Sobre música, trecho de Amsterdam de Ian McEwan

6 11 2012

Sra. Meigh ao piano-órgão, 1883

William Merrit Chase ( EUA, 1849-1916)

óleo sobre tela, 66 x 47 cm

Coleção Particular

“Este era o ataque. A apologia tomava emprestado e distorcia o velho estratagema do Eclesiastes: era tempo de resgatar a música das mão dos “donos daa verdade”, e era tempo de reafirmar a comunicabilidade essencial da música, que havia sido forjada, na Europa, numa tradição humanista que sempre reconhecera o enigma da natureza humana; era tempo de aceitar que uma execução para o público constituía uma “comunhão laica”, e era tempo de reconhecer a primazia do ritmo e do tom, bem como a natureza básica da melodia. Para que isso acontecesse sem apenas repetir a música do passado, cumpria formular uma definição contemporânea de beleza, o que, por sua vez, era impossível sem que se compreendesse uma “verdade fundamental”.  Nesse ponto, Clive se valeu ousadamente de alguns ensaios inéditos e altamente especulativos de um colega de Noam Chomsky, que ele tinha lido quando passara férias na casa do autor, em Cape Cod: nossa capacidade de “ler” ritmos, melodias e harmonias agradáveis, assim como a faculdade exclusivamente humana da linguagem, era geneticamente determinada. Segundo os antropólogos, esses três elementos deviam existir em todas as culturas musicais. Nosso ouvido para harmonia era inato. (Além disso, sem um contexto envolvente de harmonia, a dissonância não fazia sentido e se tornava desinteressante.) Compreender uma linha melódica era um ato mental complexo, mas passível de ser executado até por uma criança bem pequena;  já nascíamos com uma herança, éramos o Homo musicas; portanto, definir a beleza na música implicava uma definição da natureza humana, o que nos trazia de volta às humanidades e à capacidade de comunicação…”

Em: Amsterdam, de Ian McEwan, São Paulo, Companhia das Letras:2012, tradução de  Jorio Dauster.





Você conhece os 10 mais importantes intelectuais de 2008?

2 07 2008

 

A revista inglesa Prospect, fundada em 1995, tem feito jus ao seu slogan: “a conversa inteligente da Grã-Bretanha”.  Sempre apresenta uma faceta diferente da visão mundial e gosto de seguir suas reportagens.  Junto com a revista Foreign Policy, a Prospect  faz de tempos em tempos uma enquête para descobrir quem seus leitores consideram ser os 100 maiores pensadores da atualidade.  A última tomada de pulso foi em 2005 quando Noam Chomsky, professor de Linguística  no MIT, foi o primeiro colocado.  Seguido de Umberto Eco, escritor, crítico e professor de semiótica em segundo lugar e por Richard Dawkins, eminente zoólogo, professor da Universidade de Oxford.  Seguiram-se Vaclav Havel, escritor e dramaturgo, Christopher Hitchens,  jornalista e crítico literário, Paul Krugman, economista e jornalista,  Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo,  Amartya Sen, economista laureado com o Nobel, Jared Diamond,  biólogo evolucionário, fisiologista, biogeógrafo e Salman Rushdie, escritor.  Estes foram os dez primeiros colocados há três anos. 

 

Quando a revista fez a mesma enquête este ano, ficou surpresa ao receber mais de meio milhão de votos, e mais ainda com o resultado da pesquisa.  A lista publicada agora, no mês de julho, mostra que os nomes dos 10 mais votados são todos de intelectuais muçulmanos.   Os organizadores logo procuraram saber se havia um hacker atrás da votação, e que tipo de campanhas haviam sido montadas e para que nomes.   E é claro que o vencedor deste ano, Fethullah Güllen, escritor, pensador e filósofo Suni, teve uma grande campanha por votos dentro da Turquia, a partir de maio quando Zaman o jornal de maior circulação no país e associado ao movimento de Güllen, publicou que havia esta competição para pensadores influentes.   Como explica Tom Nuttal em uns dos artigos deste mês na revista, antes de publicarem a lista, Prospect e Foreign Policy se certificaram da validade dos votos e das campanhas existentes.

 

 

  

 

 

 

 

 

 

Fethullah Güllen

Veja: 

https://peregrinacultural.wordpress.com/2008/07/16/fethullah-gulen-%E2%80%93-quem-e-o-intelectual-n%C2%B0-1-do-mundo/

 

https://peregrinacultural.wordpress.com/2008/08/12/muhammad-yunus-quem-e-segundo-mais-votado-intelectual/

 

  

 

Houve campanhas a favor de Mario Vargas Llosa, de Al Gore, Gary Gasparov, para dar alguns nomes, mas nenhuma delas vingou.  Provavelmente porque nenhuma destas campanhas teve a disciplina entre seus seguidores de manter o interesse pela votação vivo e a disciplina de arrecadar votos, que os seguidores de Güllen tiveram.  Cada eleitor poderia sugerir 5 nomes.  Mesmo assim, como é amplamente explicado em considerações sobre a lista, nenhuma campanha, poderia justificar o posicionamento de 10 muçulmanos entre os maiores e mais influentes pensadores do momento. 

 

O que estamos testemunhando, como diz Tom Nuttal, é a emergência de um novo tipo de intelectual, aquele que tem uma grande corrente de amigos e seguidores, que podem ser facilmente mobilizados.  Entre os nomes que apareceram entre os 10 mais votados estão também Yusuf al-Qaradawi, Amr Khaled .  Yusuf al-Qaradawi que já tinha aparecido na lista em 2005, subindo da posição 56 para a 3ª colocação e  Amr Khaled religioso muçulmano e produtor de programas televisos, que entrou na lista este ano, obtendo a 6ª posição.  Ambos seguidores próximos de Güllen com campanhas angariando votos, bem organizadas no Facebook.  Muhammad Yunus, economista e banqueiro em Bangladesh e Shirin Ebadi, advogada e ativista sobre direitos humanos no Iran, foram ambos agraciados com o Nobel da Paz e também tiveram bastante sucesso.

 

Os outros nomes entre os 10 mais votados em 2008 são: o escritor Orhan Pamuk;  Aitzaz Ahsan, advogado, membro da Suprema Corte do Paquistão e ativista em direitos humanos;  Abdolkarim Soroush o filósofo,  Rumi estudioso; Tariq Ramadan professor universitário e pensador muçulmano e Mahmood Mamdani, antropólogo e sociólogo,

 

A lista completa dos 100 mais votados se encontra aqui.  Em parênteses a colocação de cada um na enquête de 2005.  Asterisco significa que esta é a primeira vez que esta pessoa está sendo citada. 

 

 

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