As doces rosas-dos-ventos, poesia de Stella Leonardos

1 05 2015

 

 

vendedor-de-cataventos, sérgio bastosVendedor de cataventos, Sérgio Bastos.

 

 

As doces rosas-dos-ventos

 

Stella Leonardos

 

 

— Onde estás, vendedor de pirulitos,

Fazedor das ventoinhas de papel?

Daqueles cataventos tão bonitos?

Daquelas gostosuras cor de mel?

Tu que adoças as ruas com teus gritos

E que marcas os ventos nas calçadas:

Me dá de novo os sonhos infinitos

Das tuas rosas que são quase aladas!

— Queres minhas ventoinhas? Há-de tê-las.

Criança grande! Por que te agradam tanto?

— Não são ventoinhas: são almas de estrelas

De um céu ingênuo que foi céu de encanto.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.79





Generosidade, poesia de Cyra de Queiroz Barbosa

10 09 2014

 

 

gb_panneau aPanneau decorativo, 1921

Guttmann Bicho (Brasil, 1888-1955)

óleo sobre tela, 153 x 148 cm

MNBA — Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Generosidade

 

Cyra de Queiroz Barbosa

 

à tia Nida

 

Os gatos da vizinhança

faminto, órfãos, pelados,

achavam pouso e aconchego

junto dela em nossa casa,

Mimoso, Dina, Miquito,

tantos outros — nem me lembro!

Ah! tinha a gata Pretinha

que lhe dava tão fecunda

cada vez ninhada inteira.

 

Era leite no pratinho

ou dado na mamadeira.

Enroscavam-se na colcha

de retalhos costurados,

cresciam e para ela

de miau! Miau! Miau!

serenata era cantada.

 

Não só de gatos gostava

a boa titia Nida.

Seus sobrinhos eram seus filhos

e mais outro de outro sangue

em amor reconheceu.

Por eles se abriu em risos

por eles muito sofreu.

Nada pedindo ou cobrando,

generosamente dando

a vida — tudo o que tinha —

para quem nem era seu.

 

 

Em: Moenda: painéis e poemas interiorizados, Cyra de Queiroz Barbosa, Rio de Janeiro, Rocco:1980, pp. 49-50





O sorveteiro, poesia infantil de Maria de Lourdes Figueiredo

15 03 2013

sorveteiroIlustração de Maurício de Sousa.

O sorveteiro

Maria de Lourdes Figueiredo

A luz atrai mariposas,

o melado, formiguinhas;

e, como a flor as abelhas,

sorvete atrai criancinhas.

Mal se escuta, ao longe, o grito:

— É o sorvete! Vai querer?

Aparecem sem demora,

as crianças a correr.

Quero um de creme — diz Paulo;

pede Lúcia: — Um de abacate.

— Eu, de manga! — Um de morango!

— Eu quero um de chocolate!

Saem todos bem contentes,

com seu sorvete na mão;

menos Rosinha. Que pena!

O dela caiu no chão…

Em: O mundo das crianças: poemas e rimas, vol 1,  Rio de Janeiro, Delta: 1975





Pontinho de vista, poesia infantil de Pedro Bandeira

12 08 2011

Pontinho de vista

                          Pedro Bandeira

Eu sou pequeno, me dizem,

e eu fico muito zangado.

Tenho de olhar todo mundo

com o queixo levantado.

Mas, se formiga falasse

e me visse lá do chão,

ia dizer, com certeza:

— Minha nossa, que grandão!





A língua do Nhem — poesia infantil de Cecília Meireles

6 08 2010

 

 

 Ilustração, Maurício de Sousa.
 —
 

 

 

A língua do Nhem

                                         Cecília Meireles

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Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

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Em: Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:

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Veja este poema musicado numa animação infantil em homenagem à maturidade, com poesia de Cecília Meireles e música de Dércio Marques.

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As palavras, poema para uso escolar de Eugênio de Andrade

22 06 2010
Homem escrevendo, ilustração, Oliver Ray.

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As palavras

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                                                                       Eugênio de Andrade

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São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

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Eugênio de Andrade

Eugênio de Andrade, (Portugal, 1923[1] — 2005), pseudônimo de José Fontinhas.  Poeta, escritor e ensaísta português.

Obras:

Poesia:

Adolescente, 1942

Pureza, 1945

As Mãos e os Frutos, 1948

Os Amantes sem Dinheiro, 1950

As Palavras Interditas, 1951

Até Amanhã, 1956, 13ª edição, 2002.

Coração do Dia, 1958

Mar de Setembro, 1961

Ostinato Rigore, 1964

Obscuro Domínio, 1971

Véspera de Água, 1973

Escrita da Terra, 1974

Homenagens e outros Epitáfios, 1974

Limiar dos pássaros, 1976

Primeiros Poemas, 1977

Memória Doutro Rio, 1978

Matéria Solar, 1980

O Peso da Sombra, 1982

Branco no Branco, 1984

Vertentes do Olhar, 1987

O Outro Nome da Terra, 1988

Contra a Obscuridade, 1988

Rente ao Dizer, 1992

Ofício de Paciência, 1994.

O Sal da Língua, 1995

Pequeno Formato, 1997

Os Lugares do Lume, 1998

Os Sulcos da Sede, 2001

Prosa

Os Afluentes do Silêncio, 1968

Rosto Precário, 1979

À Sombra da Memória,1993

Literatura Infantil

História da Égua Branca, 1977

Aquela Nuvem e Outras, 1986





Os óculos da vovó, poema infantil de Dom Marcos Barbosa

28 05 2010

Os óculos da vovó

 

Dom Marcos Barbosa

— Como acabar meu tricô,

como assistir à novela,

se esses óculos benditos

me somem sem mais aquela?

 —

Vovó, procurando os óculos,

vai do quarto para a sala

e de novo volta ao quarto,

sem ninguém para ajudá-la.

 —

E até parece que os netos

estão a se divertir,

pois mesmo seu predileto

faz força para não rir.

— 

Deve saber onde estão,

porque lhe diz o malvado:

– Já está ficando quente

seu chicotinho queimado!

 —

E o diz quando está no quarto

ou à sala torna a voltar.

– Mas como pode uma coisa

em dois lugares estar?

 —

Em sinal de desespero

leva então as mãos à testa:

ali estão os seus óculos

e tudo vira uma festa.

Dom Marcos Barbosa [nome civil:  Lauro de Araújo Barbosa]  (MG 1915 – RJ, 1997) Sacerdote, monge beneditino,poeta e tradutor.  Membro da Academia Brasileira de Letras.

 Obras:

Teatro, 1947

Livro do peregrino, XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, 1955

A noite será como o dia: autos de Natal, 1959

O livro da família cristã, 1960,

Poemas do Reino de Deus, 1961

Mãe nossa, que estais no céu, s.d.

Para a noite de Natal: poemas, autos e diálogos, 1963

Para preparar e celebrar a Páscoa: autos, diálogos e fogo cênico, 1964

Eis que vem o Senhor, 1967

O livro de Tobias, 1968

Oratório e vitral de São Cristóvão, 1969

Manifestações de autonomia literária: A Escola Mineira e outros movimentos. In: História da Cultura Brasileira, 2 vols., 1973-76

Um menino nos foi dado, org. de Lúcia Benedetti. In: Teatro infantil, 1974

A arte sacra, 1976

Nossos amigos, os Santos, 1985

Congonhas, Bíblia de cedro e de pedra, e co-autoria com Hugo Leal, 1987

Um encontro com Deus: Teologia para leigos, 1991

As vinte e seis andorinhas, 1991

Poemas para crianças e alguns adultos, 1994








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