Resenha: “Entre cabras e ovelhas” de Joanna Cannon

13 02 2018

 

 

 

ravenna_santapollinaireJuízo final, século VI

Mosaico

Basílica de Santo Apolinário Novo, Ravena

 

 

Toda metrópole desenvolve áreas urbanas com sotaques, poder econômico, serviços que tornam bairros verdadeiras aldeias dentro de seu perímetro.   Elas facilitam a interação das pessoas, fazem de vizinhos, amigos e estabelecem regras de conduta nem sempre explícitas para os de fora, mas conhecidas pelos que ali moram. Não é a toa que há bairros tão famosos quanto as cidades onde se encontram: Nova York tem Queens, Brooklyn; Londres, East Side e Kensington Park;  Paris, Montmartre e Trocadéro;  São Paulo, Bexiga e Vila Mariana e Rio de Janeiro, Vila Isabel e Ipanema.  Nos bairros, similaridade de gostos e atitudes são grandes  e não é raro o comércio de sucesso em um local não ser bem sucedido em outra parte da cidade. A vila, de umas vinte casas,  descrita em Entre cabras e ovelhas tem esse perfil de comunidade bem tecida. Críticos da obra, dizem que é ‘mais uma história de vilarejo inglês’, tema muito explorado.  Mas o grupo de pessoas nesta obra forma uma sociedade preconceituosa que serve de  mecanismo central para o desenrolar da trama e solução de um mistério.

A literatura mundial está repleta de exemplos da moralidade circunscrita a aldeias ou comunidades, mantida pelo mexerico ou especulação sobre o comportamento de um ou mais habitantes.  Dar ouvidos a indiscrições, à maledicência é natural dos seres humanos. Yuval Noah Harari, no primeiro capítulo do livro Sapiens: uma breve história da humanidade  relaciona o mexerico, a fofoca, como ferramenta importante na evolução cognitiva da humanidade. Decisões tomadas em conjunto, por uma aldeia, defendendo território ou valores locais não são incomuns e o comportamento tribal nem sempre é judicioso. Pode ser arbitrário e com frequência infundado. Na literatura moderna há numerosos exemplos retratando o irracional de um grupo: o romance vencedor do Prêmio Goncourt O sol dos Scorta (2004) de Laurent Gaudé; o conto de Mark Twain, The Man That Corrupted Hadleyburg (1900), a peça teatral Assim é (se lhe parece), de Pirandello (1917) são variações no tema. É justamente esse comportamento insular que permite duas meninas, fascinadas pelo desaparecimento de uma senhora da vila, saírem por conta própria para resolver este enigma, no meio do caminho resolvem para si o mistério da onipresença de Deus, instigadas pelo sermão dominical na igreja que frequentam.

 

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O título do livro vem do evangelho de São Mateus (Mateus 25:31-46) e nos dá a diretriz da questão moral da trama.  No Juízo Final fiéis seriam divididos entre bons e maus, ovelhas e cabras. Não há como ficar em cima do muro, ou você é cabra ou ovelha. Aos poucos, à medida que conhecemos os habitantes da vila, através das aventuras de Grace e Tilly, duas meninas de dez anos, que investigam o desaparecimento da Sra. Creasy e procuram achar Deus no lugar em que moram já que acreditam que Ele manteria todos os moradores a salvo, descobrimos que nem sempre se é simplesmente ovelha ou cabra.  As duas meninas detetives, que traçam o caminho narrativo da trama, começam sua investigação no verão de 1976, um dos verões mais quentes da Inglaterra e para os moradores do local, aparentemente interminável. Intrigadas com o desaparecimento de alguém que conheciam, elas se mostram determinadas a descobrir o mistério. Mas suas perguntas acabam por explicar um acontecimento passado em 1967 que levou toda a comunidade a reagir de maneira inusitada.  Nove anos depois essas pessoas ainda se encontram controladas pelo passado que as prende a um voto de silêncio coletivo, levado a sério até o presente.

Parte do charme da história está na investigação das meninas.  Inocentes, elas vão de porta em porta,  fazendo perguntas que para os habitantes da vila são indiscretas e abrem fissuras na cortina de silêncio que mantêm. Por causa de sua ingenuidade, as meninas oferecem um ponto de vista novo, cândido e, por isso, colocam seus interlocutores em situações de inesperado melindre e grande humor.  Aliás, o humor prevalece nesta narrativa, com alguns momentos de riso espontâneo do leitor, o que dá um tom jovial e fino à história.  Além disso há a sátira bem desenvolvida sobre a crença em milagres, imagens milagrosas, comportamento religioso e cobertura sensacionalista da imprensa.

 

joanna-cannonJoanna Cannon

 

Ao final, é quase irrelevante se descobrimos as razões do desaparecimento da Sra. Creasy.  Narrado numa prosa pitoresca, com tradução de  Celina Portocarrero, este livro retrata paranoia coletiva, preconceitos numerosos e atitudes  arrogantes.  É uma história repleta de mistério, suspense, intriga, interpretações maliciosas de ações do dia a dia, maledicências repetidas sem pensar em consequências e segredos.  Tudo bem equilibrado pela ironia e humor.

Recomendo como um excelente entretenimento. A Semana Santa vêm aí, a pouco mais de um mês, este seria um ótimo companheiro para dias de lazer.  De no máximo cinco estrelas, dou-lhe quatro, por dois motivos: primeiro, um muito pessoal, acho que a história poderia ser mais curta (mas esta tem sido uma objeção tão comum nas minhas leituras que me pergunto se não ando impaciente demais) e  segundo, eu gostaria de ter tido no início do texto um pequeno mapa da vila e de suas casas.  Li este livro em um dos meus grupos de leitura e todos os participantes acabaram por fazer anotações tentando localizar melhor as casas, para não ter que voltar a capítulos anteriores à procura de quem se falava. Mesmo assim uma leitura muito agradável.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha: “Assunto pessoal”, W. Somerset Maugham

27 01 2018

 

 

 

john-kingsley Escócia. 1956. cap-ferrat, ost, 75 x 75 cm.jpgCap Ferrat

John Kingsley (Escócia, 1956)

óleo sobre tela, 75 x 75 cm

 

 

Assunto pessoal é um livro delicioso! Podia não ser.  Trata-se das memórias de Somerset Maugham sobre o período da Segunda Guerra Mundial.  Apesar dos trâmites do início da guerra retratados pelo autor, não é um livro pesado. É uma leitura sedutora pela prosa eloquente, fluida, com o gosto de causos contados  no fim do dia, na varanda ou próximo à lareira; uma tradução impecável de Leonel Vallandro, que faz o português rolar pelo texto sem nenhuma lembrança do original em inglês, um português correto,  formal, como era também o inglês de Maugham; e sobretudo a visão de alguém que apesar de ter vivido grande parte de sua vida fora da Grã-Bretanha manteve alguns traços na escrita que associamos aos ingleses:  ironia, soberba, fino senso de humor. Há um ponto de vista definitivamente inglês que diverte mesmo quando é cáustico.

Maugham foi um dos mais importantes escritores da primeira metade do século XX, além de um dos mais bem pagos.  Escritor e dramaturgo também trabalhou para serviço secreto britânico quando residiu na Suíça e na Rússia antes da revolução. Morou na Índia e no sudeste asiático durante a Primeira Guerra. Já havia permanecido na infância fora da Inglaterra, quando voltou, aos dez anos, órfão de pai e mãe, estudou no Kings College, e foi fruto de chacota dos colegas de turma, por falar o inglês com alguns erros, já que sua língua mãe havia sido o francês. Nascera em Paris onde seus pais moravam.  Talvez toda essa experiência no exterior justifique a facilidade que tem de analisar ingleses e europeus com alguma distância, como vemos nessa obra.

 

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Essas memórias começam quando a Alemanha invade a Polônia e parece lógico que a França seria a próxima a cair no domínio germânico.  Maugham, que reside já há tempos em Cap Ferrat, no sudeste do território francês,  primeiro escreve alguns artigos sobre a situação na França do início dos anos 30 até mais tarde, por volta de 1940, quando tendo feito contato o serviço secreto britânico, passa a  reportar sobre posicionamento e estado das tropas francesas no continente.   Os arredores de Nice, na Côte d’Azur, na década de 1930, foram locais onde grandes milionários construíram belas casas de verão e também local onde muitos ingleses, não tão ricos, escolheram para morar, pois suas rendas, aposentadorias, tinham por lá, maior poder aquisitivo do que teriam na Inglaterra. Às vésperas da submissão da França à Alemanha, Maugham e outros ingleses fazem a difícil travessia do Mediterrâneo para a Inglaterra, como refugiados.  São viagens de navio difíceis, onde testemunha muito sofrimento e onde vemos que os ricos também tiveram que passar por sofrimento, mortes e restrições raramente lembradas hoje. Ter um relato de primeira mão sobre essa travessia, seus perigos e Londres sob ataque de bombardeios e a reação de seus habitantes  é algo valioso e interessante.  Muito melhor ainda quando bem escrito com um certo humor e ironia que não suscita melodramas.

 

MaughamWilliam Somerset Maugham

 

Somerset Maugham adapta sua prosa muito bem ao serviço das memórias.  Suas observações sobre as pessoas e acontecimentos que o cercam são tratadas com ironia e temperadas pela precisa observação do ser humano. Mais valiosa ainda é a descrição da época e de seu modo de pensar.  Por exemplo aprendemos que se pensava que Hitler estivesse blefando.  Por outro lado, Londres sob pressão alemã é relatada vividamente. Mesmo assim é um livro de leitura fácil, agradável, cuja ironia não passa despercebida. O realismo é contido e o momento histórico preservado. É, sim, uma aula de história, mas delicada, leve e atraente.  Aprendemos sem sentir.  E termina com uma dose de otimismo sobre o futuro da Inglaterra.  Recomendo.  Está esgotado, no Brasil. Mas vale a pena procurar.

PS: Você encontrará neste blog alguns trechos que achei deliciosos e postei.  Eles lhe darão uma ideia da encantadora narrativa.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha: “Um velho que lia romances de amor”, Luís Sepúlveda

24 01 2018

 

 

Le Douanier, O sonho, ostO sonho, 1910

Henri Rousseau, “Le Douanier” (França, 1844-1910)

óleo sobre tela, 204 x 298 cm

MOMA, Nova York

 

 

 

Não gosto de literatura criada com objetivo político, com a intenção de instruir, ensinar,  ilustrar um problema.  Literatura didática, com viés político ou social, destrói a potencialidade de execução de uma boa ideia.  Este é o caso de Um velho que lia romances de amor, do chileno Luís Sepúlveda, com tradução para o português de Josely Vianna Baptista. Uma ideia tão boa!  Uma apelo tão interessante, descoberto pelo próprio autor que diz; “ … e pôs-se a andar no rumo de El Idilio, de sua cabana e de seus romances que falavam do amor com palavras tão belas que às vezes o faziam esquecer a barbárie humana.” [94]  No entanto, gostar de ler romances de amor  para Antônio Bolívar, personagem principal desta novela situada na Amazônia equatoriana, é simplesmente um acidente de percurso, como poderia ser contar escamas de peixes ou fazer colares de sementes vermelhas.  É chamariz, um elemento decorativo na narrativa, secundário e não explorado. Luis Sepúlveda tinha uma ideia interessante nas mãos, muito boa mesmo, mas preferiu a dogmática posição político-social de defesa do meio ambiente, sacrificando no desenrolar da história a significância do mundo de devaneios e fuga que, pela leitura, podiam encapsular Antônio Bolívar, protegendo-o da rusticidade do mundo que habitava.

 

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Fora a restrição acima, essa pequena obra  se respalda em excelentes descrições da selva amazônica.  Luís Sepúlveda consegue desde o início dar a sensação do calor opressivo, a umidade asfixiante,  da muralha verde insuperável da jângal, da brutalidade necessária para a sobrevivência no matagal distante.  Alguns de seus personagens são um tanto caricaturais, como o coronel que insiste em adentrar a floresta de botas, ou até mesmo o dentista com suas diversas dentaduras prêt-à-porter.  Também achei a referência aos “bandidos” americanos, uma visão simplória do explorador, com viés político muito usado, que empobrece a causa defendida.  Em contrapartida, as descrições do povo shuar, indígenas que vivem na floresta amazônica entre o Peru e o Equador são magníficas.

 

luis sepulvedaLuís Sepúlveda

 

Esta é uma obra descomplicada, formulada com uma única ideia em mente: o abuso da exploração sem trégua da Amazônia. Tem a intenção de um romance de aventuras muito aquém de um clássico como H. R. Haggard de As Minas do Rei Salomão.  Ganha muito com os conhecimentos passados pelo convívio do autor com os índios shuar, durante sua estadia no Equador.  Como literatura é um trabalho trivial, com linguagem simples, enredo e narrativas sucintos.  Um velho que lia romances de amor se beneficiou bastante pelo momento em que foi lançado 1989,  mesma época do assassinato do brasileiro Chico Mendes, seringueiro e ambientalista, amigo pessoal do autor, a quem o livro, nesta edição é dedicado. É uma obra usada frequentemente nas escolas em alerta às questões ambientais.  No Brasil, foi publicado pela Ática, editora responsável por muitas obras paradidáticas. Não me impressionou.

Observação sobre esta edição: Capa de Ettore Bottini.  Em lugar nenhum deste livro se menciona que a capa tem a diagramação de Bottini, mas a obra retratada é um detalhe do quadro O sonho, do pintor francês Henri Rousseau (1844-1910). Só porque já está em domínio publico não alivia a responsabilidade da editora de identificar a obra principalmente quando o livro é fartamente usado nas escolas do país.

 

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

 

 





Resenha:”A vida peculiar de um carteiro solitário” de Denis Thériault

22 01 2018

 

 

 

480px-Vincent_van_Gogh_-_Portret_van_de_postbode_Joseph_RoulinO carteiro Joseph Roulin, 1888

Vincent van Gogh  (Holanda, 1853–1890)

óleo sobre tela,  81x 65

Museu de Belas Artes de Boston

 

 

 

A vida peculiar de um carteiro solitário, de Denis Thériault, traduzido por Daniela P. B. Dias, é um livro difícil de definir. Prosa e verso se misturam e formam um todo potente.  O enredo trata de um homem solitário, carteiro, com personalidade limítrofe ao autismo  que, para seu próprio divertimento, abre sistematicamente cartas que leva para casa, cartas vindas ou endereçadas a pessoas na sua rota.  Sua curiosidade inicial é a fascinação pela caligrafia que vê nos envelopes,  arte a qual se dedica.  Durante a execução destes pequenos crimes, levando as cartas para casa, abrindo-as com vapor, lendo-as e colocando-as de volta na rota original, apaixona-se simultaneamente por uma mulher que não conhece e pela poesia japonesa.

Com encanto, este pequeno romance trouxe-me memórias vívidas de duas obras: uma do cinema e outra da literatura.  Lembrei-me da comédia australiana Malcolm (1986), dirigido por Nadia Tessa e estrelado por Colin Friels, que trata de um homem com características de autismo cuja paixão por carros de controle remoto o leva a cometer um crime: as habilidades de Malcolm são usadas por uma quadrilha para assaltar um banco. Aqui também a personalidade limítrofe de Bilodo, um homem tão solitário e recluso quanto Malcolm, o leva a se envolver em crime, ainda que de sua própria vontade. Outra lembrança foi da peça de teatro Cyrano de Bergerac,  de Edmond de Rostand, que será  muito provavelmente conhecida de  Denis Thériault, canadense da província de Quebec, cuja língua materna é francês.  Nesse clássico da literatura francesa,  obra trágica, um poeta declama os versos de outro que se esconde da amada, por não se achar à altura da bela moça.  O versos são de sua autoria, mas quem os declama, a voz e a aparência são de outro homem. Há uma quase simetria com o que acontece com carteiro Bilodo, que toma o lugar do poeta Gaston Grandpre e escreve haicais em seu  nome para conquistar Ségolène, na distante Guadalupe, no Caribe.

 

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Em um livro tão pequeno é de surpreender as reviravoltas caracterizando uma linha narrativa complexa, que além da história de amor, explana claramente sobre poesia japonesa, do haicai ao enso, forma circular da poesia nipônica.  Thériault passa alguns conhecimentos da filosofia zen,  explora o uso  do kimono mágico e ainda produz para deleite do leitor uma coletânea de belos haicais.  Para minha surpresa, que sempre considerei haicai poesia quase enigmática, evanescente,  um punhado dos haicais apresentados no texto vêm repletos de forte sensualidade, claras imagens eróticas, que fazem paralelo interessante às conhecidas xilogravuras policromadas, Ukiyo-e, retratando o  mundo flutuante pelos tradicionais mestres japoneses.

 

5778747Denis Thériault

 

Com o uso de imagens surpreendentes, poucos e inesquecíveis personagens, esta história está localizada entre o mundo do sonho e a realidade. Traz um pouco de assombro ao leitor, do início ao fim. A trama, muito bem desenvolvida, ressalta a solidão de Bilodo, cujo único amigo é Bill, o peixe de aquário, seu animal de estimação.  A solidão forma cada um de seus pensamentos e ações.  Este é um homem que vive através da vida dos outros, no canto seguro de seu pequeno, previsível e metódico mundo. Há uma tênue conexão que o segura, que o mantém no dia a dia, agindo no mundo que conhecemos.  Ela é ancorada nas suas obsessões, na tenacidade e precisão com que enfrenta o que há de novo no mundo.  Bilodo é um homem que aprecia detalhes e encontra beleza não só no gesto de uma caligrafia bem feita mas nas regras precisas da poesia japonesa.  É a rigidez desses conceitos que o seguram no cotidiano.  E ele se esforça para superar suas limitações, reconhece a dificuldade de trazer aos seus pequenos poemas a mágica da poesia, mas quando o consegue, encontra finalmente seu destino cármico. Este livro é quase um poema-prosa, que se desdobra em múltiplos significados e ângulos cada vez que o examinamos.  Um prazer de leitura.

 

 

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Resenha: “Os criadores de coincidências”, Yoav Blum

4 01 2018

 

 

John Brack, Jack, Queem and KingValete, dama, rei, 1989

John Brack (Austrália, 1920 – 1999)

óleo sobre tela, 106 x 136 cm

 

 

 

Os criadores de coincidências de Yoav Blum, tradução de Fal Azevedo,  é um livro divertido, uma mistura de thriller e romance; leitura rápida, inconsequente, amena.  É um dos maiores sucessos de vendas em Israel, traduzido e publicado no Brasil antes mesmo de atingir o mercado americano, onde será lançado em março de 2018.

Produzir coincidências é o trabalho de três agentes Guy, Eric e Emíly que recebem ordens para produzirem coincidências na vida de pessoas comuns.  Estas ordens aparecem de maneira misteriosa, indicando a existência de uma organização maior, acima de todos nós simples mortais, onisciente, toda poderosa, com poderes de influenciar diretamente nos nossos destinos.  A partir daí esses agentes, treinados na tal organização, usam de análises matemáticas e complexos projetos, para construir diversos eventos que em cadeia levam a um acontecimento final quando duas ou mais partes se encontram.

 

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A ideia é interessante e divertida. Depois desta leitura você vai pensar duas vezes quando perder um documento num táxi, quando manchar sua camisa com café depois de esbarrar num obstáculo, e certamente jamais achará que existem encontros casuais com conhecidos ou desconhecidos.  Mas houve momentos em que tive a impressão de que o autor estava particularmente orgulhoso de sua obra, e que lhe faltou um bom editor, para ajudá-lo a reduzir algumas ideias bastante astutas.  Os capítulos dedicados às cartilhas dos agentes, às regras a que se submetem, são pela primeira vez que aparecem, e interrompem a narrativa, uma curiosidade repleta de humor, mas quando a história é interrompida mais de uma vez por esses capítulos, temos um  artifício cansativo na composição da história.

 

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Através desta leitura tive a sensação de estar acompanhada do espírito do filme Agentes do Destino (2011), com Matt Damon e Emily Blunt, baseado no conto do escritor de ficção científica já falecido PKD [Philip K. Dick] Adjustment Team, originalmente publicado em 1954.  Não conheço o conto.  Mas vi o filme mais de uma vez, já que é uma das minhas comédias românticas favoritas. Não se trata de cópia, mas a ideia é semelhante.

Se você precisa de distração, este pode ser o livro ideal para colocar na mala e ler nas férias, depois da piscina ou numa rede à beira-mar. É uma leitura leve, divertida, sem consequências, um pouco de mistério, um pouco de romance. Agradável.

 

 

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“O papagaio de Flaubert” de Julian Barnes, resenha

19 12 2017

 

 

 

1862-64 Woman with Parrot oil on board 28 x 20 cm Private Collection.jpgPaul Cézanne 1862-64 Woman with Parrot oil on board 28 x 20 cm Private CollectionMulher com papagaio, 1864

Paul Cézanne (França, 1839-1906)

óleo sobre tela, 28 x 20 cm

Coleção Particular

 

 

 

Há escritores que tentam mudar a forma literária e não têm sucesso.  Expandir algo que já se estabeleceu há séculos é difícil.  Já encontrei dezenas de livros cuja leitura encontra obstáculos:  personagens que levam ícones no lugar de nomes à moda do cantor/compositor Prince; textos sem pontuação, sem parágrafos rolando com o objetivo de cascatearem aos nossos ouvidos, mas que ao término não passam de chuvas de granizo, pedras de gelo ferindo a fluidez da narrativa.  Nada disso acontece com a prosa de Julian Barnes, em seu livro, talvez o mais famoso deles, O papagaio de Flaubert, no Brasil traduzido por Manoel Paulo Ferreira.  Colocado entre os finalistas do Prêmio Man-Booker de 1984, quando Anita Brookner (GB, 1928-2016) venceu com Hotel do Lago, O papagaio de Flaubert mostra, hoje, 33 anos depois, ter maior resistência ao tempo. Isso não desmerece o prêmio dado à escritora britânica, que está entre minhas escritoras favoritas, não só pela bela prosa, mas por ter abraçado a mesma profissão que eu: historiadora da arte. Mas em sua pequenina obra, Julian Barnes  consegue esfumar os limites narrativos, retirando os contornos:  trata-se de um ensaio? De um romance? De uma biografia? De uma autobiografia?  Quando se chega ao fim, dá vontade de voltar ao início. Merece uma segunda leitura, com outros olhos, mais sagazes, mais conhecedores.  Torna-se uma obra circular, que encanta, deslumbra e seduz.

Geoffrey Braithwaite é médico.  Faz uma visita à França, com o propósito de aliviar a dor da viuvez. Lá é atraído por uma discrepância observada em dois museus franceses que mostram um papagaio empalhado como sendo aquele que o escritor Gustave Flaubert teria possuído e usado como modelo para o papagaio do conto Um Coração Simples, parte do livro Três Contos. Grande admirador do escritor francês, Geoffrey Braithwaite que já pensava em escrever um biografia do autor, começa a esmiuçar a vida do autor de Madame Bovary.  Cada capítulo toma um aspecto da vida de Flaubert, de Braithwaite, das obras do escritor, das divergências encontradas em edições independentes dos romances.  De pulo em pulo, conhecemos detalhes da vida de Flaubert, suas viagens, mãe, amantes, o celibato. Vislumbramos preocupações e o escopo do sucesso.

 

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Aos poucos, no entanto, perdemos a noção entre fato e ficção. Será que lemos o que realmente aconteceu?  Quão verdadeiras são as informações que nos dão? Seria este ou aquele fato uma conclusão do médico que ajuda a narrar a vida de Flaubert?  As dúvidas aparecem de mansinho e finalmente ocupam toda leitura.  O ceticismo aumenta.  Ao final, não sabemos nada.  Será que lemos sobre Flaubert ou sobre Braithwaite?  Este romance/biografia é uma das mais inteligentes construções literárias da literatura moderna.  É uma tour de force e serve muito bem de exemplos de narrativas a que qualquer estudante do curso secundário deveria ser exposto: é inteligente, faz pensar e brinca com a lógica.

É um livro incomum. Podendo ser considerado até mesmo experimental. Parece ser feito de histórias desconexas, entradas em diários, fábulas.  Parece crítica literária, meditação, biografia e ensaio. É uma mistura de todos esses gêneros contada com grande senso de humor e um tanto de sátira. Excede os limites na estrutura, não tem trama. Narrativa e leitura são circulares.  Por isso mesmo pode ser considerado um dos grandes romances do final do século XX. Como um catálogo de amostras, convence o leitor da habilidade do autor que recria para nós o mundo de Emma Bovary, discute a cor de seus olhos e entrelaça essa narrativa com a de Geoffrey Brathwaite que, espelha de certo modo o sofrimento com o adultério e luto, estampados na obra mais famosa de Flaubert.

 

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Julian Barnes talvez esteja entre os autores contemporâneos de maior erudição.  Sua prosa, suas conexões fascinam.  Ele gosta de um jogo de ideias, de palavras.  Joga verde e colhe maduro, mas sua erudição não se torna pernóstica, ao contrário, ela serve de fio de Ariadne para nossa leitura. Além de todas essas características O papagaio de Flaubert é uma obra moderna: exige participação do leitor.  É ele quem conecta os elementos heterogêneos e os organiza de maneira significativa.  Frases e palavras, assim como temas, aparecem de um capítulo ao outro, sem aparente conexão, até que se percebe que há uma ligação das ideias postuladas, dos símbolos mencionados e até mesmo dos personagens  e o narrador, quando se chega finalmente às últimas linhas da narração.

Com essa leitura, tomei a decisão de voltar a ler Flaubert.  E certamente não deixarei nenhuma obra de Julian Barnes escapar dos meus olhos ávidos.  Recomendo entusiasticamente.

 

 

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“Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie, resenha

29 11 2017

 

 

6751846c184c909bb0588ab293de16d6Retrato de mulher

Joseph Eze (Nigéria, 1975)

Técnica mista

 

 

Hibisco Roxo foi o primeiro romance publicado da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.  Mas o terceiro dela que leio. Minha apresentação à sua obra foi com Americanah.  Depois li Meio sol amarelo, que continuo achando o melhor dos três, e agora o popularíssimo Hibisco Roxo, leitura obrigatória nos meios feministas, por sua temática: a violência contra a mulher.

Gosto, na prosa de Chimamanda Ngozi Adichie, do retrato social da Nigéria que, para o ocidente, foge aos estereótipos das sociedades dos países africanos, comumente vistas como soterradas na extrema pobreza.  Em todas as três obras, ela nos dá o retrato de um país formado por diversas camadas sociais, com profissionais nas classes rica, empresarial, média e  pobre.  Essa visão multi-strata enriquece a compreensão do leitor sem familiaridade com a realidade local. E o lembra de que o mundo é bem mais complexo do que as notícias que recebemos nos meios de comunicação nos levam a crer; que o mundo não pode ser visto exclusivamente por posturas políticas, visões de progresso e riqueza; nem mesmo pelas distorções do colonialismo.  Hibisco Roxo lembra que culturas e sociedades são formadas por uma variedade de indivíduos: bons, maus, ponderados, fanáticos, abusivos, respeitadores de regras, religiosos.

 

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A trama revolve em torno uma família rica, chefiada por um homem de grande sucesso empresarial que, com a desculpa da religiosidade, domina mulher e filhos — Kambili e Jaja — de maneira cruel exigindo comportamento inumano de sua família.  Suas vidas correm em paralelo à vida de sua irmã que, apesar de professora universitária, não tem o mesmo poder financeiro dele.  Sua educação, é provavelmente responsável pela grandeza humanística com que aceita o mundo em que vive, as tradições culturais do país e, sobretudo, a individualidade de seus filhos.  Por trás de tudo isso, como pano de fundo, há o conflito entre a religião colonizadora em oposição à religião nativa. Mesmo assim, nem nesse, nem nos outros dois livros da autora, mencionados acima, há clara condenação ou revolta contra os resquícios da colonização europeia. Um fato revigorante e inovador.  Essa luta já passou.  Ninguém clama um retorno ao período anterior aos colonizadores.  O passado passou, a colonização britânica faz parte do passado, mas também, hoje, da identidade da Nigéria como a escritora retrata.

O fanatismo religioso demonstrado em Hibisco Roxo, existe em qualquer lugar do mundo, em qualquer país, em qualquer religião.  Neste caso trata-se da religião católica, que é interpretada pelo chefe de família com severidade militar.  Ainda que seja fácil ler nesse extremismo uma crítica ao catolicismo pela autora, é justamente um padre católico um dos personagens mais carismáticos, enquanto joga futebol com os adolescentes e, em visitas familiares aos membros de paróquia, age de maneira perceptiva e grandiosa.

 

chimamanda-adichieChimamanda Ngozi Adichie

 

A enredo detalha a passagem da vida de dois adolescentes para as responsabilidades da vida adulta. Criados com muitas restrições os irmãos Kambili e Jaja vão visitar a tia, em outra cidade. Lá, livres dos grilhões paternos, descobrem que o mundo pode ser diferente.  Suas personalidades vêm à tona e com ela a liberdade por que tanto ansiavam.  Com essa liberdade vem também escolha e responsabilidades, que ao final se apresentam necessárias.

Narrado na primeira pessoa por Kambili, a menina que desabrocha na casa da tia, a narrativa corre fácil com tradução de Júlia Romeu.  Percebemos o que Kambili percebe.  Seus olhos são os nossos.  Por isso também vemos o mundo com a mesma ingenuidade e visão limitada dos acontecimentos e personagens.  Até mesmo Jaja, seu irmão, visto pelos olhos de Kambili, não é desenvolvido plenamente. Portanto, quando ele toma uma decisão radical, surpreendente, o leitor se choca,  por não ter reconhecido nele, personagem de tal importância.  Este é o meu problema com a narrativa, e a razão de não poder dar a esse livro todos os meus pontos de aprovação.  A história é envolvente, informativa.  Mas precisava de mais solidez nos personagens.

É uma boa leitura. Interessante, forte. Recomendo.

 

 

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