Resenha: “Autobiografia”, Agatha Christie

21 11 2018

 

 

 

Bryce Cameron Liston, An Enchanting Tale, 2013, ost, 50 x 40 cmHistória fascinante, 2013

Bryce Cameron Liston (EUA, 1965)

óleo sobre tela, 50 x 40 cm

 

 

Muito me surpreendi com a Autobiografia da Agatha Christie.  Boa surpresa.  Esta é uma leitura feita por uma profissional da escrita: fácil de ler, interessante, repleta de informações pessoais, culturais e sobre hábitos da época.  Foram quase 600 páginas que me deixaram com gosto de quero mais.  Não é qualquer um  que consegue isso. Na virada de 2018 tomei decisão de ler mais livros de outros segmentos além de ficção/romance.  Ando interessada em memórias.  Gosto daquelas que colocam a vida do autor no contexto da época.  Esta é uma delas.

Neste livro, aprendi sobre costumes da época (virada do século XIX para o XX) que são interessantes de pontuar. Hábitos e maneira de pensar eram diferentes.  Uma das surpresas foi saber da existência de uma tal “carroça de banho de mar” que as mulheres na primeira década do século XX usavam.  Era realmente uma carroça, com rodas, e uma tendinha de madeira em cima para a troca de roupas.  Elas eram puxadas para um lugar mais fundo do mar para mulheres poderem nadar. Veja foto abaixo.  Eu já conhecia regras que circunscreviam os banhos de mar para mulheres, mas essa foi a primeira vez que soube desses carrinhos.

Há observações sobre o comportamento das mulheres que quero ressaltar. Em 1919, Agatha Christie teve um filha. Quando Rosalind está com dois anos e pouco, em 1922, Archie Christie, seu marido, tem oportunidade de trabalhar viajando por um ano de navio, através dos países que faziam parte da Commonwealth Britânica. Agatha não se estressa.  Deixa a filha com a mãe e a irmã e uma babá e vai viajar pelo mundo por um ano inteiro, por todas as colônias inglesas. Hoje, em pleno século XXI, a mesma classe média alta, pelo menos aqui no Brasil, ou até mesmo nos EUA, acharia estranha essa decisão.  Como?  Não ver sua única filhinha, tão pequenina por um ano inteiro?  Num mundo sem SKYPE, sem Whatsap, sem internet, sem a facilidade de telefonemas internacionais?

 

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Também é interessante notar que Agatha Christie é capaz de viajar sozinha através de muitos países.  Estamos falando de viagens antes da Segunda Guerra Mundial.  Sozinha.  Por que?  Porque quase todos os países por que passa são protetorados ingleses.  As leis inglesas protegiam essa mulher, que na Inglaterra da época já tinha bastante mais liberdade do que em outros cantos do mundo.  Se formos comparar com o presente, 2018, praticamente 100 anos depois das aventuras de Agatha Christie, nós mulheres, não podemos viajar sozinhas, como turistas, mala em punho, pela maioria dos países por onde ela passou no Oriente Médio.  Essa é uma diferença enorme.  Depois da independência desses países leis que restringem deslocamento de mulheres, baseadas no Alcorão ou em costumes locais,  deixaram de dar apoio a essa liberdade feminina.

O leitor tem também a oportunidade de descobrir que Agatha gostava bastante de esportes e com seu primeiro marido, esteve entre os primeiros europeus a praticar surfe em pé na prancha, quando nesta mesma viagem de 1922/23 estiveram no Havaí.  E numa época em que carros eram raros, ela já dirigia seu próprio.  No fundo, o que mais me surpreendeu nesta autobiografia foi perceber como ela foi uma mulher moderna.  Muito moderna. E com seu sucesso literário tomou para si o poder, o poder de decidir o que queria, de fazer o que queria, quando queria, sem dar satisfações.

 

young-agatha-christie-1926Agatha Christie, 1926

É claro que para os fãs de Agatha Christie ler sua autobiografia será interessante para conhecer que ideias apareceram em seus livros como resultado da própria vivência da escritora.  Curioso saber da surpresa dela com o próprio sucesso, e que, com o tempo, ela não se acanhava de fazer bom uso do dinheiro que lhe veio às mãos, comprando imóveis e remodelando-os.  Quando precisava de uma renda maior, para ajudar nas obras, para colocar mais uma viagem na agenda, Agatha Christie admite, sem pudor, que se sentava à mesa, para escrever um conto ou um romance que lhe trouxesse dinheiro.  Talvez seja por isso que conta mais de 80 títulos de sua autoria.

Outro aspecto que esquecemos quando falamos da Dama do Mistério é que ela também se sobressaiu na dramaturgia.  São dela as duas peças de teatro de maior sucesso no mundo, no século XX.  A ratoeira [The Mouse Trap], foi encenada, ininterruptamente desde 1952 até hoje. Testemunha de acusação [Witness for the prosecution] de 1953.

É difícil resenhar uma vida tão completa da escritora que mais vendeu livros no mundo, ficando em terceiro lugar, depois da Bíblia e Shakespeare. Calcula-se em 4 bilhões de exemplares.  Agatha Christie teve uma vida repleta.  Viveu bem e intensamente.  Deixou  80 livros policiais e de contos, 19 peças de teatro e 6 romances usando o pseudônimo Mary Westmoreland.  Suspeita-se que ainda haja outras obras com outra identidade.

 

bathing11Carroça de banho.




Resenha: “As filhas do capitão”, de Maria Dueñas

14 11 2018

 

 

 

as-trc3aas-irmc3a3s-1917-henri-matissefranc3a7a-1869-1954-ost-92x73-orsayAs três irmãs, 1917

Henri Matisse (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

Musée d’ Orsay, Paris

 

 

 

Este é o terceiro livro de Maria Dueñas que leio.  O primeiro, O tempo entre costuras, foi uma leitura excepcional.  Rara obra de aventuras em que uma mulher tem a liderança.  Foi também uma excelente maneira de relatar alguns detalhes da vida na Espanha na época de Franco.  Nota dez.  Li depois  O melhor está por vir.  Não me encantou.  A mim, pareceu um exercício forçado para a entrada no mercado americano.  A história se passa na Califórnia, e está ligada às missões espanholas.  Por isso não li nenhuma outra obra de Dueñas.  Mas este mês meu grupo de leitura  escolheu As filhas do Capitão, para discussão.

Assim como seu primeiro livro – O tempo entre costuras,  sucesso mundial que virou uma série na televisão, muito boa por sinal — este é um livro de aventuras.  Aqui três jovens irmãs emigram para os Estados Unidos nos anos 30 do século XX.  As filhas do Capitão  tem capítulos pequenos e muitas situações de perigo, momentos críticos de decisões pessoais de cada personagem, refletindo com clareza e detalhe as vicissitudes, perigos, alegrias e sucessos dos recém-chegados ao EUA,  momento que imigrantes têm como um segundo nascimento ao desfrutarem de liberdades em geral fora de seu alcance na terra natal.  Sem dúvida a chegada ao país para onde se emigra  pode ser um período  de escolhas, e empreendedorismo sem igual. As irmãs, Victoria, Mona e Luz Arenas, que a princípio não queriam deixar a Espanha para acompanhar a mãe  e se juntarem ao pai emigrante, logo despertam para  novas possibilidades que são ainda mais sedutoras quando subitamente encontram-se órfãs  de pai e responsáveis pela mãe  camponesa, analfabeta, com visão do mundo limitada pela aldeia onde moravam naquele país ibérico.

 

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Como grande parte dos imigrantes, a família encontra respaldo na comunidade de conterrâneos emigrados.  Aqui foram espanhóis que ocupavam grande variedade de posições sociais, do trabalhador braçal, aos pequenos negociantes, profissionais liberais e até mesmo personagens da decadente família real do país.  Para sobreviverem,  se alimentarem, as irmãs jovens, atraentes e bonitas, decidem levar avante o pequeno restaurante endividado que o pai lhes deixara.  Sem nunca terem trabalhado no ramo, sem qualquer conhecimento de inglês, as irmãs Arenas se empenham em encontrar maneiras de sobreviver e simultaneamente descobrir as próprias habilidades, opiniões, gostos, limites, moral e perseverança.  Sem que se fale nas encrencas amorosas que pavimentam o caminho, este é um livro que descreve conquistas,  erros,  desavenças, decisões nem sempre acertadas,  a vida repleta de aventuras numa terra estranha.  Neste ponto As filhas do capitão é  um livro tão excitante quanto O tempo entre costuras.  O que é diferente, é a enorme coletânea de dados históricos que vêm muitas vezes a troco de nada, e pesam no texto por absoluta falta de disciplina da autora e falta de algum bom editor que lhe aconselhasse a cortar muito dessas partes.

 

mariaduenas-1-880x1264Maria Dueñas

 

Depois do sucesso de O tempo entre costuras Maria Dueñas deixou a carreira de professora universitária para se dedicar exclusivamente à escrita.  Tornou-se escritora por tempo integral.  Enquanto escrever  ficção era um hobby, uma segunda opção de vida, sua narrativa fluiu.  Toda a pesquisa necessária para retratar a época de Franco na Espanha fez parte da narrativa de seu primeiro romance sem pesar no texto.  Grande pesquisa histórica foi necessária para localizar este romance As filhas do capitão na mal conhecida imigração espanhola nos Estados Unidos.  É evidente que Maria Dueñas se dedicou seriamente a levantar os detalhes da época e de toda a colônia espanhola em Manhattan nos anos 30 do século passado.  Mas é exatamente por isso que há desconforto na leitura do texto.  Apesar de abraçar a carreira de escritora de ficção, a autora não conseguiu se desfazer do hábito acadêmico de colocar tudo o que se sabe num documento para provar que a pesquisa foi feita.  Maria Dueñas vestiu a toga de escritora sem se desfazer dos vícios da escrita acadêmica.  Há momentos em que quase sentimos sua vontade de colocar uma nota de rodapé sobre a descoberta que fez.  Há dezenas e dezenas de parágrafos sobre a família real espanhola; há detalhes sobre as ruas, sobre endereços, sobre hotéis, que não enriquecem necessariamente o texto, mas que servem de obstáculos para a leitura suave da história.  Muito disso poderia ser cortado.  Poderia também pertencer ainda a outro romance sobre espanhóis em Nova York.  E muito também poderia ser revelado através de diálogos, através de reflexões de personagens para suas decisões, sem que ocasionalmente o leitor se sinta tendo uma aula sobre o assunto.  Este é, sem dúvida, o grande defeito deste livro.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Romancista como vocação” de Haruki Murakami

13 11 2018

 

 

 

 

Belinda del Pesco (EUA, contemporânea) aquarela, 20 x 25 cmAlmofada vermelha

Belinda del pesco (EUA, contemporânea)

aquarela, 20 x 25 cm

 

 

Não se trata de ficção.  Este é um livro de ensaios sobre escrita, literatura, escolhas e preferências do autor e ainda outros temas surgidos nas entrevistas que Haruki Murakami deu.  Não se trata tampouco de um guia para o escritor neófito, nem uma cartilha de como se tornar um escritor de sucesso.  Invés disso temos um belo preenchimento do retrato de Murakami como pessoa, intelectual e pensador.

 

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Mesmo assim é um livro que encanta, principalmente àqueles como eu, que apreciam os livros do autor.  Saímos dessa leitura com a sensação de quem é Murakami, um cara sóbrio, que tem dúvidas, muitas delas sobre suas criações.  Conhecemos o início de sua carreira como escritor e suas ideias sobre a educação nas escolas japonesas. É um livro leve, de fácil leitura, repleto de vinhetas ou histórias  ilustrando suas ideias.  Nesta obra passeamos pelas memórias do autor,  e vislumbramos os processos de sua escrita.

 

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Tudo me pareceu de interesse: seu desprezo pelos prêmios literários; o hábito de sair do Japão para um lugar onde não é conhecido (por exemplo, Paris) e viver lá pelos 6, 8, 10 meses necessários para escrever o romance que tem na cabeça e que surgiu no Japão (ele gosta deste distanciamento físico); o descaso que críticos japoneses têm por sua obra, por acreditarem que é repleta de perspectivas estrangeiras (americanas na maioria); o cuidado detalhado, minucioso, vagaroso necessário para completar uma obra e sobretudo a seriedade com que trata de sua vocação.

Leitura encantadora.  Difere de todos os outros Murakamis que li.  Com ele começamos a perceber o homem que cria o mundo paralelo em que nos deliciamos.  Vale a pena!  Muito bom.

 

 

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Resenha: “Nosso homem em Havana”, Graham Greene

31 10 2018

 

 

 

IT_S A CLASSIC—The old cars seen prominently in Havana, Cuba are the inspiration for this Anette Power painting.Havana, Cuba, pintura de Anette Power.

 

 

De Graham Greene eu só havia lido Viagens com minha tia, [Travels with my aunt], que li em inglês nos primeiros tempos de moradia nos Estados Unidos há anos. Boas recordações associadas a essa leitura —  personagens fora do comum, como tia Augusta com uma vida não muito límpida  —  seu sobrinho, o  monótono gerente bancário, aposentado, Henry Pulling,  e sobretudo as aventuras europeias fora do esperado,  não foram suficientes, no entanto, para que eu retornasse a Graham Greene até agora.  Mas meu grupo de leitura votou neste clássico para discussão mensal.  E foi, portanto, com prazer que abri as primeiras páginas de Nosso Homem em Havana.  No início  a narrativa pareceu de difícil engajamento. Passei para o original em inglês considerando que talvez fosse a tradução, neste caso de Brenno Silveira. Mas o início do original em inglês foi lido com tão pouco entusiasmo quanto seu correspondente em português.  Até que a história, pequenina, não chegando mesmo a 280 páginas, toma um embalo, lá por um terço e daí por diante fluiu sem obstáculos, tornando-se uma das mais interessantes narrativas que li nos últimos tempos.  E devo acrescentar, escrita com grande humor, uma sátira muito bem feita que chega, em ocasiões, a trazer o riso solto ao leitor. Realmente muito engraçado.

 

 

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Publicado em 1958, o livro tem trama elaborada. Passa-se em Cuba, ainda no governo de Batista, mas já com rebeldes agindo nas montanhas, precursores da revolução cubana liderada por Fidel Castro e seus associados. Interessado no que pode vir a acontecer, o serviço secreto britânico, por falta de melhor solução, contata James Wormold para mandar notícias sobre o que se passava na ilha.  Wormold, cidadão inglês radicado em Cuba,  vendedor de aspiradores de pó, figura apagada e insossa que nenhum de nós pode imaginar como personagem principal de uma aventura de espionagem, precisava reforçar o conteúdo de seu bolso para dar à filha, manipuladora sem limites, as necessidades de luxo que ela desejava.  Aceita o trabalho, desconhecendo como proceder.  A necessidade, dizem ser a mãe das invenções.  Sabedoria popular que se afirma neste caso.  Que mal poderia acontecer,  se desta longínqua ilha no Atlântico, mais de 7.000k de Londres, Wormold colorisse a realidade?  Nada, ele pensa.  Quem vai saber?  A situação toma caminhos inimagináveis quando na capital inglesa o serviço secreto leva a sério os relatórios assinados  por Wormold.

 

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Farsa, comédia rasgada são termos comumente associados ao teatro, mas podem descrever a sátira feita por Graham Greene, que baseia seu sucesso — como o melhor do humor inglês — nas pequenas frustrações que seus personagens, verdadeiramente humanos, imperfeitos, ingênuos sofrem, e de como são incapazes de impedir as consequências inevitáveis de suas ações.  Paródia,  crítica sobre o serviço secreto inglês e métodos da política mundial, do final da década de 1950, não tornam a história datada. Ao contrário, ela é atemporal, clássica no sentido mais largo da palavra, porque é  baseada não em circunstâncias de época mas no registro das emoções e do caráter de seus personagens.  Sensível,  Graham Greene brinca com o que rotulamos importante.  E explora com destreza as fraquezas humanas. Sim, é um clássico que pode ser lido e relido inúmeras vezes.  Excelente leitura. Leve e curta.

 

 

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Resenha: “A inesperada herança do Inspetor Chopra” de Vaseem Khan

19 07 2018

 

 

_Demeter_BabyElephant David Drinnon (oil), Baby Elephant by Anne Demeter (acrylic)Elefantinho, ilustração de Anne Demeter.

 

 

A Inesperada Herança do Inspetor Chopra de Vaseem Khan é um agradável livro de entretenimento, perfeito para o fim de semana de férias.  Ele se insere entre livros de mistério passados em terras exóticas e longínquas. Este nicho literário ganhou, nas últimas duas décadas, leitores fieis e novos escritores.  Essas obras abrem caminho para o entendimento de diferentes culturas através de detetives e crimes por resolver. Neste segmento meus preferidos são as aventuras de Mma Precious Ramatswe, em Botsuana,  personagem criado pelo escritor britânico Alexander McCall-Smith cuja aparição no mundo dos detetives foi no livro Agência Nº 1 de Mulheres Detetives (original de 1998, 2003 no Brasil) (a série inteira é deliciosa) e também os problemas enfrentados ao combater crimes pelo Detetive Chen Cao, do escritor Qiu Xialong (imperdíveis para quem lê em inglês, mas até o momento sem tradução no Brasil), cujo território de ação é sua terra natal, Xangai. Sua primeira aventura apareceu em Death of a Red Heroine (2000). Ambos autores presenteiam seus leitores com impressões da vida cotidiana e da cultura local.  Agora podemos adicionar a esta lista as obras de Vaseem Khan, localizadas na Índia, em Bombaim (Mumbai).   A Inesperada Herança do Inspetor Chopra é o primeiro volume da série Baby Ganesh Agency, e o único título publicado no Brasil. Nele o policial indiano, que está se aposentando, e que dedicou toda vida profissional no combate ao crime, na mais populosa cidade da Índia, recebe, no mesmo dia de sua aposentadoria, um elefante bebê de herança.

 

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Este é um livro aconchegante. Cheio de charme e bom humor.  Ele nos lembra como é importante seguir os instintos ganhos depois de mais de trinta anos de profissão.  Como era previsível, o inspetor Chopra não tem tempo de se sentir nostálgico pelos anos a serviço da cidade. Apesar de se aposentar por motivos médicos, no mesmo dia em que deveria usufruir do tempo livre, sem horários, típico do benefício que lhe coube, descobre que a polícia não está fazendo qualquer esforço para resolver um crime e isso lhe parece estranho.  O instinto o alerta.  Há algo que não cai bem nessa história.  No entanto, este não é o único empecilho proibindo-o de gozar do descanso projetado. Há outro problema inesperado: cuidar do  filhote de elefante herdado de um tio e que lhe foi entregue em casa na primeira manhã do planejado descanso.  Contrastando com os agitados primeiros dias de reforma, há a figura calma da fiel esposa, Poppy, que raciocina de maneira deliciosa sobre soluções de problemas corriqueiros e que solidamente o mantém em cheque, mesmo depois de Chopra levar para dentro de casa, para nada menos do que a sala de estar do casal, a inusitada herança. Como numa boa e justa história tudo se explica no final e por causa do sucesso de seu desempenho, tanto no crime quanto na guarda do elefante, Inspetor Chopra abre a Agência de Detetives Baby Ganesh.

 

Vaseem-Khan-14.10.2017-2-e1510867988647-350x2jlzrbt007tg7l0ykqVaseem Khan

 

Estamos em julho.  Época de férias de inverno.  Nada melhor do que uma leitura leve, com chocolate quente nas mãos, manta no colo e uma boa poltrona.  Indicada para todas as idades.  Interessante e informativo.  Alarga horizontes. Em dois tempos Inspetor Chopra nos conquista.  E não precisamos de mais do que duas tardes, acompanhamos a vida deste detetive que ao transitar em sua cidade natal nos mostra os bairros e o complexo perfil de Bombaim.  Ao final, ficamos felizes de ver que provavelmente a Agência de Detetives Baby Ganesh será um sucesso e trará para nós  leitores mais aventuras com gosto indiano. É só esperar pelos próximos volumes.

 

 

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Resenha: “Jesus Cristo bebia cerveja” de Afonso Cruz

18 07 2018

 

 

Inês Dourado (Portugal, contemporânea) Monsaraz VI, 2013,acrílica sobre papel, 17 x 23 cmMonsaraz VI, 2013

Inês Dourado (Portugal, 1958)

Técnica mista (grafite, acrílico, canetas de acetado e crayons) s/papel, 17 x 23 cm

 

 

Jesus Cristo bebia cerveja é um título que chama atenção. Parece profano, desrespeitoso.  E, no entanto, esta provocação de Afonso Cruz, não se materializa.  Trata-se de obra moralizante, cujo desfecho me pareceu surpreendentemente antiquado, bastante incompatível com o mundo contemporâneo.

A trama se desenvolve em torno de Rosa, uma jovem de beleza rústica e sensual. Imaginei-a semelhante a Frida Kahlo, por causa do bigodinho, sobrancelhas espessas e vasta cabeleira. Rosa foi criada pela avó.  Os pais, cada qual à sua maneira, decidem tocar a vida separadamente e em estilo não condizente com a vida doméstica.  Ele morre, ela sai de cena. A criança fica com a avó.  Agora, Rosa é responsável pela anciã que já não consegue sobreviver sozinha.  Muito pobres, vivem do que plantam e do auxílio dos outros.  Um dia, Rosa descobre que a avó gostaria de visitar Jerusalém antes de morrer.  Este desejo parece impossível de ser concretizado, a não ser que mudassem Jerusalém para o centro do Alentejo. Como? Esta é apenas uma das inúmeras intrigas que seguimos  e não é, nem mesmo, a mais importante.  Porque a vida de Rosa, filha de uma mulher que sai do interior de Portugal e se prostitui em Lisboa, parece já estar, desde o início da leitura, condicionada.

 

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Esta obra se parece com uma igreja barroca-rococó, como as encontradas no século XVIII no Brasil.  A localização da história no Alentejo, árido, ensolarado, de casas caiadas e ruas vazias nos dá a impressão externa de simplicidade como acontece com qualquer templo barroco tardio e engana quem se detém em sua observação, pois esconde a rica  complexidade de seu interior. E é esse interior,  a narrativa de uma história simples entremeada por numerosos personagens esdrúxulos — como a inglesa que mantém intelectuais de duvidoso saber a seu redor;  assim como as intermináveis discussões entre eles sobre assuntos esotéricos — que ocupam o espaço, e por excesso borram a linha narrativa, confundindo o leitor com mais informação do que necessário, entulhando seu percurso até o final. Prestar atenção a esses personagens é seguir arabescos narrativos e chegar a becos sem saída que intrigam, não pela imaginação do autor em descrevê-los, mas porque conspiram para que a leitura de um texto de 240 páginas na versão brasileira, consiga ser cheia de caminhos tortos e curvas perigosas,  continuamente desnecessários.

Este foi o primeiro livro que li de Afonso Cruz, que ocupa, pelo aplauso e louvor recebidos por suas obras anteriores, lugar de importância na literatura lusitana da atualidade. Foi uma leitura que me surpreendeu  pelo estilo rebuscado.  No início, suas figuras de linguagem, antíteses, metáforas, paradoxos, hipérboles parecem charmosas.  Encantam.  O virar da frase, a torção inesperada de um significado, a troca do significado pelo significante chamam a atenção.  Configuram maneira diferente, poética, de registrar acontecimentos.  Mas terminado o primeiro terço da obra, elas se tornam um maneirismo, um impulsivo exagero cansativo e irritante.  Pareceu-me um caderno de exercícios em estilo, em que os adornos ao texto tornam a narrativa rebuscada, barroca e indisciplinada. “A inglesa tem uma grande ruga a riscar-lhe a testa, olhos desaparecidos pela vida, lábios cheios de palavras por dizer.” [57].  [Quantas figuras de linguagem cabem numa frase de vinte palavras? ] “A noite começa seu trabalho de escuridão, vai iluminando o dia com suas trevas.” [113] Ocasionalmente este tipo de linguagem é muito bem vindo.  Sim, o autor está trabalhando a nossa língua, está exercitando sua potencialidade.  Mas precisa mostrar toda destreza que possui ao navegar o idioma, continuamente?  Em uma única obra?

 

Afonso Cruz 075Afonso Cruz

 

Não conheço o trabalho anterior de Afonso Cruz.  Amigos recomendaram a leitura por serem fervorosos adeptos da obra do autor.  A seu favor: houve interesse suficiente para que eu levasse a leitura até o fim.  Por Jesus Cristo bebia cerveja, e exclusivamente por esta livro, Afonso Cruz me parece ansioso por compartilhar com leitores as incríveis ideias que lhe vêm à cabeça, tanto na linguagem quanto na volumosa população de personagens extravagantes, sem edição.  A exuberância narrativa, a imaginação prolixa contrastam com a trama simples e previsível. Sem dúvida uma obra que trabalha a discordância entre a singelez da trama e a ostentosa linguagem.

 

 

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Resenha: “O ano da lebre” de Arto Paasilinna

15 07 2018

 

 

Simon Taylor, O velho e o coelho,

Dança do velho e  coelho, 2016

Simon Taylor (GB, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 40 x 40 cm

Artmajeur.com

 

 

Libertar-se do marasmo da rotina diária, do cotidiano  sem sentido, é o desejo silencioso de Kaarlo Vatanen, um jornalista finlandês que protagoniza o livro de Arto Paasilina, O ano da lebre, traduzido por Lilia e Paso Loman.  O livro é composto pelas aventuras — uma por capítulo — da vida de Vatanen que, em um dia de frustração depois de um acidente rodoviário em que atropela uma lebre, toma-a sob seus cuidados, abraça-a e a mantém saudável e aquecida.  Neste momento de distúrbio,  pode-se dizer de imprudência, declara independência da vida que tem em Helsinque e decide não retornar ao lugar onde mora.  Abandona o emprego no jornal e deixa para trás a esposa com quem estava em conflito. Num piscar de olhos, Kaarlo Vatanen passa de profissional a andarilho, sem destino, errando pelas aldeias e bosques do interior da Finlândia.  A lebre é sua companheira de aventuras.

Começa então a série de escapadas, molecagens, estripulias em que ambos se metem e que dão a Vanaten a oportunidade de agir como veterinário, pescador, boiadeiro, bombeiro, caçador de ursos. O destino é incerto,  requer audácia e empreendedorismo para sobrevivência. Vivem de pequenos trabalhos, de bicos nos vilarejos e audaciosas decisões de sobrevivência nos bosques e florestas. Algumas situações são engraçadas, trazem um sorriso ao leitor, outras aventuras não se resolvem de bom grado. Uma vez, os dois ciganos são postos na prisão quando um médico reclama da invasão de seu terreno; outra, um reverente pastor de uma igreja mais radical decide sacrificar a lebre em seu ritual religioso.  Este formato de aventuras em sequência é clássico na literatura mundial e, neste caso, imprevistos extraordinários trazem à lembrança As aventuras do Barão de Münchausen ou Alice no País das Maravilhas, obras que se assemelham a esta por utilizarem sistemas de lógica próprios, impenetráveis.

 

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O ano da lebre é uma obra simbólica. Vanaten procura se livrar de todos os grilhões da vida citadina, com horários e responsabilidades a terceiros, correntes que o prendiam, que o deixavam deprimido e sem poder de decisão sobre sua própria vida.  É curioso que tenha sido a lebre o animal que lhe ajuda a deixar para trás mundo urbano e procurar sua própria essência.  Desde a antiguidade o coelho ou a lebre foram símbolo de renascimento, de ressurreição. Símbolo mais tarde adotado para a Páscoa.  Não é gratuita a associação de lebres e coelhos com essa data cristã que comemora a ressurreição de Cristo. Aqui, Vanaten consegue a liberdade a partir do momento em que abraça a lebre ferida e dela cuida até que se recupere.  Ambos, de fato, estão num processo de renascimento, de cura.  Não sei se este é um dos motivos desta obra ser considerada um clássico da literatura finlandesa.  Publicado em 1975 teve imediatamente grande sucesso que extrapolou as fronteiras do país e se tornou leitura popular não só na França como em grande parte dos países europeus. Mas o grito de liberdade dos limites impostos por uma civilização urbana também encontra eco num grande número de obras clássicas. Há na própria literatura escandinava obra de grande sucesso do norueguês Erlend Loe, Doppler, (2004) que advoga semelhante aventura,  o protagonista, que dá o nome ao livro, abandona a vida em Oslo, emprego, mulher e filho e se embrenha numa série de aventuras enquanto se liberta da civilização.  Que ambas as obras usem de humor para a narrativa é mais um ponto em comum.

 

getimage5246-arto-paasilinna.300x300Arto Paasilinna

 

Humor é cultural. Ainda que no presente estejamos conectados 24 horas por dia com outras culturas, é possível vermos que o humor inglês, nervoso, característico de Fawty Towers, não se assemelha ao americano Seinfeld, nem ao mexicano Chaves ou ao brasileiro Chico Anysio. Podemos entender muitas das situações humorísticas em qualquer deles, mas nem sempre compreendemos na totalidade a razão da piada. Foi assim que me senti ao ler O ano da lebre.  Ainda que caracterizado por críticos como de grande senso de humor, esta não seria a mais importante característica para descrever o livro.  Um livro de aventuras, de contos fantásticos, quase surreal, seriam as maneiras mais óbvias para mim descrevendo a obra.  O humor, acredito que tenha se perdido na tradução. No entanto, foi uma leitura prazerosa, diferente, que me colocou pela primeira vez, que eu me lembre, em contato com um escritor finlandês. Recomendo aos curiosos e aos que desejam alargar os horizontes.

 

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