Mário Quintana, “Destino atroz”

29 05 2018

 

 

 

c167b4bfcb26ded4807730aeef50f9c2Ilustração da revista Cosmolitan, Janeiro 1960.

 

 

Destino Atroz

 

Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

 

Em: Caderno H, (1945-1973), Mário Quintana, Porto Alegre: Editora Globo, 1973.





Oceano, poema de Manuel Bandeira

2 04 2018

 

 

il_340x270.1167755797_2ng2

 

 

Oceano

 

Manuel Bandeira

 

Olho a praia. A treva é densa.

Ulula o mar, que não vejo,

Naquela voz sem consolo,

Naquela tristeza imensa

Que há na voz do meu desejo.

 

E nesse tom sem consolo

Ouço a voz do meu destino:

Má sina que desconheço,

Vem vindo desde eu menino,

Cresce quanto em anos cresço.

 

– Voz de oceano que não vejo

Da praia do meu desejo…

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 30.





Escola de samba, poema de P. Carlos de Araújo

18 05 2017

Baile, s/d

Menase Vaidergorn (Brasil, 1927)

óleo sobre tela, 40 x 60 cm

 

Escola de Samba

P. Carlos e Araújo

Ginga marota

no passo do samba

aí bateria

segura a cuíca

aperta o pandeiro.

Corpos pulando

bamboleando na ponta do pé.

Parada no ar, meia volta,

o couro come.

Cabrocha assanhada

que pula pro lado

e pula pra frente

teu corpo balança

no ritmo quente.

O dia inteiro

trabalhou no tanque

mas de noite é rainha

puxa o passo na quadra,

seus pés, tão rápidos,

não se vêem.

Só poeira

mistura de ginga e suor.

O corpo quente

cabelos soltos

braços polidos

sorriso livre

avermelhado

dentadura branca

saia de chita

pompons azuis.

Depois, a chuva

pancada forte

vendaval

correrias

coreto vazio

cuíca no chão.

Em: O inimigo oculto, P. Carlos de Araújo, Rio de Janeiro, Ed. Gávea: 1988.





Palavras para lembrar — Charles Simic

17 04 2017

 

 

 

Abraham Solomon - Retrato de duas meninas e sua babá,Abraham Solomon (1823–1862)Retrato de duas meninas e sua governanta

Abraham Solomon (GB, 1823-1862)

óleo sobre tela

 

 

“O poema é um segredo dividido por pessoas que não se encontraram.”

 

Charles Simic

Salvar





Canção, poesia de Mauro Mota

9 02 2017

 

 

candido-portinari_flautista-1934-oleo-sobre-madeira46-x-375cm-col-part

Flautista, 1934

Cândido Portinari (Brasil,  1903-1962)

óleo sobre madeira, 46 x 37 cm

Coleção Particular

 

 

 

Canção

 

Mauro Mota

 

 

Para onde fui? Ou essa

música de onde veio?

Uma flauta divide

a noite pelo meio.

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 93.





Um bebê, poesia de Paulo Setúbal

25 10 2016

 

 

Bebe acordado, maud Tousey FangelIlustração de Maud Tousey Fangel.

 

 

Um bebê

Paulo Setúbal

 

Um bebê… Ai que ventura

Do nosso peito extravasa!

Há um mês que é a nossa loucura,

Que é a joia da nossa casa.

 

Mimo não há, sem enleio,

Que mais alinde as vivendas,

Do que um bercinho bem cheio

De laçarotes e rendas.

 

E nesse ninho de luxo,

— Com dois berloques e um guiso,

Ver um petiz, bem gorducho,

Que nos envia um sorriso.

 

Ah! Nada eu sei de mais preço,

Nem nada mais inocente,

Do que um sorriso travesso

Numa boquinha sem dente!

 

E ao ver-te, entre o fofo arranjo

Do teu bercinho tão doce,

Eu sinto bem que és um anjo

Que Deus ao mundo nos trouxe…

 

E assim, bebê cor de leite,

Com olhos da cor do mar,

Tu és o único enfeite

Do nosso lar!

 

 

Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 179-180.

 

Salvar





Cadê? poesia de Wilson W. Rodrigues

13 07 2016

 

 

cadê o pessoalZé Carioca procura por seus amigos, ilustração de Walt Disney.

 

 

Cadê?

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

Cadê o pé de cantiga

que quando criança cantei?

Nem minha gente se lembra

e nem na saudade achei.

 

Que sabe o verso perdido?

Por que ninguém o guardou?

Onde leva a nossa vida

que o verso bom não levou?

 

Quem me recorda sua rima?

Quem minha lembrança traz,

para cantar a cantiga

de que não me lembro mais?

 

Nem me responde a alegria

Nem a tristeza responde.

Cadê o pé de cantiga

onde vou encontrá-lo? Onde?

 

 

Em: Bahia Flor: poemas, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 19.

Salvar








%d blogueiros gostam disto: