São Paulo, poesia de Ribeiro Couto

24 06 2019

 

 

 

Durval Pereira,Lago Santa Cecília,60 x 80 cm,óleo sobre tela,1960Largo de Santa Cecília, 1960

Durval Pereira (Brasil, 1918- 1984)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

 

São Paulo

 

Ribeiro Couto

 

São Paulo da garoa intermitente,

Da penumbra que às vezes coadjuva

A nostalgia… — Quem, meu Deus, não sente

Um pouco desse ambiente… desta “Chuva”…

 

A chuva fina molha a paisagem lá fora,

O dia está cinzento e longo… um longo dia!

Tem-se a vaga impressão de que o dia demora…

E a chuva fina continua, fina e fria,

Continua a cair pela tarde, lá fora.

 

Da saleta fechada em que estamos os dois,

Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:

A chuva fina continua, fina e lenta…

E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta

Se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria…

Ah! para que falar? Como é suave, brando

O tormento de adivinhar — quem o faria?

As palavras que estão dentro de nós chorando…

 

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,

Estão lá fora no jardim se desfolhando,

Chove dentro de nós… Chove melancolia…

 

 

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 239-40.

 





Café, poesia de Ribeiro Couto

15 10 2016

 

cafe-uma-xicara-dePato Donald pede um café © Walt Disney
Café

Ribeiro Couto

Sabor de antigamente, sabor de família

Café que foi torrado em casa,

Que foi feito no fogão de casa com lenha do mato de casa.

Café para as visitas de cerimônia,

Café para as visitas de intimidade,

Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada, para toda gente.

Café para de manhã, para de tardinha, para de noite,

Café para todas as horas do riso ou da pena,

Café para as mãos leais e os corações abertos,

Café da franqueza inefável,

Riqueza de todos os lares pobres,

Na luz hospitaleira do Brasil.

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 50

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Prima Belinha, de Ribeiro Couto: retrato de um Brasil inocente

17 10 2011

Mulher com turbante, 1930

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1867-1939)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo

Este é um romance leve, encantador, que retrata um Brasil de surpreendente inocência.  Prima Belinha foi o primeiro romance de Ribeiro Couto, escrito “quase todo em 1926” —  como o autor explica na apresentação — mas só publicado em 1940, depois que o autor já havia se tornado membro da Academia Brasileira de Letras.

O romance segue a vida de um jovem mineiro que,  praticamente deixado à porta do altar por sua prima de quem se considerava noivo desde sempre, vem para o Rio de Janeiro.  Na capital do país ele encontra uma situação política diferente daquela a que estava acostumado em S. Antonio do Mutum, onde seu pai era chefe político.  Sem rumo, sem ambição definida, José Viegas, que não tinha aptidão para coisa alguma além do bem e quieto viver no interior do país,  não consegue, como esperava um bom emprego.  A influência política de seu pai, forte no interior, não tem a importância que ele ou o pai imaginavam.  Na falta de melhor oportunidade, Viegas permanece na capital.

A simplicidade do movimento político retratado reflete a inocência de José Viegas.  Recém-chegado à capital, o jovem, por vingança de amor, se envolve numa trama para derrubar o governo que desde o início o leitor desconfia não ter respaldo.  Fadada ao insucesso, a aventura do mineiro em terras cariocas lembra o despreparo político do cidadão comum, e a inocência da sociedade brasileira da década de 1920.

Ribeiro Couto

A deliciosa prosa do autor com um estilo leve, mas preciso, esconde habilmente qualquer crítica social.  Isso ele deixa ao leitor, que nos dias de hoje, acha difícil acreditar em um mundo tão inocente quanto o representado, quer em Minas quer no Rio de Janeiro.  Vamos e venhamos, fica difícil, nos dias de hoje, imaginar, um grupo de revolucionários encontrando-se nos fundos de uma padaria do subúrbio, aonde chegam através de prosaicas viagens de bonde.  Talvez, mesmo em 1926, quando o romance foi escrito, essa realidade parecesse propositadamente inocente.  Mas com os olhos da segunda década do século XXI ela parece imensamente anacrônica.  Seria surpreendente então dizer que Prima Belinha é uma boa leitura?  Não, não é surpresa.  A prosa de Ribeiro Couto encanta.

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Você encontra neste blog um poema de Ribeiro Couto:  INSÔNIA





Navio Pirata, poema para uso escolar, Ribeiro Couto

23 04 2009

pirateship

 

 

 

Navio Pirata

 

Ribeiro Couto

 

 

Navio pirata

Num mar confidente,

Levando ouro e prata;

Percorre caminhos

Sabidos somente

Dos gênios marinhos;

 

 

Pela madrugada

Uma luz cansada

Olha nas vigias;

E outra luz responde

Nas águas vazias

— Não se sabe onde.

 

 

 

 

 

 

 

Em: Poemas para a infância: antologia escolar, ed. Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Ediouro, s/d.

 

 

 

Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, foi um jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro.

 

Foi membro da Academia Brasileira de Letras desde 28 de março de 1934 (ocupando a vaga de Constâncio Alves na cadeira 26), até sua morte.

 

 

Obra

 

Poesia

 

O jardim das confidências (1921)

Poemetos de ternura e de melancolia (1924)

Um homem na multidão (1926)

Canções de amor (1930)

Noroeste e alguns poemas do Brasil (1932)

Noroeste e outros poemas do Brasil (1933)

Correspondência de família (1933)

Província (1934)

Cancioneiro de Dom Afonso (1939)

Cancioneiro do ausente (1943)

Dia longo (1944)

Arc en ciel (1949)

Mal du pays (1949)

Rive etrangère (1951)

Entre mar e rio (1952)

Jeux de L’apprenti Animalier. Dessins de L’auteur. (1955)

Le jour est long, choix de poèmes traduits par l’auter (1958)

Poesias reunidas (1960)

Longe (1961)

 

 

Prosa

 

A casa do gato cinzento, contos (1922)

O crime do estudante Batista, contos (1922)

A cidade do vício e da graça, crônicas (1924)

Baianinha e outras mulheres, contos (1927)

Cabocla, romance (1931);

Espírito de São Paulo, crônicas (1932)

Clube das esposas enganadas, contos (1933)

Presença de Santa Teresinha, ensaio (1934)

Chão de França, viagem (1935)

Conversa inocente, crônicas (1935)

Prima Belinha, romance (1940)

Largo da matriz e outras histórias, contos (1940)

Isaura (1944)

Uma noite de chuva e outros contos (1944)

Barro do município, crônicas (1956)

Dois retratos de Manuel Bandeira (1960)

Sentimento lusitano, ensaio (1961)





Insônia de Ribeiro Couto, poesia para uso escolar

7 03 2009

rufino-tamayo-mexico-1899-1991-cao-ao-luar-1972-litografia-the-mexican-masters-suite

Cão ao luar, 1972

Rufino Tamayo (México 1899-1991)

Litografia: The Mexican Master Suites


INSÔNIA

 

                              Ribeiro Couto

 

 

O latido dos cães, na noite sem lua,

dá-me pavores vagos.

Por que latem aqueles cães lá longe?

 

 

As árvores, ali fora, estão imóveis.

Nem um sopro de vento bole nas folhas.

E tudo tão negro, na noite sem lua!

 

 

Por que latem aqueles cães lá fora?

Quem terá passado na estrada?

 

 

Na minha lâmpada mariposas batem.

Deve ser tarde.

Os meus olhos errando pelo pasto.

 

 

Ouço o tilinte vigilante de um cincerro…

É um cavalo errando pelo pasto.

 

 

E lá longe os cães latindo, desesperados, como se batalhassem,

como se defendessem o lugarejo adormecido.

 

 

Noite de insônia inquieta ao pé da lâmpada.

 

 

Em: Poemas para a infância: antologia escolar, ed. Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Ediouro, s/d.

 

 

Vocabulário:

 

cincerro = campainha

de insônia = sem sono

 

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Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, foi um jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro.

 

Foi membro da Academia Brasileira de Letras desde 28 de março de 1934 (ocupando a vaga de Constâncio Alves na cadeira 26), até sua morte.

 

 

Obra

 

Poesia

 

O jardim das confidências (1921)

Poemetos de ternura e de melancolia (1924)

Um homem na multidão (1926)

Canções de amor (1930)

Noroeste e alguns poemas do Brasil (1932)

Noroeste e outros poemas do Brasil (1933)

Correspondência de família (1933)

Província (1934)

Cancioneiro de Dom Afonso (1939)

Cancioneiro do ausente (1943)

Dia longo (1944)

Arc en ciel (1949)

Mal du pays (1949)

Rive etrangère (1951)

Entre mar e rio (1952)

Jeux de L’apprenti Animalier. Dessins de L’auteur. (1955)

Le jour est long, choix de poèmes traduits par l’auter (1958)

Poesias reunidas (1960)

Longe (1961)

 

 

Prosa

 

A casa do gato cinzento, contos (1922)

O crime do estudante Batista, contos (1922)

A cidade do vício e da graça, crônicas (1924)

Baianinha e outras mulheres, contos (1927)

Cabocla, romance (1931);

Espírito de São Paulo, crônicas (1932)

Clube das esposas enganadas, contos (1933)

Presença de Santa Teresinha, ensaio (1934)

Chão de França, viagem (1935)

Conversa inocente, crônicas (1935)

Prima Belinha, romance (1940)

Largo da matriz e outras histórias, contos (1940)

Isaura (1944)

Uma noite de chuhva e outros contos (1944)

Barro do município, crônicas (1956)

Dois retratos de Manuel Bandeira (1960)

Sentimento lusitano, ensaio (1961)

 








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