Motivo, poema de Cecília Meireles

17 10 2019

 

 

 

Aaron Shikler (EUA, 1922–2015)Mulher lendo (esposa do pintor), 1962, pastel sobre papelão, 50 x 44 cmMulher lendo (esposa do pintor), 1962

Aaron Shikler (EUA, 1922–2015)

pastel sobre papelão, 50 x 44 cm

 

Motivo

 

Cecília Meireles

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.

 

 

Em: Antologia Poética, Cecília Meireles,  Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira: 2001





Bucólica nostalgia, poesia de Adélia Prado

7 10 2019

 

 

 

Armínio Pascual (Brasil, 1920-2006)Paisagem colonial,1998, ose, 30 x 40 cmPaisagem colonial, 1998

Armínio Pascual (Brasil, 1920 – 2006)

óleo sobre eucatex, 30 x 40 cm

 

 

Bucólica Nostalgia

Adélia Prado

 

Ao entardecer no mato, a casa entre

bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,

aparece dourada. Dentro dela, agachados,

na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,

rápidos como se fossem ao Êxodo, comem

feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,

muitas vezes abóbora.

Depois, café na canequinha e pito.

O que um homem precisa pra falar,

entre enxada e sono: Louvado seja Deus!





“Para cultivar pássaros”, poesia de Dirce de Assis Cavalcanti

26 09 2019

 

 

Sally FranklinIlustração de Sally Franklin.

 

 

Para cultivar pássaros

 

Dirce de Assis Cavalcanti

 

Para cultivar pássaros

e falar com as flores

subir à montanha,

capturá-la em seus abismos

com viril delicadeza

mergulhar na amplidão

de suas formas.

 

Um mergulho perigoso

de onde se sai aos pedaços.

 

Reunir os cacos

em melancólico mosaico

recompor a paisagem

do que se foi um dia

mesmo sabendo que inteiro

não se é nunca mais.





O escritor no museu: Gabriela Mistral

9 09 2019

 

 

 

d2dce03ddd9a53a1ad6a0d6693ec8cedGabriela Mistral, 1956

Oswaldo Guayasamin (Equador/EUA, 1919 – 1999)

óleo sobre tela

Poetisa chilena ganhadora do Nobel de Literatura de 1945





A palmeira, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

4 09 2019

 

 

 

ANYSIO DANTAS - Tropicana I , serigrafia tiragem 76-100, assinado no canto inferior direito e datado de 1985. 89 x66 cm.

Tropicana I, 1985

Anysio Dantas (Brasil, 1933 – 1990)

serigrafia tiragem 76-100, 89 x 66 cm

 

 

A palmeira

 

Walter Nieble de Freitas

 

Alta, esguia, majestosa,

De uma beleza sem par,

Contemplo a esbelta palmeiraaaaa

Banhada pelo luar.

 

A seus pés um lago azul,

Onde em calma ela se mira,

Põe na paisagem noturna

Cintilações de safira.

 

De longe, chega em surdina

A voz rouca das cascatas:

É a sinfonia dos rios

Soluçando serenatas.

 

Nessa hora em que a noite é um templo,

E o firmamento, um altar,

Sob os círios das estrelas

Em silêncio a vi rezar.

 

Na linguagem da saudade,

O coração da palmeira,

Pedia as bênçãos do céu

Para a terra brasileira.

 

 

Em: Barquinhos de Papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1961, pp. 61-62





Trova do silêncio

29 08 2019

 

 

 

 

Lithography - Henri Meunier - France - 1897

Litografia de Henri Meunier, 1897

 

 

Em momentos exaltados

sem poder falar e agir,

o silencio dá recados

que  poucos sabem ouvir.

 

(Alba Christina Campos Netto)





Trova da liberdade

18 08 2019

 

 

 

bird-cage-art-floral-birdcage-by-canvas-artworkAutoria desconhecida.

 

 

Por mais conforto e carinho

numa gaiola dourada,

a ave não esquece o ninho

e a liberdade ceifada.

 

(Severino Campelo)

 

 








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