A solução de Rosa Montero: consideração para com o nosso semelhante, em Instruções para salvar o mundo

14 09 2011

A bebedora de absinto, 1901

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

Óleo sobre tela,

Hermitage, São Petersburgo, Rússia

Meu primeiro contato com Rosa Montero foi através do fantástico História do rei transparente [Ediouro: 2006], que devorei em dois dias.  Amei!  Mais tarde, vim a ler A louca da casa, [Ediouro: 2004],  Histórias de mulheres [Agir: 2008], A filha do canibal [Ediouro:2007] e agora, este mês, Instruções para salvar o mundo [Record: 2010].  O que surpreende nessa escritora espanhola é o camaleonismo, ou melhor, como cada um de seus livros parece ter um estilo diverso, um narrador diferente, um tema inesperado.  O que os une, a todos, é uma voz narrativa que carrega o leitor por tortuosos e imaginativos caminhos.  Essa também é a característica de Instruções para salvar o mundo.

Quatro personagens principais preenchem o espaço desse romance.   Três são o centro do drama:  Matias, um taxista viúvo, que agoniza diariamente pela perda de sua esposa para o câncer;  Daniel um médico frustrado,  mais ambicioso do que sua capacidade de  dedicação profissional e com a satisfação na vida pessoal inexistente  e Fatma,  natural de Serra Leone, belíssima mulher e prostituta.   Eles parecem ter pouco em comum, mas invadem o nosso mundo imaginário quando suas vidas se mostram interligadas, apesar de extremamente solitárias.  Em contraponto, quase que preenchendo o papel que seria do coro numa tragédia grega, temos Cérebro, cognome de uma ex-professora universitária, uma cientista, cuja linha de pensamento nos mostra o caminho de Rosa Montero.  Cérebro não só é minha personagem favorita pela clareza de seu raciocínio, como é também quem dá a dimensão da tragédia que testemunhamos.  Aos poucos, e graças à força narrativa da autora, esses dois homens e duas mulheres nos envolvem e participamos silenciosamente da absoluta solidão em que vivem,  presenciamos o desespero calado que os corrói.   A falta de perspectiva de uma vida melhor parece inviável para cada um.  E sufoca.

Os personagens vivem num caos emocional que praticamente os deixa anestesiados para a vida cotidiana.  Ou, porque não conseguem perceber nada além do vazio interno que os preenche,  ou porque se dopam, ou se retiram do momento atual, do presente,  para algum lugar  íntimo, interior, onde podem sobreviver as penas de um cotidiano irreparável, como acontece com Fatma.  O mundo externo, fora dessas emoções contidas e reprimidas, está também presente no caos das mudanças climáticas que os rodeiam, refletido no calor fora de época da cidade.  Todos quatro são cidadãos de uma gigante metrópole, igual a dezenas de outras, parecidas com aquelas em que vivemos.  E, como muitos desses cidadãos, como habitantes dessas zonas urbanas, eles passam a vida paralisados nas suas angústias, entorpecidos nas suas emoções.

Rosa Montero

A solução de Rosa Montero para saciar esse desespero interno de cada um é a bondade.  A bondade com o nosso semelhante, o desprendimento.  Talvez uma solução por demais ingênua e idealista para essa leitora.  Algo de irreal, de conto de fadas nessa solução me dá pausa.  Sinto-me crítica.  Talvez eu mesma já esteja, como os personagens da trama, cáustica, amarga, incrédula para considerar tal sugestão com o peso que uma autora como Rosa Montero merece.   Este é o grande senão que tenho com o romance.   As questões sobre o que está acontecendo com a humanidade, o que está acontecendo com o lugar em que vivemos que inevitavelmente temos que levar em conta ao longo da leitura de Instruções para salvar o mundo não só são difíceis de responder, mas também impossíveis de serem solucionadas por ato tão simples e pequeno, quanto esse romance.    Mas fica aqui a minha admiração por quem tem a coragem de levantar essas questões.

Aqui, uma entrevista da autora em espanhol, legendada:






A leitura como solução para os problemas nas escolas

27 05 2009

lendo 67 avelino guedes

Menino lendo, ilustração Avelino Guedes.

 Há uma semana mais ou menos, o Ministério da Educação deu mostras de tentar valorizar a leitura no ensino médio, depois das grandes mudanças propostas que deverão ser implementadas ainda neste governo.  Para manter a boa vontade e não duvidar da seriedade do programa eu gostaria de poder evitar dizer que os especialistas do Ministério da Educação parecem estar anunciando que descobriram a pólvora quando se pronunciam como a Sra. Maria Eveline Villar Queiroz, coordenadora geral do ensino médio no ministério, desta maneira: “A leitura dá autonomia no aprendizado, na escola, na universidade e no mundo do trabalho”.  Mas, é verdade.  Sinto um cheirinho de pólvora no ar.  Todos nós que conhecemos o valor da educação, já havíamos cansado de anunciar esta solução.  No entanto o óbvio volta a ser desfraldado como uma nova descoberta…  Mas, vou deixar a crítica de lado, cruzar os meus dedos, bater na madeira,  e mandar vibrações positivas para que, de fato, este programa seja levado a sério.  De acordo com Maria Eveline, colocar a leitura no centro do currículo tem o objetivo de preparar o cidadão para a vida.  

 Infelizmente, acho que estamos esperando mais do que poderá ser feito.  Há um toque de grandiosidade, uma nesguinha megalomaníaca governamental.  Porque o programa não vem sozinho.   Ele será também responsável por solucionar outros problemas que afligem os nossos adolescentes: do abandono escolar à gravidez de adolescentes.   E quando a gente começa a esperar muita coisa de uma solução facílima e óbvia, é  porque todas as nossas idéias já se esgotaram e sabemos que há muito mais a ser corrigido do que o aparente.  Em suma: temos um cobertor curto para muito frio.  

 O  programa também quer oferecer uma escola mais atrativa para o aluno e, assim, reduzir os índices de abandono.  Entre as inovações que o MEC sugere estão a ampliação da carga horária dos três anos do ensino médio para três mil horas (hoje são 2.400 horas); a leitura como elemento central e básico em todas as disciplinas; estudo da teoria aplicada à prática; fomento às atividades culturais; professor com dedicação exclusiva.

 

 

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Nestor e Zé Carioca, ilustração Walt Disney.

 Espero que todos envolvidos nesse trabalho tenham tido um curso de noções básicas de contabilidade para que saibam direitinho de onde estará vindo o dinheiro para tanto.  Espero que tenham feito uma correção nos salários dos professores, pois são muito mal pagos e para exigir dedicação exclusiva o MEC terá que mudar a escala salarial de maneira substantiva.  Mais professores serão necessários para uma nova carga horária de âmbito nacional, assim como os gastos extras com livros, merenda escolar e tudo o  mais que estes programas irão necessitar.  Longe de mim, torcer contra.  Esse não é o caso.  Mas recentemente um jornal local, mostrou fotos de escolas no interior de estados diversos, do nordeste ao norte, centro-oeste e outras regiões com escolas abandonadas e salas de aula cheias de goteiras por falta de verbas e de manutenção.   Que esse não seja o futuro desse programa. 

 Tenho sempre um pé atrás com programas federais que surgem como soluções miraculosas dezoito meses antes das eleições para um novo governo.  Quem acredita, como eu, que a educação é a única coisa que irá nos salvar de um futuro de servidão à China e à Índia, tem esperanças de que pelo menos AGORA o governo esteja sério.  Mas esperanças são sopros vazios principalmente quando baseadas em promessas eleitorais, e tudo indica, no momento, que estamos num processo de sedução: a oferta de um futuro brilhante pelo menos até as próximas eleições. 

 Comentários sobre um artigo do portal UOL.





BOAS NOTÍCIAS DO RECIFE!

29 04 2009

plantando_uma_rosa_65x45cm_-_2000

 

 

 

Um grupo de voluntários aproveitou o feriado de Tiradentes, na terça-feira da semana passada, para plantar várias espécies no município do Cabo de Santo Agostinho, na região metropolitana do Recife. Cerca de 70 voluntários, a maioria crianças,  participaram do mutirão de reflorestamento.  Pelo menos 200 árvores típicas da Mata Atlântica foram plantadas em um terreno de oito hectares localizado na zona rural da comunidade de Vila do Rosário, área de preservação ambiental. Ao lado de cada muda, foi colocada uma placa com o nome de quem a plantou.

 

A psicóloga Goreti de Sá mora na região há 12 anos. Ela e outras duas pessoas tiveram a idéia de criar um centro de vivência ecológica para colocar em prática ações de preservação da natureza.

 

– Nossa intenção é mensalmente juntar um grupo de pessoas sensíveis à natureza e plantar árvores – explica.

 

O motorista de transporte público Gilberto Vasconcelos foi um dos coordenadores do mutirão.  Ele criou, há dois anos, o projeto “Adote uma árvore”. Ele sonha conseguir plantar em Pernambuco cem mil mudas de árvores. Com tanta gente ajudando, Gilberto Vasconcelos acredita que esse desejo pode virar realidade.

 

Quando eu decidi colocar essa estimativa de cem mil árvores plantadas, eu não imaginava a dimensão que esse projeto ia tomar. Muitos apoiaram esse projeto, comunidades, crianças e universitários. Espaço para plantar é que não vai faltar – diz.

 

O projeto Adote uma árvore foi criado pela preocupação de Gilberto Vasconcelos com a degradação do meio ambiente.  Seu objetivo é plantar 100 mil árvores na Região Metropolitana do Recife.

 

Para fazer essa ação solidária, o motorista, que mora do bairro de Aguazinha, conta com a ajuda dos passageiros. “Alguns passageiros que regulamente andam no meu veículo, juntam garrafas pet para ajudar no meu projetoAdote uma árvore – serviço ambiental”, explica.

 

As garrafas servem para separar as mudas das plantas e são recolhidas não só com os passageiros voluntários, mas também no lixo. “A questão de optar pelo uso das garrafas é para economizar. Um saco de muda custa R$ 0,20. Parece pouco, mas para quem pretende plantar 100 mil árvores é bastante. Onde eu iria arrumar R$ 20 mil para comprar só em saquinhos?

 

Eu tenho o maior prazer de fazer isso. Muitas pessoas perguntam por que eu gasto meu dinheiro com isso”, conta o motorista plantador de árvores. “Para mim não existe dinheiro que pague a satisfação de ver uma árvore nascer, crescer e purificar o ar que a gente respira”, disse.

 

 

Fonte: O Globo








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