Idílio, poesia de Paulo Setúbal

30 05 2016

 

paquera, walter crane, 1877Ilustração de Walter Crane, 1877.

 

 

Idílio

 

Paulo Setúbal

 

 

“Vamos?” disseste… E eu disse logo: vamos!

Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,

Uma alegria esplêndida e sonora;

E tu, abrindo ao sol como uma tenda,

Tua sombrinha de custosa renda,

Partimos ambos pela estrada afora…

 

Com que emoção — recordas? — com que gozo,

Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,

Nessas novenas de plangências cavas.

E como um cavalheiro que se preza,

Timbrava em te levar, depois da reza,

Até ao portão da chácara em que estavas.

 

Certa vez… Vá, não cores desse jeito!

Era de noite. Arfava-nos o peito.

Ardia em nós um lânguido desejo,

Tomei-te as mãos… Sorriste… E aí, num assomo,

As nossas bocas sem sabermos como,

Famintamente uniram-se num beijo!

 

 

Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 135-136





Lamparina, soneto de Jorge de Lima

21 05 2016

 

 

stom-aSenhora idosa e menino à luz de vela

Mathias Stom (Holanda(?) Bélgica (?), c. 1600 — depois de 1652)

óleo sobre madeira, 58 x 71 cm

Birmingham Museums Trust, Birmingham, Inglaterra

 

 

 

Lamparina

 

Jorge de Lima

 

Põe azeite na tua lamparina

Para que a treva eterna se retarde.

A tarde há de ensombrar a tua sina

E a Morte é indefectível como a tarde.

 

Observa: a sua luz não tem o alarde,

Que as combustões de súbito confina.

O fogaréu indômito ilumina,

Mas, quase sempre, em dois instantes arde.

 

A lamparina, entanto, muito calma,

— Luz pequenina, que parece uma alma,

Que à Grande Luz celestial se eleva –,

 

Espera nesse cândido transporte,

Que, extinto sendo o azeite, chegue a Morte,

Que a luz pequena para a Grande leva.

 

 

Jornal do Comércio, Maceió, 26 set. 1917

 

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 52





Miçanga, poema de Wilson W. Rodrigues

12 04 2016

 

chuva,Tatsuro KiuchiChuva, ilustração de Tatsuro Kiuchi.

 

 

Miçanga

 

Wilson W. Rodrigues

 

Chuva — miçangas do céu

de um invisível colar

que na amplidão se partiu

veio na terra tombar.

 

Chuva — miçangas do céu

feita de pingos de luz;

cada pingo — estojo d’água

que um diamante conduz.

 

Chuva — miçangas do céu

do colar que se partiu;

miçanga — orvalho perdido

que no seu peito luziu.

 

Em: Bahia Flor – Poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: s/d, p. 127

 

 

Nota: Na publicação original a palavra miçangas encontra-se escrita com dois esses — missangas.  Ambas as formas: miçangas e missangas estão corretas.  No entanto, desde a publicação deste livro [acredito que tenha sido publicado nos anos 50 do século passado] convencionou-se que a forma missanga é a correta em Portugal enquanto que a forma miçanga é a correta no Brasil.  Assim, ao postar este poema troquei a grafia para corresponder à forma correta no Brasil.





Sob um pessegueiro, poesia de Paulo Setúbal

4 02 2016

 

 

amor, romance, Russell Sambrook (1891 – 1956)Ilustração de Russell Strambrook.

 

 

Sob um pessegueiro

Paulo Setúbal

Ao Ademar, irmão e amigo

 

 

Foi pelo tempo alegre da moenda,

Quando aos quinze anos, tudo nos sorria,

Que nós tecemos, juntos, na fazenda,

Toda uma história de infantil poesia.

 

E sob um pessegueiro, amplo e robusto,

Cheio de frutos e de passarinhos,

Foi que nós ambos, pálidos de susto,

Nos encontramos certa vez, sozinhos.

 

Tão confusos, tão tímidos ficamos,

Ao vermo-nos juntinhos no pomar,

Que nós, olhando os pêssegos nos ramos,

Nem tínhamos coragem de falar.

 

Mas de repente — que ventura louca!

Ela sorriu-me, trêmula de pejo,

E eu lhe furtei da pequenina boca,

Um pequenino e delicioso beijo…

 

Foi desde então que na minh’alma eu trouxe,

Como lembrança desse amor fagueiro,

Esse beijinho estaladinho e doce,

Que nós trocamos sob o pessegueiro.

 

 

Em: Alma cabocla,Poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 87-88

 

 





Despacho de Iemanjá, poesia de Wilson W. Rodrigues

29 12 2015

 

 

romaneli iemanjáIemanjá noturna, 2015

Armando Romanelli (Brasil, 1945)

óleo sobre tela,  60 x 60 cm

www.romanelliart.com

 

 

Despacho de Iemanjá

 

Wilson W. Rodrigues

 

Tão longe, tão longe,

nas ondas do mar,

nos véus da neblina,

no vento a cantar,

na areia doirada

do fundo das águas

eu ouço Iemanjá…

Nem velas, nem brumas

vêm onde ela está,

nem sonho de amante

um dia virá…

Tão longe, tão longe

amada longínqua,

fantasma do mar.

 

Tão longe as rosas

que vão-se afogar,

levando a tristeza

que não sei matar,

por essa lonjura

que a vida separa

de minha Iemanjá…

Tão longe, tão longe,

minha alma a cantar,

há muito já foi,

pro fundo do mar,

sofrer do mistério

da amada distante,

ó doce Iemanjá!…

 

 

Em:  Bahia Flor: poemas, de Wilson W Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1948, p.35-36.





Cântico das árvores, poesia de Olavo Bilac, no Dia da Árvore

21 09 2015

 

 

Plantar, Britta Barlow, GoodHousekeeping1927-05Ilustração de Britta Barlow, Revista Good Housekeeping, maio de 1927.

 

 

Cântico das árvores

 

Olavo Bilac

 

 

Quem planta uma árvore enriquece

A terra, mãe piedosa e boa:

E a terra aos homens agradece,

A mãe os filhos abençoa.

 

A árvore, alçando o colo, cheio

De seiva forte e de esplendor

Deixa cair do verde seio,

A flor e o fruto, a sombra e o amor.

 

Crescei, crescei na grande festa

Da luz, de aroma e da bondade,

Árvores, glória da floresta!

Árvores vida da cidade!

 

Crescei, crescei sobre os caminhos,

Árvores belas, maternais,

Dando morada aos passarinhos,

Dando alimento aos animais!

 

Outros verão os vossos pomos:

Se hoje sois fracas e crianças,

Nós, esperanças também somos

Plantamos outras esperanças!

 

Para o futuro trabalhamos:

Pois, no porvir, novos irmãos,

Hão de cantar sob estes ramos,

E bendizer as nossas mãos!

 

-x-

Este poema foi musicado pelo maestro Francisco Braga.

 

Em:  Apologia da árvore, Leonam de Azeredo Penna, Rio de Janeiro, IBDF: 1973, p. 137.

 





Cantiga da lavadeira, poesia de Mauro Mota

19 08 2015

 

 

Homero Massena (Brasil, 1886-1969) Lavadeiras, ost, sdLavadeiras, s.d.

Homero Massena (Brasil, 1886-1974)

óleo sobre tela

 

 

Cantiga da Lavadeira

 

Mauro Mota

 

 

Libertos da trouxa tremem

as calças e os paletós.

Doem na pedra pano e carne

sem anotações no rol.

 

Canto azul da lavadeira

lavado na ventania.

Mistura de corpos gastos,

de sabão, espuma e anil.

 

O suor da blusa operária

(chora o lenço de Maria)

Transita o amor pela anágua.

geme o lençol de agonia.

 

O sonho dorme na fronha,

a camisa precordial,

nódoas da fome da criança

na toalha da mesa oval.

 

Nas águas têxteis do rio,

há sabor de sangue e sal.

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 80.

 





Imagem de leitura — Victoria Harchencko

18 05 2015

 

 

Harchencko VictoriaPoema, 2008

Victoria Harchencko (Rússia, 1978)

óleo sobre tela, 123 x 80 cm

Victoria Harchencko





Os bois, soneto de Olegário Mariano

24 02 2015

 

 

Georgina de Albuquerque,Fazenda com figuras e animais, óleo sobre tela,(c.1952) - 39 x 47 cm.Fazenda com figuras e animais, c. 1952

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 39 x 47 cm

 

 

Os bois

 

Olegário Mariano

 

É dolorosa a angélica atitude

Dos grandes bois lentos a trabalhar…

Sinto neles a força da saúde

A glória de viver para ajudar.

 

Da sua laboriosa juventude

Nada têm, pobres diabos a esperar…

Quem sabe? A vida pode ser que mude…

E eles se põem a olhar o campo, a olhar…

 

Tempo de safra. Brilham canaviais…

Gemem os carros e o rumor se irmana

À alma dos bois que geme muito mais.

 

Pacientemente seguem, dois a dois…

Há uma filosofia muito humana

No mugido e no olhar, tristes, dos bois…

 

 

Em: Toda uma vida de poesia: poesias completas (1911-1955) , Olegário Mariano, Rio de Janeiro, Editora José Olympio: 1957, 1º volume (1911-1931), p. 93

 





O cisne, poema de Geir Campos

6 02 2015

cisnes brancos, alice haversCisnes Brancos

Alice Havers (Inglaterra, 1850-1890)

O Cisne

Geir Campos

Pluma e silêncio, vinha pela vida

aceita com resignação, conquanto

talvez em hora alguma pretendida.

Pressente no ar o aviso da partida

— urge tentar o eterno: um voo, um canto,

um gesto nunca ousado, alguma prece…

Canta, e se vai. O canto permanece.

Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, selecionado por Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro:1961,p. 86.

 

 

 

 

 

 

 

 

 








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