imediato.  E logo, logo, sem ter feito qualquer plano, seu laboratório virou parada obrigatória para qualquer turma de estudantes das escolas de nível básico e médio em dias de excursão.    

 

Na verdade, foram tantas as visitas que estas começaram a perturbar o projeto de pesquisa do Dr. Farber.  Assim, ele se dirigiu ao diretor da instituição.  Juntos acharam que havia bastante interesse para justificar uma posição para um professor de nível básico para servir de guia para os visitantes.  Procuraram então por uma maneira de financiar um professor por ano, para esta posição.  O professor, eles sabiam, tinha a maneira correta de interessar ainda mais os alunos visitantes.  Sabia exatamente como trazer um mundo de informações ao nível de conhecimento dos jovens.  

 

Assim foi o início da ONG BIO-EYES que tem como objetivo levar conhecimento cientifico às crianças na escola além de promover a curiosidade e o estudo da ciência.  Quando a ONG  — pelo menos na cidade de Baltimore — descobre que há um aluno ou aluna com talento para as ciências, com aptidão e gosto para este tipo de trabalho a ONG dirige o aluno a uma das escolas públicas modelo que dão maior incentivo aos estudos das ciências.  Hoje o projeto é bem mais elaborado.  BIO-EYES trabalha em direto contato com cada professor interessado em trazer sua turma e por uma semana as crianças são responsáveis por anotar nos “cadernos científicos” que lhes são dados suas observações junto aos peixinhos no aquário.   A descoberta ainda na idade tenra de talento em potencial entre esses alunos vindos de áreas e de famílias carentes é um dos grandes objetivos da organização.  

 

Nestes 7 anos de existência o sucesso vem quase que de imediato, revelado no número de cartas que as crianças escrevem depois das visitas, demonstrando interesse em seguirem uma profissão que inclua o que elas viram na visita ao laboratório e na observação dos cardumes de Paulistinhas, nos aquários de experimentos.  

 

 

Este artigo foi baseado na entrevista dada pelo Dr. Farber à jornalista do New York Times Claudia Dreifus, publicada no dia 29 de julho de 2008, com o título: A Conversation With Steven A. Farber: To Teach Genetics, Zebra Fish Go to School.  [Conversa com Steven A. Farber — Ensinado genética, Paulistinhas vão à escola].

 





Correspondência de Fernando Pessoa vai ser leiloada

17 07 2008

 

Num artigo publicado ontem, 15/7/2008, no New York Times, por Michael Kimmelman, soube da gritaria, da confusão lusitana ao redor da venda da correspondência de Fernando Pessoa ao escritor britânico Aleister Crowley.  Esta correspondência do poeta português com o místico escritor britânico foi iniciada em 1930.  Sua venda, negociada pelos herdeiros de Fernando Pessoa, está marcada para o período de alta visibilidade na Europa, o outono, que é a estação de abertura dos eventos culturais do ano e será feita em leilão público.  A confusão é gerada pela reclamação de alguns da saída do país de documentos de tal importância.

 

Mas, é justamente de vendas como esta, que a Biblioteca Nacional de Portugal pode se beneficiar, como já o fez no ano passado quando arrematou, para seu acervo, cadernos de notas de Fernando Pessoa.  Como Kimmelman em seu artigo lembra, a maior parte da obra de Pessoa está em manuscritos, nunca tendo sido publicada — diz-se que chegam aos 30.000, ainda guardados em baús na última moradia do escritor. 

 

A decisão dos herdeiros de venderem pelo maior e melhor preço estes documentos é volátil.  Recentemente o ministro da cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, lembrou, numa conferência aberta ao público na Casa Fernando Pessoa, que o estado português tem o poder de manter dentro de seu território qualquer objeto (e os manuscritos se enquadram aqui) que achar ser necessário para o patrimônio nacional.  A mensagem, bem entendida por Manuela Nogueira, a sobrinha de Fernando Pessoa, que se encontrava na audiência, era de que ela não se sentisse muito confiante, porque a qualquer momento o governo poderia decidir que tais documentos eram do interesse cultural do país e não só proibir sua venda, como também tombar tais documentos, e nada dar aos herdeiros em troca. 

 

Manuela Nogueira já estava preparada para a luta.  Já havia fotografado tudo que pretendia vender de modo que cópias estarão sempre abertas para estudiosos, não importando o destino final dos originais.  Além do que, um contrato já havia sido assinado por ela e pela casa de leilões.

 

O artigo de Michael Kimmelman continua então com considerações sobre Pessoa e sobre a alma portuguesa, inclusive opiniões sobre a última, com uma breve entrevista sublinhando as opiniões de Inês Pedrosa, a escritora que esteve recentemente aqui em Paraty, na FLIP [Feira Literária Internacional de Paraty] deste ano.  O artigo revela também algumas opiniões de Jerônimo Pizarro diretor da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.  Mas, o assunto pelo qual tenho interesse aqui é diferente daquele enfatizado pelo New York Times, que se mostrou mais interessado em mostrar a forma peculiar, culturalmente falando, de pensar dos portugueses – um artigo até bastante irônico. O que me interessa é ponderar sobre os diversos direitos envolvidos neste caso, para que possamos, no futuro, pensar em como resolver situações semelhantes que certamente ocorrerão na tentativa de preservação de uma cultura brasileira:

 

1° – Tanto no Brasil como em Portugal seria necessário tornar mais claras as regras estabelecidas para dar prioridade ao que deve ou não ser preservado dentro do país.

 

2° – Acredito que os herdeiros têm todo o direito de vender os documentos.  Muitos autores, com herdeiros, fazem projetos de vida contando com esta possibilidade de renda para as gerações futuras, assim como os grandes donos de terras o fazem.

 

3° – Também acredito que o governo tem todo o direito de comprar os documentos.  Se são de tamanha importância como se diz, tenho certeza que qualquer governo acharia os meios de comprá-los no leilão, ou seja ao valor estabelecido pelo mercado.

 

4° – Onde há vontade há um meio.  O governo pode se juntar a diversas ONGs culturais para comprar os documentos e mantê-los na Biblioteca Nacional ou em alguma outra instituição pública de acesso livre aos estudiosos.

 

5° – Nada impede que um grupo de intelectuais e outros interessados, que hoje choram e gritam lamentando a perda física dos documentos, não se cotizem para comprá-los e depois doá-los ao país.  Acho que as pessoas têm que aprender a colocar o dinheiro onde insistem ser um bom investimento, quer seja cultural ou econômico.

 

6° – Não há nada mais injusto do que o governo proibir alguém de vender algum objeto ou documento por o haver declarado Patrimônio Nacional, tombá-lo e não indenizar o atual dono do patrimônio ao preço de mercado.

 

7° – Se nenhuma destas possibilidades aparecerem, por que os documentos não podem sair do país e serem velados por uma outra instituição de responsabilidade social como seria o caso de uma biblioteca especializada em manuscritos de grandes autores?

 

8° – Último, estive vendo, no outro dia que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é a 7ª maior biblioteca do mundo.  ALÔ !!!!  Diretores da BN, está na hora de aumentarmos o nosso patrimônio!  Tenho certeza de que Portugal preferiria que nós  brasileiros – da mesma pátria, porque afinal nossa língua é nossa pátria – fossemos os guardiões destes documentos.  Melhor do que qualquer outro país que se interessar possa, não é mesmo?








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