Motivo, poema de Cecília Meireles

17 10 2019

 

 

 

Aaron Shikler (EUA, 1922–2015)Mulher lendo (esposa do pintor), 1962, pastel sobre papelão, 50 x 44 cmMulher lendo (esposa do pintor), 1962

Aaron Shikler (EUA, 1922–2015)

pastel sobre papelão, 50 x 44 cm

 

Motivo

 

Cecília Meireles

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.

 

 

Em: Antologia Poética, Cecília Meireles,  Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira: 2001





Tempestades, poesia de Luís Pimentel

3 10 2019

 

 

Miranda - The tempest, by John William Waterhouse

Miranda, de  A Tempestade, 1916

John William Waterhouse (GB, 1849 – 1917)

óleo sobre tela, 100 x 137 cm

Coleção Particular

 

 

Tempestades

 

Luís Pimentel

 

P/ Ferreira Gullar

 

Nada restará depois das águas.

 

São assim as tempestades

que vêm quando menos se espera

ou quando mais se procura.

 

Nada sobrará desses barulhos

de raios, fogo e trovões aflitos,

corações aos gritos, a treva lá fora.

 

Nada restará deste silêncio,

além do pingo choroso na torneira.

 

Pouco a se fazer depois dos tombos:

desentupir os ralos, enterrar os mortos,

secar os panos e fechar as janelas.

 

Por fim seguir aos trancos e trancos,

até a queda do próximo barranco

— sem contornos, sem encostas.

 

Em: As miudezas da velha (e outros poemas miúdos), Luís Pimentel, Rio de Janeiro, Myrrha: 2003, 2ª edição, página 48.   [Prêmio Jorge de Lima de Poesia, da União Brasileira de Escritores]

 





Trova do violão

29 09 2019

 

Artist Song Postcard Kutzer, Ernst, Frau und Mann, Gitarre, Deutscher Schulverein, 1913Cartão postal da Alemanha, de Ernst Kuzer, 1913.

 

Para de amor cantar mágoas,

foi que se fez o violão,

que a gente aperta no peito,

e encosta no coração…

 

(Adelmar Tavares)

 





“Para cultivar pássaros”, poesia de Dirce de Assis Cavalcanti

26 09 2019

 

 

Sally FranklinIlustração de Sally Franklin.

 

 

Para cultivar pássaros

 

Dirce de Assis Cavalcanti

 

Para cultivar pássaros

e falar com as flores

subir à montanha,

capturá-la em seus abismos

com viril delicadeza

mergulhar na amplidão

de suas formas.

 

Um mergulho perigoso

de onde se sai aos pedaços.

 

Reunir os cacos

em melancólico mosaico

recompor a paisagem

do que se foi um dia

mesmo sabendo que inteiro

não se é nunca mais.





A palmeira, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

4 09 2019

 

 

 

ANYSIO DANTAS - Tropicana I , serigrafia tiragem 76-100, assinado no canto inferior direito e datado de 1985. 89 x66 cm.

Tropicana I, 1985

Anysio Dantas (Brasil, 1933 – 1990)

serigrafia tiragem 76-100, 89 x 66 cm

 

 

A palmeira

 

Walter Nieble de Freitas

 

Alta, esguia, majestosa,

De uma beleza sem par,

Contemplo a esbelta palmeiraaaaa

Banhada pelo luar.

 

A seus pés um lago azul,

Onde em calma ela se mira,

Põe na paisagem noturna

Cintilações de safira.

 

De longe, chega em surdina

A voz rouca das cascatas:

É a sinfonia dos rios

Soluçando serenatas.

 

Nessa hora em que a noite é um templo,

E o firmamento, um altar,

Sob os círios das estrelas

Em silêncio a vi rezar.

 

Na linguagem da saudade,

O coração da palmeira,

Pedia as bênçãos do céu

Para a terra brasileira.

 

 

Em: Barquinhos de Papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1961, pp. 61-62





Trova do silêncio

29 08 2019

 

 

 

 

Lithography - Henri Meunier - France - 1897

Litografia de Henri Meunier, 1897

 

 

Em momentos exaltados

sem poder falar e agir,

o silencio dá recados

que  poucos sabem ouvir.

 

(Alba Christina Campos Netto)





Trova da liberdade

18 08 2019

 

 

 

bird-cage-art-floral-birdcage-by-canvas-artworkAutoria desconhecida.

 

 

Por mais conforto e carinho

numa gaiola dourada,

a ave não esquece o ninho

e a liberdade ceifada.

 

(Severino Campelo)

 

 








%d blogueiros gostam disto: