Aurora de um novo ano: 2016!

1 01 2016

 

evelyn de morgan,Aurora triunfante, 1873

Evelyn de Morgan (GB, 1855-1919)

óleo sobre tela, 114 x 170 cm

Russell-Cotes Art Gallery & Museum, Dorset, Inglaterra

 

 

Feliz Ano Novo!
Que 2016 traga bons ventos e boas novas para todos nós.




Imagem de leitura — Frederick Smallfield

31 10 2015

 

428d4584e8dcbf6aa54d7d2dfdc3dbf1Preparando-se para um pesadelo, 1859

Frederick Smallfield (Grã-Bretanha, 1829-1915)

Aquarela, 25 x 34 cm





Resenha: “Na Praia”, de Ian McEwan

15 09 2015

 

(c) Roger Gilmore Ward; Supplied by The Public Catalogue FoundationPraia Chesil, no inverno, Dorset

Philip Leslie Moffat Ward (GB, 1888-1978)

óleo sobre placa, 46 x 61 cm

Russell-Cotes Art Gallery & Museum

 

 

Quanta impaciência! Quanta falta de comunicação! Quanta dor! Na praia aborda o processo de encantamento de dois jovens de 22 anos, vivendo no início da década de 1960. O período é anterior ao assassinato de John F. Kennedy nos EUA (1963) e na Inglaterra, onde a história se desenvolve, Harold MacMillan é o primeiro ministro. São esses os parâmetros políticos que enquadram o período de alguma insatisfação sociopolítica que resulta no encontro das duas pessoas que provavelmente jamais se encontrariam em circunstâncias normais, não fosse uma demonstração política: Florence, a violinista e Edward, o historiador, sem rumo certo. A paixão toma conta dos dois. Eles indubitavelmente se amam. E se casam.

Ambos mantêm diversos aspectos de suas vidas sob véus de discrição. Edward tem um espírito volátil. Entra em brigas físicas com facilidade, o que lhe causa alívio e vergonha. Este é um homem que se mantém em permanente tensão. O namoro com Florence retrata a tensão sexual a que se submete, numa época em que o sexo pré-nupcial não é aceitável. Florence por outro lado é uma mulher com uma grande paixão, a música. E aos 22 anos ainda não conseguiu expressar paixão fora do ambiente musical. Na verdade tem uma grande aversão ao sexo. É possível que tenha havido um caso de abuso quando ela tinha doze para treze anos, mas isso não fica claro. No dia de seu casamento, no entanto, ainda não conseguiu dominar o asco que sente sobre todo o processo do amor físico. Por não conversarem. Por não conseguirem se abrir sobre esses problemas, a surpresa na noite de núpcias, quando Na praia inicia, tem consequências imprevisíveis.

 

na-praia

 

Quer uma pessoa tenha experiência ou não, o primeiro encontro sexual, repleto de emoções quando os parceiros já se amam, pode ser um momento de grande sensibilidade, e pode revelar mais do que cada um imagina. No caso de Florence e Edward, ambos virgens, essa sensibilidade é levada a um grau muito elevado, e ambos, sem saberem como se comportar nesse momento de rendição total, acabam por levar as conseqüências dessa noite a extremos que eles mesmos não poderiam ter antecipado. Há para o leitor do século XXI uma experiência de catarse, de alívio, ao reconhecer que muitos dos entraves a que esses dois personagens se submetem não existem mais, há barreiras sociais que hoje são impensáveis. Não fosse a mestria de narrativa de Ian McEwan, ao demonstrar as sensibilidades, as nuances da vida de cada um dos personagens, os fatos que precedem esse momento, no pequenino romance de 130 páginas, não seriam compreendidos pelo leitor moderno.

 

ian-mcewanIan McEwan

 

Este romance não trata só dos hábitos diferentes, costumes de outras eras. Retrata a impaciência da juventude, decisões e atitudes que presumem mais do que devem. O desencontro é inevitável, pois nenhum dos personagens é honesto. E consequências acabam também sendo passionais, com uma virada de ponta-cabeça. Tudo isso maravilhosamente narrado em detalhe, de maneira elegante e fria, por um mestre da insinuação, da meia-palavra. Vale uma tarde de leitura que certamente se tornará inesquecível para o leitor.





Imagem de leitura — Richard Wilson

28 07 2015

 

800px-Francis_Ayscough_with_the_Prince_of_Wales_(later_King_George_III)_and_Edward_Augustus,_Duke_of_York_and_Albany_by_Richard_WilsonJorge (futuro rei da Inglaterra) com o irmão Eduardo e seu professor Francis Ayscough, c. 1749

Richard Wilson (Inglaterra, 1714-1782)

óleo

National Portrait Gallery, Londres





O arroz doce, texto de Eça de Queiroz

27 05 2015

 

 

Joseph Clark (British artist, 1834-1926) A Christmas Dole 1800sBonus de Natal

Joseph Clarke (Grã-Bretanha, 1834-1926)

óleo sobre tela, 90 x 120 cm

 

O arroz-doce

 

“Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz-doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa meiga terra. E o meu Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim onde no 202 se escreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervor a ideia patriarcal:

-Arroz-doce! Está escrito com dois ss, mas não tem dúvida… Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz-doce! Desde a morte da avó.

Mas quando o arroz-doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado em forma de pirâmide do Egito, emergia duma calda de cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam até ao cimo onde se equilibrava uma coroa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data, tão lindas e graves na canela ingênua, vinham traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pagão:

Ad Manes, aos nossos mortos!”

 

Eça de Queiroz, A cidade e as serras

[Exemplo de Narrativa Descritiva]

 

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 194.

 

NOTA: Ad manes é a abreviação da expressão em latim Ad manes abiit, que significa: Aos mortos, aos que morreram.





Imagem de leitura — Harold Knight

16 11 2014

 

HAROLD KNIGHT - Lendo à janela - Óleo sobre painel - 61 X 51Lendo à janela

Harold Knight (Inglaterra, 1874-1961)

óleo sobre madeira,  61 x 51 cm





A Inveja em texto de Teolinda Gersão

11 09 2014

 

 

Talbot Hughes - The New DressO vestido novo, s/d

Talbot Hughes (Inglaterra, 1869-1942)

óleo sobre tela, 57 x 41 cm

 

 

“Por sorte, logo no início tinha havido um acaso que viera dar força à versão que lhe convinha: Dora Flávia mandara-lhe coser um pedaço da bainha de um vestido, no lugar onde o fio rebentara. Era já tarde e ela tinha perguntado se podia fazer esse trabalho em casa. Dora encolhera os ombros, era-lhe indiferente, não precisava do vestido agora.

Assim, levara-o consigo, deixara-o toda a semana pendurado no quarto da costura. E no meio das provas, mencionava sempre que tinha que acabá-lo, antes de quarta-feira. Era da dona da casa no Sommershild.

Em geral nem sequer era ela a puxar a conversa. O vestido falava por si, atraía logo os olhos das freguesas.

Deixara-o ali como um talismã que a livrasse, e ela do mundo dos armazéns baratos d’ A Feira ou do Lorenzo Marques Mercantil, na rua dos Irmãos Roby. Como se o vestido, suspenso da cruzeta, fosse o sinal exterior de uma mudança.

Só na terça-feira seguinte, à noite, lhe coseu a bainha. Difícil, porque a mousselina parecia desfazer-se nas mãos. Mas era também um prazer tocar-lhe — suave, leve, se havia tecido vaporoso era aquele.

Vestiu-o da própria depois de pronto. Um corpo tão parecido, as medidas iguais, ficava-lhe até melhor a ela, achava-se tão mais bonita do que Dora. Mas os vestidos pertenciam a umas, e não a outras mulheres. Mesmo quando uma mulher os talhava e cosia com as suas mãos eles pertenciam a outra. As vidas não se trocavam.

Dora nunca lhe pagaria o preço justo por nada, soube. Ninguém lhe pagaria. Nem ela poderia explicar. Se tentasse, neste caso, enumerar os problemas em volta do vestido, falaria da textura tão leve que parecia areia movediça, onde os alfinetes e a agulha escorregavam sempre, e Dora assentaria, distraída, com um movimento de cabeça, julgando que ela queria justificar um acréscimo no preço por esse trabalho extra,  diria, sim, sim, impaciente, sem ouvir, porque tanto lhe fazia pagar um pouco menos ou um pouco mais, e no fundo essa conversa aborrecia. Nunca poderia dizer-lhe que o problema não tinha sido o trabalho, mas aquele nó na garganta, como uma mão de ferro, que a deixava sem ar.

Podia fazer um vestido assim, pensou ainda, rodando levemente sobre si própria no espelho. Saberia fazê-lo, tal e qual, nem um ponto a menos. Mas o que parecia uma coisa próxima, concreta, era ao mesmo tempo impossível, irreal.  Mesmo que houvesse ali à venda aquele tecido e ela tivesse dinheiro para comprá-lo (duas coisas já de si improváveis), nunca teria ocasião de vesti-lo, porque não tinha acesso aos lugares onde esse tipo de roupa se usava.

Despiu-se devagar, no espelho. Como pudera, alguma vez, ter-se alegrado,  com as idas a  Sommershild, com o que dentro de si, na euforia do primeiro momento, chamara “a época do Sommershild”. Como pudera ser tão louca. Acreditar que uma mudança acontece só porque alguém passa a ir regularmente a um lugar.”

 

Em: A árvore das palavras, Teolinda Gersão, São Paulo, Planeta: 2004, pp 86-87.

 

 








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