Trova das lembranças

15 06 2021
Ilustração de Steven Noble.

 

Lembranças, quem não cultiva ?

Afinal, a nossa mente,

faz questão de manter viva,

além do fruto, a semente…

 

(Nélio Bessant dos Santos)





10 de junho, dia de Camões

10 06 2021

Senhora de vermelho

Beatrice Offor (GB, 1864-1920)

óleo sobre tel, 108 x 82 cm

Bruce Castle Museum, Londres

 

 

Soneto

 

Luís de Camões

 

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.





Trova do nosso encontro

31 05 2021
Ilustração, Laurence Stephen Lowry, R.A. (1887-1976)

Um pelo outro, passamos,

com os olhos fitos no chão…

_ Mas, com que ardor nos olhamos

com os olhos do coração!

(Lilinha Fernandes)





Estrangeiro, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

24 05 2021

Figura

Darel Valença (Brasil, 1924-2017)

Desenho, 54 x 25 cm

 

 

Quando o tempo no vento se eterniza,
a estranheza do mundo é mais precisa.

 

 

Estrangeiro

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

Sou estrangeiro em todos os lugares.

Inútil procurar-te, aldeia minha.

Subo de escada todos os andares,

com a fria espada a acutilar-me a espinha.

Não sou daqui nem sou de lá. Perdi-me

na indecisão de becos e de esquinas.

Como o pardal diante do gato, vi-me

apanhado por garras assassinas.

Os mapas pendurados nas paredes

riem de mim como insensíveis redes,

rasgando os peixes que já não fogem mais.

Prenderam-me entre muros que abomino

e toda noite entoam-me seu hino

de insultos, gritos e ódios triunfais.

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.61





Sublinhando…

17 05 2021

Leitora, 1905

Theodeor Axentowicz, (Polônia 1859- 1938)

pastel sobre papel

 

 

“E o sol do amor, que não entrava outrora,
Entra dourando a areia dos caminhos.”
 

Olavo Bilac (Brasil, 1865-1918), em Via Láctea, 1888, IV [“Como a floresta secular, sombria”]





Trova da noite escura

6 05 2021
Ilustração de Coles Phillips, Capa de Good Housekeeping, Fevereiro de 1916.

Noite escura!… De repente,

dois faróis surgem na estrada…

E a escuridão sai da frente

como quem foge, assustada.

(Durval Mendonça)





Medo do escuro, poesia de Helena Lima

3 05 2021
Noite, ilustração de Yan Nascimbene

 

Medo de escuro

 

Helena Lima

 

Era uma vez a Lua.

Ela tinha medo do escuro.

Era uma vez o Céu.

Ele também tinha medo do escuro.

A Lua pedia emprestada a luz do Sol.

Ele emprestava, às vezes.

O Céu pedia para a Lua acender.

Ela acendia quando podia.

Se o Sol estivesse de bom humor,

a Lua ganhava luminosidade em trezentos e sessenta graus.

Mas quando o mar não estava para peixes e o Sol não estava para estrelas,

não emprestava nada.

Nadinha.

E o Céu ficava escuro.

Escurinho.

A Lua sentia calafrios.

O Céu sentia solidão.

O medo da Lua era de cair e morrer no mar.

O medo do Céu era de fechar e não voltar a clarear.

Um dia, Céu e Lua decidiram:

“Pra acabar com o escuro e a solidão, a gente vai se casar”.

Desde então, os dois passam  o dia inteirinho

contando os  minutos para o Sol se retirar.

 

Em: Amores virados pra cá, Helena Lima e Isabelle Borges, Rio de Janeiro, Lago Baikal: 2019, p. 130





Trova do perfume

27 04 2021
Monica se perfuma.  Ilustração Maurício de Sousa.

Que me traias, tu me negas,

mas, traindo-me, te trais:

– O perfume com que chegas,

nunca é o mesmo com que sais…

 

(Cesídio Ambrogi)





Trova do espelho

21 04 2021
Ilustração de Edmund Franklin Ward (EUA, 1892-1990)

 

 

A saudade é simplesmente

Um claro espelho encantado;

mira-se nele o presente      

e ele reflete o passado.

(Geralda Armond)





Na África, poesia de Álvares de Azevedo Sobrinho

19 04 2021

Alegoria da África,1834

[Da série, Alegorias dos Quatro Continentes]

François Dubois (França, 1790-1871)

óleo sobre tela,  80 x 201 cm

 

Na África

 

Manoel Antônio Álvares de Azevedo Sobrinho

 

A noite, novamente, reaparece

E sopra pela costa o rijo vento.

O vento abrasador no ocaso,

Soluça o verde mar como um lamento.

 

Validê tem o olhar no firmamento

Enquanto Allah recebe sua prece…

E nos seus olhos úmidos, parece,

Paira a saudade como o pensamento.

 

Caminha a caravana no deserto,

Sobre os negros cavalos estafados,

Sem oásis avistar distante ou perto…

 

E a moça relembrando o amor que sente,

O ardente pranto dos apaixonados,

Triste, derrama sobre a areia ardente!

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, pp. 213-14.








%d blogueiros gostam disto: