Canção, poesia de Mauro Mota

9 02 2017

 

 

candido-portinari_flautista-1934-oleo-sobre-madeira46-x-375cm-col-part

Flautista, 1934

Cândido Portinari (Brasil,  1903-1962)

óleo sobre madeira, 46 x 37 cm

Coleção Particular

 

 

 

Canção

 

Mauro Mota

 

 

Para onde fui? Ou essa

música de onde veio?

Uma flauta divide

a noite pelo meio.

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 93.





Um bebê, poesia de Paulo Setúbal

25 10 2016

 

 

Bebe acordado, maud Tousey FangelIlustração de Maud Tousey Fangel.

 

 

Um bebê

Paulo Setúbal

 

Um bebê… Ai que ventura

Do nosso peito extravasa!

Há um mês que é a nossa loucura,

Que é a joia da nossa casa.

 

Mimo não há, sem enleio,

Que mais alinde as vivendas,

Do que um bercinho bem cheio

De laçarotes e rendas.

 

E nesse ninho de luxo,

— Com dois berloques e um guiso,

Ver um petiz, bem gorducho,

Que nos envia um sorriso.

 

Ah! Nada eu sei de mais preço,

Nem nada mais inocente,

Do que um sorriso travesso

Numa boquinha sem dente!

 

E ao ver-te, entre o fofo arranjo

Do teu bercinho tão doce,

Eu sinto bem que és um anjo

Que Deus ao mundo nos trouxe…

 

E assim, bebê cor de leite,

Com olhos da cor do mar,

Tu és o único enfeite

Do nosso lar!

 

 

Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 179-180.

 

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Cadê? poesia de Wilson W. Rodrigues

13 07 2016

 

 

cadê o pessoalZé Carioca procura por seus amigos, ilustração de Walt Disney.

 

 

Cadê?

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

Cadê o pé de cantiga

que quando criança cantei?

Nem minha gente se lembra

e nem na saudade achei.

 

Que sabe o verso perdido?

Por que ninguém o guardou?

Onde leva a nossa vida

que o verso bom não levou?

 

Quem me recorda sua rima?

Quem minha lembrança traz,

para cantar a cantiga

de que não me lembro mais?

 

Nem me responde a alegria

Nem a tristeza responde.

Cadê o pé de cantiga

onde vou encontrá-lo? Onde?

 

 

Em: Bahia Flor: poemas, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 19.

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Dona Margarida, poesia de Paulo Setúbal

30 06 2016

 

 

Humberto da costa (1948) Mulher na Sacada, o.s.t. - 27 x 22. Ass. dat 84Mulher na sacada, 1984

Humberto da Costa (Brasil, 1948)

óleo sobre tela, 27 x 22 cm

 

 

Dona Margarida

 

Paulo Setúbal

 

 

Conheço apenas Dona Margarida

Por tê-la visto, acaso, num salão.

Seu negro olhar, cheio de fogo e vida,

Deixava em cada peito uma ferida,

Em cada peito abria uma paixão.

 

E eu, como os outros, vendo-a tão querida,

Tão moça, tão formosa, tão feliz,

Trouxe comigo, na alma dolorida,

A funda mágoa, Dona Margarida,

De não ter dito o que dizer lhe quis.

 

Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920] p. 109-110.

 

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Idílio, poesia de Paulo Setúbal

30 05 2016

 

paquera, walter crane, 1877Ilustração de Walter Crane, 1877.

 

 

Idílio

 

Paulo Setúbal

 

 

“Vamos?” disseste… E eu disse logo: vamos!

Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,

Uma alegria esplêndida e sonora;

E tu, abrindo ao sol como uma tenda,

Tua sombrinha de custosa renda,

Partimos ambos pela estrada afora…

 

Com que emoção — recordas? — com que gozo,

Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,

Nessas novenas de plangências cavas.

E como um cavalheiro que se preza,

Timbrava em te levar, depois da reza,

Até ao portão da chácara em que estavas.

 

Certa vez… Vá, não cores desse jeito!

Era de noite. Arfava-nos o peito.

Ardia em nós um lânguido desejo,

Tomei-te as mãos… Sorriste… E aí, num assomo,

As nossas bocas sem sabermos como,

Famintamente uniram-se num beijo!

 

 

Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 135-136





Lamparina, soneto de Jorge de Lima

21 05 2016

 

 

stom-aSenhora idosa e menino à luz de vela

Mathias Stom (Holanda(?) Bélgica (?), c. 1600 — depois de 1652)

óleo sobre madeira, 58 x 71 cm

Birmingham Museums Trust, Birmingham, Inglaterra

 

 

 

Lamparina

 

Jorge de Lima

 

Põe azeite na tua lamparina

Para que a treva eterna se retarde.

A tarde há de ensombrar a tua sina

E a Morte é indefectível como a tarde.

 

Observa: a sua luz não tem o alarde,

Que as combustões de súbito confina.

O fogaréu indômito ilumina,

Mas, quase sempre, em dois instantes arde.

 

A lamparina, entanto, muito calma,

— Luz pequenina, que parece uma alma,

Que à Grande Luz celestial se eleva –,

 

Espera nesse cândido transporte,

Que, extinto sendo o azeite, chegue a Morte,

Que a luz pequena para a Grande leva.

 

 

Jornal do Comércio, Maceió, 26 set. 1917

 

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 52





Miçanga, poema de Wilson W. Rodrigues

12 04 2016

 

chuva,Tatsuro KiuchiChuva, ilustração de Tatsuro Kiuchi.

 

 

Miçanga

 

Wilson W. Rodrigues

 

Chuva — miçangas do céu

de um invisível colar

que na amplidão se partiu

veio na terra tombar.

 

Chuva — miçangas do céu

feita de pingos de luz;

cada pingo — estojo d’água

que um diamante conduz.

 

Chuva — miçangas do céu

do colar que se partiu;

miçanga — orvalho perdido

que no seu peito luziu.

 

Em: Bahia Flor – Poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: s/d, p. 127

 

 

Nota: Na publicação original a palavra miçangas encontra-se escrita com dois esses — missangas.  Ambas as formas: miçangas e missangas estão corretas.  No entanto, desde a publicação deste livro [acredito que tenha sido publicado nos anos 50 do século passado] convencionou-se que a forma missanga é a correta em Portugal enquanto que a forma miçanga é a correta no Brasil.  Assim, ao postar este poema troquei a grafia para corresponder à forma correta no Brasil.








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