Resenha: “A estrada verde” de Anne Enright

17 07 2017

 

db5eb2a3744bb50a81515fbc865db583O quinhão de Natal

Joseph Clark (GB, 1834-1926)

óleo sobre tela, 90 x 120 cm

 

 

 

Uma reunião de Natal, com os quatro filhos adultos, é o panorama em que se situa o clímax do livro A Estrada Verde de Anne Enright.  É aí, nesses poucos dias entre a véspera de Natal e o dia de Santo Estevão [Boxing Day, em alguns países] que vemos a interação entre os quatro irmãos já adultos e sua mãe Rosaleen Madigan.  As diferenças entre os quatro membros da prole foram apresentadas paulatinamente, em algum detalhe, em capítulos a eles dedicados que quase funcionam como contos independentes.  A descendência dessa matriarca irlandesa é esmiuçada em diferentes estágios da vida e a complexidade de seus problemas de relacionamento e sobrevivência realisticamente retratada.

Dessa forma, quando chegamos à Segunda Parte do livro, hora em que todos voltam a se encontrar como adultos, com suas disfunções únicas, amargores, alegrias e objetivos frustrados, encontram-se entre si e face a face com a grande manipuladora mas muito solitária matriarca, o desabrochar de emoções guardadas há tempos, de percepções re-confirmadas é inevitável.

 

A_ESTRADA_VERDE_1492558388672946SK1492558388B

 

A estrada verde foi minha apresentação a Anne Enright que ocupava um lugar na lista de futuras leituras, desde que ganhara o prêmio Man Booker em 2007.  Muito bem escrito com trama complexa, o livro custou a me encantar, talvez por sua organização: uma visão de cada um dos personagens, filhos de Rosaleen, sem conexão um com o outro, como se fossem contos independentes que focaram nas suas vidas em diferentes e específicos momentos. Só mais tarde se percebe que são acontecimentos pivôs para o entendimento de suas personalidades. Daniel, Constance, Emmet e Hanna, irmãos, inevitavelmente nos levam a ponderar sobre as diferenças entre filhos de mesmos pais. Raramente nos debruçamos sobre essas diferenças a não ser que ela causem ciúmes ou inveja, fortes emoções, exploradas abundantemente na literatura e no teatro. Mas esse texto nos faz voltar à questão mesmo quando cada qual segue seu próprio caminho, independente do outro.

Como na maioria das sagas familiares irlandesas a mãe, Rosaleen, é a personagem principal.  Dada a gestos e atitudes teatrais,  manipuladora, frequentemente insensível, em algumas ocasiões indelicada, seu eixo,  seu equilíbrio emocional  está no lugar em que vive, como se encantada pela natureza à sua volta. Solidão é sua companheira.  E o envelhecimento não a ajuda.  Não se sente querida, amada ou necessitada. Inútil recorre de um ato inesperado para chamar a atenção de seus filhos.

 

 

maxresdefaultAnne Enright

 

Dizem que sem uma família disfuncional a literatura irlandesa contemporânea não existiria.  Não parece ser o caso aqui, ou talvez eu já esteja considerando toda e qualquer família disfuncional.  Anne Enright talvez seja a escritora que li recentemente que melhor retrata a realidade moderna, suas preocupações.  Desejos.  Problemas. É uma realista no tratamento do comportamento gay, nas razões para a dedicação às ONGS contra a fome ou os males do mundo, também apresenta com bastante ponderação o retrato do excesso da bebida ou o medo das doenças sem cura como aids ou câncer.   Apesar de qualificado como melancólico achei o texto bem equilibrado, com uma narrativa bastante neutra e de quando em quando com algum humor.  Não é um texto jovem.  Acredito ser um texto maduro, melhor entendido e explorado por aqueles que já viveram muitas vidas.  Foi uma boa leitura.  Ficará comigo por algum tempo, repercutindo.

 

 

 





Resenha: “Três Cavalos” de Erri de Luca

20 06 2017

 

 

The Woodcutter by Camille Pissarro (oil on canvas, 35x45-3-4 CourtO lenhador, 1879

Camille Pissarro (França, 1830 – 1903)

óleo sobre tela, 89 x 116 cm

The Robert Homes a Court Collection, Perth, GB

 

 

Nunca tinha ouvido falar de Erri de Luca até receber de Nanci Sampaio, uma amiga conhecedora dos meus gostos, esse livrinho chamado Três Cavalos.  Levei algum tempo até abrir suas páginas.  Dizem os budistas que as coisas acontecem na hora certa.  Então aconteceu agora esse amor pela obra do escritor italiano, cuja lista de publicações é longa e abrangente: o autor é jornalista, romancista e poeta.

 

TRES_CAVALOS_1480209379411227SK1480209379B

 

Sua prosa é seca e precisa. Concisa.  Mas de imagens vívidas e maneira de ver as coisas simultaneamente poética e inesperada.  Eu me encontrei relendo muitas passagens, marcando no texto, dois, três parágrafos pela beleza ou pela surpresa.  E como um poema, este é um livro pequenino que passa uma poderosa história em dois tempos, presente no sul da Itália e passado na Argentina.  Há também o paralelo entre dois amores, o de então e o do momento.  Duas mulheres perturbadoras que conquistam o coração quase inocente de um homem  que agora, aos cinquenta anos, leva a vida de jardineiro.

 

Erri_De_LucaErri de Luca

 

Ainda que este seja um romance com descrições da perseguição política na Argentina, o tema serve  de pano de fundo.  Maior que ele é o amor, força que impulsiona atos impensáveis. Também fala de amizade e da honra entre amigos.  A honra entre o narrador e seu amigo africano Selim, um trabalhador temporário que vai e volta da África e tem o dom da divinação. São 108 páginas concisas, repletas de poesia e determinação.  E emoção. Emoção contida como cabe a um europeu.  Mas lá está para nos puxar página após página ao seu surpreendente final.  Uma obra poderosa, marcante.  De grande impacto. Excelente leitura.





Resenha: “O pecado de Porto Negro” de Norberto Morais

15 06 2017

 

 

Carlos Prado (1908 - 1992),Paisagem com Igreja,Óleo sobre madeira,48 x 69 cmPaisagem com igreja

Carlos Prado (Brasil, 1908-1992)

óleo sobre madeira, 48 x 69 cm

 

 

Uma grande e boa surpresa me esperava em maio deste ano: O pecado de Porto Negro do escritor português Norberto Morais.  Não me lembro de quem o recomendou.  Mas agradeço a sugestão.  Encontrei um livro de excelente qualidade literária, com enredo sedutor, personagens intrigantes e uma trajetória impensada. Tudo isso num mundo arquétipo do colonialismo lusitano que entendemos pela familiaridade cultural.  Sua localização tão real que fui procurar a ilha no Pacífico, chamada São Cristóvão. Onde poderia haver tal lugar? Fui aos mapas, mesmo sabendo que as conquistas portuguesas nunca chegaram a terras banhadas por este oceano.  Maravilhada até o fim fico surpresa que, finalista do prêmio Leya em 2013, este livro não tenha sido o premiado.

Além de Porto Negro ser uma cidade estabelecida e enraizada no imaginário luso-colonial, sua descrição parece tão familiar que entendemos as razões de seus personagens, por mais estranhas que possam ser, sem que questionemos da validade de suas posições. Além disso, há a fascinante questão da época.  Quando exatamente esta história se passa?  Acredito que tenha sido nas primeiras duas décadas do século XX. Mas o resultado, como em toda boa obra é irrelevante. A obra é atemporal.  Trata das histórias de seres humanos como todos nós com paixões e idiossincrasias. É universal.

 

 

O_PECADO_DE_PORTO_NEGRO_1425753888439489SK1425753888B

 

Norberto Morais conta a história de algumas paixões entre habitantes de uma ilha esquecida pela modernidade. Há o homem sedutor, a mocinha seduzida, o bordel, o pai, a mãe calada e morta; há o açougue, a rede, o calor, a hora da sesta.  O mal-de-amor. A praia.  O porto.  Outras paixões, a inveja, a Igreja, a intransigência, a vingança. E há sobretudo o Silêncio. Falar de silêncio numa obra com um vocabulário, um léxico formidável não é contradição, porque Norberto Morais domina desde o primeiro instante esta história com poucos personagens e uma trama bem tecida, fechada e densa, que surpreende a cada momento.

 

20150328052747_NORBERTO_MORAISNorberto Morais

 

Para muitos, sua prosa lembra a de Garcia Marquez pelo onírico ou a de Eça de Queiroz pela limpidez do texto. Encontrei ecos de Eça e de Jorge Amado, de Gabriela e Capitães de Areia.  Qualquer que seja a referência, fato é que Norberto Morais, que nasceu na Alemanha, mas é escritor português, se encontra bem enraizado na tradição literária da língua e da cultura portuguesas.  Não há como negar. Belíssimo livro.  Não é sua primeira obra, vou agora à cata de seu primeiro título.  Esse é um autor para não perder de vista.





Resenha: “Diário da queda”, de Michel Laub

5 06 2017

 

 

H. Weiss, NA escola, ost,Na escola

H.  Weiss (Polônia, contemporâneo)

óleo sobre tela

 

Que boa surpresa a leitura de Diário da queda de Michel Laub. Há uns poucos meses eu havia lido outro de seus livros: O Tribunal de quinta-feira. Apesar de ter chegado ao fim, foi um livro que não me entusiasmou. Mas, meu amigo Gilberto Ortega Jr insistiu que eu lesse Diário da queda, lembrando que este seria o primeiro de uma trilogia, da qual O Tribunal é a última obra.   Numa sala de espera comecei a leitura e não a deixei de lado.  24 horas foi o período necessário para ler o livro todo.  E o considero muito bom, muito bom mesmo!

É uma obra pequena, 152 páginas, densa, mas fácil de ler, abrangendo diversos tópicos complexos: a definição de amizade – de Aristóteles até hoje um assunto que ocupa filósofos no mundo inteiro;  duas passagens na vida de um homem — a adolescência (treze anos) e maturidade (aos quarenta),  a importância da memória e da herança cultural numa família, conflitos entre pais e filhos. É a vida. Algumas preocupações triviais, mas importantes pontuam o texto:  primeira traição,  primeira experiência sexual, dependência do álcool.

 

13083_gg

 

Michel Laub é iconoclasta na narrativa. Há capítulos com parágrafos numerados, outros discorrendo de modo tradicional. Há passagens com entradas interessantes de um diário positivo, de como as coisas deveriam ser num mundo idealizado. Há entradas em diários. Essa combinação transforma a narrativa num texto de grande vivacidade e fácil entendimento. Breve. Talvez o que mais surpreenda seja a força emocional que o texto carrega nas incansáveis repetições de incidentes que o narrador considera importantes marcos em sua vida.  A menção a certos fatos, a volta a eles, a análise deles, o retorno novamente aos momentos cruciais, cada vez de uma maneira, trazendo ao leitor uma ponta a mais de conhecimento do que aconteceu, mas sob um novo ângulo, uma gota de conhecimento, pequena  e essencial de informação desconhecida até então, tudo nessa construção do texto leva a uma angústia pulsante, à espera de que haja uma resolução ao que o personagem principal incessantemente descreve e destrincha.

 

Michel-LaubMichel Laub

 

É um texto intenso. Cuja ternura e carinho só se revelam no final, culminando de modo pungente.  Não soluciona problemas.  Como a vida, a história fica em aberto, mas a narrativa dá entendimento e provoca reflexão sobre a obsessão do autor cujos passos acompanhamos sem hesitar.  Nas duas últimas páginas completa-se um ciclo, fecha-se o todo. Percebe-se finalmente a força motivacional desse confessionário do qual participamos. E aí sim, percebemos a  força da carga emocional que define a história.  Os olhos umedecem.  O impacto é forte e excelente.

Agora vou ler A maçã envenenada, segundo volume da trilogia e reler Tribunal da quinta-feira. Quem sabe se não terei melhor impressão deste último tendo lido os anteriores?  Leitura recomendada, com ênfase.

Salvar





Resenha: “Notícia de um sequestro” de Gabriel Garcia Marquez

30 04 2017

 

 

Muchacha Leyendo BOTEROMulher lendo, 1987

Fernando Botero (Colômbia, 1932)

óleo sobre tela

 

 

Notícia de um sequestro não é o típico Gabriel Garcia Márquez que conhecemos pelo realismo mágico que o consagrou.  Este é um trabalho jornalístico.  É uma obra que lhe foi encomendada, inicialmente para contar a história de Maruja Pachon, que, sequestrada, passou seis meses em cativeiro.  No entanto, à medida que Márquez estudou o caso, percebeu que seria necessário se aprofundar na vida das outras nove vítimas sequestradas com ela por Pablo Escobar.  O chefe do cartel de drogas tentava, através do sequestro dessas dez pessoas proeminentes na Colômbia, conseguir um acordo com governo para que não fosse extraditado para os EUA.

 

73885979-5be1-45e2-b8e2-66967d384ff7

 

A narrativa é direta e percebe-se que Márquez estava interessado em documentar o acontecido, tomando cuidado de detalhar todos os envolvidos e as situações encontradas nos menores detalhes.  Ainda que boa parte da narrativa se assemelhe a um thriller, é justamente esse cuidado com os detalhes que também torna o texto por vezes extremamente entediante, principalmente para leitores, como é o meu caso, que têm pouca familiaridade com a política e os políticos colombianos do período retratado. Houve momentos em que tive a impressão que Márquez precisava mostrar — a quem não sei — todo o conhecimento sobre o caso que adquirira,  como se clamasse para ser reconhecido pela pesquisa que fizera sobre todos os acontecimentos inclusive as roupas usadas não só pelas vítimas, mas o tipo de máscara que um policial resolvera usara numa ocasião específica.

 

gabriel_garcia_marquesGabriel Garcia Márquez

 

Se você é um aficionado do crime, um fã de Pablo Escobar, um leitor que quer adquirir grande conhecimento sobre como sequestros nesse nível acontecem, vá em frente, leia este livro.  O mesmo conselho se aplica a quem quiser saber sobre todos os personagens envolvidos nesses dez crimes, adquirindo um maior conhecimento das forças políticas colombianas.  Fora isso, eu recomendaria um thriller escrito por alguém que não tem um posicionamento político, nacionalista ou histórico a defender,  algum escritor que já tenha tido sucesso no campo do thriller e esqueça essa obra de Márquez.  Acredito que não fosse esse livro por este autor, não teria sido traduzido e se espalhado pelo mundo como obra de interesse universal.  Depois não diga que não foi avisado.

Salvar





Resenha: “Meus dias de escritor”, de Tobias Wolff

21 04 2017

 

 

Marlene Dumas (Africa do Sul, 1953)Os alunos, 1987,ost, 160 x 200 cmOs alunos, 1987

Marlene Dumas (África do Sul, 1953)

óleo sobre tela, 160 x 200 cm

 

 

Não sei bem o que esperava desse livro considerado uma homenagem à literatura.  Não foi o livro inesquecível que poderia ter sido, mas uma leve, doce e um tanto superficial história sobre paixão e desejo.  Como a paixão pode cegar e levar a atos fora da norma.  Há valores que não nos importamos em comprometer para dar vazão a um desejo? Mais do que um livro sobre os escritores Ernest Hemingway, Robert Frost ou Ayn Rand, todos personagens nestas páginas, este é um livro sobre a  paixão se sobrepondo à ética.  A história se passa na década de 1960, num colégio interno onde a literatura é levada a sério e como consequência, três vezes por ano, escritores conhecidos visitam a escola por um dia, quando um aluno escolhido dentre todos, através de um concurso entre eles, é convidado a visitar por uma hora, face a face a celebridade literária na escola. É nesse contexto que Hemingway, Frost e Rand participam da trama.

A vida escolar é detalhada como memória langorosa e sutil, absolutamente deliciosa. Narrado na primeira pessoa, — curiosamente nunca sabemos a identidade do narrador– o tom é íntimo e leva o leitor a imaginar tratar-se de uma autobiografia, ainda que talvez esse fato não seja verdadeiro. Esse tipo de colégio interno, diferentemente do Brasil, ainda existe.  São escolas preparatórias muito desejadas pelas famílias que pensam em encaminhar seus filhos desde cedo para uma carreira de sucesso. Apesar de estarem associadas a famílias ricas, essas escolas têm extensos programas de bolsas de estudos que incluem alunos vindos de outras camadas econômicas, desde que passem os exames de entrada. Bolsistas desfrutam da mesma educação recebida pelos outros, como é o caso do narrador, bolsista e consciente de sua herança meio judia, que nos anos 60, seria rara dentro do ambiente homogêneo da aristocracia do leste americano. Este é o tipo de escola, encontrada nos EUA tem raízes na Inglaterra, e, na sua forma inglesa, foi o modelo para J. K. Rowling quando criou Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry, onde Harry Potter aprende suas lições.

 

MEUS_DIAS_DE_ESCRITOR_1316817986B

 

Em Meus dias de escritor quando a escola faz o concurso para escolher o aluno que terá uma entrevista particular com visitante, todos aqueles que imaginam o futuro como escritor se posicionam para escrever os melhores textos.  Nosso narrador não é exceção.  E é justamente a visita de Ernest Hemingway que provoca o ponto mais alto dessa competição estudantil.  O senso de humor é prevalente no livro e encontra destaque quando meninos falam em sentenças completas como se repetissem frases dos livros do autor. Divertido.  Outras anedotas ou piadas internas da literatura circulando em torno dos três escritores que visitam a escola nesse ano são igualmente engraçadas ainda que requeiram maior conhecimento de facetas desses visitantes, como acontece com o poeta Robert Frost que é retratado como um pseudo intelectual.

 

tobias-wolff-2Tobias Wolff

 

A crítica deu muita ênfase a assuntos que achei abordados superficialmente: diferença de classe social, religião e aceitação social de membros.  Outros pontos revistos de maneira leve mas também apontados por leitores tais como orgulho, vergonha e ego, a mim, pareceram retratados de maneira tão  banal que tampouco imagino a necessidade de mencioná-los. No entanto essa é uma leitura prazerosa.  Leve. Bom retrato da época, que nos lembra dos grandes heróis literários do período. Bom passatempo.

Salvar

Salvar

Salvar





Resenha: “A resistência” de Julián Fuks

26 02 2017

 

 

 

santa-rosa-figuras-1956-tmspapel-50-x-66-macau

Figuras, 1956

Tomás Santa Rosa ( Brasil, 1909-1956)

técnica mista sobre papel, 50 x 66 cm

 

 

 

Meu grupo de leitura se dividiu a favor e contra o livro A resistência, de Julián Fuks.  Somos vinte.  Foi meio a meio.  Para minha surpresa estou do lado dos que gostaram.  Surpresa porque eu e o Prêmio Jabuti temos tido através dos anos visões opostas de valor. Minha discordância tem sido sistemática.  Em geral, prefiro os segundo e terceiro colocados ou nenhum deles.  Portanto, já começo a ver Julián Fuks como exceção.  Ou será que meus parâmetros estão mudando?  Fica a dúvida.  Qualquer que seja a resposta, o fato persiste, li o livro, fui até o fim (acreditem-me não tenho pena de deixar livros de lado, se não gosto), e ao final gostei da experiência.

O que me pegou nessa pequena obra, foi o tom. Bom narrador, Julián Fuks navega com  destreza do início ao fim, através das inúmeras reflexões do personagem principal. Tom e voz narrativa são valores difíceis de quantificar, mas, para mim, são a porta de entrada para leitura. Além disso,  A resistência  combina o gênero da memória com reflexão, combinação que ao longo dos anos tem-se tornado um dos meios narrativos que mais me satisfazem.

 

 

a_resistencia__1442375354527078sk1442375354b

 

 

A história trata de uma obsessão: o narrador, Sebastián, quer entender o que levou o irmão mais velho a se afastar emocionalmente do resto da família na época em que se tornava um jovem rapaz. O narrador é um de três filhos de um casal de imigrantes argentinos que se estabeleceu em São Paulo. O filho mais velho foi adotado, ilicitamente, ainda na Argentina, no período em que o casal se esforçava, sem sucesso, para ter filhos.  Adotaram afinal um menino, na mesma época de instabilidade política no país que eventualmente os levaria a imigrar para o Brasil.

Acredito que no afã do marketing, na vontade de seduzir o leitor com um assunto politizado, de vanguarda,  tomou-se a infeliz decisão de enfatizar passagens da política argentina, como se fossem centrais à trama. Ainda que a palavra ‘resistência’ tenha tido um cunho político, principalmente durante governos ditatoriais, aqui a política não passa de evento circunstancial, cortina de fumo, distração ilusória que encobre a verdadeira trama, explicitamente colocada no primeiro parágrafo do livro. “…Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter.  Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.” Aí está toda linha dramática do texto. Quanto mais Sebastián pretende não aludir à adoção do irmão, mais ele é incapaz de esquecê-la; mais ele resiste. Como não pode se referir a ela, mesmo que essa adoção, seja conhecida  por todos os familiares, inclusive o adotado, ela se torna o elefante branco familiar, invisível e não reconhecido problema, estatelado no dia a dia da família, imóvel e ocupando um grande espaço, aquilo que todos resistem a admitir.

 

 

 

topo-blog-1-800x445
Julián Fuks

A procura pela memória, pelo fatos, ações, circunstâncias do passado que justificariam o comportamento do irmão mais velho, fazem com que o narrador desenvolva uma linha narrativa primorosa, revendo mais de uma vez, por diferente ângulo não só os eventos do passado como suas próprias reações, questionando-se sempre. Evoca e medita sobre o passado em comum com Sebastián e com a família e explora as possibilidades daquilo que lhe é desconhecido. Esmiúça tudo, sem resultado plausível. A resolução vem do próprio irmão adotado, numa catártica explosão, muito bem desenvolvida. Este é um belo livro.  Meditativo.  Reflexivo.  Um livro que extrapola a história contada. Recomendo.

Salvar

Salvar

Salvar








%d blogueiros gostam disto: