Papa-livros: A pesca do salmão no Iêmen, de Paul Torday

12 01 2010

 

A pesca do Salmão no Dee

Joseph Farquharson (Escócia 1846-1935)

óleo sobre tela

Quem anda à procura de um romance leve, muito diferente e com um bom senso de humor não deve deixar de ler A Pesca do Salmão no Iêmen do escritor inglês Paul Torday [Record:2008].    O mínimo que posso dizer é que este romance é muito original.  A começar pela forma com que a história é contada.  Lembra, em muitos aspectos, os romances epistolares, pois é feito de cartas, e-mails, páginas de diário, relatórios da Câmara dos Deputados na Inglaterra (House of Commons), programas de entrevistas, até emails relacionados a Al Qaeda fazem parte dessa “pilha” de documentação que conta a história.  Cada capítulo traz à tona uma nova faceta do desenvolvimento de um projeto ambicioso, imaginado por um xeique iemenita, de trazer a cultura do salmão para o seu país a fim de propiciar aos seus habitantes o esporte a que ele se dedicava em sua propriedade na Escócia: a pesca do salmão.  A engenharia social que atrai o abastado xeique seria proporcionar ao Iêmen uma das únicas atividades em que todos, de quaisquer classes sociais, poderiam participar de igual para igual, lado a lado à beira do rio.

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Este é um livro construído como uma sátira aos governos,  a toda a burocracia governamental, que aqui aparece retratada na Inglaterra, mas que com pequenos ajustes é universalmente insana.    O projeto de se fazer a pesca do salmão – um peixe de água doce muito fria–  no Iêmen, um país no deserto é considerado desde o primeiro capítulo como uma loucura, um projeto sem pé nem cabeça.  Mas, por razões diversas e principalmente para favorecer ao primeiro-ministro, este projeto começa a crescer e toma vida própria.  Não só cresce como se torna um projeto imprescindível para o governo inglês.  E ganha mais combustível ainda depois que Alfred Jones, nosso herói, um cientista do Departamento de Pesca do governo, contrário ao projeto, vê-se frente a frente e seduzido pela filosofia do xeique em questão.   O resultado é imprevisível.

 

 

Nesse meio tempo, entre “provas” escritas – emails, diários, cartas, entrevistas – temos uma das mais divertidas narrativas que ironizam e satirizam a vida contemporânea, os casamentos de conveniência, o discurso político.  O que nos resta, por incrível que pareça, é uma mensagem sóbria, gratificante: a esperança é imprescindível para nos dar direção a nossas vidas.  A gente vive, sonha e faz planos, os mais diversos.  Mas mesmo que o que planejamos não venha a se concretizar, aquela esperança que nos ajudou a tentar construí-lo já é o suficiente para dar sentido à nossa vida.    Por trás disso há uma diferença importante entre dois conceitos e quem nos ensina é o xeique:  há religião e espiritualidade.  Ás vezes elas se misturam, às vezes não.    Mas a espiritualidade, quando somos íntimos dela, pode ser encontrada nos recantos mais exóticos, onde jamais esperaríamos encontrá-la.  E é ela quem nos salva. 

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Recomendo a leitura de A pesca do salmão no Iêmen.  Principalmente se você anda desiludido com os seus políticos, com a falência dos seus sonhos.  Há muito material aqui, para dar uma outra vida ao cotidiano, para ver um problema por um outro ângulo.    Achei que esse romance perde um pouco o ritmo no meio das suas 360 páginas.  Mas devo alertar o meu leitor que esta pode ser uma observação só minha.  Ultimamente tenho tido a impressão que na maioria dos romances que leio p texto poderia ter sido cortado, editado, para melhoria do ritmo da narrativa.  Talvez seja um problema meu e não do autor neste caso.  Fica de qualquer maneira, aqui, a minha forte recomendação a esta divertida leitura.





Uma pequena homenagem ao nosso baixo-clero!

27 04 2009

senado-no-imperioO edifício do Senado Brasileiro, ná época do Segundo Império.

 

 

 

 

Inspirada no picadeiro em que se transformou o debate sobre o desmando no uso da coisa pública no Brasil, ou em outras palavras, no uso sem cabimento do dinheiro público dos nossos legisladores, voando pelo mundo às nossas custas,  voltei-me para um texto delicioso de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), escrito em 1855, sobre a política no império.  Quem ainda não conhece este romancista brasileiro, ou que só o conhece pelas obras românticas que leu na escola como A moreninha, O moço louro, As mulheres de mantilha, e outros tantos títulos; precisa se dar o presente de consultar seus outros escritos.  Joaquim Manuel de Macedo foi um grande escritor, crítico voraz dos hábitos e costumes brasileiros, muito sarcástico mas também muito bem humorado nas suas críticas.  Foi também um poeta, um teatrólogo, um memorialista e um biógrafo.  Acredito que ainda não tenhamos lhe dado o lugar que merece na história do pensamento brasileiro. 

 

A passagem que se segue é de seu romance A carteira de meu tio, onde ele descreve o político brasileiro da época.  O que parece inacreditável: passados 150 anos e com pouquíssimos ajustes suas descrições vestem como uma luva o que presenciamos no Congresso em Brasília.  Então, vamos lá:

 

 

 

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Ora pois, consideremos ao acaso um de tantos: seja aquele figurão que ali vai repotreado em um magnífico e soberbo carro.

 

Era há poucos anos um miserável diabo, que vivia de suas agências, e mais não disse; não  tinha onde cair morto, e portanto ninguém fazia caso dele: mas não há nada como ter juízo!… O maganão atirou-se ao comércio, e foi de um salto ao apogeu da fortuna; eis o caso: primeiro abriu uma casa de secos, e quebrou; meteu-se logo nos molhados, e quebrou outra vez – excelente princípio!  O quebrado ficou inteiro, e os credores com alguns pedaços de menos; depois, dinheiro a juros, três ou quatro por cento ao mês para servir aos amigos; um pouco mais aos indiferentes; duas dúzias de alicantinas  por ano, e o suor alheio nos cofres do espertalhão: uma terça deixada em testamento por um estranho, e arrancada aos malvados parentes do morto; aqui há anos atrás o comércio de carne humana, que era um negócio muito lícito, negócio molhado e seco ao mesmo tempo, porque se arranjava por mar e por terra, terra marique: vai senão quando, no fim de dez ou doze anos, o pobretão aparece milionário.

 

Mudam-se as cenas; dantes ninguém tirava o chapéu ao indigno tratante, olhavam-no todos com desprezo, era um bicho que causava tédio, além de mau, era pobre; mas, ó milagrosa regeneração!  ó infalível poder do ouro! o antigo malandrim já é um homem de gravata lavada! banhou-se no Jordão da riqueza, e ficou limpo e puro de todas as passadas culpas!…

 

E por onde chegou ele ao cume das prosperidades? – pelos desvios: se tivesse vindo pela estrada real, estava na esteira velha.

 

É verdade que o tal bargante, para se enriquecer, fez a desgraça de muita gente:  mas que tem isso?…  não goza ele agora muito sossegadamente a sua imensa riqueza?…

 

Quebrou fraudulentamente, pregou calotes, ofendeu as leis de Deus, e zombou das leis dos homens; ora viva!  Coisas do tempo da nossa avó-torta; águas passadas não movem moinho; dize-me o que tens, que eu te direi o que vales: bravo o nosso figurão!…

 

Todos o festejam, diplomatas conselheiros, senadores, deputados, ministros, enfim, a fidalguia toda da terra!

 

Dizem que é sedutor e libidinoso; histórias da carochinha! Todas as portas se abrem para ele, todas as famílias o recebem em seu seio!

 

Se dá um baile, não há fidalgo que deixe de ir dançar na casa do ex-velhaco; se é solteiro, ainda que seja feio, velho, e tenha fama de mau e de bruto, as mães metem-lhe as filhas pelos olhos adentro.

 

Quando aparece no teatro, os grandes figurões quase que quebram o espinhaço, fazendo-lhes cortesias.

 

Antigamente era um farroupilha, um trapaceiro desprezível; agora é o amigo de cama e mesa do senhor marquês; é o compadre da senhora viscondessa, é o fidus Achates do senhor conselheiro; é o querido, o nhonhô, o não-me-deixes das moças.  O diabo do dinheiro faz até de um mono um cupidinho, e transforma uma azêmola em um rouxinol

 

Dizem que é estúpido: elegem-no deputado, ou votam nele para senador.  E fica sábio!…

 

Tem fama de gatuno: nomeiam-no tesoureiro.  E fica honrado!

 

Acusam-no de todos os sete pecados mortais, e ainda dos quatro que bradam ao céu: fazem-no juiz ou mordomo das dez irmandades!  E fica santo!…

 

Passa enfim a vida regalada, embora alguns nas costas lhe  mordam; tem tudo quanto deseja e aspira: festas, favores e honras, ainda que pela boca-pequena o abocanhem; e para dizer tudo, fica sendo um senhor da terra, como muitos outros senhores da terra.

 

Viva, pois, o dinheiro, que tudo o mais é história!

 

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Em:  A carteira de meu tio, Joaquim Manuel de Macedo, Porto Alegre, LP&M:2001, 50-52.

 

 

 

Joaquim Manuel de Macedo (Itaboraí, 24 de junho de 1820 — Rio de Janeiro, 11 de abril de 1882) foi um médico e escritor brasileiro: romancista, poeta, cronista literário e dramaturgo.

 

Em 1844, Joaquim Manuel de Macedo, formou-se em Medicina no Rio de Janeiro, e no mesmo ano estreou na literatura com a publicação daquele que viria a ser seu romance mais conhecido, “A Moreninha“, que lhe deu fama e fortuna imediatas.

 

Além de médico, Macedo foi jornalista, professor de Geografia e História do Brasil no Colégio Pedro II, e sócio fundador, secretário e orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, desde 1845. Em 1849, fundou, juntamente com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista Guanabara, que publicou grande parte do seu poema-romance A nebulosa — considerado por críticos como um dos melhores do Romantismo. Foi membro do Conselho Diretor da Instrução Pública da Corte (1866).

 

Abandonou a medicina e criou uma forte ligação com Dom Pedro II e com a Família Imperial Brasileira, chegando a ser preceptor e professor dos filhos da Princesa Isabel.

 

Macedo também atuou decisivamente na política, tendo militado no Partido Liberal, servindo-o com lealdade e firmeza de princípios, como o provam seus discursos parlamentares, conforme relatos da época. Durante a sua militância política foi deputado provincial (1850, 1853, 1854-59) e deputado geral (1864-1868 e 1873-1881). Nos últimos anos de vida padeceu de problemas mentais, morrendo pouco antes de completar 62 anos.

 

 

Obras:

 

Romances

 

A Moreninha (1844)

O moço loiro (1845)

Os dois amores (1848)

Rosa (1849)

Vicentina (1853)

O forasteiro (1855)

Os romances da semana (1861)

Rio do Quarto (1869)

A luneta mágica (1869)

As Vítimas-algozes (1869)

As mulheres de mantilha (1870-1871).

 

Sátiras políticas

A carteira do meu tio (1855)

Memórias do sobrinho do meu tio (1867-1868)

 

Dramas

 

O cego (1845)

Cobé (1849)

Lusbela (1863)

 

Comédias

 

O fantasma branco (1856)

O primo da Califórnia (1858)

Luxo e vaidade (1860)

A torre em concurso (1863)

Cincinato quebra-louças (1873)

 

Poesia

 

A nebulosa (1857)

 

 

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Joaquim Manuel de Macedo é o patrono da cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL).








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