Poeta no museu: Hélio Pellegrino

2 07 2020

 

 

Minke_Wagenaar_-_Vincent_van_Gogh_1888_The_yellow_house_('The_street')_-_detailA casa amarela, 1888

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853 – 1890)

óleo sobre tela

Museu de Van Gogh, Amsterdã

 

 

Van Gogh em Amsterdã

 

Hélio Pellegrino

 

Por debaixo de tudo:

diques, dunas, frontões;

 

Por debaixo de tudo:

nobres pedras, canais

onde remam cisnes;

 

Por debaixo do mundo

lavra um incêndio.

 

Amsterdã, 1º/1/1981

 

Em: Minérios Domados, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco:1993, p.39





Trova do sábio

30 06 2020

 

 

800-sargent3619framed3Richard Sargent (1911-1978)Ilustração de Richard Sargent (1911-1978)

 

 

Sábio nenhum há completo

Neste mundo, assim entendo:

Por mais que seja correto,

O sábio morre aprendendo…

 

(Sabino de Campos)

 

 





A chave do relógio, poesia de Joaquim José Teixeira

29 06 2020

 

 

DeScott_Evans_Grandfathers_ClockO relógio de pêndulo, 1881

De Scott Evans  (EUA, 1847–1898)

óleo sobre tela, 116 x 73 cm

Coleção Particular

 

A chave do relógio

Joaquim José Teixeira

 

Fábula

 

A um relógio dava corda

Chavinha de áureo metal,

E mui vaidosa do impulso

Parar não quis afinal.

 

Forçou, pois, e desta força

Dentro a mola arrebentou,

E do tempo o mecanismo

Sem movimento ficou.

 

Resolvam, mandem governos

Nas raias do seu poder,

Vejam bem nesta chavinha

Que não basta o só querer.

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 143

 

Joaquim José Teixeira nasceu no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1811 e faleceu também no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1885. Foi advogado, poeta, romancista, dramaturgo,teatrólogo, tradutor, conferencista, oficial da Ordem da Rosa, sócio-fundador do Instituto dos Advogados Brasileiros e sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Colaborou em vários jornais e revistas. Traduziu Goethe, Molière, Fontaine entre outros.

Obras:

Elogio dramático, 1840

Fábulas, 1865

Versos, 1865

Pensamentos, (versos) 1878





A rã e o touro, Olavo Bilac

25 06 2020

 

 

illustrations_couleur_fables_de_la_Fontaine_par_Vimar_-_la_grenouille_qui_veut_se_faire_aussi_grosse_que_le_boeufIlustração de Auguste Vimar (1851-1916)

 

 

A rã e o touro
Fábula de Esopo

 

Olavo Bilac

 

Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.

Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,

Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,

Que os outros animais só faça nojo e pena?

Vamos! quero ser grande! Incharei tanto, tanto,

Que imensa, causarei às outras rãs espanto!”

Pôs-se a comer e a inchar. E inchava, inchava, inchava!…

Mas em vão! Tanto inchou que num tremendo estouro

Rebentou e morreu, sem ficar  como um touro.

 

Essa tola ambição da rã que quer ser forte

Muitos homens conduz ao desespero e à morte.

Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,

Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:

— Gasta tudo que tem, o que não tem consome,

E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 127-8

 





As velhas árvores, Olavo Bilac

16 06 2020

 

 

Edgar Walter - Quadro á óleo sobre tela representando Parque com figuras.54 x 72 cmParque com figuras

Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)

óleo sobre tela, 54 x 72 cm

 

As velhas árvores

 

Olavo Bilac

 

Olhas estas velhas árvores,  — mais belas,

Do que as árvores moças, mais amigas,

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas…

 

O homem, a fera e o inseto à sombra delas

Vivem livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E alegria das aves tagarelas…

 

É preciso, desde a infância,

Ir preparando o futuro;

Para chegar à abundância,

É preciso semear…

 

Não nasce a planta perfeita,

Não nasce o fruto maduro;

E, para ter a colheita,

É preciso semear…

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 115-116





10 de junho, dia de Camões

10 06 2020

 

JESSER VALZACCHI - Tarde de domingo - Óleo sobre tela - 90 x 70 - 2014Tarde de domingo,  2014

Jesser Valzacchi (Brasil, 1983)

óleo sobre tela,  90 x 70 cm

 

Quem vê, Senhora, claro e manifesto

 

Luís de Camões

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.





Eu vou pra beira do mar, poesia de Luiz Peixoto

2 06 2020

 

 

Hugo Adami. Paisagem praiana, óleo sobre tela, med. 60 x 80 cm, assinado c.i.direito. Pílade Francisco Hugo AdamiPaisagem praiana

Hugo Adami (Brasil, 1899 — 1999)

óleo sobre tela,  60 x 80 cm

 

 

Eu vou pra beira do mar

 

Luiz Peixoto

 

Eu vou pra beira do mar

esperar uma sereia,

que canta as canções do Vento,

que canta as canções do Mar.

 

Em noite de lua-cheia,

com ela vou me casar.

 

No leito branco da areia,

com ela vou me deitar.

 

E todo o amor que incendeia

meu coração vou lhe dar.

 

Quando a última candeia

das estrelas se apagar,

bem sei que ela irá embora,

mas um dia há de voltar.

 

As sereias vão e voltam,

São como as ondas do mar…

 

Em: Poesia de Luiz Peixoto, Rio de Janeiro, Editora Brasil-América:1964, p. 96





Confiança, poesia de Abel Silva

25 05 2020

 

 

b69c45bc9389e7c7fbf8bad718726ec8Ilustração de Kathy Wolmack

 

 

Confiança

 

Abel Silva

 

Sou destituído de fé religiosa

mas confio. Não tenho alternativas.

Eu não conheço o engenheiro

mas entro neste prédio.

Não conheço o piloto

e embarco no avião.

Não sei quem plantou

colheu ou preparou:

mas bebo o vinho

e como o pão.

 

Em: Mundo delirante: poesias, Abel Silva, Rio de Janeiro, Europa: 1990, p. 18





O relógio, poema de Jorge de Lima

17 05 2020

 

 

l27horlogedesapience28theclockofwisdom29fromabout1450O relógio do saber, século XV. — L’Horloge de Sapience (Bruxelles, Bibliothèque Royale , ms. IV 111

 

O relógio…

 

Jorge de Lima

 

Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos…

Consulto-te: um segundo!  E quem sabe se agora,

Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos

Alma que filosofa e investiga e labora?

 

Há de a morte ceifar somas de moribundos.

O relógio trabalha… E um sorri e outro chora,

Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos

Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora…

 

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,

Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético

Tem posturas de algoz e gestos de coveiro…

 

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,

Tudo encerra o segundo, insólito — sintético:

A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece!

 

[A Instrução, Maceió, 1907]

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 45





“Bosquejo” poesia de Raimundo Correia

27 04 2020

 

 

Eduardo Feitosa, (Brasil, Sb do campo, 1957)mãe e filha, ostMãe e filha lendo

Eduardo Feitosa (Brasil, 1957)

óleo sobre tela

 

 

Bosquejo

 

Raimundo Correia

 

Repica o sino na matriz da vila,

Como um dia de gala…

São dez horas somente; o sol rutila,

Faísca o espelho de cristal na sala.

 

A pêndula palpita,

Compassada e monótona;  singelo,

Numa gaiola, elétrico saltita

Um canário amarelo.

 

São dez horas; erguidas

As persianas deixam ver, distantes,

Das árvore floridas

As frondes verdejantes.

 

Sutil essência de magnólia e rosa

Repassa o ambiente,,,  e a mãe a ler ensina,

Sorrindo  carinhosa,

A loura filha,  ingênua e pequenina.

 

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 24.

 

 








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