Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 6— #PHpoemaday

6 06 2014

 

 

Mark Spain THE LOVE LETTER, Great Britain, Contemp.

A carta de amor

Mark Spain (Inglaterra, 1962)

óleo

 

Tema: Azul

 

Eu sei de cor

 

Silvia Nice

 

Eu sei de cor
Mar, luar, firmamento,
presentes já no paraíso,
cor primária e cor-pigmento
Adão e Eva já sabiam disso?
É cor de menino, é a cor de planetas,
está na bandeira, mas uso em caneta
é bebê, é petróleo, é turquesa, é marinho,
é safira, é viagra, é até ararinha
Se nos olhos, beleza
No sangue, nobreza
Dos quadrinhos pras lentes
é a cor mais quente
Na TV fez sucesso
mas já deu, tô de boa,
meu humor se perdeu
naquela tal Lagoa
Figurando no cine
pintou os sets
quis se destacar
com legenda, foi Jasmine
coloriu a Smurfette
e em 3D foi Avatar
Escravos libertos do plantio do algodão
aliviavam a dor de seus corpos nus
clamavam com a voz do coração
o olhar divino cantando Blues
Estimula mesmo a criatividade
olha só o pinguinho de tinta
no papel da Aquarela
Mas não posso negar a verdade
das sete cores do arco
eu prefiro a amarela.

 

Cores se igualam a amores

Nathalya Delgado

 

Cores se igualam a amores.
Cores se incluem a lugares.
Cores se espalham pelos mares.
Cores que alegram os lares.
Uma cor decora meus amores.
Uma cor se integra aos meus lugares
Uma cor encanta os meus mares.
Uma cor se destaca nos meus lares.





Dia 6: Azul, desafio da escrita, #PHpoemaday

6 06 2014

 

 

Old_guitarist_chicagoO velho violeiro, 1904

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

óleo sobre tela, 122 x 82 cm

The Art Institute, Chicago

 

Tema: Azul

 

Azul o quê?

Não sou fã da cor azul.
Só no céu.
De preferência como pano de fundo
De uma frondosa bananeira,
De uma grande mangueira,
De pitangueiras e jabuticabeiras.
Por trás de uma montanha,
Enquadrando a paisagem bucólica,
Ou contrastando com um flamboyant.
Não há rosas azuis. Nem tulipas.
Nem comidas, nem bebidas.
Fruta tropical não se passa por azul.
Nem o mirtilo que é roxo e europeu.
A baleia azul, não o é…
Tampouco é o “blue cheese”.
Azul para mim é uma cor triste.
Não sou a única.
Picasso triste é azul.
No Irã é a cor do luto.
É a cor do nada, na televisão…
Indefinível, precisa de companhia para existir:
Azul-bebê, azul- turquesa, azul-marinho, azul-celeste, azul-anil,
Azul cobalto, azul-ardósia, azul-petróleo, azul-aço, azul-cadete,
Azul-pólvora, azul meia-noite, azul-furtivo, azul da Pérsia.
Em inglês, significa tristeza.
Are you feeling blue?
Não. Não estou deprimida”, respondo.
Estou verde e amarela…

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 

 

 





Dia 5: Pela sua janela hoje, desafio da escrita, #PHpoemaday

5 06 2014

 

 

Burle-Marx2

Sem título, 1941
Roberto Burle Marx (Brasil, 1909-1994)
óleo sobre tela
Coleção Roberto Marinho

 

Tema de hoje: Pela sua janela hoje

 

Por minha janela hoje

Por minha janela hoje vejo o mundo passar.
Por ela, entrou a pena branca de um pássaro em voo,
e a brisa fria que me esfriou as orelhas.
Da minha janela ouço o soluço da araponga na mata;
o zumbido de um jato nos céus; e no buriti, a arruaça dos maracanãs inquietos.
O mangueiral em flor anuncia um verão saboroso,
enquanto a névoa no horizonte lembra os dias curtos de inverno.
Por minha janela, hoje, entrou a réstia de sol com que esquentei minhas mãos,
e o perfume do jasmim que plantamos juntos no portão.
Por ela, vejo que as abelhas continuam na lida,
e os colibris dançam com as flores mais vistosas.
A relva orvalhada me colore de esperança.
No beiral, as lagartixas tomam banho de sol.
Hoje, por minha janela, espero.
Espero por você que não mandou notícias.
Espero por você, enquanto vejo o mundo passar.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014.





Dia 4: Sua paixão, desafio da escrita, #PHpoemaday

4 06 2014

 

 

 

1754277

 

Sua paixão

 

Sua paixão eram os relógios-cuco.
Tinha mais de oitenta espalhados pela casa.
Cantavam todos em coral ao meio dia.
Quando morreu levou consigo
a voz da passarada.

©Ladyce West, Rio de Janeiro:2014





Bandeja de madeira, de Ladyce West

27 07 2009

 

 

bandeja de madeira, turística, marqueteria

Ontem à noite Gisela, minha prima e amiga, lembrou-me deste poema que publiquei em 2007.  Numa conversa familiar decidimos que eu  iria re-colocá-lo na web, apesar de já ter aparecido no meu antigo blog:  A Meia Voz.  Agradeço aos fãs da peripécia aqui revelada.

 

 

Bandeja de madeira

 

Ladyce West

 

 

Comprei uma bandeja de madeira,

No mercado de usados da cidade.

O preço alto, verdadeiro assalto,

Testava a minha vontade…

Invocada reclamei:

“Preço muito apimentado!”

O feirante desfiou, então,

A ladainha da ocasião:

Uma cascata de palavras

E de muitas abobrinhas.

Listadas de um modo simples,

Em fileira memorizada,

Uma tabuada de dados,

Sem nexo e sem sentido,

Qual jovem guia turístico

Treinado para repetir,

Sem nenhuma compreensão,

História de monumentos,

Batalhas, guerra ou ação.

Um rol de características,

Uma lista de preciosismos,

Que turistas escutam em vão.

No caso do comerciante,

Era manobra astuta,

Artimanha obstrucionista,

Inspirada na política

Do partido oposicionista,

Com intenção de impedir

Barganhas, regateio, pechincha.

Mas não me dei por vencida

E esbocei, na medida,

Uma ensaiada choradeira

De compradora matreira,

Desconfiada confessa.

Mas para meu desagrado,

A manobra desta vez

Não deu nenhum resultado.

E o vendedor perturbado,

Não se fazendo de rogado,

Disse em português claro:

O preço é este e está acabado!

Era esperteza, eu sabia.

Manha de ressabiado

Recalque de gato escaldado.

Experiente e esperta,

Também lhe disse umas tantas,

Questionei ainda uma vez

Os dados da tal bandeja

Que sabia muito bem

Não ser uma antiguidade.

“Mas minha senhora veja,

Já não se faz trabalho

Detalhado como este.

Marqueteria finíssima,

Olhe a delicadeza

Deste desenho aqui em cima!”

Mantive meu ar incrédulo

De pessoa que conhece:

Reclamei do acabamento,

Das alças, das bordas, do centro,

Do verniz barato – opaco.

“Não sou caloteiro!

Nem tampouco pirateio.

A Sra. pode confirmar

Nos antiquários da cidade!

Vai ver que é coisa boa,

Que tem uma certa idade!”

Pus-me a andar, dando o fora,

No velho ardil de negócios

Fazendo-lhe acreditar

Que era fácil ir embora.

Ele veio correndo atrás,

É vintage, minha senhora,

É vintage, repetia!

Como se a palavra,

A denominação,

A expressão estrangeira,

Respondesse às perguntas

Corriqueiras que lhe fiz.

Mas parei.  E voltei.

Queria muito a bandeja

Rica em marqueteria.

“Não pode ser”, eu dizia,

“Eu me lembro dessas bandejas,

Dessas lembranças para turistas,

Vendidas nas barraquinhas

Da Quinta da Boa Vista…”

De súbito ele parou.

De cima abaixo me olhou.

E puxando lá do fundo

De sua sabedoria, perguntou:

“– Mas quantos anos a senhora tem?”

Num breve momento de pausa,

Disse para mim mesma:

“Que história!  Traída pela memória!”

Olhei para a bandeja de novo

E ainda uma vez mais…

E paguei.

 

 

© Ladyce West, 2007,  Rio de Janeiro





Ano-novo — poema de Wilson Frade

29 12 2008

ano-novo-e-ano-velho

Ilustração de Blanche Fisher Wright

ANO-NOVO

 

 

                                 Wilson Frade

 

 

As últimas horas que restam são de incrível exorcismo.

Os meninos curtem, sonolentos, brinquedos de Papai Noel,

mas as luas que me restam são roteiros irrecuperáveis.

Nem todos os sinos repicam ao mesmo tempo

e nem todos os seios amamentam com o mesmo leite.

Os pândegos comemoram à sua maneira,

e há sintomas de medo e espanto.

Jogo na cesta papéis sem memória

que os rios levam nas suas mesmas águas.

Meia-noite…  Subo ao céu para beijar a estrela

porque já sou Ano-novo.

E ela nunca mais será a mesma rosa.

 

 

 

 

Em: Poemas de um livro só, Nova Fronteira:1991, Rio de Janeiro

 

 

Wilson Frade – (MG 1920-2000) jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.





Girafa — Poesia infantil de Leonel Neves

24 11 2008

girafa1

 

 

GIRAFA  

 

Leonel Neves

 

 

Tenho pena da girafa

de pescoço grandalhão:

– Como é que a pobre se abafa,

tendo uma constipação?

 

Coitadinha da Girafa!

 

Quando eu me constipo, posso

arranjar um cachecol.

Mas com aquele pescoço…

Safa!

Pobre da Girafa!

– Vou oferecer-lhe um lençol.

 

 

 

Em: Bichos de trazer para casa: poemas para crianças, Livros Horizonte: 1981, 3ª ed.

 

Carlos Duarte Leonel Neves nasceu em Faro, Portugal, em 1921. Publicou o seu primeiro livro de poesia Janela Aberta, em 1940, mas é somente a partir de 1975 que escreve para crianças.

 








%d blogueiros gostam disto: