Resenha: “O círculo dos Mahé”, Georges Simenon

6 06 2018

 

 

 

Vista da ilha de PoquerollesVista da ilha de Porquerolles

Albert Marquet (França, 1875 – 1947)

óleo sobre tela,   33 x 41 cm

 

 

Engana-se quem se aproximar de O circulo dos Mahé pensando em encontrar Inspetor Maigret solucionando crimes.  Este é um dos romances de Georges Simenon chamados “dur” [Duros] , em geral desconhecidos no Brasil, mas que ajudaram a caracterizar o autor como um dos grandes escritores de língua francesa do século passado.  Quase um conto,  a história não ocupa mais do que 120 páginas, — traduzido por André Telles, e traz com ela o espírito de pós-guerra  europeu, um mundo sem grandes esperanças, cinzento e amargo. Passado no final da década de quarenta — originalmente publicada em 1946,  Simenon retrata um homem de trinta e cinco anos,  que hoje seria jovem, mas na época considerado maduro. Médico, com família: esposa, filhos e mãe dominadora que tudo decide por ele.  Um homem de espírito fraco, introvertido, que preenche o papel para o qual foi preparado e ordenado por sua mãe.

 

O_CIRCULO_DOS_MAHE_1512424502735512SK1512424503B

 

Dr. François Mahé  constrói sistematicamente e sem entusiasmo uma clínica medianamente próspera. Parte deste sucesso inclui férias anuais para a família, na costa mediterrânea. Certa vez passam o período de folga em Porquerolles, ilha ao sul da França.  O verão lá é quente, o ar não se move, o sol inclemente.  O local não é aprazível, mesmo assim, ano após ano ele e a família retornam, porque na primeira visita, a que abre o texto para nós, Dr. Mahé é confrontado com o que não espera, com a vida como outros vivem.  Chamado para atender uma mulher à beira da morte, Dr. Mahé se encanta com a filha desta paciente, meninota ainda, adolescente, que se transforma em mulher com a passagem dos anos e repetidas férias em Porquerolles. A atração que sente é controlada e fantasiosa.  Tenta, sem sucesso, macular a imagem da moça em sua mente ao sugerir que o sobrinho a conquiste.  Mas ela é mais do que um fascínio, ela acentua, para ele e para nós leitores,  seu próprio descontentamento com o casamento, desagrado com cotidiano,  monotonia e  tédio da vida social e enfado com a profissão. Depois da morte de sua mãe esses sentimentos parecem voltear em espiral a seu redor.  Até que uma decisão é tomada.  Surpreendente mas lógica.

 

simenon_0889053001334762410George Simenon

 

A arte de Georges Simenon está no poder de síntese, na narrativa que mostra e não rotula, no retrato psicológico feito pela ação ou marasmo de seus personagens. Nada é extra, não há cena descartável.  E no fim de uns poucos parágrafos temos toda angústia do personagem, a carência de sentimentos, o acanhamento de decisões, o dissabor com a vida, o confinamento do homem na família e nos poucos amigos, a asfixia das obrigações. É um drama existencial. Extremamente forte, O círculo dos Mahé,  revela um delicado estudo da alma humana.  Belíssimo.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha: “A mulher na escada”, Bernhardt Schlink

4 06 2018

 

 

 

Sidney Edward Dickinson (American, 1890-1960) - Woman Reading,1936Moça lendo, 1936

Sidney Edward Dickinson (EUA, 1890-1960)

óleo sobre tela

 

 

Apesar de bastante conhecido por obras literárias que se tornaram filmes — O Leitor, O Amante, O Fim de semana — só agora li um livro de Bernhard Schlink:   A Mulher na escada, traduzido do alemão por Lya Luft e publicado aqui no Brasil, no início de 2018. Contradizendo a crença de que só se torna popular o que não tem qualidade, fiquei encantada: trama interessante, paixões de diversos matizes, complexidade de motivações.

À primeira vista, trata-se de uma disputa de amor: três homens apaixonados por uma mulher. Peter Gundlach, um industrial, pede ao pintor Karl Schwind, que retrate sua esposa, Irene.  Na tela Irene aparece nua, descendo uma escadaria.  Durante a pintura, à maneira de Pigmaleão, Karl Schwind  se apaixona por Irene, que foge e  vai morar com ele.  No contrato entre os dois homens está a cláusula de que o pintor é obrigado a restaurar a tela se essa se danificar, para que não perca qualidade nem valor. Um advogado é contratado para examinar a questão dos repetidos danos à obra que forçam o pintor a continuamente restaurar o retrato da mulher na escada.  Karl Schwind defende que Peter Gundlach danificava a tela propositadamente. O advogado chamado, nosso narrador, que permanece sem nome através da trama, é o terceiro homem a se apaixonar por Irene e só começa a nos contar a história quando muitos anos mais tarde, bem depois do desfecho do caso, ele visita uma galeria de arte e vê o quadro da mulher na escada exposto aos visitantes.  Sente-se então tentado a localizar Irene e quando o faz, refletem juntos sobre o passado. A história é concluída de maneira coesa, complexa e inesperada. A trama é admiravelmente desenvolvida, em ritmo envolvente e em poucas páginas.

 

A_MULHER_NA_ESCADA_1515885879747012SK1515885879B

 

A mulher na escada, para mim, não parou aí.  O desenrolar da história, a complexidade dos temas e o acerto de contas final com exposição de traições em um passado longínquo, lembram-me a obra prima de Sándor Márai, As brasas, mas em prosa mais leve e dinâmica. Diferente deste último, o livro de Bernhard Schlink cai como uma luva nos arquétipos descritos e desenvolvidos pelo psiquiatra Carl Jung.  Irene é uma sedutora que desliza de um relacionamento ao outro. Usa da sexualidade. E, escorregadia, não se compromete mantendo a independência como pode. Goza de poder, fascina e amedronta.  “Ela sabia se controlar, sabia se impor. Não me ocorria nada que pudesse leva-la a matar. Mesmo que seu segundo marido a visse apenas como um troféu, como o primeiro, mesmo que seu amante seguinte tivesse querido usá-la novamente, se o chefe cujos avanços ela recusara a tinha rebaixado de posto, ou o vizinho a havia assediado na escada, Irene teria sabido se defender de tudo isso” [97]. Como a sereia do arquétipo, ela serve de porta de entrada para o inconsciente dos homens que fascina. Cada qual irá fantasiar sua existência com Irene de maneira diferente.  Mas ela se preserva, como o ser sobrenatural que enfeitiça, ela escapa ilesa de todos os relacionamentos.

 

bernhard-schlinkBernhard Schlink

 

Como se não bastasse, Bernhard Schlink, aborda temas feministas, como a visão masculina da mulher como objeto, e também nos faz pensar sobre os direitos legais de uma obra de arte.  Este é um livro que abre muitas portas para uma boa discussão, da mitologia grega ao feminismo, da psicologia aos direitos das obras de arte: a quem pertencem?  Schlink não oferece soluções, mas brilha no levantar das questões.  Uma excelente e rápida leitura.


 

No final do livro, há uma nota do autor, em que Schlink admite ter-se inspirado na obra Ema, [Descendo a escadaria] do pintor alemão Gerard Richter.  Cuja imagem coloco abaixo:

 

Gerard Richter, Ema (Akt auf einer Treppe) Ema (Nude on a Staircase). 1966 200 cm x 130 cm Oil on canvas. Collection Associated Works ...Ema, descendo a escadaria, 1966

Gerard Richter (Alemanha, 1932)

óleo sobre tela, 200 x 130 cm

Museu Ludwig, Colônia, Alemanha

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha: “O homem sem doença” de Arnon Grunberg

28 05 2018

 

 

Georges van Houten (Belgica, 1888-1964) Retrato de mulher em amarelo lendo um livro, 1953Retrato de mulher em amarelo lendo um livro, 1953

Georges van Houten (Belgica, 1888-1964)

Acervo da Universidade de Oxford

 

 

 

Tornei-me fã de Arnon Grunberg após a leitura de Tirza, que junto a O refugiado, é considerado uma de suas obras-primas, entre os mais de doze romances publicados.  O Homem sem doença (2012), traduzido por Mariângela Guimarães, é bem mais recente.  São duas obras diferentes em polos opostos do espectro. Elas se encontram na narrativa de suspense típica de Grunberg que faz o leitor permanecer em estado de alerta sobre o futuro dos personagens, preocupado com o que virá a acontecer.  E quando eventos finalmente se concretizam têm a habilidade de retratar  uma realidade muito pior do que a imaginação permitiria.

Confesso que sem meu grupo de leitura eu não teria me preocupado em escrever sobre este romance, porque não gostei.  Mas não gostei do quê?  E por que razão? Fui até o fim.  Li, palavra por palavra.  Mas me perdi no asco gerado pelas imagens vivas e em cores de selvageria e agressividade; desfiz-me imaginando torturas e vagueei pelo mundo sem saída de Samarendra Ambani, arquiteto suíço de origem indiana, que protagoniza a obra. A personalidade de Sam habita a zona limítrofe mental. O leitor entrevê, nas detalhadas ações do cotidiano, uma zona de penumbra comportamental perigosa, apoiada na instabilidade de humor, que se reflete nas relações sociais do personagem.  O desconforto gerado com a leitura começa desde o primeiro parágrafo, quando descobrimos que há discrepância entre a visão que ele tem de si mesmo e o que é: “gostaria de ser visto como um viajante profissional, alguém que já esteve em quase toda parte do mundo e, portanto, também se sente em casa em qualquer lugar” [7]. Grunberg é generoso com o leitor. Logo no primeiro capítulo, dá as diretrizes do comportamento do arquiteto, mas de maneira sutil, portanto temos que pescar, nas ideias subordinadas, aquelas características que irão servir de fio de Ariadne, para o entendimento de Sam.  Sabemos, por exemplo, que Sam não consegue exprimir seus sentimentos em palavras: “Que bom que você está aqui! Ele gostaria de dizer isso sem palavras e por isso não diz nada. Sentimentos e palavras não combinam. Em sua opinião a palavra mata o sentimento” [10]. Para ele o mundo deveria ser perfeito e organizado como a própria Suíça e imperfeições são difíceis de aceitar. Com a irmã doente, presa numa cadeira de rodas, ele vacila entre curá-la ou matá-la, pois um mundo imperfeito é inaceitável. Não fazendo nenhum dos dois, chega à sua definição do amor: “… não é amor quando não sabemos mais se queremos fazer desaparecer ou curar o objeto dos nossos sentimentos?” [14]. E quando se apaixona, Sam justifica: “Ela era a mulher mais civilizada que ele já havia encontrado e ele buscava civilidade no amor.”[16]. “Nina era completamente diferente de sua irmã. Não babava, era independente, podia ir sozinha ao banheiro e também não precisava de ajuda para tomar banho. A civilidade começa com o controle do próprio corpo.” [17]. Mas será que se apaixona?  Será que é capaz deste sentimento?

 

O_HOMEM_SEM_DOENCA_1473629793608375SK1473629793B

 

O passo seguinte é Sam perder o controle. Projeta a primeira casa de ópera de Bagdá, construção que na vida real havia sido desenvolvida pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright,  em 1957, sem ter sido concluída. É exatamente neste momento, em que se prepara para erigir a casa de ópera, projeto de sua autoria, vencedor de uma competição internacional, que Sam entra no mundo labiríntico iraquiano.  Confinado a uma realidade Kafkaniana, onde nenhum parâmetro pode ser delineado; num mundo paralelo, onde a racionalidade não existe, e certezas têm a solidez de miragens, Sam se desconstrói emocional e fisicamente. Nem mesmo a profissão de arquiteto cujos preceitos ordenam o cotidiano serve de eixo para seu desempenho diário. E as consequências dessa aventura de mau gosto são sentidas no decorrer de seu retorno ao mundo civilizado suíço.

Como alguém se refaz de tal desmanche?  Como sobreviver quando tudo em que sua vida se baseou foi destruído, despedaçado? Sobrevivente dos excessos que lhe foram impostos, do desregramento, Sam retorna diferente.  E encontra um mundo também mudado.  Até mesmo o bigodinho de sua namorada, que ele tanto apreciava, desapareceu nesse intervalo. Será que sua maneira de achar controle, equilíbrio também foi corrompida?

 

Arnon-grunberg-450x302Arnon Grunberg

 

Já no mundo inglês o provérbio “if you can’t beat them, join them” [se você não pode vencê-los, junte-se a eles] nos dá uma ideia parcial do futuro de Sam. Como um viciado, com um dependente dos abusos que lhe foram impostos, Sam retorna ao mundo que o corrompeu.  Não encontra a satisfação que esperava e em ação quase heroica, desesperada, semi-demente, se desvencilha de tudo que compôs seu mundo e dá a prova final de amor e dedicação à irmã.

Esta poderia ser a leitura mais romântica da obra.  Mas há no subtexto a grande ironia das verdades humanísticas, das propostas idealizadoras da civilização; há a crítica aos lugares-comuns que alardeamos como verdades inquestionadas. Há crítica ao idealismo ocidental. E então você me pergunta, por que não gostou? Uma obra tão rica, que pode ser lida em diferentes níveis? Porque não preciso da brutalidade das imagens para entender o conteúdo.  Porque há um exagero de provocação, de vitupério.  Avilte, violência, barbaridade e desumanidade. Por melhor que a obra seja, não quero passar horas e horas abraçada a esses despropósitos.  Acredito na meia-palavra, no signo que a imaginação do leitor preenche. Prefiro que o autor me dê o crédito de entender as evasivas, de perceber a obliquidade.  Não preciso da adulação à violência, nem do barroco na crueldade. Por isso não gostei. É uma preferência minha.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha: “Entre cabras e ovelhas” de Joanna Cannon

13 02 2018

 

 

 

ravenna_santapollinaireJuízo final, século VI

Mosaico

Basílica de Santo Apolinário Novo, Ravena

 

 

Toda metrópole desenvolve áreas urbanas com sotaques, poder econômico, serviços que tornam bairros verdadeiras aldeias dentro de seu perímetro.   Elas facilitam a interação das pessoas, fazem de vizinhos, amigos e estabelecem regras de conduta nem sempre explícitas para os de fora, mas conhecidas pelos que ali moram. Não é a toa que há bairros tão famosos quanto as cidades onde se encontram: Nova York tem Queens, Brooklyn; Londres, East Side e Kensington Park;  Paris, Montmartre e Trocadéro;  São Paulo, Bexiga e Vila Mariana e Rio de Janeiro, Vila Isabel e Ipanema.  Nos bairros, similaridade de gostos e atitudes são grandes  e não é raro o comércio de sucesso em um local não ser bem sucedido em outra parte da cidade. A vila, de umas vinte casas,  descrita em Entre cabras e ovelhas tem esse perfil de comunidade bem tecida. Críticos da obra, dizem que é ‘mais uma história de vilarejo inglês’, tema muito explorado.  Mas o grupo de pessoas nesta obra forma uma sociedade preconceituosa que serve de  mecanismo central para o desenrolar da trama e solução de um mistério.

A literatura mundial está repleta de exemplos da moralidade circunscrita a aldeias ou comunidades, mantida pelo mexerico ou especulação sobre o comportamento de um ou mais habitantes.  Dar ouvidos a indiscrições, à maledicência é natural dos seres humanos. Yuval Noah Harari, no primeiro capítulo do livro Sapiens: uma breve história da humanidade  relaciona o mexerico, a fofoca, como ferramenta importante na evolução cognitiva da humanidade. Decisões tomadas em conjunto, por uma aldeia, defendendo território ou valores locais não são incomuns e o comportamento tribal nem sempre é judicioso. Pode ser arbitrário e com frequência infundado. Na literatura moderna há numerosos exemplos retratando o irracional de um grupo: o romance vencedor do Prêmio Goncourt O sol dos Scorta (2004) de Laurent Gaudé; o conto de Mark Twain, The Man That Corrupted Hadleyburg (1900), a peça teatral Assim é (se lhe parece), de Pirandello (1917) são variações no tema. É justamente esse comportamento insular que permite duas meninas, fascinadas pelo desaparecimento de uma senhora da vila, saírem por conta própria para resolver este enigma, no meio do caminho resolvem para si o mistério da onipresença de Deus, instigadas pelo sermão dominical na igreja que frequentam.

 

ENTRE_CABRAS_E_OVELHAS_1492459313671476SK1492459313B

 

O título do livro vem do evangelho de São Mateus (Mateus 25:31-46) e nos dá a diretriz da questão moral da trama.  No Juízo Final fiéis seriam divididos entre bons e maus, ovelhas e cabras. Não há como ficar em cima do muro, ou você é cabra ou ovelha. Aos poucos, à medida que conhecemos os habitantes da vila, através das aventuras de Grace e Tilly, duas meninas de dez anos, que investigam o desaparecimento da Sra. Creasy e procuram achar Deus no lugar em que moram já que acreditam que Ele manteria todos os moradores a salvo, descobrimos que nem sempre se é simplesmente ovelha ou cabra.  As duas meninas detetives, que traçam o caminho narrativo da trama, começam sua investigação no verão de 1976, um dos verões mais quentes da Inglaterra e para os moradores do local, aparentemente interminável. Intrigadas com o desaparecimento de alguém que conheciam, elas se mostram determinadas a descobrir o mistério. Mas suas perguntas acabam por explicar um acontecimento passado em 1967 que levou toda a comunidade a reagir de maneira inusitada.  Nove anos depois essas pessoas ainda se encontram controladas pelo passado que as prende a um voto de silêncio coletivo, levado a sério até o presente.

Parte do charme da história está na investigação das meninas.  Inocentes, elas vão de porta em porta,  fazendo perguntas que para os habitantes da vila são indiscretas e abrem fissuras na cortina de silêncio que mantêm. Por causa de sua ingenuidade, as meninas oferecem um ponto de vista novo, cândido e, por isso, colocam seus interlocutores em situações de inesperado melindre e grande humor.  Aliás, o humor prevalece nesta narrativa, com alguns momentos de riso espontâneo do leitor, o que dá um tom jovial e fino à história.  Além disso há a sátira bem desenvolvida sobre a crença em milagres, imagens milagrosas, comportamento religioso e cobertura sensacionalista da imprensa.

 

joanna-cannonJoanna Cannon

 

Ao final, é quase irrelevante se descobrimos as razões do desaparecimento da Sra. Creasy.  Narrado numa prosa pitoresca, com tradução de  Celina Portocarrero, este livro retrata paranoia coletiva, preconceitos numerosos e atitudes  arrogantes.  É uma história repleta de mistério, suspense, intriga, interpretações maliciosas de ações do dia a dia, maledicências repetidas sem pensar em consequências e segredos.  Tudo bem equilibrado pela ironia e humor.

Recomendo como um excelente entretenimento. A Semana Santa vêm aí, a pouco mais de um mês, este seria um ótimo companheiro para dias de lazer.  De no máximo cinco estrelas, dou-lhe quatro, por dois motivos: primeiro, um muito pessoal, acho que a história poderia ser mais curta (mas esta tem sido uma objeção tão comum nas minhas leituras que me pergunto se não ando impaciente demais) e  segundo, eu gostaria de ter tido no início do texto um pequeno mapa da vila e de suas casas.  Li este livro em um dos meus grupos de leitura e todos os participantes acabaram por fazer anotações tentando localizar melhor as casas, para não ter que voltar a capítulos anteriores à procura de quem se falava. Mesmo assim uma leitura muito agradável.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha: “Assunto pessoal”, W. Somerset Maugham

27 01 2018

 

 

 

john-kingsley Escócia. 1956. cap-ferrat, ost, 75 x 75 cm.jpgCap Ferrat

John Kingsley (Escócia, 1956)

óleo sobre tela, 75 x 75 cm

 

 

Assunto pessoal é um livro delicioso! Podia não ser.  Trata-se das memórias de Somerset Maugham sobre o período da Segunda Guerra Mundial.  Apesar dos trâmites do início da guerra retratados pelo autor, não é um livro pesado. É uma leitura sedutora pela prosa eloquente, fluida, com o gosto de causos contados  no fim do dia, na varanda ou próximo à lareira; uma tradução impecável de Leonel Vallandro, que faz o português rolar pelo texto sem nenhuma lembrança do original em inglês, um português correto,  formal, como era também o inglês de Maugham; e sobretudo a visão de alguém que apesar de ter vivido grande parte de sua vida fora da Grã-Bretanha manteve alguns traços na escrita que associamos aos ingleses:  ironia, soberba, fino senso de humor. Há um ponto de vista definitivamente inglês que diverte mesmo quando é cáustico.

Maugham foi um dos mais importantes escritores da primeira metade do século XX, além de um dos mais bem pagos.  Escritor e dramaturgo também trabalhou para serviço secreto britânico quando residiu na Suíça e na Rússia antes da revolução. Morou na Índia e no sudeste asiático durante a Primeira Guerra. Já havia permanecido na infância fora da Inglaterra, quando voltou, aos dez anos, órfão de pai e mãe, estudou no Kings College, e foi fruto de chacota dos colegas de turma, por falar o inglês com alguns erros, já que sua língua mãe havia sido o francês. Nascera em Paris onde seus pais moravam.  Talvez toda essa experiência no exterior justifique a facilidade que tem de analisar ingleses e europeus com alguma distância, como vemos nessa obra.

 

ASSUNTO_PESSOAL_151147230249460SK1511472303B

 

Essas memórias começam quando a Alemanha invade a Polônia e parece lógico que a França seria a próxima a cair no domínio germânico.  Maugham, que reside já há tempos em Cap Ferrat, no sudeste do território francês,  primeiro escreve alguns artigos sobre a situação na França do início dos anos 30 até mais tarde, por volta de 1940, quando tendo feito contato o serviço secreto britânico, passa a  reportar sobre posicionamento e estado das tropas francesas no continente.   Os arredores de Nice, na Côte d’Azur, na década de 1930, foram locais onde grandes milionários construíram belas casas de verão e também local onde muitos ingleses, não tão ricos, escolheram para morar, pois suas rendas, aposentadorias, tinham por lá, maior poder aquisitivo do que teriam na Inglaterra. Às vésperas da submissão da França à Alemanha, Maugham e outros ingleses fazem a difícil travessia do Mediterrâneo para a Inglaterra, como refugiados.  São viagens de navio difíceis, onde testemunha muito sofrimento e onde vemos que os ricos também tiveram que passar por sofrimento, mortes e restrições raramente lembradas hoje. Ter um relato de primeira mão sobre essa travessia, seus perigos e Londres sob ataque de bombardeios e a reação de seus habitantes  é algo valioso e interessante.  Muito melhor ainda quando bem escrito com um certo humor e ironia que não suscita melodramas.

 

MaughamWilliam Somerset Maugham

 

Somerset Maugham adapta sua prosa muito bem ao serviço das memórias.  Suas observações sobre as pessoas e acontecimentos que o cercam são tratadas com ironia e temperadas pela precisa observação do ser humano. Mais valiosa ainda é a descrição da época e de seu modo de pensar.  Por exemplo aprendemos que se pensava que Hitler estivesse blefando.  Por outro lado, Londres sob pressão alemã é relatada vividamente. Mesmo assim é um livro de leitura fácil, agradável, cuja ironia não passa despercebida. O realismo é contido e o momento histórico preservado. É, sim, uma aula de história, mas delicada, leve e atraente.  Aprendemos sem sentir.  E termina com uma dose de otimismo sobre o futuro da Inglaterra.  Recomendo.  Está esgotado, no Brasil. Mas vale a pena procurar.

PS: Você encontrará neste blog alguns trechos que achei deliciosos e postei.  Eles lhe darão uma ideia da encantadora narrativa.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha: “Um velho que lia romances de amor”, Luís Sepúlveda

24 01 2018

 

 

Le Douanier, O sonho, ostO sonho, 1910

Henri Rousseau, “Le Douanier” (França, 1844-1910)

óleo sobre tela, 204 x 298 cm

MOMA, Nova York

 

 

 

Não gosto de literatura criada com objetivo político, com a intenção de instruir, ensinar,  ilustrar um problema.  Literatura didática, com viés político ou social, destrói a potencialidade de execução de uma boa ideia.  Este é o caso de Um velho que lia romances de amor, do chileno Luís Sepúlveda, com tradução para o português de Josely Vianna Baptista. Uma ideia tão boa!  Uma apelo tão interessante, descoberto pelo próprio autor que diz; “ … e pôs-se a andar no rumo de El Idilio, de sua cabana e de seus romances que falavam do amor com palavras tão belas que às vezes o faziam esquecer a barbárie humana.” [94]  No entanto, gostar de ler romances de amor  para Antônio Bolívar, personagem principal desta novela situada na Amazônia equatoriana, é simplesmente um acidente de percurso, como poderia ser contar escamas de peixes ou fazer colares de sementes vermelhas.  É chamariz, um elemento decorativo na narrativa, secundário e não explorado. Luis Sepúlveda tinha uma ideia interessante nas mãos, muito boa mesmo, mas preferiu a dogmática posição político-social de defesa do meio ambiente, sacrificando no desenrolar da história a significância do mundo de devaneios e fuga que, pela leitura, podiam encapsular Antônio Bolívar, protegendo-o da rusticidade do mundo que habitava.

 

UM_VELHO_QUE_LIA_ROMANCES_DE_A_14307399808064SK1430739980B

 

Fora a restrição acima, essa pequena obra  se respalda em excelentes descrições da selva amazônica.  Luís Sepúlveda consegue desde o início dar a sensação do calor opressivo, a umidade asfixiante,  da muralha verde insuperável da jângal, da brutalidade necessária para a sobrevivência no matagal distante.  Alguns de seus personagens são um tanto caricaturais, como o coronel que insiste em adentrar a floresta de botas, ou até mesmo o dentista com suas diversas dentaduras prêt-à-porter.  Também achei a referência aos “bandidos” americanos, uma visão simplória do explorador, com viés político muito usado, que empobrece a causa defendida.  Em contrapartida, as descrições do povo shuar, indígenas que vivem na floresta amazônica entre o Peru e o Equador são magníficas.

 

luis sepulvedaLuís Sepúlveda

 

Esta é uma obra descomplicada, formulada com uma única ideia em mente: o abuso da exploração sem trégua da Amazônia. Tem a intenção de um romance de aventuras muito aquém de um clássico como H. R. Haggard de As Minas do Rei Salomão.  Ganha muito com os conhecimentos passados pelo convívio do autor com os índios shuar, durante sua estadia no Equador.  Como literatura é um trabalho trivial, com linguagem simples, enredo e narrativas sucintos.  Um velho que lia romances de amor se beneficiou bastante pelo momento em que foi lançado 1989,  mesma época do assassinato do brasileiro Chico Mendes, seringueiro e ambientalista, amigo pessoal do autor, a quem o livro, nesta edição é dedicado. É uma obra usada frequentemente nas escolas em alerta às questões ambientais.  No Brasil, foi publicado pela Ática, editora responsável por muitas obras paradidáticas. Não me impressionou.

Observação sobre esta edição: Capa de Ettore Bottini.  Em lugar nenhum deste livro se menciona que a capa tem a diagramação de Bottini, mas a obra retratada é um detalhe do quadro O sonho, do pintor francês Henri Rousseau (1844-1910). Só porque já está em domínio publico não alivia a responsabilidade da editora de identificar a obra principalmente quando o livro é fartamente usado nas escolas do país.

 

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

 

 





Resenha:”A vida peculiar de um carteiro solitário” de Denis Thériault

22 01 2018

 

 

 

480px-Vincent_van_Gogh_-_Portret_van_de_postbode_Joseph_RoulinO carteiro Joseph Roulin, 1888

Vincent van Gogh  (Holanda, 1853–1890)

óleo sobre tela,  81x 65

Museu de Belas Artes de Boston

 

 

 

A vida peculiar de um carteiro solitário, de Denis Thériault, traduzido por Daniela P. B. Dias, é um livro difícil de definir. Prosa e verso se misturam e formam um todo potente.  O enredo trata de um homem solitário, carteiro, com personalidade limítrofe ao autismo  que, para seu próprio divertimento, abre sistematicamente cartas que leva para casa, cartas vindas ou endereçadas a pessoas na sua rota.  Sua curiosidade inicial é a fascinação pela caligrafia que vê nos envelopes,  arte a qual se dedica.  Durante a execução destes pequenos crimes, levando as cartas para casa, abrindo-as com vapor, lendo-as e colocando-as de volta na rota original, apaixona-se simultaneamente por uma mulher que não conhece e pela poesia japonesa.

Com encanto, este pequeno romance trouxe-me memórias vívidas de duas obras: uma do cinema e outra da literatura.  Lembrei-me da comédia australiana Malcolm (1986), dirigido por Nadia Tessa e estrelado por Colin Friels, que trata de um homem com características de autismo cuja paixão por carros de controle remoto o leva a cometer um crime: as habilidades de Malcolm são usadas por uma quadrilha para assaltar um banco. Aqui também a personalidade limítrofe de Bilodo, um homem tão solitário e recluso quanto Malcolm, o leva a se envolver em crime, ainda que de sua própria vontade. Outra lembrança foi da peça de teatro Cyrano de Bergerac,  de Edmond de Rostand, que será  muito provavelmente conhecida de  Denis Thériault, canadense da província de Quebec, cuja língua materna é francês.  Nesse clássico da literatura francesa,  obra trágica, um poeta declama os versos de outro que se esconde da amada, por não se achar à altura da bela moça.  O versos são de sua autoria, mas quem os declama, a voz e a aparência são de outro homem. Há uma quase simetria com o que acontece com carteiro Bilodo, que toma o lugar do poeta Gaston Grandpre e escreve haicais em seu  nome para conquistar Ségolène, na distante Guadalupe, no Caribe.

 

2f41936d-bdf5-4a96-9cf0-b47d99cbd51d

 

Em um livro tão pequeno é de surpreender as reviravoltas caracterizando uma linha narrativa complexa, que além da história de amor, explana claramente sobre poesia japonesa, do haicai ao enso, forma circular da poesia nipônica.  Thériault passa alguns conhecimentos da filosofia zen,  explora o uso  do kimono mágico e ainda produz para deleite do leitor uma coletânea de belos haicais.  Para minha surpresa, que sempre considerei haicai poesia quase enigmática, evanescente,  um punhado dos haicais apresentados no texto vêm repletos de forte sensualidade, claras imagens eróticas, que fazem paralelo interessante às conhecidas xilogravuras policromadas, Ukiyo-e, retratando o  mundo flutuante pelos tradicionais mestres japoneses.

 

5778747Denis Thériault

 

Com o uso de imagens surpreendentes, poucos e inesquecíveis personagens, esta história está localizada entre o mundo do sonho e a realidade. Traz um pouco de assombro ao leitor, do início ao fim. A trama, muito bem desenvolvida, ressalta a solidão de Bilodo, cujo único amigo é Bill, o peixe de aquário, seu animal de estimação.  A solidão forma cada um de seus pensamentos e ações.  Este é um homem que vive através da vida dos outros, no canto seguro de seu pequeno, previsível e metódico mundo. Há uma tênue conexão que o segura, que o mantém no dia a dia, agindo no mundo que conhecemos.  Ela é ancorada nas suas obsessões, na tenacidade e precisão com que enfrenta o que há de novo no mundo.  Bilodo é um homem que aprecia detalhes e encontra beleza não só no gesto de uma caligrafia bem feita mas nas regras precisas da poesia japonesa.  É a rigidez desses conceitos que o seguram no cotidiano.  E ele se esforça para superar suas limitações, reconhece a dificuldade de trazer aos seus pequenos poemas a mágica da poesia, mas quando o consegue, encontra finalmente seu destino cármico. Este livro é quase um poema-prosa, que se desdobra em múltiplos significados e ângulos cada vez que o examinamos.  Um prazer de leitura.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.








%d blogueiros gostam disto: