A fonte da mata, poesia de Hermes Fontes

14 01 2020

 

 

9c67715aa8448f5a02a8198b928fa1f2--watercolour-techniques-watercolour-tutorialsAutoria desconhecida.

 

 

A fonte da mata

 

Hermes Fontes

 

Depois de longa ausência e penosa distância,

vi a fonte da mata,

de cuja água bebi, na minha infância.

 

E que melancolia

nessa emoção tão grata!

 

Ver — constância das coisas, na inconstância…

ver que a Poesia é uma segunda infância,

e que toda Poesia…

 

Vem da fonte da mata…

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 157.

 

 





Soneto de Natal, Alphonsus de Guimaraens Filho

19 12 2019

 

 

 

3 REIS, baseado em xilogravura

 

 

Soneto de Natal

 

Alphonsus de Guimaraens Filho

 

 

É Natal. Foram tantos os Natais…

Pois que é Natal mais uma vez, apreende

esse cântico longo que se estende

por terras, mares, não termina mais.

 

Natal mais uma vez. Uma vez mais,

o menino que só a estrela entende,

os pais que a treva inquieta, ela, a quem rende

a certeza das coisas abissais.

 

Pois que é Natal, pensemos no menino,

apenas no menino. E o contemplemos

no berço onde ora está, tão pequenino.

 

Já quanto aos pais, a meditar deixemos.

Sabem os pais qual a hora do destino.

Fingindo não saber, sonhando olhemos.

 

Em: Todos os sonetos, Alphonsus de Guimaraens Filho, Rio de Janeiro, Editora Galo Branco: 1996





O poema, Mário Quintana

25 11 2019

 

 

charles senardA estudante

Chales Sénard (França, 1878 — 1934)

óleos obre tela

 

 

O poema

 

Uma formiguinha atravessa, e diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida…

 

Em: Mário Quintana, Prosa e verso – série paradidática — Porto Alegre, Editora Globo: 1978, p.25

 

 





O pavão vermelho, poesia de Sosígenes Costa

28 10 2019

 

 

Angelo Simeone, (Itália-Brasil, 1899-1963) Figura feminina, Óleo sobre tela colado sobre eucatex, 60 X 48cmFigura feminina

Angelo Simeone, (Itália/Brasil, 1899 -1963)

óleo sobre tela colada sobre eucatex, 60 X 48 cm

 

 

O pavão vermelho

 

Sosígenes Costa

 

Ora, a alegria, este pavão vermelho,

está morando em meu quintal agora.

Vem pousar como um sol em meu joelho

quando é estridente em meu quintal a aurora.

 

Clarim de lacre, este pavão vermelho

sobrepuja os pavões que estão lá fora.

É uma festa de púrpura. E o assemelho

a uma chama do lábaro da aurora.

 

É o próprio doge a se mirar no espelho.

E a cor vermelha chega a ser sonora

neste pavão pomposo e de chavelho.

 

Pavões lilases possuí outrora.

Depois que amei este pavão vermelho,

os meus outros pavões foram-se embora.





Motivo, poema de Cecília Meireles

17 10 2019

 

 

 

Aaron Shikler (EUA, 1922–2015)Mulher lendo (esposa do pintor), 1962, pastel sobre papelão, 50 x 44 cmMulher lendo (esposa do pintor), 1962

Aaron Shikler (EUA, 1922–2015)

pastel sobre papelão, 50 x 44 cm

 

Motivo

 

Cecília Meireles

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.

 

 

Em: Antologia Poética, Cecília Meireles,  Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira: 2001





Tempestades, poesia de Luís Pimentel

3 10 2019

 

 

Miranda - The tempest, by John William Waterhouse

Miranda, de  A Tempestade, 1916

John William Waterhouse (GB, 1849 – 1917)

óleo sobre tela, 100 x 137 cm

Coleção Particular

 

 

Tempestades

 

Luís Pimentel

 

P/ Ferreira Gullar

 

Nada restará depois das águas.

 

São assim as tempestades

que vêm quando menos se espera

ou quando mais se procura.

 

Nada sobrará desses barulhos

de raios, fogo e trovões aflitos,

corações aos gritos, a treva lá fora.

 

Nada restará deste silêncio,

além do pingo choroso na torneira.

 

Pouco a se fazer depois dos tombos:

desentupir os ralos, enterrar os mortos,

secar os panos e fechar as janelas.

 

Por fim seguir aos trancos e trancos,

até a queda do próximo barranco

— sem contornos, sem encostas.

 

Em: As miudezas da velha (e outros poemas miúdos), Luís Pimentel, Rio de Janeiro, Myrrha: 2003, 2ª edição, página 48.   [Prêmio Jorge de Lima de Poesia, da União Brasileira de Escritores]

 





Trova do violão

29 09 2019

 

Artist Song Postcard Kutzer, Ernst, Frau und Mann, Gitarre, Deutscher Schulverein, 1913Cartão postal da Alemanha, de Ernst Kuzer, 1913.

 

Para de amor cantar mágoas,

foi que se fez o violão,

que a gente aperta no peito,

e encosta no coração…

 

(Adelmar Tavares)

 








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