Mãe, poesia infantil de Sérgio Caparelli

28 09 2015

 

 

760718-family circus,“– Como é que você só leu uma página do seu livro, mamãe?”  —  Cartoon, Bil Keane.

 

 

Mãe

 

Sérgio Caparelli

 

De patins, de bicicleta,

de carro, moto, avião

nas asas da borboleta

e nos olhos do gavião

de barco, de velocípedes

a cavalo num trovão

nas cores do arco-íris

no rugido de um leão

na graça de um golfinho

e no germinar do grão

teu nome eu trago, mãe,

na palma da minha mão.

 

 

Em: Poesia fora da estante, Vera Aguiar, Simone Assumpção e  Sissa Jacoby, 13ª edição, Porto Alegre, Projeto: 2007, p.106





A estrada e o cavalinho, poesia infantil de Sérgio Caparelli

11 09 2015

 

cavalinho 2Chico Bento viaja de cavalinho, ilustração Maurício de Sousa.

 

 

A estrada e o cavalinho

 

Sérgio Caparelli

 

 

O cavalinho na estrada

pacatá, pacatá,

com sua sombra mais atrás

pacatá, pacatá.

 

Para ao lado de um riacho,

pacatá, pacatá,

e se vê no espelho d’água,

pacatá, pacatá.

 

Que água limpa e fresca,

pacatá, pacatá,

corre aqui, corre acolá,

pacatá, pacatá,

e uma sombra tão boa

pacatá, pacatá,

não vi noutro lugar,

pacatá, pacatá,

mas a estrada já me chama

pacatá, pacatá,

sempre está a me chamar,

pacatá, pacatá.

 

O cavalinho volta à estrada

pacatá, pacatá,

com sua sombra mais atrás,

pacatá, pacatá.

 

 

Em: Boi da cara preta, Sérgio Caparelli, Porto Alegre,  LPM: 2000, 27ª edição, p. 30.

 

 





Apollinaire, o poeta que ainda surpreende

16 02 2015

 

hirsch_poemIl pleut [Chove]

Guillaume Apollinaire

Caligrama

 

 

Quando se menciona a palavra surrealismo poucos, hoje, pensam na literatura ou na poesia.  O que passa pela cabeça são os relógios derretidos de Salvador Dali ou os homens com chapéu coco e uma maçã no rosto de René Magritte. Vivemos em um mundo mais influenciado pela imagem gráfica do que pela palavra escrita.  No entanto, o surrealismo foi um movimento estético primeiramente literário, fundado por André Breton, um romancista e pintor por surrealiadade e batizado pelo poeta Guillaume Apollinaire (1880-1918), pai da poesia concreta.

Lembrei-me da importância de Apollinaire durante a  leitura de Nadando de volta para casa, de Deborah Levy, porque parte do poema do poeta francês Il pleut [Chove] (imagem acima) tem papel importante e simbólico na narrativa. O poema como podemos ver tenta imitar no papel, com as palavras de seu corpo, as gotas de chuva caindo.

Il pleut des voix de femmes comme si elles étaient mortes même dans le souvenir
c’est vous aussi qu’il pleut, merveilleuses rencontres de ma vie. ô gouttelettes !
et ces nuages cabrés se prennent à hennir tout un univers de villes auriculaires
écoute s’il pleut tandis que le regret et le dédain pleurent une ancienne musique
écoute tomber les liens qui te retiennent en haut et en bas

 

[Chovem vozes de mulheres como se estivessem mortas mesmo na recordação
Chovem também encontros maravilhosos da minha vida ó gotículas
E estas nuvens empinadas começam a relinchar um universo de cidades mínimas
Escuta se chove enquanto a mágoa e o desdém choram uma música antiga
Escuta caírem os elos que te retém em cima e embaixo]

Tradução de Sérgio Caparelli, com o nome A Chuva

 

 

Guillaume_Apollinaire_CalligrammeGuillaume Apollinaire, do livro Calligrammes. [Salut monde dont je suis la langue]

 

Guillaume Apollinaire, como o personagem do romance mencionado acima, era polonês,  Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary Kostrowicki, e adotou o nome Guillaume (tradução para o francês de Wilhelm) Apollinaire  (afrancesamento de um de seus sobrenomes). Nascido na Itália, imigrou para a França onde se tornou importante intelectual; inventou o termo surrealismo e, semelhante às sibilas da antiguidade, profetizou o uso da precisão na digitação de um texto, ou poema, pelos novos meios de reprodução: o cinema e o fonógrafo .

Apollinaire foi o primeiro a usar o termo surrealista publicamente em 1917 na sua peça teatral em dois atos e um prólogo, Les Mamelles de Tirésias, drame surréaliste [As tetas de Tiresias, drama surrealista] O termo se tornou popular imediatamente.  [Mais tarde, em 1947, com permissão de Mme Apollinaire, viúva do poeta, Francis Poulenc inaugurou a ópera-bufa do mesmo nome, com libreto de Apollinaire, e figurinos de Erté.]

 

invitationmamellesConvite da première de Les Mamelles de Tirésias.

 

Mas a maior influência de Apollinaire foi e é ainda na poesia concreta.  Foi a publicação de Calligrammes, em 1918, que o levou a ser considerado o pai da poesia concreta moderna e a dar o nome a uma classificação inteira de poemas (caligramas) cujas palavras formam uma imagem com significado relativo ao seu conteúdo:  Caligramas, Poemas de Paz e Guerra, 1913-1916.

O Caligrama [combinação de duas palavras: caligrafia e telegrama] é fruto da fascinação de Apollinaire com o telégrafo sem fio, sobretudo com contribuição do francês Émile Baudot, que em 1874, inventou uma máquina que transformava os sinais telegráficos de modo automático, em caracteres tipográficos.  Apollinaire definiu seus caligramas como uma idealização do verso livre.  Era poesia com precisão de digitação, usando novos meios de reprodução.

 

 

CaligramaGuillaume Apollinaire, do livro Calligrammes [Reconnais-toi cette adorable personne]

 

Guillaume Apollinaire foi ainda influente na gestação de outros movimentos das artes plásticas como o Futurismo, Cubismo e Orfismo.  Mas nada que se comparasse ao poder de previsão que ele demonstrou em sua famosa palestra, “L’Esprit Nouveau et les Poétes,” [O novo espírito e os poetas]  de novembro de 1917, quando incitou outros poetas a abraçarem a inovação e previu que a poesia do futuro seria inventiva e surpreendente. O dia chegaria em que poetas iriam brincar com seus versos, e teriam a habilidade  de combinar palavras com imagens.

A título de curiosidade, em 1917, Apollinaire morava no bairro de Montparnasse em Paris e contava entre seus amigos e atendentes dessa palestra Pablo Picasso, Gertrude Stein, Marie Laurencin e Marcel Duchamp, todos ainda longe dos louros que receberiam mais tarde, como pensadores culturais da modernidade.





O buraco do tatu, poesia infantil de Sérgio Caparelli

11 11 2012

Chico Bento joga tatu-bola, ilustração de Maurício de Sousa.

O buraco do tatu

Sérgio Caparelli

O tatu cava um buraco

a procura de uma lebre,

quando sai pra se coçar,

já está em Porto Alegre.

O tatu cava um buraco,

e fura a terra  com gana

quando sai pra respirar

já está em Copacabana.

O tatu cava um buraco

e retira a terra aos montes,

quando sai pra beber água

já está em Belo Horizonte.

O tatu cava um buraco

dia e noite, noite e dia,

quando sai pra descansar,

já está lá na Bahia.

O tatu cava um buraco,

tira a terra, muita terra,

quando sai por falta de ar,

já está na Inglaterra.

O tatu cava um buraco

e some dentro do chão,

quando sai pra respirar,

já está lá no Japão.

O tatu cava um buraco

com as garras muito fortes,

quando quer se refrescar

já está no Polo Norte.

O tatu cava um buraco

um buraco muito fundo,

quando sai pra descansar

já está no fim do mundo.

O tatu cava um buraco,

perde o fôlego, geme, sua,

quando quer voltar atrás,

leva um susto, está na lua.

Em: Boi da cara preta, Sérgio Caparelli, Porto Alegre,  LPM: 2000, 27ª edição





A Bailarina, poema infantil de Cecília Meireles

17 05 2009
Bailarina, ilustração de Yuri Dyatlov.

Bailarina, ilustração de Yuri Dyatlov.

 

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A bailarina

                                                        Cecília Meireles

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá

Mas inclina o corpo para cá e para lá.

—–

Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.

—-

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.

—-

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

—-

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

—-

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

—-

—- 

Ouça este poema na voz do grande ator brasileiro Paulo Autran:

——

——

 Cecília Meireles

 

 

 

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (RJ 1901 – RJ 1964) poeta brasileira, professora e jornalista brasileira.

Obras:

Espectros, 1919

Criança, meu amor, 1923

Nunca mais…, 1924

Poema dos Poemas, 1923

Baladas para El-Rei, 1925

O Espírito Vitorioso, 1935

Viagem, 1939

Vaga Música, 1942

Poetas Novos de Portugal, 1944

Mar Absoluto, 1945

Rute e Alberto, 1945

Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1948

Retrato Natural, 1949

Problemas de Literatura Infantil, 1950

Amor em Leonoreta, 1952

12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952

Romanceiro da Inconfidência, 1953

Poemas Escritos na Índia, 1953

Batuque, 1953

Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955

Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955

Panorama Folclórico de Açores, 1955

Canções, 1956

Giroflê, Giroflá, 1956

Romance de Santa Cecília, 1957

A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957

A Rosa, 1957

Obra Poética,1958

Metal Rosicler, 1960

Antologia Poética, 1963

História de bem-te-vis, 1963

Solombra, 1963

Ou Isto ou Aquilo, 1964

Escolha o Seu Sonho, 1964

Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965

O Menino Atrasado, 1966

Poésie (versão francesa), 1967

Obra em Prosa – 6 Volumes – Rio de Janeiro, 1998

Inscrição na areia

Doze noturnos de holanda e o aeronauta 1952

Motivo

Canção

1º motivo da rosa





Mãe, poema infantil de Sérgio Capparelli

6 05 2009
Ilustração:  Maurício de Sousa

Ilustração: Maurício de Sousa

Mãe

                   Sérgio Caparelli

De patins, de bicicleta,

de carro, moto, avião

nas asas da borboleta

e nos olhos do gavião

de barco, de velocípedes

a cavalo num trovão

nas cores do arco-íris

no rugido de um leão

na graça de um golfinho

e no germinar do grão

teu nome eu trago, mãe,

na palma da minha mão

Em: Poesia fora da estante, ed. Vera Aguiar, Porto Alegre, Editora Projeto: 2007, 13ª edição.





A casa de Dona Rata — poema de Sérgio Capparelli

24 06 2008

Caulus, ilustração poema Dona Rata

 

Na casa de Dona Rata,

tem uma enorme goteira.

Quando chove, ninguém dorme,

acordado, a noite inteira.

A goteira é tão grande

que molha a sala e a cozinha,

quarto, banheiro, despensa

e mais de vinte ratinhas.

Dona Rata contratou

um ratão para o conserto:

— De que adianta eu subir,

se o telhado não tem jeito?

Não tem jeito, seu Ratão

explique então esse caso.

— Sua casa, dona Rata,

não tem telha nem telhado.

 Ilustração de CAULUS. 

Do livro: Boi da Cara Preta, autoria de Sérgio Capparelli, Porto Alegre:LP&M, 1998. 27ª edição.

Caulus, (MG) desenhista humorístico; ingressou na Marinha Mercante, Rio de Janeiro, mas desistiu da carreira militar e resolveu se dedicar ao desenho. Via os filmes e depois desenhava.Tornou-se desenhista exclusivamente urbano. Apresenta cenas de seus desenhos de humor e de cidades.








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