Trova do sol

2 09 2021
Marina vê o nascer do dia, ilustração Maurício de Sousa.

 

 

O sol, cumprida a rotina,

cerra o painel em que atua,

some por trás da colina

e abre o portão para a lua.

 

(Dorothy Jansson Moretti)

 





Plaza Mayor, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

26 07 2021

O casamento, [A boda], 1792

Francisco de Goya (Espanha, 1746 -1828)

óleo sobre tela, 269 x 396 cm

Museu do Prado

 
 
Plaza maior

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

 
O mundo, em guerra, não permite abraços.
Mas, nos rostos da rua, há os mesmos traços.

 

 

Diante de Goya, no Museu do Prado,

vejo sombras que as sombras circundantes

parecem reencarnar. Voltando à rua,

vou para o centro velho. Nestes rostos

que me fitam ou não, há retrarados

do mesmo Goya. Sombras tão goyescas

quanto as sombras que vi entre outras sombras.

Assombra-me o prodígio ao sol ardente

de uma Espanha estival. Que liame estreita

os vínculos dos tempos num só tempo?

Que força une as cadeias com que Cronos

ligou as mãos de tantos entre os séculos?

Agora encaro a praça e vou contando,

como os níqueis do bolso,  tantos Goyas.

 

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.59

NOTA: esta postagem é uma homenagem a Reynaldo Valinho Alvarez que faleceu esta semana, aos noventa anos. Um dos poetas contemporâneos de que mais gosto, com provam as diversas poesias de alguns de seus livros que possuo.





Patinhos na lagoa, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

7 06 2021
Ilustração de Cicely Mary Barker (GB, 1895-1973)
 
Patinhos na lagoa

 

Henriqueta Lisboa

 

Chegam de manso, de manso,

finos pescoços esticam,

deslizando, deslizando,

ferem o espaço com o bico,

deslizando

na superfícies do vidro.

 

O espelho da água que ondula

reflete frocos de arminho

(arminho, paina, algodão).

E as nódoas brancas no azul

são delicadas carícias,

recordam jardins de inverno

quando há lã, cristais e neve.

 

Na lagoa muito fria,

sob o ouro do sol que brilha,

mora um céu:

navegam nuvens, navegam …

Doçura da hora que escoa

vagarosa, deslizando

como um pato na lagoa…

 

Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 59-60





Boa leitura…

6 06 2021

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz/

 





Estrangeiro, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

24 05 2021

Figura

Darel Valença (Brasil, 1924-2017)

Desenho, 54 x 25 cm

 

 

Quando o tempo no vento se eterniza,
a estranheza do mundo é mais precisa.

 

 

Estrangeiro

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

Sou estrangeiro em todos os lugares.

Inútil procurar-te, aldeia minha.

Subo de escada todos os andares,

com a fria espada a acutilar-me a espinha.

Não sou daqui nem sou de lá. Perdi-me

na indecisão de becos e de esquinas.

Como o pardal diante do gato, vi-me

apanhado por garras assassinas.

Os mapas pendurados nas paredes

riem de mim como insensíveis redes,

rasgando os peixes que já não fogem mais.

Prenderam-me entre muros que abomino

e toda noite entoam-me seu hino

de insultos, gritos e ódios triunfais.

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.61





Santos, poesia de Ribeiro Couto

17 05 2021

Porto de Santos, 1986

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

acrílica sobre tela, 54 x 46 cm

 

Santos

Ribeiro Couto

 

Nasci junto ao porto ouvindo o barulho dos embarques.

Os pesados carretões de café

Sacudiram as ruas, faziam trepidar o meu berço.

 

Cresci junto ao porto, vendo a azáfama dos embarques.

O apito triste dos cargueiros que partiam

Deixava longas ressonâncias na minha rua.

 

Brinquei de pegador entre os vagões das docas.

Os grãos de café, perdidos no lajedo,

Eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos.

 

As grades de ferro dos armazéns, fechados à noite,

Faziam sonhar (tantas mercadorias!)

E me ensinavam a poesia do comércio.

 

Sou bem teu filho, ó cidade marítima,

Tenho  no sangue o instinto da partida,

O amor dos estrangeiros e das nações.

 

Oh, não me esqueças, nunca, ó cidade marítima,

Que eu te trago comigo por todos os climas

E o cheiro do café me dá tua presença.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 17.





Minha terra, poesia de Álvaro Moreyra

26 04 2021

Estação de trem

Sylvio Pinto (Brasil, 1918 – 1997)

óleo sobre tela, 40 x 60 cm

 

A minha terra

Álvaro Moreyra

 

A minha terra…

É um céu tão azul que eu nunca mais olhei outro céu tão azul…

É um rio chamado Guaíba que tem uma ilha chamada Pintada…

É uma casa grande…

A minha terra…

Aquela procissão de noite…

O circo de Paulo Cirino…

A estação da estrada de ferro de onde saía o trem para São Leopoldo…

A minha terra cabe toda dentro de mim…

A minha terra é do tamanho de minha infância…

Porto Alegre…

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 10-11.





Na África, poesia de Álvares de Azevedo Sobrinho

19 04 2021

Alegoria da África,1834

[Da série, Alegorias dos Quatro Continentes]

François Dubois (França, 1790-1871)

óleo sobre tela,  80 x 201 cm

 

Na África

 

Manoel Antônio Álvares de Azevedo Sobrinho

 

A noite, novamente, reaparece

E sopra pela costa o rijo vento.

O vento abrasador no ocaso,

Soluça o verde mar como um lamento.

 

Validê tem o olhar no firmamento

Enquanto Allah recebe sua prece…

E nos seus olhos úmidos, parece,

Paira a saudade como o pensamento.

 

Caminha a caravana no deserto,

Sobre os negros cavalos estafados,

Sem oásis avistar distante ou perto…

 

E a moça relembrando o amor que sente,

O ardente pranto dos apaixonados,

Triste, derrama sobre a areia ardente!

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, pp. 213-14.





Ladainha, poesia de Cassiano Ricardo

8 03 2021

Paisagem

Bustamante Sá (Brasil, 1907- 1988)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

 

Ladainha

 

Cassiano Ricardo

 

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome

de Ilha de Vera Cruz.

Ilha cheira de graça

Ilha cheia de pássaros

Ilha cheia de luz.

Ilha verde onde havia

mulheres morenas e nuas

anhangás a sonhar com histórias de luas

e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

 

Depois mudaram-lhe o nome

pra terra de Santa Cruz.

Terra cheia de graça

Terra cheia de pássaros

Terra cheia de luz.

 

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças ruivas  deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.

 

Mas como houvesse, em abundância,

certa madeira cor de sangue cor de brasa

e como o fogo da manhã selvagem

fosse um brasido no carvão noturno da paisagem.

 

e como a Terra fosse de árvores vermelhas

e se houvesse mostrado assaz gentil

deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça

Brasil cheio de pássaros

Brasil cheio de luz

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 53-54.





Ladyce West, a Peregrina Cultural, lança seu primeiro livro de poesia

1 12 2020

Muito feliz de anunciar que meu livro, À meia voz, com 60 poemas, está a partir de hoje em PRÉ-VENDA a R$33,00, no site da editora Autografia. Estou muito orgulhosa.   Logo estará também à venda em e-book.

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz/








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