Os mortos, poema de Ruy Espinheira Filho

2 11 2017

 

 

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Os mortos

 

Ruy Espinheira Filho

 

Há uma luz suave em que respiram.

Não mudaram nada e fingem não ver

como sou mais moço na fotografia.

 

Contam histórias, sempre, mesmo quando em silêncio

(e tanto quanto se contam, contam-me também de mim).

Não mais precisam beber, só se refletem no copo

 

que ergo e em que bebo, por eles e por mim,

trespassado ainda dos sonhos que compunham a alma

de que se iluminava o moço nas fotografias.

 

Em: Sob o céu de Samarcanda: poemas, Ruy Espinheira Filho, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil e Fundação da Biblioteca Nacional: 2009, página 152.

 

 





Trova do orvalho

19 10 2017

 

 

outono, folhas, brincadeira, menina

 

 

Pleno outono … e em meu atalho,

sem um amor que me acolha,

invejo a sorte do orvalho

que se abriga em qualquer folha.

 

(Edmar Japiassú Maia)





Trova do banqueiro

14 10 2017

 

bancoIlustração, ©Walt Disney

 

 

O trabalho do banqueiro

está no seu jogo impuro:

tem lucro com meu dinheiro

e ainda me cobra juro.

 

(Olympio Coutinho)





O último poema, Manuel Bandeira

4 09 2017

 

 

1927 Jane Rogers Interior SceneInterior, 1927

Jane Rogers (EUA, 1896 – ?)

óleo sobre tela

 

 

O último poema

 

Manuel Bandeira

 

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, p. 119

 





Cemitério, poesia infantil de José Paulo Paes

28 08 2017

 

 

james gilleard, cemitério de petsCemitério de pets, ilustração de James Gilleard para Walt Disney.

 

 

 

Cemitério

 

José Paulo Paes

 

“Aqui jaz um leão

chamado Augusto.

Deu um urro tão forte,

mas um urro tão forte,

que morreu de susto.

 

Aqui jaz uma pulga

chamada Cida

Desgostosa da vida,

tomou inseticida:

era uma pulga suiCida.

 

Aqui jaz um morcego

que morreu de amor

por outro morcego.

Desse amor arrenego:

amor cego, o de morcego!

 

 

Neste túmulo vazio

jaz um bicho sem nome.

Bicho mais impróprio!

Tinha tanta fome

que comeu-se a si próprio”.

 

 

Em: Poemas para brincar, José Paulo Paes, São Paulo, Ática: 1994.

 





Trova da esperança

26 08 2017

 

 

dcfc8c9da8e431861196f8b38f742d46--vintage-design-vintage-artIlustração anônima, década 1960

 

 

No porto dos meus anseios

esperanças são navios,

que de manhã partem cheios

e à tarde voltam vazios…

 

(Orlando Brito)

 





Arco-iris, poesia de Olegário Mariano

24 08 2017

 

 

IRACEMA OROSCO FREIRE - O.S.M - JARDIM COM PALMEIRAS . 26 X 39. Assinado no CID.

Jardim com palmeiras, s/d

Iracema Orosco Freire (Brasil, século XX)

óleo sobre madeira, 26 x 39 cm

 

 

Arco-iris

 

Olegário Mariano

 

Choveu tanto esta tarde

Que as árvores estão pingando de contentes.

As crianças pobres, em grande alarde,

Molham os pés nas poças reluzentes.

 

A alegria da luz ainda não veio toda.

Mas há raios de sol brincando nos rosais.

As crianças cantam fazendo roda,

Fazendo roda como tangarás:

 

“Chuva com sol!

Casa a raposa com o rouxinol.”

 

De repente, no céu desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,

O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira

A cauda em sete cores, de pavão.

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 277.








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