O enterro da cigarra, poesia de Olegário Mariano

25 02 2019

 

 

 

cigarra e formigaIlustração de Milo Winter para as Fábulas de Esopo, 1919.

 

 

O enterro da cigarra

 

Olegário Mariano

 

As formigas levavam-na… Chovia…

Era o fim… Triste outono fumarento!..

Perto, uma fonte, em suave movimento,

cantigas de água trêmula carpia.

 

Quando eu a conheci, ela trazia

na voz um triste e doloroso acento.

Era a cigarra de maior talento,

mais cantadeira desta freguesia.

 

Passa o cortejo entre árvores amigas…

Que tristeza nas folhas… Que tristeza!

Que alegria nos olhos das formigas!…

 

Pobre cigarra! Quando te levavam,

enquanto te chorava a Natureza,

tuas irmãs e tua mãe cantavam. . .





Arco-iris, poesia de Olegário Mariano

24 08 2017

 

 

IRACEMA OROSCO FREIRE - O.S.M - JARDIM COM PALMEIRAS . 26 X 39. Assinado no CID.

Jardim com palmeiras, s/d

Iracema Orosco Freire (Brasil, século XX)

óleo sobre madeira, 26 x 39 cm

 

 

Arco-iris

 

Olegário Mariano

 

Choveu tanto esta tarde

Que as árvores estão pingando de contentes.

As crianças pobres, em grande alarde,

Molham os pés nas poças reluzentes.

 

A alegria da luz ainda não veio toda.

Mas há raios de sol brincando nos rosais.

As crianças cantam fazendo roda,

Fazendo roda como tangarás:

 

“Chuva com sol!

Casa a raposa com o rouxinol.”

 

De repente, no céu desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,

O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira

A cauda em sete cores, de pavão.

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 277.





Teia de aranha, poesia de Olegário Mariano

3 03 2017

 

 

gao-qipei-finger-painting-of-a-spider-on-a-web-china-1684Teia de aranha,  1684

Gao Qipei (China, 1660-1734)

Pintura a dedo, sobre o papel

 

 

 

Teia de aranha

 

Olegário Mariano

 

Dizem que traz felicidade a teia

De aranha. Surge um dia, malha a malha.

E a aranha infatigável que trabalha,

Mata os insetos quanto mais se alteia.

 

Sobe ao beiral. É um berço e balanceia

Ao vento que os filetes de oiro espalha.

E ao sol iluminado, que a amortalha,

A trama iluminada se incendeia.

 

Voa a primeira borboleta ebriada.

Vem louca, primavera de ansiedade,

Mas de repente, a asa despedaçada,

 

Rola… É o fim… A tortura da grilheta…

Maldita seja essa felicidade

Que vem da morte de uma borboleta!

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 117.

 

 





O enamorado das rosas, poesia de Olegário Mariano

23 03 2015

 

 

66f8f6f784f6376200145e95a190d4baDesconheço a autoria dessa ilustração.

 

O enamorado das rosas

Olegário Mariano

 

 

Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,

Ouvindo a água da fonte que murmura,

Rego as minhas roseiras com ternura

Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.

 

Cada uma tem um suave movimento

Quando a chamar minha atenção procura.

E mal desabrochada na espessura,

Mandam-me um gesto de agradecimento.

 

Se cultivei amores às mancheias,

Culpa não cabe às minhas mãos piedosas

Que ele passassem para mãos alheias.

 

Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,

Alimento a ilusão de que essas rosas,

Ao menos essas rosas, sejam minhas.

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 2 (1932-1955), p. 597.





Os bois, soneto de Olegário Mariano

24 02 2015

 

 

Georgina de Albuquerque,Fazenda com figuras e animais, óleo sobre tela,(c.1952) - 39 x 47 cm.Fazenda com figuras e animais, c. 1952

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 39 x 47 cm

 

 

Os bois

 

Olegário Mariano

 

É dolorosa a angélica atitude

Dos grandes bois lentos a trabalhar…

Sinto neles a força da saúde

A glória de viver para ajudar.

 

Da sua laboriosa juventude

Nada têm, pobres diabos a esperar…

Quem sabe? A vida pode ser que mude…

E eles se põem a olhar o campo, a olhar…

 

Tempo de safra. Brilham canaviais…

Gemem os carros e o rumor se irmana

À alma dos bois que geme muito mais.

 

Pacientemente seguem, dois a dois…

Há uma filosofia muito humana

No mugido e no olhar, tristes, dos bois…

 

 

Em: Toda uma vida de poesia: poesias completas (1911-1955) , Olegário Mariano, Rio de Janeiro, Editora José Olympio: 1957, 1º volume (1911-1931), p. 93

 





Meio-dia, poema de Olegário Mariano

11 01 2009

 

 

Edgard Oehlmeyer(1905-1967)Paisagem,1944osm, 35x44cmPaisagem, 1944

Edgard Oehlmeyer (Brasil, 1905-1967)

óleo sobre madeira, 35 x 44 cm

 

 

 
 Meio-dia

 

                    Olegário Mariano

 

 

Meio dia.  A abrasada calmaria

No amplo manto de fogo a mata esconde,

Na fornalha que envolve o meio-dia

O ouro do sol tempera o ouro da fronde.

 

Pesa o silêncio sobre a frondaria…

Desponta o rio não se sabe donde.

Só, com a voz da mata, em agonia,

Uma cigarra zine e outra responde…

 

É o grito humano que da natureza

Sobe ao tranquilo azul da imensidade,

Ungido de amargura e de incerteza…

 

Querem chorar as árvores sem pranto

E as cigarras ao sol clamam piedade

Para suas irmãs que sofrem tanto!

 

 

 

Do livro: Últimas Cigarras, 1920.

 

 

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, (PE1889 —  RJ 1958). Poeta, político e diplomata brasileiro.

 

 Obras:

 

 Angelus (1911)

Sonetos (1921)

Evangelho da sombra e do silêncio (1913)

Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac (1917)

Últimas cigarras (1920)

Castelos na areia (1922)

Cidade maravilhosa (1923)

Bataclan, crônicas em verso (1927)

Canto da minha terra (1931)

Destino (1931)

Poemas de amor e de saudade (1932)

Teatro (1932)

Antologia de tradutores (1932)

Poesias escolhidas (1932)

O amor na poesia brasileira (1933)

Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso (1933)

 

O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas (1937)

Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência (1939)

Em louvor da língua portuguesa (1940)

A vida que já vivi, memórias (1945)

Quando vem baixando o crepúsculo (1945)

Cantigas de encurtar caminho (1949)

Tangará conta histórias, poesia infantil (1953)

Toda uma vida de poesia, 2 vols. (1957)

—-

 





Canto da minha terra, Olegário Mariano, para o dia 15 de novembro

14 11 2008

 

No dia 15 de novembro comemoramos a Proclamação da República.  É um momento para pensarmos neste nosso país.  E por que não pensar no que o faz maravilhoso?  Com esta intenção lembro aqui do poema de Olegário Mariano. 

 

 

 

 

 

 

 

paisagem-bustamante-sa

Paisagem de Campos do Jordão, s/d

Rubens Fortes Bustamante Sá (RJ 1907- TJ 1988)

Óleo sobre tela

Coleção particular, Rio de Janeiro

 

 

Canto da minha terra

 

Olegário Mariano

 

 

Amo-te, ó minha terra, por tudo o que me tens dado:

Pelo azul do teu céu, pelas tuas árvores, pelo teu mar;

Pelas estrelas do Cruzeiro que me deixam anestesiado,

Pelos crepúsculos profundos que põem lágrimas no meu olhar;

 

Pelo canto harmonioso dos teus pássaros, pelo cheiro

Das tuas matas virgens, pelo mugido dos teus bois;

Pelos raios do sol, do grande sol que eu vi primeiro…

Pelas sombras das tuas noites, noites ermas que eu vi depois;

 

Pela esmeralda líquida dos teus rios cristalinos,

Pela pureza das tuas fontes, pelo brilho dos teus arrebóis;

Pelas tuas igrejas que respiram pelos pulmões dos sinos,

Pelas tuas casas lendárias onde amaram nossos avós;

 

Pelo ouro que o lavrador arranca das tuas entranhas,

Pela bênção que o poeta recebe do teu céu azul,

Pela tristeza infinita, infinita das tuas montanhas,

Pelas lendas que vêm do Norte, pelas glórias que vêm do Sul;

 

Pelo teu trapo de bandeira que flâmula ao vento sereno,

Pelo teu seio maternal onde a cabeça adormeci,

Sinto a dor angustiada do teu coração pequeno

Para conter a onda sonora que canta de amor por ti.

 

Em:  Toda uma vida de poesia: poesias completas, Olegário Mariano, em dois volumes, José Olympio: 1957, Rio de Janeiro, 1° volume.

 

 

 

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, (PE1889 —  RJ 1958). Poeta, político e diplomata brasileiro.

 

Obras:

 

Angelus (1911)

Sonetos (1921)

Evangelho da sombra e do silêncio (1913)

Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac (1917)

Últimas cigarras (1920)

Castelos na areia (1922)

Cidade maravilhosa (1923)

Bataclan, crônicas em verso (1927)

Canto da minha terra (1931)

Destino (1931)

Poemas de amor e de saudade (1932)

Teatro (1932)

Antologia de tradutores (1932)

Poesias escolhidas (1932)

O amor na poesia brasileira (1933)

Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso (1933)

O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas (1937)

Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência (1939)

Em louvor da língua portuguesa (1940)

A vida que já vivi, memórias (1945)

Quando vem baixando o crepúsculo (1945)

Cantigas de encurtar caminho (1949)

Tangará conta histórias, poesia infantil (1953)

Toda uma vida de poesia, 2 vols. (1957)

 

 

 








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