Resenha: A Redoma de vidro, Sylvia Plath

2 08 2021

Moça lendo

Adam Clague (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 32 x 30 cm

 

Surpreendentemente fácil de ler, foi minha impressão de  A redoma de vidro de Sylvia Plath.  Era uma das leituras que me faltavam para uma compreensão mais redonda do século, da escrita por mulheres e do feminismo em geral.  Permanentemente listado entre obras que devem ser lidas, eu, receosa de confrontar a depressão que pode eventualmente levar ao suicídio, tema conhecido da obra, evitei  a leitura.  Foi uma bobagem.  Deveria tê-lo lido há muito tempo.

Não é um clássico como eu imaginava.  É uma obra que dá a sensação de inacabada, assim como a vida de sua personagem principal, ainda que acabá-la seja um de seus objetivos. Dividida em duas partes que se conectam tenuemente, o leitor sai de uma ensolarada experiência de uma jovem, com problemas de autoestima, inteligente  e crítica, que aproveita um prêmio de um mês em Nova York, e acaba com mesma jovem, mais tarde, cuja ansiedade, depressão e realidade sombria  parecem incompatíveis com a personagem que conhecemos no início.

 

O que mais marca nessa narrativa é o retrato, de dentro, digamos assim, dos pensamentos, considerações e preconceitos de uma pessoa imersa em agonia mental, no desespero, que o fim da vida parece, de fato, ser a única solução plausível das reais opções que poderia ter.  É aqui que este livro se torna importante, por retratar como pensa alguém cuja solução para a vida é terminá-la, assim como fez a autora, pouco tempo após a publicação de A redoma de vidro, seu único livro de prosa.

Sylvia Plath

No entanto, a narrativa não me comoveu.  É distante.  Pude reconhecer o sofrimento retratado, mas passei  incólume, sem identificação e com empatia moderada.  Além disso, esperava um livro mais direto na posição feminista, já que é considerado leitura obrigatória para feministas.   Mas  a delação da discriminação contra mulheres, ou as descrições do que era esperado das mulheres, ainda que tivessem sido talvez  inesperadas para a  época,  hoje parecem leves, observações inteligentes mas moderadas.

Levei  muito tempo para ler este livro, é possível que eu tenha criado expectativas irreais.  Mas talvez realmente haja muito dito sobre essa obra porque Sylvia Plath se suicida após sua publicação.  Na leitura feita desta vez, não acho que mereça toda a fama que o leva a ser um clássico do século XX, como é considerado por muitos.





Resenha, “A trança”, de Laetitia Colombani

24 06 2021

Leitura da tabela

Armand Schönberger (Hungria, 1885 – 1974)

óleo sobre tela, 49 x 69 cm

Não tenho me dedicado a resenhas de livros que não me encantaram. Mas o boca-à-boca está grande a respeito deste livro: dois dos três grupos de leitura que frequento decidiram lê-lo.  Aproveito para mostrar o que me levou a não confiar na narrativa de A trança, de Laetitia Colombani, traduzida por Dorothée de Bruchard.

Vamos primeiro ao enredo que inclui três mulheres, de diferentes continentes, em diferentes períodos.  Uma vive na Índia, outra na Itália e a terceira no Canadá. A história é contada em capítulos intercalados e podemos apreciar em detalhe o desenvolvimento de cada uma das personagens principais, entendemos porque pensam e agem. Todas três estão em momentos de extrema tensão, precisam tomar decisões que afetarão suas vidas para sempre.  Se elas um dia se encontram, ou se conhecem, vai ficar ao encargo do leitor, descobrir.

 

Laetitia Colombani começa a narrativa na Índia, seguindo o dia a dia de uma mulher da casta dos Intocáveis.  A narrativa se atém às dificuldades de seu trabalho e preocupações com a filha.  A rotina diária tem o toque de narrativa realista com impressionante número de detalhes.  Podemos portanto imaginar que assim será, daí por diante.  E, de fato, os problemas diários da jovem italiana, assim como os sacrifícios que a canadense faz para se manter empregada, todos parecem estar em contrato rígido com o realismo.

  Não há personagem masculino que tenha voz.  Não há personagem masculino que tenha verdadeira importância. No entanto, o primeiro sinal de alerta, de que algo não estava certo, veio justamente na introdução do personagem Kamal, um Sikh, imigrante na Itália, religioso o suficiente para nunca ter cortado o cabelo,  Religioso bastante para preferir ser preso a retirar o turbã que leva à cabeça,  um homem delineado como preocupado com a família, e que de repente se encontra em meio a um relacionamento, primeiramente sexual, levado às vias de fato numa gruta, por um tempo indeterminado, sem se questionar por um único momento sobre este relacionamento.   Não conheço a Índia, nem a religião Sikh. Mas esse comportamento sem qualquer dúvida por parte dele sobre suas próprias ações, me pareceu estranho. Consultei a internet, procurando as diretrizes religiosas dos seguidores do siquismo. Castidade está entre os primeiros requisitos dos seus praticantes. Ora, por que, então, não ajustar o conteúdo religioso desse personagem em algo mais crível? 

Laetitia Colombani

 

Mais adiante, outra falha de plausibilidade: uma pessoa no final do século XX ou início do século XXI, de vinte-um anos, que herda uma indústria familiar, que está imersa nessa indústria familiar, que cresceu com esse conhecimento, mas que tendo um computador, ignora o papel de concorrentes no mundo, ignora fontes da matéria prima para o produto que produz.  Não convence. Depois disso foi fácil achar outras falhas de lógica, nesta narrativa que pretende (com suas detalhadas descrições do dia a dia destas mulheres) retratar uma realidade que cada uma das mulheres precisa superar.

Portanto, o que concluo é que tendo em mãos três excelentes tópicos que realmente se relacionam,  tópicos que têm muito a ver com a vida de mulheres que lutam diariamente pela sobrevivência Laetitia Colombani, no afã de escrever este roteiro, esqueceu-se de fazer uma pesquisa básica para mostrar seus personagens em contexto mais plausível.  Se me perguntassem o que achei do livro, em poucas palavras, eu diria: escritora com pressa, preguiçosa, que poderia ter tido direção de um editor para ajudá-la a transformar uma boa ideia num livro que realmente valesse a pena ler.





Resenha: “Herdando uma biblioteca”, Miguel Sanches Neto

2 01 2021

 

 

 

Não deixo passar um livro sobre livros.  Se chega ao meu radar, leio.  Passei todas as fases de minha vida ligada aos livros e às bibliotecas.  Não sei como Herdando uma biblioteca chegou ao meu conhecimento. Tenho a impressão que foi sugestão de um site de livraria que examina suas compras anteriores, e sugere algo que o sistema de computação recomenda.  Comprei o livro de Miguel Sanches Neto há tempos e um dia, a pilha de livros “para ler este ano” chegou nele.

Este é um volume composto por crônicas, ou pequenos ensaios sobre livros e bibliotecas, todos tratados de maneira pessoal pelo autor, revelando um intelectual de sucesso.  Mas me senti na obrigação de procurar mais informações sobre Miguel Sanches Neto, porque são muitas as crônicas em que os sentimentos do autor sobre sua infância sem livros formam os parâmetros de suas observações.

 

 

 

O paranaense Sanches Neto, que é  escritor, cronista, professor universitário e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa, nasceu no norte do estado em 1965, no município de Bela Vista do Paraíso. Sua família se mudou para Peabiru, município mais a oeste, ambos hoje com um pouco mais de treze mil habitantes, cada.  Municípios pequenos, dependentes da agricultura.  A família era pobre. No dia a dia da sobrevivência não via mérito em livros ou talvez seus membros desconhecessem o valor econômico que o conhecimento adquirido na leitura pudesse trazer. Mesmo assim Sanches Neto superou a falta de livros em sua infância e adolescência, revoltou-se contra as expectativas familiares, e tornou-se um homem de letras, um intelectual.  Isso é coisa de ficção, das mais sedutoras.  

Tudo que Sanches Neto passou é história que muitos cineastas americanos já exploraram e continuarão a explorar: o herói que sai de circunstâncias contrárias ao desenvolvimento de seus sonhos, supera barreiras sociais e econômicas, chegando ao sucesso. Diferente do Brasil, a autossuficiência, o subir na vida, vindo do nada, ou de quase nada é um dos axiomas da cultura americana. Característica que se respeita.  A expressão “Pull yourself up by your bootstraps.” [suspendeu-se pelas próprias tiras das botas]  é corriqueira para distinguir a pessoa que subiu na vida pelo próprio esforço. E com isso, ganha respeito. 

Surpreendi-me, portanto, de ver na prosa do autor, muito ressentimento.  Ressentimento por não ter nascido numa família que apreciasse as letras, mágoa pelo tempo perdido nos bancos da escola agrícola.  Melindre pela origem pobre, sem recursos.

 

Sanches Neto

 

 

“Das muitas orfandades que sofri, uma das mais fortes foi não ter herdado uma biblioteca familiar.”[37]  Seu desgosto faz com que considere uma pena não ter herdado uma biblioteca, mas não se pode herdar aquilo que não existe, aquilo que é impossível de ser repassado.  Mais tarde na página seguinte: “Não venho de uma biblioteca paterna, e sim de sua ausência. Tive que buscar a figura do pai em amigos e autores e fiz das afinidades culturais o caminho para esta família, dispersa no tempo e no espaço, que a literatura me deu.[38]

Infelizmente esse ressentimento coloriu um bom número dos capítulos dessa coletânea.  Sua insistência sobre a ausência de incentivo à leitura na infância e adolescência me mostrou um homem que ainda não conseguiu vir a termos com sua própria história.  Não conheço os detalhes da vida de Sanches Neto, de sua infância.  Mas, hoje, aos cinquenta e cinco anos, me parece que se os livros lhe ensinaram muito, ainda não o levaram a ser grato por ter tido a oportunidade de estudar, mesmo que nem sempre estudasse o que queria; a chance de escolher seu destino; o benefício de ter colhido frutos por seu próprio esforço. Ele é um vencedor.  Um guerreiro.  Sofrer por não ter recebido o que pessoas à sua volta não podiam dar, é pequeno demais para tamanho sucesso. Se seus pais, padrasto, família não puderam lhe incentivar a leitura, porque eles mesmos não viam valor nos livros, não há razão de cultivar ressentimento por aquilo que lhes era ausente. Este passo de aceitação da vida pregressa está ausente da narrativa e a mágoa pelo que não foi, a decepção pelo que não teve, o azedume, coloriram grande parte de Herdando uma biblioteca.  Esse descontentamento nas crônicas, me incomodou.  Perturbou-me a falta de aceitação de seu destino.  Sanches Neto passa a ideia de ser vitimizado por sua infância, pela falta de livros; quando de fato, foi ela mesma que modelou sua perseverança tornando-o no professor universitário de sucesso que é.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Branca Bela, alma mineira, amor universal

18 11 2020

Leitura

Joel Oliveira (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 20 x 30 cm

Raramente releio livros que marcaram minha juventude.  Medo de ser desapontada, talvez.  Já não sou a garota de dezesseis anos que se identificou com um personagem. A pessoa em formação tornou-se adulta e continuou lendo com a mesma intensidade da adolescência. Hoje, sou mais exigente.  

Nesta pandemia dei uma grande limpeza nas minhas estantes.  Temos livros demais. Somos dois leitores aqui em casa.  Dois professores, nas humanidades.  Pessoas que leem promiscuamente da história à filosofia, da literatura aos ensaios científicos.  Livros são nosso instrumento de trabalho, hoje, em parte, substituídos por textos eletrônicos, mesmo assim, ainda mantemos muito papel nas nossas paredes.  Nessa reorganização voltei a ver um livro que me marcou na adolescência, que um dia, num passado recente, encontrei numa banca de livros novos e usados do Largo da Carioca no Rio de Janeiro.  Comprei-o imediatamente, trouxe para casa e esqueci que ele existia.   Eu precisava, parece, ter de volta um pedaço da minha adolescência, um troféu do passado.  Surpreendi-me ao ver, que o livro ainda apresentava páginas sem corte.  Era um usado, que nunca foi lido, para perda de quem dele se desfez. Reli-o há sete anos, e agora, precisava decidir se o mandava embora ou o mantinha em casa.  Ficará comigo por mais um tempo.

Branca Bela me foi apresentado por uma amiga.  Como eu, ela adorava ler.  Como eu, ela também vinha de uma família de professores e vivia numa casa rodeada por livros. Tínhamos muito em comum, mas nem sempre gostávamos dos mesmos livros. Lucia era mais atirada, mais curiosa sobre amores e sexo, enquanto eu preferia a escrita mais distante das emoções, autores mais filosóficos, talvez.  Lembro-me do dia em que ela trouxe o exemplar. Levara para a escola e, no ônibus de volta para casa, me entregou o empréstimo. Saltava uns dois quilômetros antes de mim.  Sentada à janela, abri o livro de Geraldo  França de Lima e mergulhei nele de imediato, quase perdendo o caminho de casa.  Anos mais tarde ainda me lembrava de algumas cenas do livro, de alguns personagens como Padre Saulo  e de uma coruja que piava e era ouvida por Branca Bela.

Geraldo França de Lima

Reli em partes primeiro, depois o texto completo, e voltei a me encantar, me enamorar. É o romance de uma paixão duplamente impossível, que se desenrola no interior, certamente numa cidade mineira, como era o autor. Simples e fino.  Retrata o amor entre uma jovem que, portadora de uma doença incurável, espera pacientemente pela resolução final, e de um padre. Não sou uma pessoa religiosa.  Essa não era a pegada em minha família.  Mas a delicadeza dos sentimentos retratados, fez com que o esparso discurso religioso, tivesse a dose perfeita para o esclarecimento das motivações dos personagens presos nesse amor impossível.  Este Romeu e Julieta brasileiro é essencialmente poíesis.  Não é à toa que Geraldo França de Lima foi membro da Academia Brasileira de Letras.  É um grande mestre da arte literária. Seus livros que precedem Branca Bela foram Serras Azuis  e Brejo Alegre.  É claro, que os li, assim como outras de suas obras, posteriores.  Essa geração de autores que publicados nas décadas de meados do século passado, dos anos 40 aos 60 inclusive precisa ser revisitada.  Fica aqui o meu convite para que façamos isso juntos, de vez em quando.





Resenha: “A espiã vermelha” de Jennie Rooney

27 10 2020

O casal Zaitsev no interior de sua casa, 1955

Igor Radomano (Rússia, 1921-1992)

óleo sobre tela, 139 x 111 cm

Quando recebi de presente de Natal em 2019 este livro, não sabia que havia um  filme baseado na obra, estrelado por Judy Dench.  Pode ter sido muito bom se fez jus a obra de Jeannie Rooney, lançada no Brasil pela Record com tradução do inglês por Cláudia Mello Belhassof.  Pensei no início tratar-se de história de espionagem nos termos tradicionais, próxima às obras de Ian Fleming que  fizeram do agente 007 do MI5, um dos mais populares e sedutores personagens no mundo inteiro. Foi surpreendente realizar que esta espiã, personagem principal, não era figmento da imaginação de um escritor, mas obra de ficção baseada na biografia de verdadeira espiã que passou segredos importantes do governo britânico para as mãos dos russos.  Tão importante foram eles que ela foi considerada a agente da maior importância para a KGB.  A espiã vermelha, portanto é uma biografia ficcionalizada de Melita Norwood, a mulher que passou segredos de estado para as mãos do inimigo.

Ainda que a maioria dos leitores  considere este livro uma “trama envolvente sobre o amor e o significado da lealdade” como informa a orelha do livro, acredito que seja principalmente um longo ensaio, uma obra de apreciação sobre  traição.  Ou melhor, a constatação das infinitas maneiras em que uma pessoa pode ser traída ou trair.

A primeira consideração que me ocorreu foi a diferença  entre inglês e português  ao tratarmos de traição.  Em inglês para traição, há duas palavras distintas.  “Treason” que limita a traição a um ato de quebra de confiança nos interesses de estado e “Betrayal” cujo significado também é traição, mas abraça um maior número de situações de quebra de confiança, incluindo a traição amorosa. A espiã vermelha trata de ambos os significados.  Não só Joan Stanley (o nome de Melita Norwood  no livro) trai seu país, mas trai e é traída por amigos, familiares e parceiros amorosos.

Depois voltei ao significado de traição do ponto de vista histórico.  É atribuído, sem qualquer documentação, a Winston Churchill a máxima “é o vencedor quem escreve a história”, ou “cabe ao vencedor escrever a história”. Questionar a traição de estado é não aceitar o rumo da história. Joan Stanley  é traidora porque a Grã Bretanha estava no grupo que venceu a Segunda Guerra Mundial.  O mesmo aconteceu aqui no Brasil, com Domingos Fernandes Calabar, traidor por apoiar a colonização holandesa, quando Portugal vencia os invasores no nordeste brasileiro.   Nos anos 70,  Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra lançaram a peça, musicada:  Calabar: o elogio da traição (1973)  que pretende questionar esta traição.  Mas não se consegue contar a história pelo lado dos que perderam, pois qualquer situação mencionada de como  seria a realidade caso outros tivessem vencido,  não passa de fantasia, paisagens  imaginárias, idealizadas de uma história que nunca aconteceu.  E por mais que na biografia ficcional essa espiã inglesa pareça pretender o equilíbrio entre potências mundiais, suas ações são imperdoáveis por submeter o mundo inteiro à perigosa corrida nuclear. Só por essas considerações suscitadas pela leitura de  A espiã vermelha este livro já teria me satisfeito pelo saudável exercício filosófico que evoca.

Jennie Rooney

Bom notar que a narrativa em capítulos intercalados entre o presente e o passado é muito eficiente e mantém o interesse do leitor do início ao fim.  Descobrimos também ao longo do texto outras maneiras em que uma pessoa pode trair e ser traída. É um livro rico de observações, passagens que requerem do leitor atento, uma pausa para avaliar, desde “a nacionalidade é uma falsa distinção” [108] a “que coisa horrível envelhecer. Não tem certeza se recomendaria isso a alguém;” [182]. Este é um livro que questiona aquilo que tomamos como certo.  Levanta questões.  Tem sucesso fazendo isso, obliquamente.

Joan Stanley é uma personagem muito rica.  Repleta de dúvidas sobre si mesma acaba se revelando mais complexa do que se imaginaria no início. É uma cientista, uma raridade na época, mulher moderna até pelos dias de hoje.  Mas enquanto é intrépida para algumas coisas, também precisa da aprovação dos outros.  Recomendo a leitura.  Mesmo que não se saiba onde a ficção se desvia dos fatos desta recente história.  Recomendo.

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Resenha: “Poesia Pura”, Binnie Kirshenbaum

25 08 2020

Sem título

Alan Feltus (EUA, 1943)

óleo sobre tela

Voltei a um livro que li no finalzinho do ano passado, Poesia Pura de Binnie Kirshenbaum, [tradução de Lourdes Menegale], publicado no Brasil em 2002. Cansada da mesmice dos best-sellers, este livro mostrou-se bom antídoto para o tédio.  Não se trata de obra prima merecedora de prêmio, mas uma distração inteligente, com uma heroína pronta para seduzir essa leitora.   Lila Moscowitz é tipicamente nova-iorquina, com um pouco mais de trinta anos, grandessíssima mentirosa que ocasionalmente racionaliza suas fábulas: “é um daqueles casos em que uma mentira personifica uma verdade maior. Uma verdade metafórica, porque a verdade literal serviria apenas para distorcer a realidade…” [15].  Poeta de sucesso, sem pudor na linguagem ou no sexo, encontra-se permanentemente estressada, sem poder escrever uma linha satisfatória, desde que seu casamento com Max terminou.  Angustiada com tarefas cotidianas e vida amorosa insossa, quer ser especial, como qualquer heroína de Woody Allen ou Almodóvar e um pouco das mulheres de Sex and the City. Lila passa os dias pensando no casamento falido.  Enquanto isso aproveitamos de pequenas e deliciosas reflexões cotidianas, em passagens até mesmo prosaicas, como uma visita a um hospital, que valem ser ressaltadas.

“É cruel, pensei, levar flores para pessoas que estão morrendo. É como se você estivesse apressando o funeral. Sem falar em esfregar no nariz deles a fragilidade da vida. Uma lembrança brutal de como uma coisa suave e fresca torna-se marrom nas bordas, o perfume se transforma em mau cheiro, tudo numa questão de dias. Os moribundos não precisam ter isso num vaso na mesa-de-cabeceira”[76].

Lila não quer a vida comum, porque ela é só “para os que não fazem questão do melhor.” Procura desesperadamente sentir-se especial, e aí está a fonte do desespero e a prisão em que se encontra.  Definitivamente uma mulher contemporânea, que se imagina merecedora de muito mais do que o que consegue, vive correndo de lugar em lugar, de pessoa em pessoa, em círculo com assustadora velocidade, à procura do que parece inatingível: felicidade e satisfação consigo mesma.  Lila é adorável na sua franqueza,  mas às vezes cruel. Inteligente, ela mostra a desconcertante procura por uma felicidade inatingível.

Binnie Kirshenbaum

Talvez seja o humor a característica mais encantadora deste livro, quer nas observações do dia a dia, quer nas justificativas que Lila encontra ou fabrica para si mesma,  um sorriso é inescapável do leitor atento.  Encontrei-me frequentemente suspendendo a leitura para poder refletir sobre o que acabara de ler, com a sensação de surpresa e diversão sobre o ponto de vista adotado.  Fora isso, Poesia Pura é um livro sem maiores ambições, cuja grande virtude está no entretenimento inteligente.

 

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Resenha: Pátria, de Fernando Aramburu

21 08 2020

Lendo

Monica Castanys (Espanha, 1973)

 

Por motivos profissionais de meu marido, passei algum tempo na antiga Iugoslávia, saindo de lá na semana em que a guerra da independência dos estados e eventualmente da Sérvia contra a Bósnia começou. No período que estivemos lá um dos mais incompreensíveis comportamentos que testemunhamos foi o ódio de uns pelos outros muitas vezes por crimes acontecidos há dois ou três séculos, quando aldeias inteiras de um grupo guerreavam contra aldeias de diferentes religiões ou etnias.  Lembro-me de acreditar que sentimentos de ódio de tal maneira entranhados  na cultura de um lugar são mais tipicamente encontrados na Europa do que em qualquer país do Novo Mundo.  A razão é simples: imigrantes que vieram do Velho Mundo deixaram para trás não só a terra natal, mas os hábitos e os ódios centenários para se adaptar a novas realidades.  Ler Pátria de Fernando Aramburu [tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht] lembrou-me dessas características do Velho Mundo, quase inexplicáveis para aqueles que de lá emigraram.  Rusgas políticas, ódios e desprezo podem e frequentemente tomam conta de aspectos vitais do relacionamento social de grupos étnicos, principalmente quando imaginam que na conta está a identidade nacional, mesmo que esta seja mais teórica do que prática.

Pátria trata do movimento terrorista separatista do País Basco, uma região que cobre parte da Espanha e da França, que um quarto da população fala uma das mais antigas línguas do mundo e que se imaginava capaz de ser um país independente.   Lugar pequeno, com língua esdrúxula, população de dois milhões, mas portador de um ego extraordinário, imaginando-se possuidor de importância. Se independente teria que competir com países vizinhos, na indústria, na educação, na saúde e em tudo aquilo que os identificava. Conseguiriam?  Não. Contavam, claro, com uso pleno de enormes fundos da Comunidade Europeia.  Ou seja, impostos pagos pelos alemães, franceses, ingleses, espanhóis e demais para que eles, os bascos, mantivessem sua identidade independente.  Fantasia. Desvario socio-cultural.   Impossível justificar-se.  Nem a eles mesmos o ETA [Movimento separatista] conseguiu captar a imaginação de toda a população. Apelaram, então, pelo recurso das milícias: ou você participa do nosso plano pagando uma mensalidade ao movimento separatista ou morre.  Nenhum movimento de independência pode ter sucesso desta maneira. É preciso incendiar imaginações.  É preciso oferecer realidade melhor do que a existente. Eles tampouco tiveram, desistindo oficialmente da separação em 2018.

 

 

 

Para mostrar o exagero miliciano do movimento separatista basco, Fernando Aramburu foca em duas famílias, cujas matriarcas eram as melhores amigas desde criança. Casaram-se, tiveram filhos. Cada qual cumpre seu destino: uma enriquece através do sucesso empresarial do marido, outra se dedica ao movimento separatista, são pobres e invejosos. As amigas se separam. Passam a se odiar. Quando o assassinato do empresário ocorre, a viúva encontra problemas ao voltar para o lugar em que moravam. É nesse ponto que encontramos pela primeira vez os principais personagens de Aramburu. A trama é envolvente. Com capítulos curtos vamos e voltamos no tempo cobrindo aquilo que foi acontecendo — dramas físicos e emocionais dos personagens.

Mas, por mais que detalhes do dia a dia sejam retratados vemos que os personagens pensam sempre no passado, ninguém supera as maldades que sofreu ou que impôs aos outros. As família retratadas quase vivem em função uma da outra, alimentando o ódio assim como os habitantes da antiga Iugoslávia me pareceram fazer sobre acontecimentos enraizados há séculos nas aldeias do país. Ninguém consegue sair do passado. Ninguém consegue esquecer. Perdoar seria necessário para crescerem, para se livrarem. Resta saber se os personagens serão grandes bastante para fazê-lo.

Fernando Aramburu

No entanto, a leitura é dificultada por excesso de palavras em basco (realmente, precisamos de um dicionário no final de um romance?). É detalhada demais, o leitor atenta ao que pode ou não ser importante (se um vaso de planta é um gerânio, se as pedras de um bracelete são verdes) que pode ou não ser relevante. Como tantos livros publicados nos últimos anos, faltou o trabalho de um bom editor que cortasse pelo menos umas cento e oitenta páginas dessa obra de mais de quinhentas. Não há necessidade disso tudo.

Fora isso é uma boa leitura. Não entendo o motivo de ter se tornado “leitura obrigatória da intelectualidade carioca”. Mas reconheço que em tempos de pandemia, todos com tempo de sobra, um livro com uma boa história, mesmo por demais longo, possa preencher as manhãs, tardes e noites de isolamento social. Aprende-se um bocado sobre o país basco, além das paixões humanas.

 

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Resenha: “Me chame pelo seu nome”, André Aciman

5 07 2020

 

 

 

Wladimir Lindenberg Der Lesende, 1952, TemperaO leitor, 1952

Wladimir Lindenberg (Alemanha, ?-?)

Têmpera

 

Antes deste livro se tornar popular, e antes mesmo de virar filme, conheci a prosa de André Aciman através de três livros: Out of Egypt, memórias; um ensaio sobre imigração, no livro Letters of Transit, onde ao lado de Eva Hoffman, Bharati Mukherjee, Edward Said e Charles Simic o tema da identidade no exílio é abordado; mais tarde, em veio semelhante, li False papers: essays on exile and memory. Na época eu me dedicava a questões sobre  exílio e identidade cultural. Por este motivo com exceção de Charles Simic, me familiarizei com os autores mencionados.  Deles, Aciman surpreendeu. Sua habilidade de ser incisivo dando espaço para linguagem poética se fez sentir em todos os textos. Mas o autor que conheci através desses livros não me deixou vislumbrar o romancista.  O que há em comum entre este romance e os textos que li anteriormente?  Cuidado com as palavras,  leveza  de expressão, profundo conhecimento de textos clássicos.  E ainda, prosa fluida, que se mantém entre realidade e memória; explorando a melancolia inerente àquilo que se perdeu.

A ampla linguagem poética continua usada em Me chame pelo seu nome, [tradução de Alessandra Esteche]. É ela que faz sonho e realidade deslizarem de um momento para outro, se imiscuírem e mesclarem, numa dança sedutora, onde nada é preciso. Mais vale o subentendido, a ambivalência.  Diálogos são dissimulados; passagem de tempo incerta. Sabe-se simplesmente que é verão.  É um verão.  A ação se desenvolve no período das férias escolares americanas, de meados de maio a agosto. Mas é Itália. Cidade linda, quase anônima, de identidade misteriosa, referida por uma única consoante, mas exposta indiretamente aos curiosos, quando se descobre ser o local da morte por afogamento do poeta inglês Shelley [Percy Bysshe Shelley, 1792- 1822].  Portanto é a pequenina Lerici, voltada para o azul do Mediterrâneo, ao sul da Riviera Italiana.

Por três quartos do livro, não gostei da leitura.  Mas as últimas sessenta páginas redimiram o sacrifício inicial, quando a trama dá uma virada impressionante.  De repente, gostei de seu  desenvolvimento. Subitamente chega-se a um final belíssimo e coerente. E não foi por acaso que fechei o livro com a certeza de algo ter-se movido em meu âmago.

 

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Trata-se de um livro de passagem,  da chegada à idade adulta, de descoberta da sexualidade, de amor, de paixão, até mesmo de obsessão.  Elio Perlman, rapaz de dezessete anos, se descobre enamorado de Oliver, americano, que passava as férias de verão na Itália.  Erudito, acadêmico, Oliver recebe estadia gratuita na casa dos pais de Elio. Em troca, serve de secretário para o dono da casa. O esquema funciona há anos, cada vez com uma pessoa diferente e continua por depois desse verão.

Ainda que Elio pareça ser o personagem principal, já que vemos o mundo através de seus olhos, é Oliver, quem traz a energia que movimenta a trama. Sua presença, desde a chegada à vila dos Perlman, agiliza o texto e, por mais lacônico que seja, possivelmente por isso mesmo, ativa a curiosidade de Elio.  Oliver o fascina, o instiga. É aí, neste ponto, que desfrutamos, sem perceber, do grande e profundo conhecimento da literatura clássica, por André Aciman. O livro nos comove, nos toca a alma, em parte porque sua estrutura espelha a dos mitos da antiguidade, enraizados no inconsciente do leitor ocidental.  Oliver aparece nesta trama no papel de Hermes.  Mercúrio.  Por ele, e com ele, Elio é iniciado a outro mundo, ao autoconhecimento, à totalidade, à plenitude.  Oliver, como Hermes é sedutor. De espírito livre, não pode ser definido facilmente; inteligente, culto, atraente, bissexual, destro no tênis e perito no pôquer, inconstante, desfruta de noites e telefonemas enigmáticos; ambivalente, inacessível, esfíngico o americano torna-se foco da atenção de Elio, que se encanta e o deseja. Sonha com sua atenção, almeja a união com o indecifrável visitante. Em sua visão Oliver é o que ele gostaria de ser. É o ser que tem dentro de si. Não descansa até formar um vínculo estreito com ele, até ter sua intimidade trespassada. Eventualmente os dois se encontram e têm um relacionamento tórrido, absorvente, que dura pouco.  Mas traz a Elio a sensação do todo, de plenitude e perfeição.  Logrou conhecer-se, completar-se.  A união com este outro ser, que o reflete, está representada no próprio título: Me chame pelo seu nome, clímax da plenitude alcançada, da união que o torna conhecer a si mesmo.  Logo, Oliver retorna à América, tendo desempenhado o papel que lhe cabia, psicopompo.  A história deste verão, portanto não é só a iniciação sexual de Elio, é a porta do conhecimento de si mesmo.

Então, porque não gostei de uma parte tão grande do livro? A obsessão de Elio com Oliver é longa, detalhada, interminável. Cada pormenor é descrito: do arco do pé de Oliver, às cores de seus calções de banho às quais Elio atribui vários estados de espírito do visitante. Essas descrições delicadas, sensíveis, inspiradas, suaves e sedutoras tornam-se infindáveis. Levantam a dúvida sobre sua necessidade e mesmo agora, depois de terminada a leitura, acredito que Aciman foi indulgente consigo mesmo, talvez fascinado pela novidade de escrever sobre a atração de um homem por outro.  Por fim, quando Elio e Oliver se encontram e se amam apaixonadamente, a linguagem poética de Aciman se perde. Desaparece.  Nos encontramos com uma das mais crassas descrições de um relacionamento a dois. Ela me levou a imaginar como teria sido bela e sensível esta passagem nas palavras D. H. Lawrence, porque Aciman sujeita o leitor a ponderar sobre o desconforto físico de Elio após a iniciação sexual e a considerar o grotesco do prazer carnal. O que aconteceu com aquele escritor da primeira parte, com toda a bela e poética prosa?  Ela retorna no final, depois de um interlúdio literário, numa viagem a Roma, que não exerce nenhuma função significativa no desenrolar da história.

Só então, no regresso à casa, quando o desejo de Elio retorna, quando o anseio reaparece, quando seu apetite, ânsia, espera, sede reacendem, ressurge também  a prosa poética na qual Aciman se distingue. É aí, neste ponto, na fala do Sr. Perlman, pai de Elio, ao aconselhar-lhe sobre a vida, que Aciman leva o texto ao seu ápice. Não me surpreenderia se esse trecho da obra, passasse a ser reconhecido por si só. Aplaudido.  Independente.

 

índiceAndré Aciman

 

O que permaneceu comigo foi algo sobre as possibilidades perdidas e as conquistadas; foi a constatação da miríade de oportunidades que nos é oferecida numa vida comum. Pensei nas portas que abrimos e fechamos, nas vezes que dizemos não ao autoconhecimento.  Medo.  Medo do sofrimento que traz conhecimento de si, da vida e dos outros. Pensei no que é amor, paixão, curiosidade.  Na fascinação de cruzar as fronteiras para outros mundos, físicos ou imaginários, e até mesmo psicológicos.  Pude refletir sobre o medo de viver, das novas experiências. Talvez pela própria ambiguidade do texto, tantas perguntas possam ter aparecido. É um livro de perguntas, mais do que respostas e parte de seu encanto está em nos conhecermos através desse próprio questionamento.

Designar Me chame pelo meu nome como um livro homossexual, pertencente à literatura gay é reduzi-lo a um pequeno círculo de leitores.  É sim, a história de amor de um homem por outro.  Mas é maior do que isso, é uma viagem ao mundo de nossa psiquê que ao ser descoberta nos une, nos faz inteiros.  É, portanto, um livro para todos, pois irá repercutir no âmago de nossas almas.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “A distância entre nós”, Thrity Umrigar

25 06 2020

 

 

Girl reading, Painting by Vishalandra Dakur (India), Oil on Wood. Its dimensions are 25.4x20.3x0.5 cm.Jovem lendo

Vishalandra Dakur (India, contemporâneo)

óleo sobre madeira, 24 x20 cm

 

Na geometria projetiva duas linhas paralelas se encontram no infinito.  No livro A distância entre nós de  Thrity Umrigar elas não só se encontram como colidem por volta da página trezentos.  Trata-se da história de duas famílias lideradas por mulheres viúvas, na maior e mais importante cidade indiana, Bombaim.  Sera Dubash é uma mulher de classe média alta, parsi, que vive confortavelmente num apartamento na zona residencial da metrópole.  Tem uma filha, casada, passando pela primeira gravidez e cuida da sogra idosa e acamada.  Sera tem uma empregada doméstica há mais de vinte anos, Bhima, com mais de sessenta anos, cujas dores do corpo maltratado precisa ignorar para trabalhar e manter a neta estudando.  Bhima é extremamente pobre. Vive numa favela na cidade, numa casa sem banheiro próprio. Necessita usar o sanitário comum do local e,  sem móveis, dorme no chão.

Ainda que Sera e Bhima vivam em mundos distantes, cada qual, à sua maneira, trata da outra, conhecendo os segredos que cada uma esconde, a vergonha social que as domina.  Sera foi protagonista de casamento violento e foi constantemente maltratada pela sogra que hoje depende de sua assistência. Bhima foi abandonada pelo marido, que ao sair de casa levou com ele o filho, deixando para trás a pequena irmã do menino.  Ao longo das décadas de serviço as duas mulheres vieram a se solidarizar com os sacrifícios que sabiam a outra fazia.  Bhima perde a filha e o genro para a AIDS e cria, agora, nos últimos anos de vida a neta, que, recipiente da generosidade de Sera, estuda na universidade, o que seria impossível de outra forma.  No entanto, quando o livro inicia, sabemos que uma grande desgraça acontece com Maya, neta de Bhima.  Ela engravida ainda solteira, enquanto cursa a faculdade e  Bhima se vê sem meios de resolver o problema a não ser com a ajuda de Sera e sua família. A solução e as razões evocadas para tal são fonte de grande conflito interior para Bhima e Maya e só no final, entendemos perfeitamente os motivos de tanto sofrimento.

 

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Temos, portanto, uma prato cheio de emoções conflitantes. agravadas por preconceitos sociais, pobreza, intolerância e separação de castas sociais culturalmente mantidas, a despeito da constituição indiana de 1947, que as abole.

Thrity Umrigar é excelente escritora.  Mantém bom ritmo na narrativa, descreve, através dos pensamentos dos personagens, ambientes à sua volta. Diálogos e linhas de pensamento, reflexões sobre eventos passados abrem a porta para vislumbramos conflitos presentes. O texto corre solto, sem soluços,  visita cada família esboçada, e reflete das dúvidas às ações nem sempre dignas dos personagens.  Em menos tempo do que se imagina, é possível ver que as duas famílias se espelham e o paralelismo entre as realidades é conduzido com maestria.

 

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Há leitores e leitores. Nos meus grupos de leitura A distância entre nós teve aprovação quase unânime.  O livro foi considerado repleto de questões relevantes, uma entrada para a cultura milenar da Índia, reflexivo sobre as emoções humanas mais conhecidas, arrebatadoras. Amor, traição, decepção, esperança, sacrifício, felicidade são todas emoções fortes, tratadas no desenvolver da história.  Sinto revelar que fui a voz da discórdia. Justamente porque há leitores e leitores.  A mim, agradam textos mais sutis. A meia palavra fere mais do que a altercação. Querelas sentimentais me cansam.  Não sou adepta da novela, muito menos das explosões emotivas tradicionalmente retratadas nos seriados mexicanos, por exemplo.  Arroubos de emoção (seja ela a que for) me distanciam.  Acho-os de difícil empatia. E a escrita de Thrity Umrigar, neste livro, detalha as fortes emoções que levam a decisões extremas.  Um pouco fora da minha preferência.

Mas, se você acredita nas emoções violentas, nas emoções mais básicas do ser humano, do amor à traição e não se incomoda com os dramalhões.  Se você é noveleiro, se entende e simpatiza com o sofrimento escancarado dos personagens, este livro é para você. Boa história, resolução final esperançosa.  Vá em frente. Você vai gostar.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: A paciente silenciosa, de Alex Michaelides

5 06 2020

 

 

 

Andrew Ganley - Brigit Ganley - Pintora irlandesa (1909-2002)O dramaturgo Andrew Ganley

Brigit Ganley (Irlanda, 1909 – 2002)

óleo sobre tela

 

Em 1926,  Agatha Christie publicou seu primeiro grande sucesso de vendas: O assassinato de Roger Ackroyd. Em 2013, a Associação de Escritores Britânicos de Crime elegeu esta obra como a melhor história de crime já escrita.  Este mistério é considerado um dos livros de maior influência no gênero, mesmo que tenha gerado controvérsia pela virada no final na trama.  Não pude deixar de me lembrar de Roger Ackroyd  ao terminar a leitura de A paciente silenciosa, do escritor britânico, nascido em Chipre, Alex Michaelides, publicado em 2019, para uma carreira de sucesso imediato.  Como o livro de Agatha Christie, este também ganhou inúmeros prêmios inclusive o Prêmio do site Goodreads  para mistérios e suspense no mesmo ano de lançamento. Além disso os dois livros são repletos de suspense, mistério e de finais surpreendentes.

Diferente do que aconteceu comigo na leitura do  livro de Agatha Christie, não consegui gostar nem me identificar com qualquer dos personagens envolvidos na trama de Michaelides. A narrativa me pareceu distante e artificial, assim como os dramas pessoais dos personagens me pareceram desde o início forjados, um tanto teatrais.

 

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Não obstante, A paciente silenciosa tem ritmo acelerado que ao longo do tempo torna-se trepidante, causa incertezas aumentando ansiedades no leitor, certo de que há algo muito errado, sem conseguir perceber claramente o que acontece.  Há passagens arrepiantes, repletas de situações aterrorizadoras, principalmente na descrição da perseguição [stalking] de um dos personagens.

Alex Michaelides usa de diversos métodos de narrativa para elaborar a trama.  Neste ponto, o livro é de grande riqueza, pois passamos da narrativa em primeira pessoa, às notas em diários, conversas, pintura e silêncio como meios de comunicação para a evolução do enredo e desta maneira consegue iludir o leitor, quando precisa, sobre as elipses que irão permitir a reviravolta final.  Neste ponto, A paciente silenciosa  é uma obra de grande auxílio àqueles que desejariam escrever uma história de suspense.

 

lex Michaelides 2.jpgAlex Michaelides

 

O livro gera questões sobre ética de trabalho de profissionais como psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, assim como segurança nas instituições de acolhimento daqueles que necessitam de tratamento mental.  Há também a questão de confiabilidade, transparência e genuíno cuidado de pacientes mentais.

A paciente silenciosa é bom entretenimento, leitura feita para um fim de semana, para um dia de chuva.  Diverte, ajuda a passar o tempo, retém a atenção do leitor. Com este fim, recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.








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