Resenha: “Altos voos e quedas livres” de Julian Barnes

23 08 2017

 

 

 

 

Vue du pont de Sèvres, 1908 - Henri Rousseau.Vista da Ponte de Sèvres, 1908

Henri Rousseau [Le Douanier] (França, 1844 – 1910)

óleo sobre tela, 81 x 100 cm

Museu Pushkin, Moscou

 

 

 

Altos voos e quedas livres é um ensaio dividido em três partes. Aborda paixão, amor, perda, morte e luto — sentimentos universais.  Além disso,  dá raro vislumbre sobre a maneira do autor pensar, organizar assuntos e interesses. Até que nos surpreendemos porque de um material distinto, sem conexão aparente, sub-repticiamente entra no assunto principal da obra:  o luto pela  morte da mulher amada.  Inicialmente a narrativa não parece contínua. Stacatto.  Somos apresentados a fatos, a histórias sobre balonismo.  De balões passamos ao uso da fotografia no século XIX. Assuntos que parecem não ter nada em comum. Finalmente entramos na terceira e última parte, quando tudo díspar coalesce numa meditação sobre o luto, o processo do luto que o escritor atravessa depois da morte de sua esposa, companheira de vida inteira.

“Processo de luto. Parece um conceito claro e sólido. Mas é um termo fluido, escorregadio, metafórico. Às vezes passivo, um período de espera pelo desaparecimento do tempo e da dor.; às vezes ativo, uma atenção consciente à morte, e à perda, e à pessoa amada…”[113]

 

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Cada pessoa trata da perda de um ente querido à sua maneira. É uma emoção particular, vivenciada solitariamente,  impossível de ser comunicada ou dividida. No entanto, é universal,  poderosa, toma o corpo e a alma, os sentimentos do ser humano. Compreende-se sua complexidade quando a testemunhamos, como neste ensaio,  simultaneamente triste, quase sempre romântico, e desde o início provocativo.  Este é um texto que requer reflexão, no início, lá no nível sonhador, do éter e seus balões, até o nível da terra, lugar onde vivenciamos nossas dores.

Luto é um sentimento que todos entendem.  Faz parte da condição humana. A dor da morte de um ser amado é experiência que não se deseja a ninguém mas que vivenciada é devastadora. Há diversas obras literárias dedicadas ao assunto Enquanto agonizo de William Faulkner; O ano do pensamento mágico de Joan Didion são duas das de que me lembro agora.  Altos voos e quedas livres toma agora um lugar entre elas, estará entre as mais belas, mais sentidas, mais reveladoras no complexo caminho dos sentimentos do amante que sobrevive.

 

Julian-BarnesJulian Barnes

 

Lembrar de quão vulnerável é a vida humana é essencial.  Só assim podemos nos dedicar a realmente viver o momento.  Julian Barnes mostra o amor em todas as suas facetas e a falta que o ente querido faz para quem ama.  Não deixe de ler. Belíssima obra.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





No futuro… texto de William Boyd

31 05 2016

 

 

john a copley (EUA) seedling_jpgPlantando, 2007

John A. Copley (EUA,contemporâneo)

acrílica sobre tela, 20 x 25 cm

www.johnacopley.com

 

 

“Fui até o jardim e fumei um cigarro. Na semana passada, plantei uma árvore no último canteiro do jardim, em homenagem ao nosso bebê. A muda tem a minha altura e, pelo que vejo, pode atingir doze metros de altura. Então, daqui a trinta anos, se ainda estivermos vivos, vou poder voltar aqui e vê-la no esplendor de sua maturidade. Entretanto, a ideia me deprime: daqui a trinta anos estarei na casa dos sessenta e vejo que esses projetos, feitos de forma irrefletida, começam a se extinguir. Vamos supor um período de quarenta anos então. Seria demais. Cinquenta? Eu provavelmente não estarei mais aqui. Sessenta? Morto e enterrado, certamente. Graças a Deus não plantei um carvalho. Seria esse um bom exemplo de limite temporal? O momento em que você percebe — meio racionalmente, meio inconscientemente — que o mundo, num futuro não muito distante, não terá mais você: que as árvores que você plantou continuarão a crescer, mas você não estará aqui para testemunhar isso.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 217-18.





Uma forma de felicidade, texto de William Boyd

6 03 2016

 

johnsingersargent.John Singer Sargent On His Holidays 1902De férias, 1902

John Singer Sargent (EUA, 1856-1925)

óleo sobre tela, 137 x 244 cm

Lady Lever Art Gallery, Inglaterra

 

 

“Registro: um dia de intenso calor; amenizado por uma brisa constante. Subi a margem do riacho de água escura e fluente, na verdade, um afluente do Tweed, com caniço na mão procurando um lugar para ficar. À luz do sol, a sombra formada pelas árvores à beira do rio é escura como a boca de uma caverna. Encontro o local desejado, coloco minha garrafa de cerveja dentro de um pequeno redemoinho que se forma na superfície d’água. Pesquei por uma hora. Peguei três trutinhas, que devolvi ao rio. Comi pão e queijo, bebi cerveja estupidamente gelada e voltei para casa a pé, passando pelo interior até chegar a Kildonnan com o sol batendo nas minhas costas. Um dia de completa solidão, de tranquilidade e beleza perfeita às margens do rio. Uma forma de felicidade que preciso encontrar mais vezes.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 135





Casas tranquilas nos EUA, texto de Dalia Sofer

24 01 2016

 

 

Jessica Rohrer (EUA, 1974) 2014-Street-Center-12x19, ospRua Central, 2014

Jessica Rohrer (EUA, 1974)

óleo sobre placa, 30 x 48 cm

 

 

“Na sala de aula, durante uma projeção de slides de arquitetura, ele escreve uma carta para os pais. Na semi-escuridão do auditório de palestras ele escreve que tudo está bem na faculdade, que o proprietário do apartamento é muito simpático e cuida bem dele. Quando termina, levanta a cabeça e vê os perfis dos colegas de classe iluminados pela luz do projetor, hipnotizados pelo clique-clique das transparências, pelo tom de voz monótono do professor e pelas brilhantes imagens das casas californianas na tela — o exterior de madeira, os pátios, as grandes extensões de vidro com vista para os jardins. Essas casas todas parecem muito limpas, simples, ensolaradas e alegres, portando em suas linhas descomplicadas a promessa de décadas dóceis, passadas na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, mas sem oferecer proteção nenhuma contra o tédio que acompanha tudo isso. Olhando para as imagens, ele conclui que seus colegas de classe — simpáticos, com seus trajes impecáveis e essencialmente ilesos — são produtos de tais lares.”

 

 

Setembros de Shiraz, Dalia Sofer, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, p. 40

 

 





Uma professora dedicada, texto de Carmem L. Oliveira

30 10 2014

 

“Por toda noite Pintarroxa debateu. A aurora encontrou-a resolvida: não ia esmorecer à primeira dificuldade. Tinha fé no combate das idéias. Acreditava que a escola era o laboratório da cidadania. Reanimou-se a alma guerreira. Armou-se e saiu para o torvo crocitar do mundo.

Ao fim de três semanas, o número de alunos na sala de aula tinha triplicado. Pintarroxa os provocava, pedindo histórias sobre os animais do cerrado. Professora e alunos se deleitavam em romances de jaguatirica, tamanduá-mixirra, jaratataca. (Embora nada tivesse causado tanto alvoroço quanto a evolução do caso do elefante do circo que deixou em escombros a garagem de Nilo Romeiro.) Outras vezes era ela que apresentava retratos de maravilhas: a neve, a baleia. Tudo tinha nome, que ia para o quadro-negro e era copiado nas lousas individuais. Pintarroxa instituiu também a prática de as meninas corrigirem as lousas dos meninos e os meninos as das meninas. Era uma confusão dos diabos mas, pelo menos em Cupim, fortaleceu-se a crença da superioridade intelectual da mulher”.

Em: Trilhos e quintais, Carmen Lúcia de Oliveira, Rio de Janeiro, Rocco:1998.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos

14 05 2014

ANTONIO ROCCO - (Itália,1880 – Brasil, 1944)Natureza morta - óleo sobre tela - 48 x 59 cmNatureza morta, s/d

Antônio Rocco (Itália, 1880- Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 48 x 59 cm





O mundo mágico de Célestine Hitiura Vaite

26 03 2011

Mercado de Papeete, Taiti, 2008

Roy Boston

Aquarela,  55 x 35 cm

Aquanetart

Há muito tempo não me acontece de ler um livro e ficar tão encantada que me precipitei a  procurar por outro do mesmo autor.  E ainda mais, acabar a leitura do segundo volume e me sentir tão feliz quanto na primeira vez.  Mas foi exatamente isso que me aconteceu quando li, com a recomendação de um livreiro conhecido, A flor do Taiti de Celéstine Hitiura Vaite [Rocco: 2011]. 

Minha apresentação ao trabalho dessa escritora taitiana deu-se “fora de ordem”, ou seja, li o segundo livro antes de ler o primeiro Os sabores da fruta-pão [Rocco: 2006].  Apesar de terem em comum os mesmos personagens, nada impediu o deleite de qualquer um dos volumes em separado.   São obras totalmente independentes, em que os mesmos personagens reaparecem com suas deliciosas filosofias de vida, maneiras de viver, dizeres na ponta da língua…

O mundo que se apresenta ao leitor de Célestine Hitiura Vaite tem o encanto da simplicidade, do saber popular, da vida “como ela é vivida” por milhões de pessoas no mundo.  Pode-se dizer que a escritora passa ao leitor um mundo realista, porque nele as menores decisões são avaliadas, contadas e elas levam não a conseqüências operáticas, desastrosas ou de grande sucesso, mas levam — de uma maneira ou outra —  ao desenvolvimento da história como acontece na maioria de nossas vidas: nem grandes tragédias, nem grandes transformações. 

Nesse aspecto, Célestine Hitiura Vaite lembra em estilo de narrativa os escritores ingleses.  Interessante, que mesmo tendo sido criada com o francês, — o Taiti ainda faz parte da comunidade francesa, é um “país do francês ultramarino”  – a autora declara na contracapa que se sente mais à vontade escrevendo em inglês.  Se sofreu ou não influência de escritores ingleses tais como Jane Austen, Barbara Pym, Alexander McCall Smith não vem ao caso, o que importa e notarmos que a mesma consideração para as pequenas decisões, para as nuances de comportamento que caracterizam os escritores acima mencionados estão presentes no trabalho dessa taitiana.

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Em A flor do Taiti, nos encontramos com uma família daquele país, onde a personagem principal, Materena Mahi, é uma apresentadora de um popular programa de rádio.  Ela e o marido estão prestes a se tornarem avós e esse evento em suas vidas transforma o dia a dia e os personagens retratados.  Em Os sabores da fruta-pão  nos confrontamos com o relacionamento de Materena e sua única filha – ela tem outros dois meninos.  São outros tempos.  Ela ainda não é apresentadora de rádio e seus filhos ainda estão dando bastante trabalho.  Todos são mais jovens, inclusive Pito, o marido, cujo comportamento em qualquer um dos volumes, levou essa leitora a boas gargalhadas.  Retratada está a sabedoria popular e vemos como a sensibilidade de Materena consegue caminhar por entre assuntos difíceis e espinhosos com a delicadeza e graça.

Apesar de a autora não se dedicar a problemas sociológicos, há através dos dois livros lançados no Brasil (originalmente é uma trilogia) um alerta para alguns problemas sociais, entre eles o grande número de crianças nascidas de pais franceses  radicados no arquipélago durante o serviço militar e que voltam para a França sem reconhecerem os filhos das ligações amorosas no local.  Vemos também a discriminação entre classes sociais, prevalente praticamente no mundo inteiro, assim como o descaso dos homens – todos centrados nos seus próprios umbigos — para com os trabalhos femininos.  No entanto, tudo isso é retratado com muito bom humor e com delicada franqueza.  O que acaba por exaltar a nossa familiaridade com esses assuntos acentuando o alto astral dessas comédias humanas. 

Ambos, A flor do Taiti e Os sabores da fruta-pão,  são romances de costumes que giram em torno de sentimentos e de dúvidas universais.  Não se perdem no retrato da pobreza de uma região do país, nem tampouco tentam solucionar ou delatar problemas socioeconômicos.  Mas em questão está o realismo emocional de uma família que faz tudo para sobreviver bem e que leva a vida tão agradável quanto o absolutamente possível.  Não há como sair de nenhum desses dois romances, sem estarmos felizes com a natureza humana e com a vida em geral. 

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Celestine Hitiura Vaite

Esses são livros de grande entretenimento; eles contribuem para nos sentirmos bem ao final da leitura.  Os personagens são todos mais ou menos nossos conhecidos.  Eles nos surpreendem porque temos que aceitar que são em geral de bom caráter, mesmo as tias fofoqueiras, ou os companheiros machistas de Pito no trabalho.  Conhecemos a todos, mesmo antes de lermos uma única palavra dos romances.  Reconhecemos seus trejeitos e modo de pensar, assim como podemos reconhecer muitos personagens de novelas televisivas.  Mas é  a mágica narrativa da autora nos leva a aceitá-los exatamente como são: defeitos e qualidades inclusos. 

Em abril temos uma semana de feriados: Semana Santa, Tiradentes, Descobrimento, etc.  Se você está pensando em levar alguma boa leitura, leve e feliz para o seu feriado, não deixe de considerar esses dois livros.  Não vai se arrepender.  

NOTA:  Há duas grandes contribuições para o sucesso desse livro:  a tradução de Léa Viveiros de Castro e as capas de Flor Opazo, que saem da mesmice de retratar o Taiti como Gauguin o fez.   Parabéns às duas.





A experiência de participar de um grupo de leitura

4 07 2010

Leitura de verão, 1958

Donald Moodie (Escócia, 1892-1963)

Óleo sobre tela

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Como um grupo de leitura mudou a minha vida

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Na ocasião do lançamento do Times Book Club, em março de 2010, o jornal britânico, The Times,  publicou um artigo de autoria de Alyson Rudd, em que ela descrevia o que mudara, na sua maneira de ler um livro, depois de ter aderido a um grupo de leitura. 

O convite, ela reconta, veio depois de alguns encontros com  mães das crianças que freqüentavam os primeiros anos da escola, onde Alyson matriculara  seu filho.  “Você não gostaria de participar de um clube de leitura?” um dia lhe perguntaram.   Inicialmente,  o convite lhe pareceu ter o mistério de quem está sendo convidado  para participar de  uma sociedade secreta.  Sentiu-se lisonjeada inicialmente, mas logo preocupada pois não tinha o hábito de ler ficção contemporânea.  Acabou aceitando participar com o objetivo de se aproximar de outras mães de crianças da escola.  Lá se vão dez anos.

O primeiro romance que leu foi  White Teeth [ Dentes Brancos, Cia das Letras, 2003] de Zadie Smith.  Apesar de muito bem escrito Alyson Rudd não gostou dessa leitura:  a autora fez esforço demais em mostrar uma Inglaterra multi-cultural; mostrou  personagens demais e muito distantes da sua realidade.   Não se igualava, por exemplo, à ficção de Gogol que ela acabara de ler.  Mas mesmo assim,  esta foi uma ocasião que ficou marcada em sua vida, e da qual se lembra vividamente até hoje, desde a leitura do livro, o encontro e o debate, ao queijo Brie e às uvas que as componentes do grupo degustaram ao conversarem sobre os problemas do texto.  

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Lendo, 2003

Peter Harrap ( Grã-Bretanha, 1975)

Óleo sobre tela

Não foi uma boa escolha, não é mesmo?”  a mulher que havia sugerido o livro admitiu.  Mas, apesar de ter sido um experiência frustrante, o livro afinal não tinha sido tão terrível e o queijo e o vinho foram muito bons e as novas amigas pareciam bem divertidas.   E assim seguiu-se para o próximo livro:  Four Letters of Love de Niall Williams [Quatro cartas de amor, Rocco:1999].  O título lhe pareceu horrível.  Tinha aquele jeito de ser um romance açucarado, provavelmente monótono.  Uma carta de amor é mais do que suficiente, pensou.   Mas leu o livro, e foi aí que se tornou uma fã incontestável do grupo de leitura:  Quatro cartas de amor se mostrou um romance notável, que flui;  um livro de uma beleza incontestável, que Alyson nunca teria lido se não fosse membro do grupo. 

À primeira vista, um clube de leitura soa contra-intuitivo.  A leitura é uma busca solitária, uma oportunidade para calar o mundo do trabalho ou o barulho do avião, ou da televisão.  Alyson se lembrava de que por anos, depois de devorar um grande romance,  sempre se sentia vazia ao terminá-lo.  Era como se as férias acabassem subitamente e para trás ficassem o mundo novo, a sociedade independente, as atribulações, o  assassinato, o resgate do amor ou o ódio, tudo de que participara intensamente desaparecia com o virar de uma página final.

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Jessie lendo, s/d

Paul Maze ( França/Inglaterra, 1887-1979)

óleo pastel

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Os clubes de livro ou grupos de leitura são uma cura para esse súbito mal, para essa depressão momentânea.  Em vez de se sentir perdido ao terminar um romance cativante, você sente a excitação da antecipação: o que o resto do grupo pensa em fazer desse livro?    Que será que este livro despertou nas outras pessoas?   E tem mais:  não se precisa mais impingir um livro de que se gosta a uma amigo e esperar que ele se decida a lê-lo, para vir a saber do resultado dos seus esforços.   Com um grupo de leitura você conhece um grupo de pessoas que está lendo o mesmo que você, ao mesmo tempo que você.  E você começa a ouvir dicas:  “o livro está ficando chato, ou ele melhorou muito depois de um início lento ou tedioso;  você  já chegou na parte onde o sacerdote… ? Não, não me conte, não estrague tudo….”

O encontro  mensal representa o encerramento de um pequeno ciclo; ele fecha com chave de ouro o processo da leitura, e nos faz esquecer da tristeza de deixar aquele mundo para trás.  Além do que o encontro marca o início de um novo ciclo.  É hora de começar um novo livro.  Em vez pensar ou dizer para alguém que não participou da mesma experiência com suspiro: “Ah, isso me comoveu tanto” e ser olhado com curiosidade como se você fosse um pouco diferente, você pode dizer isso e receber um aceno  de cabeça, de compreensão, sem que muitas palavras sejam trocadas.   

Mulher lendo, 2005

Alex Cree ( Inglaterra, contemporâneo)

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Um grupo de leitura pode ajudar a resolver aqueles pequenos detalhes  que nos irritam porque parecem não fazer sentido numa narrativa.  “Será que o menino vê o assassinato  ou imagina ter visto?”  Juntos, os membros do grupo se ajudam e você monta as pistas.  E você pode até mesmo concluir que o autor foi deliberadamente obtuso, sinuoso, velado.  E se não chegar a uma resposta concreta, pelo menos, você conseguiu compartilhar a sua frustração e, assim, neutralizá-la, sabendo que outras pessoas entendem do que você está falando. 

 A ascensão dos grupos de leitura transformou a maneira como nos sentimos a respeito da leitura propriamente dita.  Onde inicialmente havia geeks agora há os que ditam as tendências sociais.  Livros são o máximo!   Livros viraram moeda comum.  E o eterno  “Para que time você torce?”  pode ser facilmente trocado pelo “O que você está lendo agora?”  numa conversa casual.   É mais interessante descobrir se alguém leu Cormac McCarthy, The Road, [ A Estrada, Alfaguara Brasil: 2007] ou viu o filme.  É claro que não há problema algum em ter feito ambas as coisas, e os grupos de leitura com freqüência vão assistir juntos a versão cinematográfica de um livro e depois decidir qual é o melhor.   E nem sempre é o livro que ganha, um exemplo disso foi o filme baseado no  romance de  Ian McEwan, Atonement , [Reparação, Cia das Letras: 2002].  

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Mulher lendo, 2006

Tina Spratt ( Irlanda, contemporânea)

óleo sobre tela

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No final das contas, o que sobra é a experiência compartilhada.  Já que se pode assistir a qualquer programa de televisão  praticamente a qualquer  momento bastando gravá-lo, por que a grande maioria prefere assistir a EastEnders e Britain’s Got Talent, [ NT: dois programas na televisão inglesa] quando eles vão ao ar?  É porque queremos participar do bate-papo sobre os programas, mais tarde no trabalho ou na escola.  Torna-se uma experiência muito mais divertida, se você souber de milhões de outras pessoas estão rindo ofegantes no mesmo momento que você.  O mesmo acontece com os livros.
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Os grupos de leitura se espalharam como um vírus antes de Oprah e Richard & Judy lançarem suas versões na televisão.   Ambos os programas fizeram grande sucesso porque fizeram o que todos os bons clubes do livro devem fazer:  expandiram os limites de suas audiências. Oprah pediu a uma nação inteira que lesse One Hundred Years of Solitude, de Gabriel García Márquez [Cem anos de solidão, Record: 2009] – e ninguém se assustou.  No programa de Richard & Judy os leitores se entregaram às páginas de Half of a Yellow Sun  de Chimamanda Ngozi Adichie [ Meio sol amarelo, Cia das Letras: 2009].  Esses livros foram escolhidos, não porque eram apostas seguras, mas porque seriam amados.

 

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Mulher lendo, s/d

Richard Combes ( Inglaterra, contemporâneo)

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É menos maçante ler um livro problemático se você não está sozinho e mais agradável devorar um excelente livro se você sabe que poderá compartilhar seus pensamentos, quase que imediatamente, após a sua leitura com pessoas amigas que saberão do que você está falando.   Um bom livro sempre faz a gente se sentir especial, como se o autor nos tivesse em mente enquanto escrevia.  Ser transportado para longe do seu sofá ou da sua espreguiçadeira para a época vitoriana ou para o espaço sideral, é sempre possível.  Mas quando você volta à Terra  e se encontra em sua cadeira predileta, é muito mais agradável poder falar sobre a sua viagem com alguém que também esteve lá.

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Tradução e adaptação de Ladyce West.

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Para o txto original:  The Times





A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

3 02 2010

 

Há tempos eu não lia compulsivamente.  Em geral leio de dois a três livros simultaneamente, mas confesso que no mês de janeiro houve duas narrativas, completamente distantes uma da outra que não me deixaram dividir meu tempo livre com qualquer outra história.  Foram leituras sedutoras do início ao fim e que pediram e ganharam a minha total atenção enquanto leitora:  O tigre branco, de Aravind Adiga [Nova Fronteira: 2008] e A solidão dos números primos de Paolo Giordano [Rocco: 2008].  Hoje vou me concentrar no livro italiano.

Eu não teria acreditado, se me dissessem, que eu iria me interessar, que iria ler apaixonadamente, um romance que tratasse das vidas de pessoas muito complexas,  que carregavam traumas da infância.  Pessoas que cresceram no meio de famílias ineptas, que não conseguiam lhes dar atenção.  Famílias, pais, que  não notam  as  carências dos filhos, que os deixam sofrer distúrbios emocionais.  Essa descrição dos dois principais personagens de A solidão dos números primos, Alice e Mattia, teria simplesmente feito com que eu fechasse o livro e dito: Não sei se me encontro num momento emocional para ler sobre este tipo de tragédia Ando a procura de uma história mais branda…  Que erro eu teria cometido!  Porque não teria sido apresentada a esta história maravilhosa, a este livro sedutor.

Mas aí entra a arte deste recém descoberto escritor, Paolo Giordano.  Sua primeira profissão é a física. É formado em Física pela Universidade de Turim, onde ganhou uma bolsa de doutoramento em Física de Partículas. A segunda profissão, só agora começada, é a de escritor.  Não sei se uma tomará a frente da outra.  Numa entrevista à revista Elle, o escritor, que foi agraciado com o maior prêmio literário da Itália, o Prêmio Strega, em 2008,  por este primeiro romance, com o qual também recebeu uma menção honrosa do Prêmio Campiello no mesmo ano,  garante que gosta mais de escrever.  Espero que sim, pois revelou uma voz única e bem sucedida. 

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Parte do sucesso dessa narrativa vem da revelação, muito bem descrita, dos sentimentos de inadequação dos adolescentes, sentimentos que serão permanentes em cada um dos protagonistas.  Alice e Mattia têm essa inadequação elevadíssima: conseqüência do sofrimento físico ou psicológico sofrido por cada um na infância.  Vivem em extrema solidão, mesmo sendo membros de famílias confortavelmente estabelecidas na classe média.  Acompanhamos suas vidas de 1983 a 2007.  Enquanto Mattia, que tem o perfil de um gênio, se refugia na matemática, onde consegue se realizar – porque nela sentimentos não são necessários; Alice encontra abrigo na anorexia, onde se sente confortável emocionalmente, habituada que está à ausência dos alimentos emotivos de que sua alma, seu espírito, precisa.  Ambos são ímpares em seus respectivos casulos emocionais e é exatamente isso o que os aproxima e o que nos aproxima dos personagens. 

Fato é que  conhecemos estes personagens.  Se não são nossos filhos, irmãos, primos ou sobrinhos, estão no círculo de amigos, amigos de amigos, filhos de amigos, companheiros com quem nos relacionamos.  Reconhecemos alguém próximo e com a narrativa sedutora, rápida e contemporânea de Paolo Giordano seria difícil não nos aproximarmos emocionalmente, não acharmos Alice e Mattia fascinantes.

Paolo Giordano

Dizer que a matemática tem poesia é lugar comum.  Mostrá-la é único!  Neste livro a matemática é usada como metáfora, magistralmente: Os números primos são divisíveis apenas por um e por si mesmos.  Estão em seus lugares na série infinita dos números naturais, comprimidos entre dois, como todos, mas um passo adiante em relação aos outros.  São números suspeitos e solitários, e por isso Mattia os achava maravilhosos.  E nas mãos hábeis de Paolo Giordano, nós também achamos os números primos maravilhosos. 

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Leia.  Não se arrependerá!





BUZZ e A louca da casa — o marketing boca a boca

30 06 2008

A louca da casa de Rosa Montero

Recentemente tive a oportunidade de presenciar um exemplo típico do marketing chamado de “boca a boca”.  O assunto era a leitura do livro A louca da casa.  Boca a boca é considerado o melhor tipo de promoção.  Algo que quando temos um ponto comercial, em qualquer ramo, consideramos um dos maiores sucessos de uma companhia, de um comércio. Porque é o cliente entusiasmado que sozinho faz sua propaganda.  A promoção mais poderosa de todas: o burburinho de quem foi lá, comprou e saiu satisfeito.  É a palavra do amigo, do parente, do amigo do amigo.  

 

Este vírus oral — recomendações passadas sem nenhuma intenção comercial, comunicadas simplesmente pela vontade de que o outro acerte — ainda não está muito bem conscientizado no gerenciamento do pequeno comércio no Rio de Janeiro.  Diferente dos EUA, aqui vai-se a uma pequena loja e nunca somos perguntados como ouvimos falar daquela loja, como chegamos até lá.  Esta curiosidade, que parece regular no comércio americano, está ligada ao tipo de propaganda usado e ao gerenciamento de recursos para propaganda.  Infelizmente o pequeno comerciante no Rio de Janeiro, apesar de ter muita concorrência, qualquer que seja seu campo de especialização, ainda não descobriu a vantagem de treinar seus vendedores a fazerem estas perguntas, para que ele possa saber como a clientela chega ao seu endereço. 

 

A súbita procura pelo livro A louca da casa, de Rosa Montero, foi um exemplo típico da promoção boca a boca, ou do BUZZ através da internet.  A notícia de que era um livro imperdível foi passada de chat em chat, principalmente nos locais da internet freqüentados por pessoas ligadas à leitura, às artes, à educação e à literatura.   Rosa Montero já havia causado surpresa na imprensa cobrindo a Feira Internacional de Parati de 2004, quando se mostrou muito mais popular do que o imaginado, sendo abordada por fãs a procura de fotos e de autógrafos, em todo lugar, durante sua estadia.   A fama de Rosa Montero entre leitores exigentes vem de seu trabalho ímpar: artes, literatura, imaginação e a condição feminina.  Com esta agenda, livros tais como: A filha do canibal, A história do rei transparente, se tornaram leituras obrigatórias para a leitora brasileira. 

 

Eis que no grupo do ORKUT chamado Livro Errante dedicado à leitura de livros que são passados de leitor em leitor numa cadeia, cobrindo o Brasil inteiro das grandes cidades a remotas localizações, a curiosidade sobre Rosa Montero foi atiçada no início deste ano, quando alguns de seus livros começaram a circular e a serem lidos e discutidos pelos trezentos e poucos brasileiros que compõem a comunidade.   De repente, Rosa Montero havia se tornado um nome corriqueiro, uma pessoa familiar, conhecida.  Seus livros já publicados no Brasil foram procurados mais insistentemente.  Assim, A louca da casa, um livro sobre a imaginação e o processo criativo, publicado pela Ediouro em 2004, passou a ser uma obsessão do grupo.  Apesar de ser um livro recente está esgotado e de acordo com a editora sem perspectivas de nova tiragem ou edição.   Constatou-se também que este era um livro difícil, quase impossível, de ser achado em sebos.  Tudo contribuiu para o crescimento do BUZZ na internet, para a NECESSIDADE IMEDIATA de se ler o livro.  

Escritora Rosa Montero

 

É a velha história da oferta e da procura.  Havia muita procura e nenhuma oferta.  O Livro Errante abriu então um tópico dentro da comunidade para que se localizasse um volume que pudesse ser emprestado.   Telefonemas foram feitos para se descobrir em sebos no Recife, no Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo.  O site Estante Virtual, recebeu alguns pedidos.  Finalmente quando um volume apareceu imediatamente 25 pessoas se comprometeram a ler o livro.  Este volume agora passeia pelo Brasil e está sendo lido por muito mais do que estas 25 pessoas, porque cada leitor satisfeito ainda o passa entre amigos, para que seja desfrutado, antes do livro ir embora se encontrar com outros leitores.

 

O ponto de desequilíbrio de Malcolm Gladwell, autor do também muito aclamado Blink,  ambos livros publicados pela editora Rocco, tenta estudar e justificar justamente este fenômeno de marketing, ou seja aquele ponto em que um objeto, um aparelho, um modismo, deixa de ser simplesmente mais um no estoque de um comerciante e passa a ser o item quente, o procurado por todos.  Este momento, que Gladwell chama de ponto de desequilíbrio é o que todos almejam ter quando são fabricantes, produtores, comerciantes, escritores e até mesmo editores de livros.    

 

Infelizmente, nem todas as companhias brasileiras estão ligadas ao poder econômico do burburinho virtual.  Ou o que é pior, ainda não aprenderam o valor e o poder do boca a boca através da internet.  Além disso, se mostram indiferentes à clientela.  Quando alguns dos membros da comunidade Livro Errante escreveram e-mails para a editora Ediouro perguntando sobre a possibilidade de uma nova impressão ou de uma nova edição do livro de Rosa Montero, todos receberam um e-mail automático da companhia, generalizado, sem qualquer atenção específica ao livro ou aquele leitor em potencial.  Esta falta de maleabilidade no trato com o consumidor, não é porque a companhia é muito grande.  Tanto a Amazon.com, como a Ebay.com, assim como o Submarino.com.br, apresentam maneiras com que um cliente possa ter seus e-mails respondidos por alguém além de uma máquina. 

 

Ao que tudo indica há empreendedores brasileiros que ainda acreditam que dinheiro gasto em propaganda e marketing é dinheiro posto fora.  Torna-se dinheiro posto fora  quando eles mesmos não se dispõem a avaliar o marketing que fazem.  No caso do livro A louca da casa, a companhia parecia achar que a culpa era destes leitores que não haviam comprado o livro assim que publicado, em 2004.  Mas não é.  A culpa é da companhia: neste caso ela não conseguiu entregar o produto para o qual um grande marketing boca a boca se desenvolveu naturalmente.  O BUZZ havia cumprido a sua função.  A falha foi no planejamento a longo prazo.   Uma pena!

 

 








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