Patinhos na lagoa, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

7 06 2021
Ilustração de Cicely Mary Barker (GB, 1895-1973)
 
Patinhos na lagoa

 

Henriqueta Lisboa

 

Chegam de manso, de manso,

finos pescoços esticam,

deslizando, deslizando,

ferem o espaço com o bico,

deslizando

na superfícies do vidro.

 

O espelho da água que ondula

reflete frocos de arminho

(arminho, paina, algodão).

E as nódoas brancas no azul

são delicadas carícias,

recordam jardins de inverno

quando há lã, cristais e neve.

 

Na lagoa muito fria,

sob o ouro do sol que brilha,

mora um céu:

navegam nuvens, navegam …

Doçura da hora que escoa

vagarosa, deslizando

como um pato na lagoa…

 

Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 59-60





Boa leitura…

6 06 2021

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz/

 





Estrangeiro, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

24 05 2021

Figura

Darel Valença (Brasil, 1924-2017)

Desenho, 54 x 25 cm

 

 

Quando o tempo no vento se eterniza,
a estranheza do mundo é mais precisa.

 

 

Estrangeiro

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

Sou estrangeiro em todos os lugares.

Inútil procurar-te, aldeia minha.

Subo de escada todos os andares,

com a fria espada a acutilar-me a espinha.

Não sou daqui nem sou de lá. Perdi-me

na indecisão de becos e de esquinas.

Como o pardal diante do gato, vi-me

apanhado por garras assassinas.

Os mapas pendurados nas paredes

riem de mim como insensíveis redes,

rasgando os peixes que já não fogem mais.

Prenderam-me entre muros que abomino

e toda noite entoam-me seu hino

de insultos, gritos e ódios triunfais.

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.61





Santos, poesia de Ribeiro Couto

17 05 2021

Porto de Santos, 1986

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

acrílica sobre tela, 54 x 46 cm

 

Santos

Ribeiro Couto

 

Nasci junto ao porto ouvindo o barulho dos embarques.

Os pesados carretões de café

Sacudiram as ruas, faziam trepidar o meu berço.

 

Cresci junto ao porto, vendo a azáfama dos embarques.

O apito triste dos cargueiros que partiam

Deixava longas ressonâncias na minha rua.

 

Brinquei de pegador entre os vagões das docas.

Os grãos de café, perdidos no lajedo,

Eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos.

 

As grades de ferro dos armazéns, fechados à noite,

Faziam sonhar (tantas mercadorias!)

E me ensinavam a poesia do comércio.

 

Sou bem teu filho, ó cidade marítima,

Tenho  no sangue o instinto da partida,

O amor dos estrangeiros e das nações.

 

Oh, não me esqueças, nunca, ó cidade marítima,

Que eu te trago comigo por todos os climas

E o cheiro do café me dá tua presença.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 17.





Minha terra, poesia de Álvaro Moreyra

26 04 2021

Estação de trem

Sylvio Pinto (Brasil, 1918 – 1997)

óleo sobre tela, 40 x 60 cm

 

A minha terra

Álvaro Moreyra

 

A minha terra…

É um céu tão azul que eu nunca mais olhei outro céu tão azul…

É um rio chamado Guaíba que tem uma ilha chamada Pintada…

É uma casa grande…

A minha terra…

Aquela procissão de noite…

O circo de Paulo Cirino…

A estação da estrada de ferro de onde saía o trem para São Leopoldo…

A minha terra cabe toda dentro de mim…

A minha terra é do tamanho de minha infância…

Porto Alegre…

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 10-11.





Na África, poesia de Álvares de Azevedo Sobrinho

19 04 2021

Alegoria da África,1834

[Da série, Alegorias dos Quatro Continentes]

François Dubois (França, 1790-1871)

óleo sobre tela,  80 x 201 cm

 

Na África

 

Manoel Antônio Álvares de Azevedo Sobrinho

 

A noite, novamente, reaparece

E sopra pela costa o rijo vento.

O vento abrasador no ocaso,

Soluça o verde mar como um lamento.

 

Validê tem o olhar no firmamento

Enquanto Allah recebe sua prece…

E nos seus olhos úmidos, parece,

Paira a saudade como o pensamento.

 

Caminha a caravana no deserto,

Sobre os negros cavalos estafados,

Sem oásis avistar distante ou perto…

 

E a moça relembrando o amor que sente,

O ardente pranto dos apaixonados,

Triste, derrama sobre a areia ardente!

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, pp. 213-14.





Ladainha, poesia de Cassiano Ricardo

8 03 2021

Paisagem

Bustamante Sá (Brasil, 1907- 1988)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

 

Ladainha

 

Cassiano Ricardo

 

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome

de Ilha de Vera Cruz.

Ilha cheira de graça

Ilha cheia de pássaros

Ilha cheia de luz.

Ilha verde onde havia

mulheres morenas e nuas

anhangás a sonhar com histórias de luas

e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

 

Depois mudaram-lhe o nome

pra terra de Santa Cruz.

Terra cheia de graça

Terra cheia de pássaros

Terra cheia de luz.

 

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças ruivas  deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.

 

Mas como houvesse, em abundância,

certa madeira cor de sangue cor de brasa

e como o fogo da manhã selvagem

fosse um brasido no carvão noturno da paisagem.

 

e como a Terra fosse de árvores vermelhas

e se houvesse mostrado assaz gentil

deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça

Brasil cheio de pássaros

Brasil cheio de luz

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 53-54.





Ladyce West, a Peregrina Cultural, lança seu primeiro livro de poesia

1 12 2020

Muito feliz de anunciar que meu livro, À meia voz, com 60 poemas, está a partir de hoje em PRÉ-VENDA a R$33,00, no site da editora Autografia. Estou muito orgulhosa.   Logo estará também à venda em e-book.

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz/





Nós, soneto de Inocêncio Candelária

1 12 2020

Lembrança do primeiro amor, 1995

Ernani Pavaneli (Brasil, 1942)

acrílica sobre tela, 65 x 54 cm

 

Nós

 

Inocêncio Candelária

 

Brincávamos nós dois o dia inteiro:

Você linda criança. eu pequenino,

Num mútuo benquerer, num verdadeiro

Mundo de flores, plácido e divino!

 

Sempre juntos, você foi quem primeiro

Ensinou-me de um modo peregrino,

Viver, amar, ser bom, ser altaneiro,

Minha loura boneca de menino…

 

Depois fui para longe… A nossa dita

O tempo transformou. Deus assim quer!

Fiquei moço e você ficou mulher…

 

E mulher, mais mimosa, mais bonita,

Você é ainda a mesma em meu destino

Minha loura boneca de menino.

 

Em: 232 Poetas Paulistas: antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 350

 

Inocêncio Candelária, (1910- 1992) jornalista,  contista, historiador, biógrafo, antologista, poeta e trovador,  nasceu no município de Salesópolis a 5 de setembro de 1910, filho de Benedito Ferreira Candelária e Benedita de Melo Candelária. Residiu e faleceu em Mogi das Cruzes.

Obras

 Filólogo da Escola da Praça, (1945) – crítica

 [premiado pela Academia Brasileira de Letras]

Poetas do Norte de São Paulo, (1958) antologia poética





“Esse cão”, poesia de Vera Lúcia de Oliveira

9 11 2020

Galgo, 2010

Aguiar Santana (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 30 x 30 cm

 

 

 

 

[Sem título]

 

Vera Lúcia de Oliveira

 

esse cão que me segue

é minha família, minha vida

ele tem frio mas não late nem pede

ele sabe que o que tenho

divido com ele, o que eu não tenho

também divido com ele

ele é meu irmão

ele é que é meu dono

 

 

Em: Cintilações da Sombra 2: antologia poética, coordenação Victor Oliveira Mateus, Fafe, Portugal, Labirinto e Núcleo de Artes e Letras de Fafe: s.d., p. 85








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