Quarta-feira de Cinzas, poesia Isabel Morais Ribeiro Fonseca

14 02 2018

 

 

 

Geraldo de Castro, Procissão, ost, 90x90Procissão

Geraldo de Castro (Brasil, 1914 – 1992)

óleo sobre tela, 90 x 90 cm

 

 

 

Senhor sou pó e voltarei ao pó
Aumenta a minha pobre Fé
Nesta Quarta Feira de Cinzas

 

Nesta Quarta Feira de Cinzas
Não se esqueça que…
Tu és pó e ao pó vais voltar.

 

Isabel Morais Ribeiro Fonseca

 

 





Trova do acordar

6 02 2018

 

 

acordar John_Gannam, junho 1948, St Narys blankletsIlustração de John Gannam, 1948.

 

 

Entra o sol pela vidraça

e em teu leito empalidece,

deslumbrado pela graça

que teu corpo lhe oferece.

 

 

(Durval Mendonça)

 

 

 

 





“Lembrança do mundo antigo”, poema de Carlos Drummond de Andrade

5 02 2018

 

 

domingo claudio dantasDomingo

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela

 

 

Lembrança do mundo antigo

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Clara passeava no jardim com as crianças.

O céu era verde sobre o gramado,

a água era dourada sob as pontes,

outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,

o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,

a menina pisou na relva para pegar um pássaro.

O mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo ao redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu… Não era proibido!

A boca, o nariz, os olhos estavam abertos…

Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.

Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,

esperava cartas que custavam a chegar,

nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim pela manhã!!!

Havia jardins, havia manhãs, naquele tempo!!!

 

 

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 26-7





Soneto 18 de Shakespeare, tradução Bárbara Heliodora

26 01 2018

 

 

 

fragonardPastora, c. 1752

Jean-Honoré Fragonard (França, 1732–1806)

Óleo sobre tela, 118 × 160 cm

Milwaukee Art Museum, EUA

 

 

 

Soneto 18

 

William Shakespeare

 

 

Se te comparo a um dia de verão

És por certo mais belo e mais ameno

O vento espalha as folhas pelo chão

E o tempo do verão é bem pequeno.

 

Às vezes brilha o Sol em demasia

Outras vezes desmaia com frieza;

O que é belo declina num só dia,

Na terna mutação da natureza.

 

Mas em ti o verão será eterno,

E a beleza que tens não perderás;

Nem chegarás da morte ao triste inverno:

 

Nestas linhas com o tempo crescerás.

E enquanto nesta terra houver um ser,

Meus versos vivos te farão viver.

 

Tradução de Bárbara Heliodora

 

 

Em: Poemas de amor, William Shakespeare, Tradução de Barbara Heliodora, Editora Ediouro:2001





Trova da boa mentira

7 01 2018

 

 

 

Genieten (1929)Ouça, cartão postal holandês, 1929.

 

 

 

Você mente quando diz

que me tem um grande amor;

mas isto me faz feliz:

— Minta sempre, por favor…

 

 

(Agmar Murgel Dutra)





“As prendas de Natal” poesia de José Jorge Letria

8 12 2017

 

 

BRINQUEDOS TRENZINHO, CUBOS, MENINO, ARVORE

 

 

As prendas de Natal

 

José Jorge Letria

 

 

Vêm dos tios, dos avós

em embrulhos coloridos:

são livros e são brinquedos

já há muito prometidos

 

E nunca mais chega a hora

de serem desembrulhados;

enquanto o momento tarda

há meninos acordados.

 

Ao Natal do presépio

deram os reis os presentes

magos, vindos de tão longe

com túnicas reluzentes.

 

O menino, mal os viu,

logo se pôs a pensar:

“Talvez o melhor presente

seja o amor que vou dar.”

 

Chega embrulhado no sono

o presente mais gostoso:

é o colinho dos pais

abrindo a porta ao repouso.

 

E paira no ar a pergunta

que faz o maior sentido:

para se ter um presente,

há que tê-lo merecido?

 

Seja Jesus ou Pai Natal,

nisto hão de concordar:

o que conta nesta vida

é sabermos partilhar.

 

Em: O livro do Natal, José Jorge Letria, ilustrações de Afonso Cruz, editora Oficina do Livro: 2008

 

 





“Chove. É Dia de Natal”, poema de Fernando Pessoa

4 12 2017

 

 

 

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Chove. É Dia de Natal

 

Fernando Pessoa

 

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

 

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

 

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

 

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

 

Em: Cancioneiro, Fernando Pessoa, Cyberfil: 2002 –  página 34








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