Os sinos de Mariana — Revista Kósmos, Maio 1907 — texto de Mário Behring

2 10 2011

Vista Parcial de Mariana – MG, 2010

Baptista Gariglio Filho (BH, Brasil, 1961)

óleo sobre tela,  70x90cm

http://www.gariglio.cjb.net/

Os sinos de Mariana

Mário Behring

No dia 30 de junho de 1743 grande era o movimento na Vila Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, hoje cidade arquiepiscopal de Mariana.

Após três meses de permanência, seguia o Bispo do Rio de Janeiro, D. Frei João da Cruz que viera em correição às Minas, para Camargos.

Várias providências haviam sido tomadas pelo prelado nesses três meses, a fim de regularizar a situação do clero na Vila, sendo uma delas a demissão do vigário da vara Padre Dr. Francisco Pinheiro da Fonseca que menos curava das almas do que dos seus negócios particulares, antes do temporal, que do espiritual, pecado que era aliás de todo o clero das Minas, interessado em quanta especulação surgisse para atrair o ouro que fartamente fluía  das catas riquíssimas.

Esse Padre, por isso que fazia vista grossa aos pecados dos seus paroquianos, era tido e havido na conta de um excelente homem, tendo uma grande roda de amigos aos quais agravou a decisão violenta do Bispo, resolvendo-se tirar dela uma vingança pública.

E com tal segredo a prepararam que nada transpirou por entre o povo.

A 20, pela manhã, pôs-se em marcha a comitiva do Bispo – No momento da partida porém, quando os sinos se preparavam para saudar  o seu pastor com os seus costumados cortejos e repiques (1) deram os sineiros pela falta de todos os badalos dos quatro sinos da matriz e do da capela de São Gonçalo.

Célere chegou ao Bispo a notícia do acontecido e voltando então outra vez para Mariana mandou tirar os badalos restantes das demais Igrejas, interditando os templos de toda a Freguesia.

O ouvidor da Vila Rica, Caetano Furtado de Mendonça (2) mandou logo que teve conhecimento do fato, tirar quatro devassas pelas autoridades eclesiásticas.  A primeira pelo próprio Bispo, a segunda pelo Vigário da vara, a terceira pelo Cônego Domingos Lopes e a quarta pelo Vigário de Antônio Dias, Padre Félix Simões.

Dessas devassas resultou para o juízo eclesiástico a convicção de culpa de várias pessoas importantes da Vila e assim, para que não escapassem à pronúncia, o Padre Domingos Lopes reuniu um grande corpo de clérigos armados de clavinas, pistolas e catanas pondo cerco à Vila para efetuar as prisões.

À frente de um troço armado o Padre Domingos Lopes, cuja casa servia de quartel general, invadiu as residências dos culpados, prendendo o Bacharel Manuel Ribeiro de Carvalho, advogado nos Auditórios da Vila, Domingos Pinto Coelho, José de Almeida Costa, o Licenciado em farmácia Manoel Peixoto de Sampaio e Manuel Pinto da Rocha, conseguindo outros fugir a coorte clerical e refugiar-se em lugar seguro.

Paisagem de Mariana, Minas Gerais, 1995

Carlos Bracher ( Brasil, 1940)

óleo sobre tela, 81 x 100 cm

Realizada a prisão desses acusados, mandou o Bispo carregá-los de ferros, metendo-os no tronco da cadeia, como se costuma fazer aos escravos, (3).

Enquanto isso se dava, na casa Juiz de Fora, José Pereira de Moura, aparecia uma carta anônima dizendo o local em que se achavam os badalos subtraídos.

Dirigindo-se com alguns oficiais de justiça a um córrego que atravessava o pasto da Vila, constatou o Juiz de Fora a presença dos badalos que foram logo restituídos à autoridade eclesiástica.

Resolveu o Bispo que fossem os presos transportados para o Rio de Janeiro e para isso organizou um corpo de 20 clérigos armados que deveriam vencer o ordenado de 200 oitavas de ouro cada um a custa da fazenda dos culpados.

A isso porém se opôs o ouvidor Furtado de Mendonça, dizendo que tendo os presos entreposto recurso de sua pronúncia para o juízo da Coroa, deviam permanecer na cadeia da Vila até final decisão.

Animados com as primeiras violências não se quiseram sujeitar os clérigos à decisão do Ouvidor , e combinaram um assalto à cadeia para arrancando à viva força os presos, seguirem para o Rio , conforme determinara o Prelado.

Ânimo resoluto e decidido não se acorbadou o Ouvidor: antes determinou imediatamente ao  Juiz de Fora que fizesse guardar a cadeia por oficiais de justiça bem armados e estabelecesse rondas na Vila, até que se acalmasse aquela paixão eclesiástica.

Não se conteve o Padre Domingos Lopes, generalíssimo dos Padres belicosos.

E tais censuras dirigiu ao Ouvidor que este em carta dirigida à Corte assim se expressava:

“Não sofre demora a satisfação do castigo porque se os juízes da Coroa de Vossa Majestade houverem de ser descompostos nos provimentos dos recursos por esses Padres desavergonhados e enfronhados nas suas ordens, que lhes parece de tudo são isentos nos seus desaforos, não haverá Juiz da Coroa, que com medo de sua venenosa língua e pena se atreva a valer com a proteção Real aos oprimidos vassalos de Vossa Majestade”…

Essa questão entre o Ouvidor de um lado e o Bispo e Vigário da vara de outro, agravou-se dentro em pouco por motivo de um conflito de jurisdição.

Morrera um clérigo que deixando alguns bens em um testamento secular, as justiças eclesiásticas fizeram o seqüestro nesses bens. 

Paisagem de Mariana, 1977

Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)

óleo sobre tela  69 x 90 cm

Interpuseram os herdeiros recurso para o Ouvidor que lhes dando razão decidiu em seu favor a causa. 

Não cumpriu porém a decisão o Vigário da vara e na réplica usando de expressões pelo ouvidor julgadas desrespeitosas, retorquiu, chamando-o atrevido e petulante; não se calou o vigário da vara redargüindo com outras e equivalentes injúrias o que lhe valeu ser autuado pelo Ouvidor e condenado a multa de 200 oitavas de ouro em proveito da Fazenda Real.

A intimação dessa sentença mandou-a fazer o Ouvidor pelo seu escrivão no palácio episcopal.

Seguiu ele a cumprir o mandado e passado algum tempo vieram dizer ao Ouvidor que o Bispo prenderá o escrivão em palácio. 

Encolerizado, reuniu Furtado de Mendonça os oficiais de justiça e marchou para a residência do bispo, onde chegado mandou, tendo-lhe previamente posto cerco, uma intimação ao prelado para que desse imediata liberdade ao funcionário da justiça sob pena de ir arrancá-lo à força.  

Com o cerco começou a juntar-se povo defronte do palácio, chovendo comentários como soe sempre acontecer nessas ocasiões. 

O Bispo, em resposta, mandou dizer ao Ouvidor que em sua casa só entrava quem ele permitisse; que o escrivão não estava constrangido: aguardava somente um outro escrivão eclesiástico para dar contra fé do seu mandado.  Com isso e saindo o escrivão, retirou-se o Ouvidor, endereçando o Bispo à Corte longa queixa, contra Furtado de Mendonça.

Informada favoravelmente pelo governador Gomes freire de Andrade, saiu triunfante o Bispo da questão, sendo removido o Ouvidor.

A questão do furto dos badalos foi cometida então ao Juiz de Fora que abriu nova devassa, verificando a inocência de alguns dos que o Bispo prendera anteriormente como culpados.

Provaram as indagações tratar-se de uma simples vingança do Padre Francisco da Costa de Oliveira, já falecido em 1745, quando se concluiu a devassa, que o Bispo não admitira a exames, talvez por ser íntimo do ex-vigário do Dr. Francisco Pinheiro da Fonseca.

Também concorrera para o furto o Padre Antônio Sarmento.

Contra Miguel Pinto da Rocha um dos anteriormente presos havia indícios de cumplicidade visto como antes do fato ele assoalhara que os sinos da cidade calar-se-iam no dia da partida do Bispo. 

Quanto ao boticário Manuel Peixoto de Sampaio, sabia-se ser amicíssimo do ex-vigário, “ser homem arrogante, insolente” tendo tido um atrito com o Bispo que o coagira a firmar um termo de deixar o concubinato em que publicamente vivia.

A cerca deste último era opinião do Juiz de Fora que embora sobre ele não recaíssem mais que vagos indícios, devia ser retirado das Minas e mandado para outra capitania…

E eis aí como terminou essa questão, vencendo em toda a linha o clero, fazendo recuar os representantes da Justiça d’ El Rei.

Partiu para o Rio vitorioso o Bispo D. Frei João da Cruz; passados anos demitiu-se do cargo e ao retirar-se para o Reino julgou ser conveniente ao serviço de Deus, carregar com todas as alfaias, ornamentos e prataria comprados com a renda do Bispado e ainda com o espólio do seu antecessor D. Frei Antônio de Guadalupe, ação por sem dúvida merecedora de que aqui a rememoremos, (4) arrancando-a a injusto olvido. 

Maio – 907

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(1) Consulta do Conselho Ultramarino de 16 de Abril de 1744.

(2) Cartas de 6 e 25 de Agosto de 1743.

(3) Carta do Ouvidor de Vila Rica, Caetano Furtado de Mendonça para a Corte.

(4) Carta do Cabido da Sé do Rio de Janeiro, 6 de Abril de 1751.

[Texto integral, em domínio público,  mas com grafia atualizada para facilitar a leitura.   As ilustrações não pertencem ao texto original, são obras posteriores ao texto, paisagens da cidade mineira onde esses fatos aconteceram.  Mantive as maiúsculas como no texto ainda que seu uso seja irregular.  Estão de acordo com o texto original.]

Em:  Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 5, Maio de 1907, Rio de Janeiro.





Tradições, Mário Pederneiras, texto integral, Revista Kósmos, 1907

8 03 2011
Carnaval na Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco no centro da cidade do Rio de Janeiro, 1907.  Sem autoria, em: Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro. [Apesar da autoria não estar registrada na revista, o leitor Felipe P. Rissato, ajudou na identiicação, a foto é de Augusto Malta].

Tradições

Mário Pederneiras

—  Vem daí, meu velho carioca impenitente, vamos dar a perna por esta linda Avenida, na súcia barulhenta dessa desafogada multidão que se diverte;  vem daí.

Ampara-te à suave elegância do meu braço feminino, junta-te à minha alegre companhia de mulher galante, e vamos apreciar o Carnaval nas Avenidas novas e nas novas Ruas largas.  Talvez, temas comprometedoras  apreciações à tua consideração de homem sério e  ponderado, talvez…  Mas, com todos os diabos, não estamos no Carnaval?  Na época da loucura clássica, do disfarce, do riso e da bela pândega?  Vem daí …  Demais, através do lindo disfarce deste pequeno “loup” de seda branca e desta provocadora fantasia guizalhante de “clowness”,  ninguém reconhecerá a incorrigível companheira das tuas antigas troças, nos teus áureos tempos de moço e folgazão.  Vem daí, que te vou mostrar coisas novas e civilizadas, nunca vistas por ti, nunca imaginadas por aqueles que, como tu, emperraram na ferrugem das Tradições e das Saudades incompreensíveis.

Daqui deste ponto extremo, junto do Mar, ao lado da tradição encantadora do teu lindo Passeio Público, sob a esquisita exclamação invertida deste obelisco, rola o teu olhar, eternamente saudoso, tristonhamente contemplativo, por toda a larga extensão de toda a linda Avenida e repara, repara bem, na delícia dessa perspectiva.

Que coisa linda já viste, que este povo em festa, feliz e despreocupado, percorrendo esta encantadora rua larga e iluminada?

O ar não sufoca; circula livre e fartamente de Mar a Mar, de extremo a extremo, e a multidão não se comprime, não se esmaga, não se fere, como nos detestáveis apertos da tua celebrada rua do Ouvidor, quente da luz asfixiante daqueles celebérrimos arcos de gás, embaciada da poeira imunda da rua e dos confetes.

Era assim, no teu tempo, o Carnaval?  Não, não era.  Tinha sempre a nota desagradável dos apertos, a tristeza lúgubre das iluminações incompletas e o incômodo detestável das ruas estreitas.

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Batalha de Confete na Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro, em 1907.  Foto sem autoria, em: Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro.

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Dos confins do Distrito, dos extremos pitorescos da Gávea, dos limites rurais de Inhaúma, todo uma festiva massa de povo, abalava para os suadores inevitáveis das nossas velhas ruas.

Lembras-te, meu velho carioca, da tristeza tormentosa desse espetáculo?  Era um povo inteiro que se martirizava, que se machucava, que se feria, que brigava para se divertir, apertado e sufocado entre as altas paredes rijas do nosso detestável casario.

E do meio da voz estrídula dos cornetins carnavalescos, dos falsetes dos mascarados, quantas e quantas vezes, partiam gritos de dor, guinchos nervosos de faniquitos femininos, trovões de vozerio paterno em ralho à troça garota dos mal educados…

E hoje?  Repara; é toda uma enorme Multidão festiva que se estende desafogadamente pelo vasto caminho da Avenida, que se espraia pelas ruas largas, sem apertos, sem incômodos, sem suor.

Tudo mudou, tudo.  Na rajada destruidora da nossa Civilização rápida, lá se foram os velhos hábitos do teu imundo Rio aldeão e primitivo.  Há roupas claras, cassas leves e transparentes, escondendo carnações alarmantes.  Os “Panamás” triunfam e os leves chapéus de palha ganharam, vitoriosamente, todo o terreno.

As manhãs não vestem mais a seda custosa dos grandes dias e os papás no comando supremo das legiões familiares, não têm mais a temer a insolência das vaias, o ataque agressivo às “jacas” e à integridade moral de sua venerável figura de funcionário.

Nem uma sobrecasaca, repara, nem uma cartola.  Ficaram ambas no descanso feliz das moradias, prontas apenas para as solenidades das missas fúnebres e dos enterros dos considerados e dos medalhões; e em breve, tu mesmo, hás de ver, sem espanto, sem mágoa, que esses dois elementos supremos da estética burguesa dos vestuários, passarão para o rol das coisas fantásticas, e, talvez, quem sabe, tu mesmo, à noite, no descanso caseiro, a acalentar teus filhos, hás de acrescentar às lendas encantadoras da família, as histórias espantosas de homens que andavam, em pleno Sol, sob o mais lindo Céu azul, “envoltos na tristeza venerável de uma sobrecasaca preta, cobertos pelo cilindro lustroso de uma cartola espelhante”.  E os teus pequenos hão de arregalar os olhos, trêmulos de medo, e de espanto, diante daquele horror, e daquele… tormento.

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E como tudo muda, meu velho carioca, também mudou o Carnaval e a própria alegria de hoje, nestes três dias loucos, é mais franca, mais sonora, mais sadia.

Bem sei.  Não temos hoje o luzimento fantástico daqueles préstitos custosos das nossas Sociedades carnavalescas.  Não temos, bem sei; mas temos a alegria no Povo e o bom humor de toda uma População desafogada e feliz.  Sentes a falta daquele luxo oriental, daquele desperdício fabuloso de lantejoulas e fogos de bengala, daquela luxuriosa exposição de Carne, da luxúria tentadora dos “maillots”, das largas pinceladas de bistre daquelas olheiras profundas, e da profusa orgia dos carmins.   Tens razão, tens razão.  O Carnaval mudou, mas tu ganhaste, na comodidade, no bom calçamento e na boa iluminação.  Aqui estamos, a palestrar, vai para uma hora, comodamente, sem encontrões e sem apertos, sem suor e sem rolos.  Pois, não é tão bom?  No íntimo, na intimidade do teu velho sentimento, das tuas recordações arcaicas, eu percebo, meu velho, a tua grande e imorredoura das apoteoses frenéticas de aplausos, com que tu, e os teus camaradas d’antanho, saudavam os “Democráticos”, os “Fenianos”, os “Tenentes”, a “Peruana”, a “Phrynéa”, afogados num delírio de um entusiasmo vermelho, bufando de calor e pó, grupados, apertadamente, às portas estreitas do “Castelões” e do “Londres”, ou às esquinas tortuosas de Gonçalves Dias e Uruguaiana.

Deves também sentir a falta incompreensível do teu saudoso Zé Pereira, atordoando os ares com aquele incansável  zabumbar alegre e forte.  O Zé Pereira era a sinfonia do Carnaval.  Punha formigueiros às pernas trêfegas dos cariocas, remexia-lhes o corpo em desengonço e bamboleios e acendia-lhes no olhar a chama rubra do prazer.

Meses antes, tu já o ouvias, a maior parte das vezes, pelos morros em passeatas de ensaio, e o rufo miúdo daquelas caixas, o bater compassado e seco daqueles bombos, era o sinal da alegria que vinha, da loucura que se aproximava, da florescência vermelha das festas clássicas de Momo.

Hoje, tens a te consolar a infindável série dos nossos melancólicos  “cordões”, de todas as cores, de todos os nomes.

Sim.  Deves achá-los tristes, com a eterna melopéia da suas toadas, a primitividade das suas danças, a Musa desengonçada dos seus Versos e a incompreensível fantasia dos seus vestuários.

Pois, meu caro, são os dominadores do Carnaval e o torneio dos Poetas.

Contenta-te com a alegria do Povo, que é mais franca, mais sadia do que nos teus chorados tempos que lá vão.

Vês?  Há máscaras pelas ruas, tétricos e aborrecidos, como se estivessem a cumprir a mais solene das obrigações.  Mas isso sempre foi assim; o máscara avulso foi sempre em todos os tempos, a expressão mais exata da insipidez e do desalento.

Bem sei, que a figura rubra dos travessos “diabinhos” antigos, tinha mais graça, mais vida, do que a palhaçada grotesca desses “clowns” de agora, repisando pilhérias de circo de lona.

E os teus “velhos”, os mestres inigualáveis da agilidade das letras, com seus “carões” enormes fantasticamente enrugados e feios, o luxo das suas vestes de veludo e lantejoulas e o seu longo bastão de papel dourado?

E o “pai João”, imundamente ridículo, pintado a piche, falando no arreveso da linguagem africana, agarrado à vassoura tradicional.

São tipos que passaram para o domínio da Tradição, para o esbatimento saudoso das boas recordações.

Em compensação, tu hoje tens…, tu tens… tens o… tens a Avenida, o fon-fon dos automóveis, a luz elétrica, o bom calçamento, as ruas largas, enfim, todo este suntuoso Carnaval que estamos apreciando.

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Vem daí.  Faz-se tarde e ambos devemos estar cansados .  Vem daí, que por hoje já nos divertimos regaladamente e eu, com franqueza, sinto-me cheia de Sono e de insipidez.

E aflautando a voz, a linda companheira de troças e loucuras do meu tempo de moço e folgazão, perguntou, num falsete desembidamente carnavalesco e cansado:  “Você me conhece?  Eu sou a Folia”.

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A Cidade começava a repousar, exausta das loucuras do dia.

De longe, por aquela hora calada de noite alta, vinha o rumor sonolento e sentimental do reco-reco de um “cordão” em retardo.

— Que coisa lúgubre!  — E abalei para casa.

2 – 907

[Texto integral, mas com grafia atualizada para facilitar a leitura.  A ilustração inicial, seguia o texto de Mário Pederneiras sem, no entanto,  estar ligada ao texto.  Foto em preto branco, sem autoria.  As outras fotos são do mesmo número da Revista Kósmos, mas pertencem a outros ensaios fotográficos, que tampouco aludem a um fotógrafo O espaçamento irregular dos parágrafos está de acordo com o texto original.]

Em:  Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro.

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Mário Veloso Paranhos Pederneiras (Rio de Janeiro, 1867 — Rio de Janeiro, 1915), conhecido com Mário Pederneiras, escritor, ensaista, poeta e teatrólogo.  Sua obra sempre chegada às situações da vida diária, o colocam próximo dos cronistas de época, ainda que seu verso tenha proximidade do simbolismo.  Estreou na imprensa por volta de 1878, como colaborador  do jornal (estudantil)  O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro.  Foi fundador, com Gonzaga Duque e Lima Campos, diretor e redator das revistas:  Rio Revista, Galáxia, Mercúrio e Fon-Fon.

Obras:

Agonias, poesia, 1900

Rondas noturnas, 1901

Histórias do meu Casal, 1906

Ao léu do sonho e à mercê da vida, 1912

Outono, 1914 (póstuma)





Cenas e vistas de Goiás, por Henrique Silva, Revista KOSMOS, Outubro 1907

18 06 2010
Uma boiada vinda do norte.

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Cenas e vistas de Goiás

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                                                                  Henrique Silva

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Nota:

Transcrevo abaixo o artigo sobre Goiás, colocando a grafia como usamos hoje em dia.  As fotos são algumas das fotos que ilustram o artigo original.  No entanto, não consegui digitalizar todas elas sem que algumas perdessem a qualidade.  Assim mesmo, as que coloquei aqui ainda estão com um tom azulado que não existe na impressão preto e branca das fotos originais. Não há indicação do fotógrafo.  É possível que sejam do próprio autor do texto.  Artigo na íntegra.

Goiás é um estado singular, à parte , no convívio nacional.  Susulado [sic] na gema deserta do Brasil, sem alento e sem vigor, tão distante da orla marítima onde mais intensivamente a vida ativa do país vibra e se agita, tal como a seiva estuante que circula na periferia dessas grandes árvores da floresta — outra,  certo, não poderia ser a sua situação no concerto da nossa nacionalidade.

Boiada passando o Rio Vermelho, Goiás.

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Sem um palmo de via férrea, não possuindo ao menos uma lancha a vapor a sulcar sequer um só de seus grandes e muitos rios navegáveis — o futuroso estado apenas dispões, ainda em nossos dias, como meios de transporte, desses pesados e patriarcais carros de bois — sobrevivências da metrópole, e que uma das nossas gravuras reproduz no flagrante de seu rodar pela fita intermina das estradas salineiras em fora…

” Os carros puxados a bois, diz Bernardo Guimarães, com seu eixo móvel, pesados e vagarosos, são por certo grosseiros  veículos, que bem denunciam o atraso dos meios de condução no interior do nosso país.  Mas talvez por isso mesmo que revelam a infância da indústria da viação, têm um não sei que de primitivo e poético, que enleva a imaginação. 

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Eu  nunca pude ver sem um singular e indizível sentimento de melancolia, essas grandes e pesadas máquinas cobertas de couro, arrastadas por vinte ou mais bois, quebrando com seu chiar agudo e monótono como o canto da cigarra, o silêncio das solidões, atravessando os desertos em lentas e peníveis jornadas”.

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Rio do Peixe, Norte de Goiás.

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Outra fotogravura nossa representa uma boiada no momento mesmo em que a forçam a se precipitar a nado através de um desses largos rios que tanto dificultam a marcha do gado vacum procedente dos sertões interiores com destino aos centros consumidores de Minas, S. Paulo e Rio.

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Vem dos confins de Goiás e vai ainda fazer um penoso e fatigante percurso de mais de duzentas léguas, nossa boiada, composta, quase toda de Curraleiros — essa raça por excelência, de bovídeos genuinamente nacionais.

Já fora dos incomparáveis campos nativos de Goiás onde se criaram e viviam nativos de Goiás onde se criaram e viviam acarenciados — vêm todos nostálgicos dos barreiros que as virentes palmas dos coqueiros da mata encombram, (vide gravura)

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A Carioca — banho público em Goiás.
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A glória: reminiscências de um dia de Natal, José Veríssimo, texto integral, Revista Kósmos, 1907

16 12 2009

Festa, 1934

Emygdio de Souza ( Brasil, 1867-1949)

óleo sobre tela,  26 x 36 cm

Coleção Particular

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A GLÓRIA:
reminiscências de um dia de Natal

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—                                                                       José Veríssimo

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Era muito mais de meio dia quando alcançamos o sítio do Cuitêua, primeira parada em nossa excursão sertaneja.  O caminho que desde a margem do grande rio ali nos levara era um comprido riacho, estreito e profundo, ensombrado na sua máxima extensão por dois renques marginais de basto arvoredo.  O sol lhe chagava escassamente e a trechos; e a constante sombra do seu percurso refrescada pela viração, que a ramaria das árvores alentava e mantinha, tornava a viagem menos penosa, muito mais agradável até, do que se imaginaria naquelas paragens equatoriais.

E, demais pitoresca, pelos risonhos quadros formados ali por aquela mistura de luz e sombra.

A mata ribeirinha, composta de mil espécies várias,  muitas então floridas, adornada de cipós e parasitas das formas mais esquisitas e singulares, apresentava uma sucessão de paisagens, de quadros, de manchas, como lhes chamam os pintores, a que as águas escuras do riacho, sobre as quais não raro boiavam nínfeas e caladios, ajuntavam o encanto delicioso das marinhas.  Nem o mundo animal, mais escasso do que geralmente se pensa nessas regiões, faltava naquele seu pitoresco trecho.  Aves aquáticas, ora isoladas, ora em bandos, animavam de vez em quando a paisagem, pondo-lhe com a sua voz ou o seu vôo, uma nota viva que não conseguia entretanto destruir ou sequer atenuar sensivelmente, o tom de melancolia que resulta sempre da combinação da mata e da água no interior do Brasil.

Eu sentia a impressão dessa melancolia, que me rodeava, posso dizer que me apertava, sentado no tosco e duro banco de pau da pequena canoa que nos levava, apenas com escasso palmo de borda fora da água, de superfície tão lisa quanto um espelho.  Inconscientemente, tão inconscientemente como poderia respirar os miasmas malsãos que daquelas terras apauladas  se exalassem , eu recebia do ambiente tristonho uma inexprimível sensação de desalento, melancolia e saudade.  Saudade de quê?   Não o saberia dizer, nem haveria de que.  Aquela excursão era uma simples digressão de recreio, um passeio desacompanhado  de qualquer preocupação anterior, e a que não parecia qualquer preocupação ulterior devesse seguir.  Quando depois procurei analisar o meu estado d’alma, achei que unicamente resultava da influência indefinível das coisas.  A natureza é de si triste e contristadora.

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A caçada da anta, 1880

Franz Keller, (Alemanha, 1835-1890)

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A vista do “sítio” tirou-me deste estado.  Não que nele houvesse sequer a brancura de uma parede, alegrando os tons escuros da paisagem.  Era uma casa toda de palha, escurecida pelas intempéries.  Mas no topo da ribanceira a que estava sobreposta havia uma multidão animada; Homens, mulheres e crianças.  Suas roupas variegadas, na maior parte claras e vistosas, roupas de festa, que era o Natal, e o seu movimento e o burburinho bastavam para alegrar a vista, variando-a.

Saltei em terra e subi com os meus companheiros, ali novatos mas não estrangeiros, o ligeiro declive que levava à explanada onde ficava a casa, melhor diria a choupana, em cujo terreiro se aglomerava aquela gente.  Não foi propriamente cordial e benévolo, antes reservado se não antipático o seu acolhimento.  O matuto, instintivamente não gosta do homem da cidade, desconfia dele, desama-o .  Tem-no por seu inimigo natural; é de repulsão ou de indiferença pouco simpática, a primeira impressão dele.

O dono do sítio, que me esperava, e os seus, que já me conheciam, saindo a receber-me, com demonstrações muito comedidas ainda de satisfação, consolaram-me do desagrado que vi, ou pareceu-me ver nas fisionomias curiosas, indiferentes ou displicentes que me encaravam. 

Ali se não usam apresentações; as supre o recebimento dos donos da casa, e com pouco me achei conhecido dos presentes, embora essas primeiras relações tivessem ainda um caráter de desconfiança e reserva.

Ia-me esquecendo de dizer que eu desembarcara com a minha espingarda na mão, um fuzil de retrocarga, arma moderna e nova em folha.  Os caçadores, que forçosamente por ali haveria, imaginaram em mim um companheiro, um êmulo.  Mas como acoca a caça é mais um divertimento que uma indústria, e não cria ainda rivalidades interesseiras, e outras competências que as da perícia e habilidade, vieram eles a mim atraídos pela comunhão dos mesmos gostos, que naturalmente me supuseram, e pela curiosidade da arma que se lhes autolhava diferente das suas.  A espingarda interessou-os.  Nenhum deles tinha ainda visto igual e as explicações que condescendente lhes dei do seu funcionamento e eficácia, do mesmo passo que os maravilhava conquistava-me a sua benevolência.

Se eles soubessem quão ruim atirador eu era!  E tanta consciência tinha disto, que prevendo a necessidade de dar-lhes uma prova de mim como caçador, pois o pretexto da minha ida ali era a caça, antecipei-me em assegurar-lhes, que apesar da minha excelente arma eu atirava muito mal.  Senti que a confissão lhes não era desagradável.  A minha inferioridade de “cidadão” lisonjeava a sua vaidade de matutos.

Estávamos nesta palestra, uns sentados em bancos toscos, ou em troncos d’árvores, outros acocorados, os mais em pé, à sombra de uma copada árvore erguida à beira da ribanceira, sobre o riacho, quando uma rapariga – uma linda moça de uns dezessete anos, mameluca trigueira e rosada, de fisionomia risonha e aberta,   chegou a nós entre alvoroçada e tímida e interpelando-me diretamente, chamou-me:

— Moço, venha matar um jacaré!…

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Jovem caçador, s/d

Henrique Bernardelli, (Valparaíso, Chile 1858 – Rio de Janeiro RJ 1936)

óleo sobre tela,   34 x 18 cm

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Matar um jacaré!  Correu-me um frio pela espinha.  Não que eu fosse de minha natureza vaidoso, ou tivesse em grau algum a presunção de atirador.  Mas os nossos defeitos, como as nossas qualidades, dependem de uma influência estranha; são muitas vezes os outros que no-los impõem.  Tive um vago e indefinível sentimento de que ali eu era um representante da civilização, que aqueles matutos menoscabavam, e que teriam grande gáudio em ver desmoralizada em mim.  Não bastava inventar armas como aquela da qual eu acabava de contar maravilhas, era preciso, era o principal, saber manejá-las.  Qualquer daqueles broncos sertanejos, com o arco e flecha de seus avós selvagens com a sua grosseira arma antiquada de carregar pela boca, a sua bruta lazarina, o seu ridículo pica-pau, ou o seu velho e anacrônico fuzil de pederneira, era muito mais capaz do que eu, com a minha inteligência, a minha instrução, e a minha espingarda aperfeiçoada, de matar um jacaré.    Porque matar semelhante bicho é um dos tiros mais difíceis e mais reputados.  Ele só é vulnerável nos ouvidos quase invisíveis, mesmo a pequena distância,  ou nos olhos que, quando n’água, apenas emergem como duas meias esferas de poucos milímetros de diâmetro fora dela.  Realmente para experimentar um sujeito da cidade, todo de paletó e gravata, chapéu inglês de cortiça e linho na cabeça, à guisa de capacete, coisa jamais ali vista e escandalosa, e uma bela espingarda nova de retrocarga, não se podia achar melhor do que pô-lo  na obrigação de matar um jacaré, sabe Deus em que condições.  

Moço, venha, venha matar o bicho… repetiu a linda rapariga arregaçando num sorriso irônico, —  tal me pareceu ao menos – os lábios sensuais e mostrando duas admiráveis fieiras de dentes brancos e úmidos.

E todos a uma, a começar pelos donos da casa, convidavam-me, concitavam-me, pediam-me, com maldosa insistência,  fosse matar o jacaré.  Confuso, enleado, canhestro, eu me esquivava; era mau atirador e o tiro dificílimo; errava e o jacaré se iria embora; que outro o matasse.  Mas não houve convencê-los e livrar-me da prova, em que sentia arriscava o prestígio da civilização, cujo era eu ali o único representante.  Ateimaram, já com malícia, prelibando o gosto de se rirem do “moço da cidade” e de afirmarem a sua superioridade de matutos.  E quase puxado me levaram para alguns metros dali, à beira da mesma ribanceira, donde vinte dedos acompanhando o da bela mameluca, que interessadíssima na morte do anfíbio, continuava a rir com seu afiado riso escarninho, apontavam embaixo, nas águas escuras do rio, quase encostado à margem, a enorme cabeça de um jacaré.  O ruído feito em cima fizera-o mergulhar um pouco mais, e agora só lhe divisavam a ponta do focinho e, a distância de mais de um palmo, as metades de duas esferas negras, que eram seus olhos, esbugalhados.

Senti passar em mim um sopro divino que nos momentos supremos faz os heróis e os mártires.  Levei a espingarda à cara e, quase sem apontar, tanta era a consciência de que apontar não me adiantaria, como que hipnotizado por aqueles grandes olhos parados, que pareciam olhar-me assombrados do meu arrojo, atirei.

Ilustração original do texto Glória, da revistas Kosmos, sem indicação de autor.

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Ouvi dois ruídos, um marulho surdo d’água, e umas gritadas interjeições de espanto e aplauso a meu lado.  Entre essas distingui bem junto ao meu ouvido a exclamação:

—  É macho!… seguida de uma gargalhada argentina, franca e simpática da linda mameluca, que a soltara.

Voltei a mim e verifiquei então que tinha matado o jacaré.  Ferido num dos olhos o grande anfíbio, num estremeção violento, causador daquele ruído, virara de papo para o ar e apresentava à superfície das águas, ainda revolvidas e barrentas do seu movimento brusco e forte, o largo peito amarelo, de grandes e córneas escamas rijas, a modo de placas de uma couraça antiga.

A morte fora instantânea.  Os matutos pasmados e corridos diziam-me em palavras amigas e convencidas a sua admiração.

Nunca mais atirei outro jacaré.  Também jamais senti tão forte em mim o gosto do sucesso, quase direi, a deliciosa comoção da glória.  E, ainda me lembra, às vezes, o sorriso afetuoso com que me olhava a linda mameluca depois da minha façanha.

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Em: Revista Kósmos: Dezembro 1907, ano IV, número 12, sem numeração de páginas.

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José Veríssimo Dias de Matos (Óbidos, PA, 1857 — Rio de Janeiro, RJ, 1916) foi um escritor, crítico, educador, jornalista, sociólogo, sócio do IHGB, sócio-fundador da ABL, diretor da Revista Brasileira, professor, diretor do Colégio Pedro II.  Como escritor, a sua obra é das mais notáveis, destacando-se os vários estudos sociológicos, históricos e econômicos sobre a Amazônia e as suas séries de história e crítica literárias. Na Introdução à sua História da literatura brasileira tem-se uma primeira revelação de todas as vicissitudes por que havia de passar uma literatura que se nutriu por muito tempo da tradição, do espírito e de fórmulas de outras literaturas, principalmente do que lhe vinha de Portugal e da França.  Usou também os pseudônimos: Cândido e José Verega.

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Obras:

Primeiras páginas, 1878

Emílio Litré, 1881

Carlos Gomes, 1882

Cenas da vida amazônica, ensaio social, 1886

Questão de limites, história, 1889

Estudos brasileiros, 2 séries, 1889-1904

Educação nacional, educação, 1890

A religião dos tupis-guaranis, 1891

A Amazônia, 1892

Domingos Soares Ferreira Penna, 1895

A pesca na Amazônia, história, 1895

Ginásio nacional, 1896

O século XIX, 1899

Pará e Amazonas, 1899

Estudos de literatura, 6 séries, 1901-1907

A instrução pública e a imprensa, educação, 1901  

Homens e coisas estrangeiras, 3 séries, 1902-1908

Que é literatura e outros escritos, 1907

Interesses da Amazônia, 1915

História da literatura brasileira, 1916

Letras e literatos (póstuma), 1936

Em domínio Público e  pronta para leitura na internet: História da literatura brasileira 





José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais — texto integral da Revista Kósmos, Outubro 1907

24 06 2009

minasgerais, mineraçãodoouro, eucalol

Mineração do ouro, Minas Gerais, Estampa Eucalol.

 

O artigo de ontem José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais – texto integral da Revista Kósmos, Nov. 1907, foi o que mais se ocupou com a descrição das minas de manganês que eu procurava.  Mas como em quase todas estas publicações antigas o artigo se dividiu em duas partes.  A que transcrevi ontem que foi a segunda parte.  E a que transcrevo hoje, a primeira parte, publicada no mês de Outubro d e1907.  

 

 

QUATRO DIAS EM MINAS GERAIS

 

 

O que distingue e exalta o jovem e já célebre historiador italiano Sr. Guilherme Ferrero é não ser ele um simples erudito, ou artista, ou literato apenas voltado para a ordem de estudos ou de lucubrações que imediatamente interessam a sua especialidade, se não um espírito curioso de todas as coisas, aberto a todas as impressões, interessado de quanto lhe possa fornecer noções, idéias, sensações à sua inteligência ávida de alargar cada vez mais a compreensão das coisas.  Desta sua feição espiritual deriva seguramente a vida que ele pôs na história romana, refazendo-a a seu modo, e intensamente vivificando-a para nosso gosto espiritual.  

Não lhe bastava, pois, ver nossa capital, já quase uma cidade européia, e que lhe podia dar uma idéia falsa do nosso país.  Era-lhe necessário a impressão direta deste no que ele ainda conserva de original e próprio, a surpreendê-lo em flagrante no seu trabalho de transformação.

Uma rápida excursão a Minas Gerais, de quatro dias, após digressão pouco mais longa pelo Estado de S. Paulo, forneceu-lhe ensejo de do Brasil, que rapidamente visitou, não conhecer apenas a capital.  As capitais, como as salas de visita, dão sempre uma idéia falsa das nações, ou das casas, aos que não passaram delas.  S. Paulo e Minas, duas das mais importantes porções do Brasil, e, não  obstante tão juntas, tão distintas uma da outra, de caracteres tão diversos, teriam oferecido a arguta observação do Sr. Ferrero, um historiador para quem a vida comum, cotidiana, é também história, mais de um precioso elemento de informações e de juízo.

Pelo seu afastamento do litoral, pelo isolamento maior do mundo em que a puseram as suas montanhas, pela maior vida local que dentro dela mesma estas, separando os seus diversos cantões, lhe afeiçoaram, Minas, mais conservadora, mas também mais chã, mais ingênua quiçá mais sincera que S. Paulo, tem com este este  ponto de semelhança, que são dois dos estados mais históricos do Brasil. Por menos que da nossa história saiba o eminente historiador italiano, não ignoraria isto.

Em Minas ele viu primeiro, como era natural e conveniente, minas, as de manganês de Lafayette as de ouro do Morro Velho, em Vila Nova de Lima.

Minas, dr Guilherme Ferrero-2

O historiador italiano, Guilherme Ferrero, Revista Kósmos, Out. 1907.  Fotografia sem notificação de autor.

 

Pela natureza do minério, e pelos aspectos da exploração, e do mesmo sítio  em que esta se faz, é talvez mais interessante a Mina do Morro Velho.

A despeito da ordem cronológica, principiamos, pois, por ela.

Fica esta mina de ouro, uma das mais antigas e mais célebres do Brasil, nas proximidades de Congonhas de Sabará, hoje Vila Nova de Lima, no município de São João d’El-Rey, donde vem à companhia inglesa que a explora o seu título de S. John d’El-Rey Mining Company. Por esta são regularmente exploradas as minas do Morro Velho desde 1834, com fases sucessivas de prosperidade ou menor resultado.  Hoje a exploração está em pleno desenvolvimento e, cremos, sucesso.  É feita já a mais de 1500 metros de profundidade numa rede de galerias bastante amplas, suficientemente arejadas, artificialmente iluminadas a luz elétrica numa extensão de alguns quilômetros.  Desce-se a elas por elevadores e nas últimas em grandes caçambas de ferro que se ainda deixam a desejar como comodidade parecem oferecer toda a segurança, o que é essencial.  Nas mais profundas dessas galerias, onde o ar começa a ser mais escasso, e a imaginação nos faz sofrer do peso de mais de mil metros de rocha sobre as nossas cabeças, cavam-se ainda novos poços, donde vimos sair, à meia luz daquelas cavernas, imperfeitamente iluminadas por parcos focos elétricos, como numa visão dantesca de Gustavo Doré, homens inteiramente nus, literalmente cobertos de lama negra dos poços em perfuração.  Mais adiante outros brocavam o granito com instrumentos movidos a ar comprimido, ou agachados sob as abóbadas mal abertas as iam levantando a golpes de picareta, no meio de um barulho infernal das possantes máquinas que ali nas entranhas da terra, distribuem luz, ar, força necessárias aquele duro labor de ciclopes.  Tudo isso numa temperatura de 38 a 39 graus centígrados, e sob a indizível impressão de que um acidente sempre possível, o surgir inopinado de um veio d’água, uma explosão de gazes, vos pode sepultar, em transes horríveis de um desespero sobrehumano, a quilômetro e meio de superfície do solo, sob milhões de metros cúbicos de granito.

 

Minas primeira seção da vista geral de Morro velho

Primeira seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kosmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

Em cima, sobre a mina, estendem-se os edifícios, as oficinas, as usinas da mineração após o trabalho da extração em baixo.  O seu material é de 120 pilões californianos, cujo socar põe em roda um estranho e constante ruído ensurdecedor.  Há ainda aparelhos para o minério e pessoal, bombas, perfuradores, compressores de ar, movido tudo a força hidráulica hidroelétrica e a vapor.  Nas galerias subterrâneas, o minério ou antes a pedra quebrada que o encerra é conduzido por vagonetes de ferro rodando sobre trilhos, puxados por muares, que uma vez descidos aquelas profundezas nunca mais vêem a luz do dia.  Nos seus primeiros 52 anos de existência, (ela tem 72) esta mina do Morro Velho produziu 58.314 quilogramas de ouro no valor de 5.125.000 libras esterlinas, e nos últimos cinco anos, de 1901 a 1905, 13.304.042 gramas no valor de 1.419.051 libras esterlinas.  E no entanto por cada tonelada de pedra extraída não dá senão 18.300 de minério de ouro.  Trabalham nela pouco mais de 2 mil operários,  na sua maioria nacionais.  Chefes, mestres e contra-mestres são todos ingleses.

Minas segunda seção da vista geral do Morro Velho

Segunda seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

A Companhia mantém não longe da confortabilíssima casa do Diretor, um hospital para os seus operários e suas famílias.  Otimamente colocado sobre uma colina, num edifício de um só pavimento todo avarandado, este hospital pode ser modelo no seu gênero, tal é a excelência da sua instalação e a abastança de seus recursos. Dirigem-no dois médicos ingleses.  Como a invejável e largamente hospitaleira residência do Diretor, o amável Sr. Chalmers, é esta casa de saúde, cercada de um parque e jardins admiravelmente cuidados, onde naquele momento havia uma luxuriosa profusão de flores, de soberbas rosas sobretudo. 

Da estação de Honório Bicalho a Morro Velho é uma hora a cavalo, que nós fizemos ao chouto incomodo de burros e bestas.  Salvo no vale do fundo do qual surge Vila Nova de Lima, antiga Congonhas do Campo o Morro Velho, este trecho do sertão não tem nenhuma beleza particular.   Mas vista dos altos que a rodeiam aquela aldeia tem um singular encanto, e o atravessá-la, pelas suas ruas estreitas, ladeirosas e empredadas de matacães roliços, marginadas de velhas e miseráveis casas baixas, feias, de vila colonial, vos trás não sei que sentimento de melancolia.  É o velho Brasil sertanejo, que ainda se demora em desaparecer mas que está evidentemente por pouco.

 

                                                                                  José Veríssimo

Minas, terceira seção da vista geral do morro velho

Terceira  seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.





O Aleijadinho, artigo da Revista Kósmos de 1904

1 06 2009

Aleijadinho-Anjo do Getsêmani, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos

Anjo do Getsêmani,

Antônio Francisco Lisboa, O Aleijadinho ( Brasil, 1730-1814)

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos  — Congonhas do Campo, MG

 

Transcrição do artigo de Gustavo Penna, para a Revista Kósmos,  Agosto de 1904, número 8. 

 

NOTA:  O artigo original não contém nenhuma ilustração. 

 

 

O Aleijadinho

        Se neste país, donde o patriotismo parece desertar, se erguesse um dia o panthéon destinado, destinado a glorificar na morte aqueles que em vida enobreceram a nossa terra, o cenotáfio  de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, iria ocupar neste templo augusto, um lugar de honra, igual ao de Miguel Ângelo no Panthéon de Itália, em Florença.

        O escultor mineiro, morto há noventa anos, tinha a misantropia ríspida de Beethoven, o temperamento assomado de Leonardo Da Vinci.  Poderia dizer-se que aquelas mãos deformadas e engrunhidas pela doença, tendo alguns dedos cortados  a golpes de formão em momento de desespero indômito, de dores crudelíssimas, haviam tomado aos poucos forma agressiva de garra de leão.

        “Era pardo escuro,”  relata Rodrigo Bretas,  no Correio Oficial de Minas, em 1858.  “Tinha a voz forte, a fala arrebatada, o gênio agastado; a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumosa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular, beiços grossos, orelhas grandes, o pescoço curto.

        Sabia ler e escrever e não consta que houvesse frequentado alguma outra aula  além da de primeiras letras, embora alguem julgue provavel que tenha frequentado a de latim.

        De 1777 começaram as moléstias a atacá-lo fortemente.  Pretendem uns que ele sofrera o mal epidêmico que, sob o nome de Zamparina, pouco antes havia grassado nessa província , e cujos resquícios, quando o doente não sucumbia, eram quase infalíveis deformidades e paralisias, que nele se havia complicado o humor gálico com o escorbútico.

        O certo é que Antônio Francisco perdeu todos os dedos dos pés, do que resultou não poder andar senão de joelhos; os das mãos atrofiaram-se e curvaram, e mesmo chegaram a cair, restando-lhe somente, e ainda quase sem movimento, os polegares e os índices. 

        As fortíssimas dores que de contínuo sofria nos dedos e a acrimônia de seu humor colérico o levaram por vezes ao excesso de cortá-los ele próprio, servindo-se do formão com que trabalhava!

        As pálpebras inflamaram-se e permanecendo neste estado, ofereciam à vista sua parte interior, perdeu quase todos os dentes, a boca entortou-se, como sucede frequentemente ao estuporado, o queixo e o lábio inferior abateram-se um pouco; assim o olhar do infeliz adquiriu uma expressão sinistra e de ferocidade, que chegava mesmo a assustar que, quer que o encarasse inopinadamente.

        Esta circunstância e a tortura da boca o tornavam de um aspecto asqueroso e medonho.

      

Aleijadinho, Profeta Oséias

Profeta Oséias

Antônio Francisco Lisboa, O Aleijadinho ( Brasil, 1730-1814)

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos  — Congonhas do Campo, MG

 

        Para o Aleijadinho, o louvor era tomado como ironia ou escárneo.  A fito de esquivar-se à vista de todos, ia de madrugada para o serviço, a cavalo, trajando um amplo capote com que ocultava o semblante, e somente regressava à casa depois de noite fechada.

        Ainda mesmo quando trabalhava no interior das igrejas, costumava ocultar-se dentro de um toldo.  Se algum curioso, — fosse obscuro popular, ou um genreal como D. Bernardo de Lorena, muito alto e poderoso governador, — ia vê-lo trabalhar, acompanhando por uns instantes o esculpir de uma estátua, que emergia lentamente de um bloco de pedra, o escopro do Aleijadinho, fazia esfarinhar violentamente tamanha chuva de lascas, que o importuno não se demorava, saraivado por aquela chuva de pedriscos e de pó.

        E foi na solidão e no mesto silêncio das sacristias dos nossos templos, profusamente recamadas de ouro como as igrejas do oriente, naquela atmosfera impregnada de misticismo, que o escultor mineiro fazia surgirem da pedra bruta as notáveis concepções do seu gênio, ora a estátua que seria de outro mérito se fosse talhada no mármore de Carrara, ora esses lavores finos, as folhagens, os rendilhados e as laçarias que se podem chamar a ourivesaria de granito.

        O Aleijadinho viveu numa época e num meio inteiramente hostil à arte, quando o governo português havia proibido o uso do cinzel, “para se não dilapidarem os quintos de Sua Majestade.”  Nenhum dos elementos de educãção artística, de desenvolvimento do gosto, de ilustração, vulgarizados depois pela imprensa, pela fotografia, pela gravura e pela modelagem existia.  Apenas algumas estampas de detestável impressão e de risível ingenuidade, intercaladas nos alfarrábios contando a vida e os milagres do santo.

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