Detalhando Vermeer

12 01 2016

 

 

07streeA ruazinha, [ou Vista de uma rua de Delft], 1658

Johannes Vermeer (Holanda, 1632-1675)

óleo sobre tela, 54 x 44 cm

Rijksmuseum, Amsterdã

 

 

Este é um dos pouco quadros que podem ser atribuídos sem qualquer questionamento ao pintor holandês do século XVII, Johannes Vermeer. Sua provenance é impecável, desde o momento que foi vendido em 1696 em Amsterdã, já mais de vinte anos após a morte do pintor.  A tela está assinada, abaixo da janela. Veja abaixo:

 

 

 

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Caso não tenha percebido: I. VMeer [Johannes Vermeer]

 

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A tela é um retrato do cotidiano de uma rua pacata, tão a gosto do mercado holandês da época. Representa duas casas uma ao lado da outra com uma passagem entre elas para outro sítio ao fundo, onde podemos ver uma casa, parede caiada e uma vista parcial de uma janela.  Ainda que não se saiba nada a respeito dos moradores desses locais, podemos ter uma ideia das atividades anônimas, da vida dos habitantes: uma senhora, à beira da rua, na porta de casa, borda, serze ou cose à mão. Está vestida à moda, com gorro segurando os cabelos, saia comprida, tamanquinhos de uso diário.  Usa uma pequena capa de proteção contra o frio sobre os ombros, tradicional da época. Ela se encontra dentro de casa, acima do degrau que separa a residência da rua cuja calçada é revestida de lajotas de cerâmica ou pedras formando um jogo de losangos de cores diferentes.  Não podemos ver nada além de uma sombra horizontal no interior da casa.  A janela à direita, pintada de vermelho alaranjado, mostra um belo desenho dos painéis de vidros decorativos na parte superior e tem a banda de madeira escancarada, mostrando duas fechaduras de ferro negro.  A janela aberta deixa que a luz do dia penetre no interior da casa. Logo abaixo da janela há um aro de metal para que se atrele as rédeas de um cavalo ou animal de carga.

 

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Ao centro duas crianças, um menino e uma menina, se entretêm na calçada, logo abaixo das duas janelas fechadas, pintadas em tom esverdeado, pintura já bastante gasta, ao nível da rua. Elas brincam parcialmente debaixo de um banco fixado à parede externa da casa: o menino estendido com o corpo inteiramente na calçada, enquanto a menina, de costas para o espectador, se ajoelha no meio fio, com os pés no calçamento da rua, que apresenta revestimento semelhante ao pé de moleque: pedras arredondadas de tamanhos desiguais, que, como são pintadas por Vermeer, auxiliam na leitura de profundidade da cena. Muito têm-se discutido sobre essas janelas fechadas.  A impressão que temos é que elas desafiam a lógica, não mostram uma maneira coerente de serem abertas. As fechaduras de ferro parecem indicar que as janelas abririam de encontro uma à outra.

 

 

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Dois portais à esquerda, em arco, fazem parte de uma parede de tijolos, antiga com algumas irregularidades na argamassa.  Terminavam em arco seria melhor dizer. Uma com a porta fechada de cor escura pertence à casa de janelas azuis à esquerda.  Junto ao muro desta casa cresce uma bela videira que sombreia a janela aberta ao nível da rua.  Há um banco de madeira no local que provavelmente desfruta da mesma sombra, a certas horas do dia e que também define a fachada da casa separando-a do portão fechado. Ao longo da casa de janelas azuis um banco semelhante ao da casa à direita do beco, mostra que nesse local, nessa época pode ter sido de praxe a existência desses bancos para o descanso ao fim do dia, para uma conversa com os vizinhos. A outra porta, mais à direita, já teve seu arco modificado, como podemos ver, com a estrutura do arco aparecendo acima do portal retangular, modificando o que havia no passado. Essa abertura mostra uma longa passagem, para um local atrás das casas.  No meio do caminho, uma mulher atarefada, de touca, vestida com uma blusa vermelha e de avental, lava roupa numa barrica, duas vassouras estão encostadas no muro. Ao fundo, vemos a janela de outra casa, branca, mais adiante, que está com suas janelas fechadas. Um pouco acima vemos uma profusão de telhados e chaminés, que indicam uma área de construções com grande densidade. Pode ser qualquer hora do dia. O céu azul mostra algumas nuvens sem previsão de chuva.

 

 

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Vermeer não foi o único pintor da época a retratar edifícios da cidade. Pieter de Hooch e outros também se dedicaram a cenas semelhantes, cenas da vida cotidiana ao ar livre..

 

 

15hoochFiguras bebendo no pátio, 1658

Pieter de Hooch (Holanda, 1629-1684)

óleo sobre tela, 68 x 58 cm

National Gallery of Scotland, Edinburgh

 

Acima vemos uma tela de Pieter de Hooch em que está representada outra passagem, do pátio onde amigos tomam uma cerveja até a rua ao fundo. Essa passagem também tem um arco na entrada.  Leva a mesma data da tela de Vermeer, aqui, no entanto, a arquitetura parece mais rica. Pode ser uma parte mais abastada da cidade. Note-se a pedra chave do arco, decorada com o que parece ser o relevo de alguma figura mitológica. Além disso, houve durante a construção dessa passagem preocupação em fazer a entrada decorativa, já que tijolos vermelhos se intercalam com o que parece ser faixa de reboco.  Acima uma placa com alguns dizeres e ainda mais acima temos a vista parcial de uma janela redonda, um óculo, provável fonte de luz para uma escada interna. O pátio também mais rico do que as construções de Vermeer se mostra pavimentado com lajotas de cerâmica de duas cores. A janela aberta à esquerda, serve curiosamente de cabide para um paletó de um uniforme de guarda, talvez de um dos clientes da taverna.  Uma treliça com uma planta trepadeira — possivelmente uma videira, protege os convivas do sol.  O dia está claro com poucas nuvens no céu.  Ao fundo vemos uma rua e do outro lado uma residência que tem uma árvore na calçada.  A árvore, com uma copa compacta, determina a estação do ano retratada, verão. Uma menina brinca com seu cachorrinho enquanto à direita uma mulher, talvez a dona da taverna ou a moça que serve os clientes parece atenta ao que os senhores sentados desejam.

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Pesquisas sobre o verdadeiro endereço das casas retratadas em A ruazinha têm sido feitas desde 1921, quando o Rijksmuseum adquiriu a tela de Vermeer.  Em novembro do ano passado o museu, um dos mais importantes do mundo, revelou que depois de uma longa e detalhada pesquisa nos anais dos impostos sobre imóveis e sobre permissões para aberturas e para fechamentos de canais na cidade de Delft, finalmente conseguiram identificar a localização dos imóveis retratados na tela de Vermeer.

 

foto rijks

 

Para nos auxiliar no reconhecimento da cena, uma fotografia foi feita incluindo crianças brincando na calçada e uma sombra de mulher trabalhando ao fundo da passagem entre as casas, próxima a uma barrica. Uma mulher cose à janela da casa à direita na posição em que havia uma mulher bordando no portal de casa. Esta casa não é original.  Foi demolida e no local construída outra casa no século XIX. Quase quatrocentos anos separam a tela de Vermeer das casas encontradas hoje.  Muitas modificações podem ser vistas nos prédios retratados. Mas ainda há muito em comum. Professor Frans Grijzenhout, da Universidade de Amsterdã, descobriu a rua através dos livros de impostos de 1667. Hoje essas casas ocupam os números 40 e 42 da Vlamingstraat, em Delft.

A pesquisa também revelou que a casa da direita pertencia à tia de Vermeer, viúva, meia-irmã de seu pai, chamada Ariaentgen Claes van der Minne.  Com uma família de cinco filhos, ela vendia tripas para sobreviver, e a ruazinha ao lado de sua casa era conhecida como a Passagem das Tripas. Sabe-se também que a mãe de Vermeer morava no mesmo canal, na diagonal dessa casa. É provável que o pintor estivesse bem familiarizado com a casa representada na tela e que provavelmente tinha memórias associadas a esse local.

Essa é uma descoberta que traz um pouco mais de luz à vida de Johannes Vermeer, um dos pintores com pouquíssimas telas conhecidas e um enigmático vazio a respeito de sua vida privada.  Pouco sabemos dele. E só há aproximadamente 35 telas conhecidas de sua autoria. Ficará para os estudiosos preencher os vazios  dessa biografia.  Esse é só um dos muitos passos pela reconstrução do passado.





Imagem de leitura — Woouterus Verschuur

1 02 2011

Homem lendo num inteior com dois cachorros, s/d

Woouterus Verschuur ( Holanda, 1818-1874)

Óleo sobre painel de madeira,  21 x 29 cm

Coleção Particular

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Wouter  Verschuur,  O velho,  ( Holanda, 1812-1874) Nasceu em Amsterdã e começou seus estudos na pintura com os paisagistas e especialistas em pintura animal: Pieter Gerardus van Os e Cornelis Steffelaar.  Seu treino inclui fazer cópias de quadros do pintor do século XVII, Philips Wouerman, um outro especialista em pintura de gênero que inclui estábulos, cavalos e paisagens que se tornaram mais tarde algumas das especialidades do pintor. Começou sua carreira de pintor independente aos 15 anos e teve sucesso suficiente para poder viajar por toda parte aprimorando as suas técnicas, principalmente na Suíça e na Alemanha.  Seu filho também pintor, leva o cognome de  Wouter  Verschuur,  O jovem.





Imagem de leitura — Mathias Stomer

27 05 2010

Jovem rapaz lendo à luz de vela, s/d

Mathias Stomer ( Holanda c. 1600- c. 1650)

Óleo sobre tela, 175 x 172 cm

Museu Nacional de Estocolmo,  Suécia.

Mathias Stomer, também conhecido com Stom ou Stomma ( Amsterdam c. 1600 – Sicilia depois de 1650) foi um pintor holandes, com formação artística no atelier  do pintor Gerard van Honthorst, que trabahava no estilo caravagista.  Seguiu os passos dos  pintores maneiristas Simon Vouet e Abraham Bloemart.  Mas sua grande dívida estilística vem de Dirck van Baburen e de Hendrick ter Brugghen.   Encontra-se em Roma em 1630, ainda que não se saiba ao certo a data de sua chegada à Itália.  De 1633 a 1639 trabalha em Nápoles e em seus arredores.   Depois se instala na Sicília, onde permanece até a morte.  Lá  é bastante  influenciado por alguns dos mestres da pintura italiana meridional e se  torna  ainda mais adepto dos grandes mestres nos contrates de luz e sombra, estilo que domina com grande mestria.





Imagem de leitura — Frans Hals

29 12 2009

Menino lendo

Frans Hals ( Antuérpia, 1583- Holanda, 1666)

óleo sobre tela  76 x 63  cm

Coleção  Dr. Oscar Reinhardt (Winterthur)

Frans Hals nasceu em Flandres, numa família de artesãos têxteis.  A família logo emigrou para a Holanda, depois da Queda de Antuérpia ( 1584-1585) para o domínio espanhol.  Estudou com  Karel van Mander em Haarlem entre 1600 e 1603.  Já em 1610, tornou-se mestre nas guildas de São Lucas e em 1644 foi eleito diácono. Só se conhece 300 e poucos de seus quadros, todos pintados depois que Frans Hals completou 30 anos de idade.  Mas é sem sombra de dúvida o maior pintor holandês de retratos, até hoje.





Imagem de leitura — Gerard Dou

26 07 2009

gerard dou

Velha senhora lendo, (Retrato da Mãe de Rembrandt), 1630

Gerard Dou ( 1613-1675)

Óleo sobre madeira 71 x 55,5 cm

Museu Rijksmuseum, Amsterdã

 

 

Gerard Dou —  Filho de um gravador e pintor em vidro, Gerard Dou começou sua vida de artista plástico pintando sobre vidro.  Em 1628 começou a estudar com Rembrandt, onde aprendeu a arte dos contrastes de luz, a arte do claro-escuro.   Sua especialidade acabou sendo as cenas iluminadas a luz de vela que o fizeram bastante popular  na Holanda do século XVII.    Pintou principalmente pintura de gênero, em que pessoas são retratadas no seu ambiente do dia a dia.  Ficou conhecido pela meticulosa maneira de pintar, pela acurada precisão da representação de texturas diversas.  Gozou de uma excelente reputação internacional e diversos monarcas europeus colecionaram seus trabalhos.  Morreu em Leiden, onde nasceu, e de onde nunca se sentiu tentado a sair.





Quadro confiscado por nazistas, devolvido

22 04 2009

gaiteiro

 

 

 

Quadro pintado no século XVII é exposto no Museu da Herança Judaica, em Nova York.  A pintura, o retrato de um gaiteiro pintado por um mestre flamengo, foi confiscada em 1937 pelos nazistas.  Em uma cerimônia por ocasião do Dia do Holocausto, a obra foi devolvida aos herdeiros do marchand judeu Max Stern. O quadro, o retrato de um gaiteiro pintado por um mestre flamengo, em 1632, foi devolvido aos herdeiros de Stern – três universidades em Montréal e Jerusalém – durante uma cerimônia em Nova York por ocasião do Dia do Holocausto.

 

A obra será levada para Montréal, onde ficará exposta no Museu de Belas Artes de Québec, disse Clarence Epstein, diretor do Projeto de Restituição de Arte Max Stern, que participou da cerimônia. Epstein destacou o apoio das autoridades americanas para se recuperar as obras que pertenciam a Stern, um marchand judeu alemão, que fugiu para o Canadá, onde morreu.

 

As universidades canadenses Concórdia e McGill e a Universidade de Jerusalém são os herdeiros de Stern. Há dois meses, o Bureau de Processos do Holocausto do departamento bancário do Estado de Nova York localizou o quadro em um inventário de um marchand americano que viajava para uma feira em Maastricht, Holanda, revelou a Universidade Concordia.

 

Ao regressar aos Estados Unidos, o marchand devolveu o quadro, após ser advertido pelas autoridades sobre sua origem.





Museus nos EUA passam por mudanças

11 01 2009

 

david-teniers-1610-1690por-volta-de-1651

O Arquiduque Leopold Wilhelm na sua galeria de quadros em Bruxelas, 1651

David Teniers  ( Países Baixos, 1610-1690)

Óleo sobre tela,  127 x 162 cm

Petworth House

 

 

Hoje cedo dei uma lida rápida num artigo do New York Times, em que Holland Cotter explica que os maiores e melhores museus dos EUA passam no momento por dificuldades em continuar abertos.  Já que não haverá auxilio do governo para seus problemas financeiros.  O Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles por exemplo já acabou não só com todo o dinheiro que tinha investido como precisou recorrer ao apoio de um dos patronos do museu, o bilionário e colecionador, Eli Broad.

 

Para a maioria dos museus esta é a hora de agir.  Eles não podem ficar passivos principalmente  quando suas economias estão desaparecendo; quando seus patronos perdem muitos investimentos. Numa época de incerteza financeira as pessoas responsáveis como patronos esquecem dos museus.  Essas instituições precisam então fazer alguma coisa ou fecham.

 

Já há algum tempo muitos dos museus americanos andam afrouxando suas regras; modificando os modelos de templos da arte, tornando-se mais populares.  Trocam os antigos modelos por um que está cada vez mais popular: o “museu dos cidadãos”. Esse museu tem acima de tudo uma atmosfera mais fluida, mais informal e certamente mais popular em gosto e em acervo.

 

Essa reformulação em geral passa por uma  re-organização das coleções permanentes.  O Instituto de Artes de Detroit, por exemplo, trouxe para frente do seu imponente edifício a belíssima coleção de arte africana de seu acervo permanente, que hoje serve como sala de apresentação do museu.

 

Outra parte da reformulação é a popularização dos gostos e dos objetos a serem mostrados.  Exemplos das diferentes exposições, definitivamente mais populares nos museus:

 

1.                  O Museu do Brooklin já teve duas exposições bem mais populares que atraíram um bocado da população mais jovem e com menos cultura artística: objetos comerciais do hip-hop e outra exposição da parafernália de Star Wars.

 

2.         A Guggenheim por sua vez, teve a exposição da “ extravaganza de

            motorcicletas”.

 

 

 

Não tenho nada contra esforços para a popularização dos museus.  Por exemplo, acredito que para incentivar a leitura devemos dar todo apoio a quem queira ler mesmo que seja uma obra comercial.  O mesmo é claro acredito que possa ser aplicado aos museus.  Mas é preciso vermos se realmente cabe este grande número de museus ou se não estamos hoje em dia com uma tendência de tratarmos museus como pontos turísticos e assim sempre bem-vindos pelos governos municipais em qualquer lugar no mundo.  

 

Penso principalmente num absurdo carioca: toda casa com mais de 50 anos, num bairro populoso, passa a ser “tombada” depois de uma grita em geral que quem mora próximo e vai perder “ a vista” de seu apartamento se mais um edifício fosse construído no local.  Então temos mais uma casa que se transforma em centro cultural, como se esse fosse o único fim possível para alguma construção de dois ou três pavimentos.  Francamente, mesmo que se ainda fôssemos o centro cultural do Brasil, o que deixamos de ser há algum tempo, não teríamos cultura suficiente para enchermos significativamente todas as casas hoje transformadas em centros culturais.   O resultado é um nível muito baixo do que é apresentado lá, quando há alguma coisa apresentada.  Uma pena.

 

A popularização de uma instituição como um museu ou um centro cultural não é ruim desde que sirva de apresentação e que atraia, como um ímã,  um  público que se sente curioso o suficiente para ir ver, procurar e se instruir no que há de mais sério e mais complexo, nas outras exposições…

 

 








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