Nihonjin, de Oscar Nakasato: o jardim zen da literatura brasileira

22 12 2012

FUKUDA, Roberto Kenji (SP 1943) Abstrato - Óleo s tela 50 x 50 cm. ass. inf. direito

Sem título

Roberto Kenji Fukuda (Brasil, 1943)

óleo sobre tela, 50 x 50 cm

Coleção Particular

Há alguns anos, amigos meus nos Estado Unidos, transformaram seu quintal, em um jardim de pedras, um Karesansui, um jardim zen.  Com eles aprendi, naquela época, alguns truques de paisagismo oriental que permitem a impressão de grande espaço em uma pequena área, quer por meio de telas, quer por caminhos em passeios sinuosos que levam a cantos raramente explorados do terreno ou que passam sobre um pequeno  lago com carpas. O Karesansui, no entanto, permite distanciamento e  mais do que isso: uma inimaginável sensação de paz e tranqüilidade, mesmo que sua localização esteja no meio da cidade. O minimalismo das pedras, do cascalho, da água fazem-no um jardim reservado unicamente aos elementos essenciais e parece levar à introspecção e à descoberta daquilo que nos é vital.  Karesansui é um jardim que favorece a meditação.  A leitura de Nihonjin me lembrou este jardim.  Há na sua narrativa, que cobre três gerações de japoneses e seus descendentes no Brasil, um arranjo artístico igualmente sensível que faz com que suas 176 páginas sejam suficientes para o retrato da complexidade emocional, da dificuldade física e cultural de adaptação dos imigrantes japoneses que chegaram a este país.

Ainda não visitei o Japão, em pessoa.  A literatura japonesa tem aos poucos encontrado seu lugar nas minhas prateleiras de livros favoritos, enquanto suas famosas xilogravuras policromadas foram objeto de estudo e admiração nas artes visuais. Por causa delas e dos netsuquês, botões de roupa esculpidos com grande detalhe, estudei um ano de japonês. Mas a complexidade da língua e das formas de tratamento me deixaram perplexa e logo abandonei o aprendizado, estudando em seu lugar um pouco de hindu, língua igualmente complexa e frustrante. Foram  assim os meus vinte anos, tempos de expansão cultural, onde  estudante em terra alheia, uma quase imigrante, tentei alargar meus horizontes e, com afinco, me embrenhar pelos caminhos do outro.  Essa atividade não acompanhou a maioria dos imigrantes japoneses no Brasil, como bem mostra Oscar Nakasato em Nihonjin. O outro, nesse caso nós, brasileiros, era exatamente isso: OUTRO.  E assim ficaria até que voltassem à terra do sol nascente.

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A temática do imigrante é um dos mais importantes tópicos literários dos últimos 100 anos.  Sobretudo a partir de meados do século XX quando a geração dos filhos ou netos de imigrantes que se estabeleceram na Europa, EUA e Brasil, entre outros, é escolarizada e começa a desvendar os caminhos traçados pelas gerações que os antecederam. Muito tem sido escrito sobre a questão da  adaptação e do forjar de uma nova identidade para o imigrante. O movimento  voluntário, de massas,  de milhares de pessoas de um canto para o outro do mundo procurando melhoria de vida, quer na Europa —  mãe de dezenas de países recém delimitados na África e do Oriente Médio —  quer nas Américas, recipientes de milhares de trabalhadores braçais da Itália, Alemanha, Irlanda, Suiça, Espanha, Portugal, Rússia, Polônia, nunca havia sido tão persistente e grande através da história da humanidade.  Seu clímax parece ter sido nos anos que seguiram imediatamente a Segunda Guerra Mundial, ainda que tenha havido fuga numerosa também, nas décadas seguintes,  daqueles que  não aceitavam a ditadura comunista nos países da antiga Cortina de Ferro.

Mas o caso japonês no Brasil, que hoje tem o maior grupo de pessoas de ascendência japonesa no mundo fora do Japão, é único. Único porque foi o resultado de uma ostensiva política de desafogamento populacional daquele país.  Os primeiros contatos diplomáticos entre os governos do Brasil e do Japão sobre esse assunto datam de 1892, ou seja, do governo de Floriano Peixoto. Por causa da maneira como lhes foi mostrada, a emigração japonesa, para  cá, trouxe cidadãos que se sentiam cumprindo um plano estratégico de seu Imperador e, por consequência,  mais do que outros imigrantes sentiam que precisavam voltar com dinheiro, para benefício da própria Terra Mater. Desse modo, mesmo em se deixando de lado diferenças marcantes,  e importantes como dignidade cultural e responsabilidade social, que a maioria sentia em relação à terra mãe, a situação psicológica dos imigrantes japoneses, diferia substancialmente  das demais nacionalidades que por aqui aportaram, cujos membros, partiam por conta própria, aventurando-se sozinhos,  como se ao léu, a caminho do desconhecido, na luta pela sobrevivência, na esperança de uma vida melhor, muitas vezes com fome, sofrendo perseguição política ou religiosa. Diferente dos japoneses, esses imigrantes não sentiam uma dívida de honra com o país de origem, ao contrário, estavam gratos por uma terra para trabalhar, uma oportunidade de criar raízes, constituir família sem perseguições políticas ou religiosas, num lugar de natureza abundante, gerador de maior dignidade de vida.

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Oscar Nakasato

Nihonjin não é uma obra unicamente focada na vida dos colonos japoneses por aqui, ainda que precise ser contada. É verdade que na leitura desse romance aprendemos  muito sobre o assunto. Mas o romance é mais do que isso. Nele  testemunhamos a estética do ”menos é mais” aplicada  a um texto literário de forma confiante.  A linguagem precisa, repleta de vestígios poéticos, torna o texto  fluido e a história corre como água de riacho, num murmurejar incessante. Seu tom é a meia voz e a narrativa, que é simples, despojada de rebuscadas figuras de linguagem, torna o texto relaxante e hipnótico. Como num Karesansui somos convidados a refletir, a ponderar sobre os vagares da mente, sobre o enigma das emoções.  Mais tarde, somos levados a reconsiderar o tempo e a memória. Oscar Nakasato é um minimalista da linguagem. E com isso inova a estética literária brasileira.  Não há personagens a mais ou a menos, assim como palavras, frases ou histórias.  Não é jornalístico.  Não é anedótico. Detém-se no essencial.  Ninhojim não chega a ser um haikai da forma narrativa, mas está perto: sucinto, poético, reflexivo. Mínimo.  Uma beleza!





Concerto campestre: Luiz Antonio de Assis Brasil

13 07 2008

 

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

 

Concerto Campestre é um livro sedutor que permanece na nossa imaginação por muito tempo depois de termos acabado sua leitura.  É uma história que cobre duas das maiores paixões brasileiras:  música e o amor proibido.  Luiz Antonio de Assis Brasil mostra como o preconceito racial funcionava no século XIX;  também retrata eloqüentemente  o vazio da vida levada pelas mulheres da época,  que nascidas e criadas nas fazendas, eram em geral analfabetas.   Elas tinham muito pouco com que se distrair, e como herdeiras de terras, não pertencendo à classe trabalhadora,  não lhes era permitido dedicarem-se a trabalho nenhum.

 

Assis Brasil mostra crenças e preconceitos arraigados no interior, no Rio Grande do Sul rural do século retrasado.   O estado, terra dos gaúchos, solo fértil da grama alta e florida dos pampas, da criação de gado e de grandes fazendeiros — famosos por sua rebeldia e independência — é mostrado com acuidade e poesia nestas páginas, mesmo que vejamos o retrato da educação quase nula, não existente mesmo, rude,  dos donos da terra; e nos familiarizamos com a mentalidade estreita e as regras das tênues diferenças de classes sociais, não só na região austral do país mas também vivenciadas na maior parte do interior do país.

 

A história gira em torno de um senhor da terra que decide ter uma pequena orquestra para concertos ao ar livre.  Ele contrata um conhecido maestro, mulato, que após se estabelecer na fazenda começa a organizar um grupo de músicos, com o objetivo de construir a tão sonhada pequena orquestra do fazendeiro.    Este maestro seduz não só a burguesia do local com sua música, surpreendendo todos os fazendeiros vizinhos, mas também conquista e é conquistado pela filha de seu patrão.    Ela é inteligente, apesar de analfabeta.  E está ciente da vida estéril que a espera, no casamento arranjado pelos pais com o filho de um fazendeiro local.  Ela percebe este casamento como uma das piores coisas que poderiam lhe acontecer.  E aceita o amor do maestro com gosto e reciprocidade.  

 

A história é narrada com muita leveza: o que não é dito pode ser mais importante do que o que se encontra no papel.  É uma história quase escrita nas entrelinhas.  As elipses que ocorrem são não só preocupantes como eloqüentes.  Assim, Assis Brasil mostra a mão do bom escritor que é; controlando ambos texto e história,  sem hesitação.  Este é um romance pequeno, de apenas 176 páginas, que vai muito longe.  É  uma janela descortinando o inconsciente brasileiro.  Certamente sobreviverá no tempo, tornando-se um clássico, porque fala da alma brasileira.

 

 

 

Concerto campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre

 

 

 

Este texto apareceu primeiro em inglês, há dois anos, no portal: living in the postcard.

Luiz Antonio de Assis Brasil
Luiz Antonio de Assis Brasil





Brasil e África no horizonte de Hilton Marques

26 06 2008

Comprei este livro sem saber coisa alguma a respeito do autor. Não sei o que me interessou, o que me fez pegá-lo e ler a capa de trás para ter uma idéia do que se tratava.  Curiosa, comprei este pequeno volume e tomei a decisão certa,  porque agora posso me gabar de ter descoberto um novo escritor brasileiro, capaz de escrever uma boa história, em boa prosa, num ritmo rápido,  sobre um local misterioso e um novo tipo de heroína.

 

A senhora das savanas se passa no continente africano, num país imaginário fronteiriço à Angola e ao Zaire.  Seguimos a carreira de uma médica brasileira, que depois de se formar pela Universidade de São Paulo, entra para a organização mundial Médicos sem Fronteiras e vai trabalhar na África.  Passado algum tempo, ela decide ficar na África.  Quando a história do livro começa ela está dirigindo um pequeno hospital,  financiado por uma companhia de extração de minério, no que se poderia chamar de interior, de fim do mundo.

 

A história se desenvolve durante a guerra civil em Angola, depois de sua independência de Portugal.  Dois grupos lutam pelo poder: UNITA e MPLA.  Há mercenários estrangeiros em todo canto e eles lutam por cada lado.  Entre eles está um irlandês que havia passado muitos anos lutando pelo movimento IRA, que havia se desgostado e abandonado o movimento separatista irlandês, e como lutar era o que sabia fazer, acabou lutando na África.   Enquanto lutava pela UNITA e comandava um pelotão, sofreu um ataque surpresa fora do território de Angola, apesar de ser um excelente atirador e líder militar.  Eles haviam parado  para um descanso e todos os membros do pelotão tombaram.  Ele também havia sido dado por morto.  Mas foi descoberto, por casualidade, próximo da morte.  Nossa médica brasileira o salva sem saber quem ele é.

 

Ele permanece no hospital para sua recuperação e fica por lá por algum tempo. No processo une-se à nossa médica numa luta contra os novos donos da companhia mineradora, que pretendiam fechar o hospital.

 

Este é o tipo de romance que existe às centenas em outras culturas.  A Inglaterra, os Estados Unidos, a França são só três dos países que tem esta tradição rara no Brasil: um herói, neste caso uma heroína, viaja, vai embora, e faz uma diferença tremenda na vida local de um lugar longe de sua terra nativa.  Ela também é capaz de contribuir para o melhoramento de relações internacionais.

 

Este livro poderia servir de base para um roteiro de A Senhora das Savanas, Hilton Marquesfilme americano.  Melhor ainda, poderia se transformar numa mini-série da BBC, se a nossa heroína fosse inglesa.  A grande diferença é que este é um livro brasileiro.  Este é um detalhe de grande importância para mim.  Ela é mulher, brasileira e responsável por salvar muitas vidas.  Como eu gostaria de ter tido algumas dezenas de livros como este para ler quando estava me tornando adulta!   Na minha época, na minha geração, só heroínas de outras terras tinham suas vidas contadas ou filmadas.  Nós brasileiros sempre conhecemos melhor os heróis de outros lugares.  Havia muito poucos heróis, homens ou mulheres, que pudessem inspirar qualquer um de nós, adolescentes.

 

Este livro, então, tem tudo para que eu goste dele.  É um livro de aventura.  É um ótimo entretenimento, com uma narrativa forte,  num ritmo rápido.  É gostoso de ler.  É leve.   Não está preocupado em considerar as últimas novidades literárias, as últimas tendências pós-modernas, de-construtivistas, ou a última moda intelectual.  Este é um livro para a família toda ler, pessoas de todas as gerações.  Seria uma ótima fonte para um roteiro de filme.  Ele nos deixa com uma boa visão do que a vida na África naquele período poderia ser e como os grupos lutando pelo poder se envolvem na vida diária da população.  Abre os olhos.  Expande horizontes.  Ajuda a nos definir como as pessoas competentes, profissionais que somos. 

 

Gostei muito e recomendo.  Se você estiver procurando por aquele entretenimento, por aquele livro para levar num fim de semana na serra ou na praia, leve-o.  Você vai gostar!

 








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