Resenha: “Meus dias de escritor”, de Tobias Wolff

21 04 2017

 

 

Marlene Dumas (Africa do Sul, 1953)Os alunos, 1987,ost, 160 x 200 cmOs alunos, 1987

Marlene Dumas (África do Sul, 1953)

óleo sobre tela, 160 x 200 cm

 

 

Não sei bem o que esperava desse livro considerado uma homenagem à literatura.  Não foi o livro inesquecível que poderia ter sido, mas uma leve, doce e um tanto superficial história sobre paixão e desejo.  Como a paixão pode cegar e levar a atos fora da norma.  Há valores que não nos importamos em comprometer para dar vazão a um desejo? Mais do que um livro sobre os escritores Ernest Hemingway, Robert Frost ou Ayn Rand, todos personagens nestas páginas, este é um livro sobre a  paixão se sobrepondo à ética.  A história se passa na década de 1960, num colégio interno onde a literatura é levada a sério e como consequência, três vezes por ano, escritores conhecidos visitam a escola por um dia, quando um aluno escolhido dentre todos, através de um concurso entre eles, é convidado a visitar por uma hora, face a face a celebridade literária na escola. É nesse contexto que Hemingway, Frost e Rand participam da trama.

A vida escolar é detalhada como memória langorosa e sutil, absolutamente deliciosa. Narrado na primeira pessoa, — curiosamente nunca sabemos a identidade do narrador– o tom é íntimo e leva o leitor a imaginar tratar-se de uma autobiografia, ainda que talvez esse fato não seja verdadeiro. Esse tipo de colégio interno, diferentemente do Brasil, ainda existe.  São escolas preparatórias muito desejadas pelas famílias que pensam em encaminhar seus filhos desde cedo para uma carreira de sucesso. Apesar de estarem associadas a famílias ricas, essas escolas têm extensos programas de bolsas de estudos que incluem alunos vindos de outras camadas econômicas, desde que passem os exames de entrada. Bolsistas desfrutam da mesma educação recebida pelos outros, como é o caso do narrador, bolsista e consciente de sua herança meio judia, que nos anos 60, seria rara dentro do ambiente homogêneo da aristocracia do leste americano. Este é o tipo de escola, encontrada nos EUA tem raízes na Inglaterra, e, na sua forma inglesa, foi o modelo para J. K. Rowling quando criou Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry, onde Harry Potter aprende suas lições.

 

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Em Meus dias de escritor quando a escola faz o concurso para escolher o aluno que terá uma entrevista particular com visitante, todos aqueles que imaginam o futuro como escritor se posicionam para escrever os melhores textos.  Nosso narrador não é exceção.  E é justamente a visita de Ernest Hemingway que provoca o ponto mais alto dessa competição estudantil.  O senso de humor é prevalente no livro e encontra destaque quando meninos falam em sentenças completas como se repetissem frases dos livros do autor. Divertido.  Outras anedotas ou piadas internas da literatura circulando em torno dos três escritores que visitam a escola nesse ano são igualmente engraçadas ainda que requeiram maior conhecimento de facetas desses visitantes, como acontece com o poeta Robert Frost que é retratado como um pseudo intelectual.

 

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A crítica deu muita ênfase a assuntos que achei abordados superficialmente: diferença de classe social, religião e aceitação social de membros.  Outros pontos revistos de maneira leve mas também apontados por leitores tais como orgulho, vergonha e ego, a mim, pareceram retratados de maneira tão  banal que tampouco imagino a necessidade de mencioná-los. No entanto essa é uma leitura prazerosa.  Leve. Bom retrato da época, que nos lembra dos grandes heróis literários do período. Bom passatempo.

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Resenha: “A resistência” de Julián Fuks

26 02 2017

 

 

 

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Figuras, 1956

Tomás Santa Rosa ( Brasil, 1909-1956)

técnica mista sobre papel, 50 x 66 cm

 

 

 

Meu grupo de leitura se dividiu a favor e contra o livro A resistência, de Julián Fuks.  Somos vinte.  Foi meio a meio.  Para minha surpresa estou do lado dos que gostaram.  Surpresa porque eu e o Prêmio Jabuti temos tido através dos anos visões opostas de valor. Minha discordância tem sido sistemática.  Em geral, prefiro os segundo e terceiro colocados ou nenhum deles.  Portanto, já começo a ver Julián Fuks como exceção.  Ou será que meus parâmetros estão mudando?  Fica a dúvida.  Qualquer que seja a resposta, o fato persiste, li o livro, fui até o fim (acreditem-me não tenho pena de deixar livros de lado, se não gosto), e ao final gostei da experiência.

O que me pegou nessa pequena obra, foi o tom. Bom narrador, Julián Fuks navega com  destreza do início ao fim, através das inúmeras reflexões do personagem principal. Tom e voz narrativa são valores difíceis de quantificar, mas, para mim, são a porta de entrada para leitura. Além disso,  A resistência  combina o gênero da memória com reflexão, combinação que ao longo dos anos tem-se tornado um dos meios narrativos que mais me satisfazem.

 

 

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A história trata de uma obsessão: o narrador, Sebastián, quer entender o que levou o irmão mais velho a se afastar emocionalmente do resto da família na época em que se tornava um jovem rapaz. O narrador é um de três filhos de um casal de imigrantes argentinos que se estabeleceu em São Paulo. O filho mais velho foi adotado, ilicitamente, ainda na Argentina, no período em que o casal se esforçava, sem sucesso, para ter filhos.  Adotaram afinal um menino, na mesma época de instabilidade política no país que eventualmente os levaria a imigrar para o Brasil.

Acredito que no afã do marketing, na vontade de seduzir o leitor com um assunto politizado, de vanguarda,  tomou-se a infeliz decisão de enfatizar passagens da política argentina, como se fossem centrais à trama. Ainda que a palavra ‘resistência’ tenha tido um cunho político, principalmente durante governos ditatoriais, aqui a política não passa de evento circunstancial, cortina de fumo, distração ilusória que encobre a verdadeira trama, explicitamente colocada no primeiro parágrafo do livro. “…Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter.  Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.” Aí está toda linha dramática do texto. Quanto mais Sebastián pretende não aludir à adoção do irmão, mais ele é incapaz de esquecê-la; mais ele resiste. Como não pode se referir a ela, mesmo que essa adoção, seja conhecida  por todos os familiares, inclusive o adotado, ela se torna o elefante branco familiar, invisível e não reconhecido problema, estatelado no dia a dia da família, imóvel e ocupando um grande espaço, aquilo que todos resistem a admitir.

 

 

 

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Julián Fuks

A procura pela memória, pelo fatos, ações, circunstâncias do passado que justificariam o comportamento do irmão mais velho, fazem com que o narrador desenvolva uma linha narrativa primorosa, revendo mais de uma vez, por diferente ângulo não só os eventos do passado como suas próprias reações, questionando-se sempre. Evoca e medita sobre o passado em comum com Sebastián e com a família e explora as possibilidades daquilo que lhe é desconhecido. Esmiúça tudo, sem resultado plausível. A resolução vem do próprio irmão adotado, numa catártica explosão, muito bem desenvolvida. Este é um belo livro.  Meditativo.  Reflexivo.  Um livro que extrapola a história contada. Recomendo.

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Perguntas a editoras, resenha de Desvendando Margaux

16 02 2017

 

 

 

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Vinhedos de Auvers, 1890

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela

Saint Louis Art Museum

 

 

De quando em quando um livro atravessa o meu mundo que suscita a pergunta: o que foi que uma editora brasileira viu nessa obra, que valeria o investimento na compra dos direitos autorais, no pagamento de um tradutor, no investimento de imprimir e distribuir uma obra, com a confiança, até certo ponto, de que tal investimento iria trazer o lucro mínimo que a companhia precisa ter para continuar sua vida editorial.

Essa pergunta voltou a me perseguir na leitura de Desvendando Margaux, dos autores Jean-Pierre Alaux e Noël Balen. Estava a procura de uma leiturinha fácil, de um livrinho de mistério, detetive, qualquer coisa, para passar uma tarde de folga e esquecer o cotidiano quente do verão carioca.  Peguei esse livro que é o segundo de uma série policial da dupla, passado nos vinhedos franceses.  Um dos autores é especialista em vinhos e seu parceiro é jornalista.

 

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É um dos livros policiais mais insossos que já li.  Não há tensão.  Não há um mistério que agarre a atenção.  Os personagens são comuns, o drama sofrível, o mistério quase inexistente.  Há sim algumas noções de gerenciamento de vinhedos e o panorama por trás da produção de vinhos.  Mas falta aquela trama que não deixa dormir.  Essa obra não dá ao leitor o frenesi de ter que chegar ao final, nem é cheia do charme de uma Miss Marple que resolve as intrigas da cadeira de balanço de sua casa na aldeia.

 

alaux-balen2david_nakache_640Jean-Pierre Alaux e Noël Balen

 

Depois da leitura, enquanto me deliciava com um bom Simenon, procurei mais informações sobre outros livros da dupla.  E realmente há muitos.  Os autores são populares e até traduzidos para o inglês.  É possível que eu tenha tido a falta de sorte de pegar uma de suas  obras mais fracas. Mas para isso confia-se no selo da editora.

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Resenha: “Kafka e a boneca viajante”de Jordi Sierra i Fabra

11 02 2017

 

 

 

1939-524_wFooting no Central Park, 1905

William Glackens (EUA, 1870- 1938)

óleo sobre tela, 64 x 81 cm

Cleveland Art Museum

 

 

Em 2007 o Ministério da Cultura da Espanha deu a esse livro, Kafka e a boneca viajante, o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil. Desde então a publicação tem recebido atenção não só do público infanto-juvenil, mas sobretudo do leitor maduro, aquele que também sonha com um lado suave do escritor checo Franz Kafka, conhecido por obras angustiantes, de cunho surrealista como A metamorfose e O processo. A razão é simples não conhecemos toda a obra de Kafka, mesmo ele tendo morrido aos 40 anos em 1924.

Há ainda manuscritos de Kafka que não foram destruídos após sua morte, como o escritor havia instruído seu testamenteiro Max Brod. A ordem foi, na verdade, prontamente desobedecida. E alguns livros publicados. Mas nem todos. Estima-se que haja centenas de obras acabadas ou não, sem publicação. Hoje, são fruto de uma interminável batalha entre as atuais herdeiras e o estado de Israel. Além disso, Kafka, que era conhecido por muitos casos românticos, deixou em poder de sua última amante uma série de cadernos e cartas que foram confiscados pela Gestapo. Tudo isso suscitou através de décadas muitas teorias fantasiosas sobre o que restou. Entre elas estariam algumas cartas que Kafka escreveu de consolo a uma menina que ele encontrou chorando, num parque de Berlim. Ela estava triste com a perda de sua boneca. Essas cartas, que nunca foram encontradas, fazem parte das lendas do remanescente legado do escritor. Baseando-se neste causo romântico Jordi Sierra i Fabra escreveu a deliciosa e lírica narrativa de Kafka e a boneca viajante.

 

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Firmemente apoiado nos relatos de Dora Diamant, última companheira de Kafka, que mencionou a existência das cartas, o autor tece uma história comovente, criativa e delicada de um “carteiro de bonecas” que recebe e lê as cartas que Brígida, a boneca fujona escreve para Elsi, a menina inconformada, de diversos lugares do mundo.

Jordi Sierra i Fabra entrelaça dados conhecidos da vida de Franz Kafka com o romance das cartas e o resultado é uma obra fina, sutil, sensível e agradável. Um relato em que o jovem leitor aprende um tantinho sobre o autor checo e pode se encantar com a história de Brígida.

A obra ganha muito com as ricas ilustrações de Pep Monserrat.

 

jordi-sierra-i-fabraJordi Sierra i Fabra

 





Resenha: “O tribunal da quinta-feira” de Michel Laub

6 02 2017

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Mike no chuveiro do vestiário

Nathaniel Wyrick (EUA, contemporâneo)

acrílica e gloss sobre tela, 40 x 60 cm

Há pouco tempo durante a disputa à presidência dos Estados Unidos, uma gravação de um dos candidatos se gabando de conquistas amorosas em termos chulos vazou na rede social criando polêmica.  A raiz do problema era, em parte, o linguajar usado numa conversa particular, classificada pelo autor como “papo de homem, papo de vestiário”, onde a vanglória sexual e linguagem grosseira são socialmente permitidas. Semelhante problema se desenvolve na vida de José Victor personagem principal de O tribunal da quinta-feira.  Tendo trocado emails com seu melhor amigo Walter sobre fantasias e feitos sexuais, usando imagens e linguagem grosseiras,  ele se encontra mais tarde vitima do vazamento de seus textos. Sem dúvida, a perda de privacidade é um tema atual mas este livro aborda outros  assuntos controversos,  que servem de teste para a ética contemporânea.

Entre os assuntos abordados estão o roubo de informações particulares e a disseminação desses dados pelas redes sociais; assim como a obrigação ética de se revelar uma doença sexual transmissível, como a AIDS. Há outro aspecto ético não tão óbvio que permeia o texto: a escolha de certas expressões grosseiras seria de fato o retrato de um preconceito?  Ou pode ser escusado justamente por ser de uso comum em certos ambientes?  E pode ser usado em conversas privadas?  No momento, tendemos a crer na força da palavra falada ou escrita.  Há aqueles que defendem a mudança de palavras em canções folclóricas, como “Atirei o pau no gato” ou na supressão de certas marchinhas consideradas preconceituosas dos bailes de Carnaval, festa em que tradicionalmente burlam-se as regras sociais. O comportamento  ético e o politicamente correto estão em foco.

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Grande maestria foi necessária para atingir o nível de simplicidade quase jornalística do texto que à primeira vista parece sem arte.  Há também o excelente desenvolvimento do personagem principal, cujas obsessões e humor abrem a porta da simpatia para o leitor.  A linguagem e os pequenos capítulos dão a falsa impressão de um trabalho solto e inconsequente.  Mas a trama é desenvolvida com pontos bem fechados que sustentam o ritmo acelerado.  A prosa de Michel Laub, que conheço até agora só por esse livro, lembrou-me a do escritor americano Phillip Roth: clara, sem requintes literários tratando da desintegração da sociedade, da guerra entre os instintos carnais e os morais num contexto de grande contemporaneidade e explorando a obsessão do narrador consigo mesmo.

É, no entanto, justamente nesse ponto que o autor me decepciona, porque os problemas de José Victor, ainda que honestamente alcançados são produto de uma realidade tão imediata que o mero espaço entre a escrita do texto e sua publicação já mostra defasagem de hábitos. Hoje pouquíssimo de pessoal é comunicado através de emails. Senhas escritas, com a possibilidade de serem perdidas e encontradas em mãos alheias têm o gosto de passado, de já visto. Bastante explorado.  Esse é uma das dificuldades em se firmar uma história numa realidade que muda muito rapidamente.  Além disso, enraizar uma história com problemas tão corriqueiros e datáveis limita o escopo que a própria obra poderia ter adquirido.  Mas para que esse livro permaneça viável por mais de uma década, essas questões deveriam ter tido outro meio de serem apresentadas ao leitor.  A pergunta ética existe, mas está entrelaçada a uma trama com data de validade.

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Fora essa observação, O tribunal da quinta-feira é um livro bom, de leitura rápida que nos faz pensar e questionar assuntos do cotidiano e nosso posicionamento ético a respeito deles.

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Resenha: “Kitchen” de Banana Yoshimoto

31 01 2017

 

 

alex_gross_3ice-cream-cone-despair-alex-grossSorvete de casquinha ou Desespero

Alex Gross (EUA, 1968)

 

 

Kitchen é o livro que apresentou ao ocidente, em meados da década passada, a escritora Banana Yoshimoto, revelação da moderna literatura japonesa.  Muito sucesso desde então abraçou a autora. O livro foi também minha apresentação ao trabalho dela e assim como outros leitores mundo afora irei ler suas outras obras. Com linguagem clara e delicada Yoshimoto apresenta os difíceis temas da perda, luto e renascimento emocional.

São duas histórias: uma novela (longo conto) e um conto.  Ambos tratam  com empatia as perdas por morte sofridas pelos personagens principais, jovens que se encontram sozinhos no mundo, sem familiares ou sem as pessoas que amam.  Todos acabam encontrando carinho e conforto através fontes inesperadas.  Suas vidas, que começam viradas pelo avesso sem perspectiva de melhores dias, parecendo perdidas em meio a tristeza e sofrimento aos poucos se liberam da decepção e visualizam um horizonte mais feliz, repleto de possibilidades.

 

 

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O estilo da autora é caprichoso.  Ela trata seus personagens, às vezes extravagantes, excêntricos e ocasionalmente exuberantes, com tanta delicadeza e aceitação que a própria estranheza não salta aos olhos.  Ao contrário, é comovente.  A narrativa leve, com jeito despretensioso, permite que sutilezas sejam ressaltadas, e que a vulnerabilidade de cada personagem apareça sem excessos ou melindres.

Banana Yoshimoto me lembra os interiores de casas japonesas onde o minimalismo é eloqüente; o gracioso tem peso e a almejada serenidade encontra expressão.  Não há excessos ainda que seus jovens personagens possam ser impulsivos,  às vezes precipitados.

 

 

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Banana Yoshimoto

 

 

Este é um livro sutil que trata de tópico difícil de maneira clara, delicada, agradável e sóbria.  Excelente leitura para qualquer idade. Vai para a minha lista de leituras para adolescente mais velhos, ou jovens adultos. Não é a toa que é um favorito da Geração X.

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Resenha: “A irmãs Makioka” de Jun’ishiro Tanizaki

27 01 2017

 

 

osakaO Castelo de Osaka, 1967

Yuzaburo Kawanishi (Japão, 1923)

xilogravura policromada

 

 

 

O ritmo, a saga de As Irmãs Makioka me lembraram Eça de Queiroz. Talvez seja por isso que desde o início me senti inclinada a gostar da obra de Jun’sihiro Tanizaki, sem levar em conta as mais de 700 páginas da edição brasileira.  O ritmo é lento. O texto se move como as estações do ano, vagarosamente, cada passagem de tempo uma atividade, novo enfoque, nova oportunidade.  Esperança. O universo é retratado nos detalhes, nas minúcias do cotidiano.  E são os pormenores da vida que nos dão a medida certa da sociedade que as produziu.

Considerado uma obra clássica da literatura japonesa, esse livro retrata o período em que o Japão esteve em guerra com a China até sua aproximação à Alemanha de Hitler.  No entanto, a julgar pelo descrito neste livro, no interior montanhoso do país, as guerras quase não tiveram impacto.  Os ecos das batalhas são longínquos e não arrepiam as penas dos pássaros nos jardins.  As irmãs Makioka retrata quatro anos (1936-1941) na vida de quatro irmãs vindas de uma família tradicional, de abastados comerciantes, que perdeu a influência financeira e social. Elas tentam manter, cada qual à sua maneira, as tradições familiares de classe e dinheiro, no entanto, os resultados são modestos e diferem para cada uma delas.  O Japão está no seu momento mais intenso de ocidentalização antes da segunda metade do século XX. E essa mudança de hábitos, de roupas, de maneiras de pensar está presente no dia a dia das irmãs.

 

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No antigo Japão – e francamente não sei como é agora – irmãs haveriam de casar na ordem em que nasceram. Essa regra, mantida pelas Makiokas, é o fio da trama.  Na abertura, a primeira filha é casada com seis filhos, a segunda, casada com uma filha, a mais jovem, rebelde, desafiadora do status quo já está comprometida para casar, mas a terceira , não consegue um marido à altura, está ficando velha demais para um bom casamento e empaca a vida da mais nova.  A solução desse problema segura a narrativa de início ao fim.  Cada uma das irmãs é detalhadamente descrita, não há como confundirmos seus nomes.  Como  é um romance movido pelo personagens, com muito pouca ação, o conhecimento profundo de cada elemento é essencial.

A vida não para porque Yukiko não consegue casar.  Vez por outra aparece um pretendente. Nesse meio tempo há eventos do cotidiano: crianças crescendo, doenças, passeios em família, mudança de endereço e assim por diante.Aos poucos temos uma visão precisa de como era a vida antes da Segunda Guerra Mundial. Li esse livro nas férias, em três semanas.  Aproveitei o tempo letárgico do verão quente para parar a cada capítulo (eles são pequenos) e procurar na internet imagens do Festival das Cerejeiras, do Dia das Meninas, a distância entre Osaka e Tóquio para entender o trauma de uma mudança de lá para cá. Procurei fotos de glicínias e outras flores mencionadas.  Fui atrás de explicações para as partes de um quimono, assim como os rituais mencionados. Tive por causa disso outros meios de apreciar a leitura. Enfim, tive o luxo de poder dar tempo à narrativa, deixá-la criar raízes.

 

 

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Jun’shiro Tanizaki

 

 

Esse é um belíssimo livro, retrato de uma época.  Foi escrito durante os anos da guerra entre o Japão e a China e publicado em 1948.  Tem sido desde então considerado uma obra-prima da literatura japonesa do século XX.  É fácil entender a razão: é a saga de uma família para sobreviver num mundo que muda rapidamente.  Durante a narrativa o Japão comemora 2.600 anos de existência.  Muitos dos rituais da corte e da sociedade japonesa ainda preserva antigos hábitos em descompasso com a ocidentalização, que já vinha se estabelecendo na terra do sol nascente desde o século XVIII através do comércio com a Holanda. O que se testemunha na leitura é um adeus às velhas maneiras.  Algo que não acontece de repente, não até perder a Segunda Guerra Mundial e ser ocupado pelas forças aliadas de reconstrução de 1945 a 1952.

Definitivamente essa leitura é um requisito para o leitor interessado da grande literatura e naquela produzida pelo Japão.

 

 

 

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