Resenha: “O círculo dos Mahé”, Georges Simenon

6 06 2018

 

 

 

Vista da ilha de PoquerollesVista da ilha de Porquerolles

Albert Marquet (França, 1875 – 1947)

óleo sobre tela,   33 x 41 cm

 

 

Engana-se quem se aproximar de O circulo dos Mahé pensando em encontrar Inspetor Maigret solucionando crimes.  Este é um dos romances de Georges Simenon chamados “dur” [Duros] , em geral desconhecidos no Brasil, mas que ajudaram a caracterizar o autor como um dos grandes escritores de língua francesa do século passado.  Quase um conto,  a história não ocupa mais do que 120 páginas, — traduzido por André Telles, e traz com ela o espírito de pós-guerra  europeu, um mundo sem grandes esperanças, cinzento e amargo. Passado no final da década de quarenta — originalmente publicada em 1946,  Simenon retrata um homem de trinta e cinco anos,  que hoje seria jovem, mas na época considerado maduro. Médico, com família: esposa, filhos e mãe dominadora que tudo decide por ele.  Um homem de espírito fraco, introvertido, que preenche o papel para o qual foi preparado e ordenado por sua mãe.

 

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Dr. François Mahé  constrói sistematicamente e sem entusiasmo uma clínica medianamente próspera. Parte deste sucesso inclui férias anuais para a família, na costa mediterrânea. Certa vez passam o período de folga em Porquerolles, ilha ao sul da França.  O verão lá é quente, o ar não se move, o sol inclemente.  O local não é aprazível, mesmo assim, ano após ano ele e a família retornam, porque na primeira visita, a que abre o texto para nós, Dr. Mahé é confrontado com o que não espera, com a vida como outros vivem.  Chamado para atender uma mulher à beira da morte, Dr. Mahé se encanta com a filha desta paciente, meninota ainda, adolescente, que se transforma em mulher com a passagem dos anos e repetidas férias em Porquerolles. A atração que sente é controlada e fantasiosa.  Tenta, sem sucesso, macular a imagem da moça em sua mente ao sugerir que o sobrinho a conquiste.  Mas ela é mais do que um fascínio, ela acentua, para ele e para nós leitores,  seu próprio descontentamento com o casamento, desagrado com cotidiano,  monotonia e  tédio da vida social e enfado com a profissão. Depois da morte de sua mãe esses sentimentos parecem voltear em espiral a seu redor.  Até que uma decisão é tomada.  Surpreendente mas lógica.

 

simenon_0889053001334762410George Simenon

 

A arte de Georges Simenon está no poder de síntese, na narrativa que mostra e não rotula, no retrato psicológico feito pela ação ou marasmo de seus personagens. Nada é extra, não há cena descartável.  E no fim de uns poucos parágrafos temos toda angústia do personagem, a carência de sentimentos, o acanhamento de decisões, o dissabor com a vida, o confinamento do homem na família e nos poucos amigos, a asfixia das obrigações. É um drama existencial. Extremamente forte, O círculo dos Mahé,  revela um delicado estudo da alma humana.  Belíssimo.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Descobrindo o outro: por fotos ou livros, texto de Antoine Laurain

6 06 2016

 

 

Edouard John Mentha Late 19th-early 20th centuryMaid Reading in a LibraryArrumadeira lendo na biblioteca

Edouard John Mentha (Suíça, 1858-1915)

óleo sobre tela

 

 

 

“…Uma parede inteira era coberta por uma grande estante, em que várias prateleiras eram dedicadas a livros de arte — alguns recentes, outros muito antigos, que Laure deveria ter obtido ao longo dos anos.  Arquitetura, pintura — douração, claro — , mas  também catálogos de leilões. Uma prateleira terminava em vários livros de Sophie Calle, entre os quais uma de suas obras-primas poéticas: Suite vénitienne. Em 1980, Sophie havia decidido, numa pura iniciativa artística, seguir homens — ao acaso, na rua, e sem que eles soubessem. À maneira de um detetive particular, desses longos passeios trazia fotos em preto e branco de homens, de costas, em diferentes lugares. Desconhecidos que ela havia seguido durante tardes inteiras. Certo dia em que ela havia notado uma nova presa, esta lhe escapou e desapareceu na multidão. À noite, o homem lhe foi apresentado durante um jantar mundano. Ele lhe disse que dentro em pouco partiria para Veneza. Secretamente Sophie Calle decidiu recomeçar — segui-lo incógnita até as ruelas e os canais de Veneza. Dessa expedição, trouxe um diário de bordo de setenta e nove páginas e cento e cinco fotos em preto e branco, posfaciados por Jean Baudrillard. A investigação havia terminado quando o homem a reconhecera e lhe dirigira a palavra. O melhor, não totalmente, já que ela conseguiu voltar à Gare de Paris alguns minutos antes dele e fazer uma última foto. No entanto, a tensão da busca e a  magia tinham se evaporado no momento do encontro. O retorno à realidade havia anunciado o fim da história.

Laure possuía a edição original — dificílima de encontrar e também caríssima. Em outra prateleira exibiam-se os romances. Laurent encontrou ali muitos Modianos, tanto de bolso quanto brochura,  só para verificar tirou vários, e constatou que nenhum tinha dedicatória.  Havia também livros policiais, ingleses, suecos, irlandeses. Romances de Amélie Nothomb, vários Stendhal, dois Houellebecq, três Echenoz, dois Chardonne, quatro Marcel Aymé, Apollinaire inteiro, Nadja, de Breton, em edição antiga. O príncipe, de Maquiavel, em livro de bolso, e ainda uns Le Clézio, uns dez Simenon, três Murakami, mangás Jiro Taniguchi. A ordem era totalmente aleatória, Poésies de Jean Cocteau era vizinho de Saga, de Tonino Benacquista, que, por sua vez se encontrava junto de O banheiro, de Jean-Phillipe Toussaint, cuja capa ladeava um grosso volume em couro marron lavrado a ouro. Laurent tirou este último da prateleira.”

 

 

Em: A caderneta vermelha, Antoine Laurain, Rio de Janeiro, Alfaguara:2016, p. 85-6.








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