Resenha: “Assunto pessoal”, W. Somerset Maugham

27 01 2018

 

 

 

john-kingsley Escócia. 1956. cap-ferrat, ost, 75 x 75 cm.jpgCap Ferrat

John Kingsley (Escócia, 1956)

óleo sobre tela, 75 x 75 cm

 

 

Assunto pessoal é um livro delicioso! Podia não ser.  Trata-se das memórias de Somerset Maugham sobre o período da Segunda Guerra Mundial.  Apesar dos trâmites do início da guerra retratados pelo autor, não é um livro pesado. É uma leitura sedutora pela prosa eloquente, fluida, com o gosto de causos contados  no fim do dia, na varanda ou próximo à lareira; uma tradução impecável de Leonel Vallandro, que faz o português rolar pelo texto sem nenhuma lembrança do original em inglês, um português correto,  formal, como era também o inglês de Maugham; e sobretudo a visão de alguém que apesar de ter vivido grande parte de sua vida fora da Grã-Bretanha manteve alguns traços na escrita que associamos aos ingleses:  ironia, soberba, fino senso de humor. Há um ponto de vista definitivamente inglês que diverte mesmo quando é cáustico.

Maugham foi um dos mais importantes escritores da primeira metade do século XX, além de um dos mais bem pagos.  Escritor e dramaturgo também trabalhou para serviço secreto britânico quando residiu na Suíça e na Rússia antes da revolução. Morou na Índia e no sudeste asiático durante a Primeira Guerra. Já havia permanecido na infância fora da Inglaterra, quando voltou, aos dez anos, órfão de pai e mãe, estudou no Kings College, e foi fruto de chacota dos colegas de turma, por falar o inglês com alguns erros, já que sua língua mãe havia sido o francês. Nascera em Paris onde seus pais moravam.  Talvez toda essa experiência no exterior justifique a facilidade que tem de analisar ingleses e europeus com alguma distância, como vemos nessa obra.

 

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Essas memórias começam quando a Alemanha invade a Polônia e parece lógico que a França seria a próxima a cair no domínio germânico.  Maugham, que reside já há tempos em Cap Ferrat, no sudeste do território francês,  primeiro escreve alguns artigos sobre a situação na França do início dos anos 30 até mais tarde, por volta de 1940, quando tendo feito contato o serviço secreto britânico, passa a  reportar sobre posicionamento e estado das tropas francesas no continente.   Os arredores de Nice, na Côte d’Azur, na década de 1930, foram locais onde grandes milionários construíram belas casas de verão e também local onde muitos ingleses, não tão ricos, escolheram para morar, pois suas rendas, aposentadorias, tinham por lá, maior poder aquisitivo do que teriam na Inglaterra. Às vésperas da submissão da França à Alemanha, Maugham e outros ingleses fazem a difícil travessia do Mediterrâneo para a Inglaterra, como refugiados.  São viagens de navio difíceis, onde testemunha muito sofrimento e onde vemos que os ricos também tiveram que passar por sofrimento, mortes e restrições raramente lembradas hoje. Ter um relato de primeira mão sobre essa travessia, seus perigos e Londres sob ataque de bombardeios e a reação de seus habitantes  é algo valioso e interessante.  Muito melhor ainda quando bem escrito com um certo humor e ironia que não suscita melodramas.

 

MaughamWilliam Somerset Maugham

 

Somerset Maugham adapta sua prosa muito bem ao serviço das memórias.  Suas observações sobre as pessoas e acontecimentos que o cercam são tratadas com ironia e temperadas pela precisa observação do ser humano. Mais valiosa ainda é a descrição da época e de seu modo de pensar.  Por exemplo aprendemos que se pensava que Hitler estivesse blefando.  Por outro lado, Londres sob pressão alemã é relatada vividamente. Mesmo assim é um livro de leitura fácil, agradável, cuja ironia não passa despercebida. O realismo é contido e o momento histórico preservado. É, sim, uma aula de história, mas delicada, leve e atraente.  Aprendemos sem sentir.  E termina com uma dose de otimismo sobre o futuro da Inglaterra.  Recomendo.  Está esgotado, no Brasil. Mas vale a pena procurar.

PS: Você encontrará neste blog alguns trechos que achei deliciosos e postei.  Eles lhe darão uma ideia da encantadora narrativa.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Um encontro inesperado, W. Somerset Maugham

30 12 2017

 

 

Alfred Lyndon Grace (British, 1867-1949) After Dinner, Port and PipesDepois do jantar, porto e cachimbos

Alfred Lyndon Grace (GB, 1867-1949)

óleo sobre tela, 61 x 76 cm

 

 

“Minha segunda aventura foi do gênero humorístico. Estava sendo conduzido através da zona rural por uma mulher que muito fazia, como algumas outras inglesas e americanas caridosas, para melhorar a sorte dos infelizes refugiados; como principiasse a fazer-se tarde, eu disse que precisava tratar de arranjar um quarto em algum hotel, para passar a noite.

–Não se preocupe com isso — respondeu ela. — Tenho uns primos distantes que moram nestas redondezas e o acolherão com prazer. São provincianos, gente muito siples, mas ótima, e lhe darão um bom jantar.

— Muito gentil da parte deles — retruquei.

Minha companheira não mencionou o nome dos seus parentes e não me ocorreu perguntar-lho. Do que ela havia dito depreendi que se tratava de gente pobre que vivia muito modestamente; foi, por isso, uma surpresa para mim quando, ao anoitecer, entramos numa cidadezinha e paramos diante de uma casa que, ao lusco-fusco, tinha um aspecto assaz imponente. Fomos recebidos por um homem gordo, de estatura baixa, xom um rosto vermelho de feições comuns. Trajava uma roupa preta que não lhe sentava muito bem e tinha a aparência de um típico burguês francês. Conduziu-me a um quarto bem aquecido, confortavelmente mobilado, e notei com satisfação que havia um banheiro ao lado. Disse-me ele que o jantar era às sete e meia. Tomei um banho e, como me sentisse muito cansado, dormi um pouco. À hora marcada desci e tratei de encontrar o living, em cuja lareira ardia um belo fogo de troncos. Meu anfitrião, que ali se achava, ofereceu-me um cálice de xerez. Afundei-me numa vasta poltrona.

— Encontrou uma garrafa de conhaque no seu quarto? — perguntou-me ele.

— Não procurei — respondi.

— Sempre tenho uma garrafa de conhaque em todos os quartos de dormir da casa, até nos quartos das meninas. Elas nunca tocam nessas garrafas, mas agrada-me saber que as têm consigo.

Achei a ideia esquisita, mas não disse nada. Pouco depois o meu cicerone feminino entrou em companhia de uma senhora morena e magra, a quem fui apresentado. Era irmã do dono da casa, mas não lhe apanhei bem o nome. De algumas frases pronunciadas durante a conversa inferi que o meu anfitrião era solteiro e a irmã hospedara-se em sua casa com duas filhas pelo tempo que durasse a guerra, pois seu marido tinha sido mobilizado. Rumamos para a sala de jantar, onde já nos aguardavam duas mocinhas, respectivamente de quatorze e quinze anos presumíveis, com uma empertigada governanta. Fomos servidos por um velho mordomo e uma criada.

— Abri em sua intenção o meu último garrafão de clarete, um Château-Larose de 1874 — disse o dono da casa.

Eu nunca tinha visto ainda um garrafão de clarete. Fiquei impressionado. O vinho era delicioso. Para um parente pobre, pareceu-me que o dono da casa ia bastante bem de vida. A comida era excelente — verdadeira comida francesa do campo, copiosa, talvez um tantinho pesada e muito temperada, mas saborosíssima. Um dos pratos estava tão bom que não pude deixar de comentá-lo.

— Estimo que tenha gostado — disse o anfitrião. — Na minha casa todos os pratos são cozidos com conhaque.

Começou a parecer-me que aquela casa era realmente muito estranha e desejei, mais do que nunca, saber quem era o hospitaleiro indivíduo. Terminamos de jantar e tomamos um cafezinho, após o que o mordomo trouxe uns copos grandes e uma imensa garrafa de conhaque. Eu já tinha ingerido uma boa quantidade de clarete e, em vista de me achar entre estranhos, achei prudente não tomar mais álcool. Recusei, portanto, o conhaque.

— Como! — exclamou o meu anfitrião, caindo para trás na poltrona. — O senhor vem passar a noite em casa de Martell e enjeita um copo de conhaque!

Eu havia jantado em casa do maior negociante mundial de conhaque.

— E olhe bem! — acrescentou ele. — Este conhaque não está à venda. É um tipo que eu reservo para o meu consumo particular.

Diante disso, força me foi abandonar a minha circunspecção.  O resto do serão passou-se bem depressa, ouvindo-lhe contar o romântico episódio do descobrimento do conhaque e os dois séculos de história da sua firma. Parti no dia seguinte, com um cordial convite para voltar quando a guerra houvesse terminado.”

 

Em: Assunto pessoal, William Somerset Maugham, Globo: 1959, tradução de Leonel Vallandro, pp 93-96

 





“Erda, a schnauzer”, W. Somerset Maugham

26 12 2017

 

 

 

ba7de7a2c670L. Riedler circa 1900Como isso acabará?, c. 1900 *

L. Riedler (Alemanha, meados do século XIX)

óleo sobre painel de madeira, 26 x 25 cm

 

 

“Havia diversos cães rasteiros na casa, nunca menos de quatro, mas quando nascia uma nova ninhada, me antes dos cachorrinhos terem bastante idade para ser dados de presente aos conhecidos, o seu número elevava-se por vezes a dez. A linhagem começara anos atrás com um elegante animalzinho de cor castanha clara, chamado Elsa, em homenagem à exasperante heroína do Lohengrin e todos os seus descendentes tinham recebido nomes wagnerianos.  Elsa era agora uma matrona de idade respeitável e deveria ter juízo; seu aspecto era, com efeito, sossegado, mas ainda ardiam nela as chamas da mocidade como, infelizmente, sucede muitas vezes com a fêmea da espécie humana depois que a idade lhe embotou de maneira por demais visível a infinita variedade, e em certas quadras do ano, era difícil fazer-lhe ver que, tendo posto no mundo uma progênie tão numerosa, convinha agora dar por terminada a sua missão. Tantos filhos e netos tivera que se tornava cada vez mais trabalhoso encontrar-lhes nomes adequados, e Erda recebera o seu porque não pudemos imaginar outro.  Era preta e bege, pequenina, com uma bela cabeça, mas com um corpo atarracado que herdara do pai, o qual pertencia a um arquidiácono e, apesar do seu pedigree inatacável, adquirira, devido a essa ligação com a igreja anglicana, uma aparência maciça e algo pomposa. Erda pertencia a uma ninhada de seis cachorros e, por motivos que só ela conhecia, adotara-me desde tenra idade como sua posse exclusiva. Indignava-se quando me via dispensar atenções aos outros dachs e, se eu insistia, cortava toda relação comigo por um ou dois dias. Teimava em dormir na minha cama, não nos pés como costuma fazer todo dachs bem comportado, mas no meio, com grande inconveniente para mim, e todas as reclamações que eu fazia eram inúteis. Estava convencida de que aquele lugar era seu de direito. Seguia-me como uma sombra. Quando tinha três meses, acompanhara-me uma vez em que fui tomar banho de mar. Mergulhei do alto de uma pedra e, pensando que eu me afogaria, infalivelmente, ela saltou na água para me salvar. Mas o elemento lhe era completamente estranho e assustou-se. Tentou  sair, mas a pedra era íngreme e não pode trepar por ela; foi tomada de pânico e quando a agarrei, debateu-se violentamente  no seu terror. Tive alguma dificuldade de levá-la para terra firme. Desde então, acompanhava-me sempre durante parte do caminho, mas quando percebia a minha intenção parava, ladrava-me uma ou duas vezes para me advertir do perigo e abalava para casa o mais depressa que podia. Seu pensamento era claro: se esse imbecil faz questão de se afogar, eu pelo menos não quero estar presente.

Quando Erda via trazerem para baixo malas e maletas, compreendia que eu ia ausentar-me, punha-se a vaguear triste e amuada pela casa; mas quando eu regressava a sua alegria era tumultuosa. Corria como doida pelo aposento, saltava sobre mim e deitava-se de costas para que eu lhe afagasse o ventre; mas no meio dessas festas lembrava-se de que eu fora tremendamente injusto em abandoná-la e punha-se a soluçar. Isso era tocante ao extremo e fazia com que eu me sentisse em bruto egoísta. Ela nunca amou ninguém senão a mim. Nas estações apropriadas tinham-lhe sido arranjados casamentos com noivos de incomparável beleza e da mais aristocrática linhagem, mas Erda invariavelmente lhes recebia as propostas com tão violenta hostilidade que desencorajava até o mais ardoroso pretendente. Talvez pensem que os seus gostos eram vulgares e que não teria ficado indiferente às persuasões de um admirador plebeu. Seria fazer-lhe injustiça. Mastins, schnauzers, alsacianos, cães-d’água, terriers, a todos repeliu e, como a grande filha de Henrique VIII, a Rainha Virgem, optou por uma vida de celibato.”

 

Em: Assunto pessoal, William Somerset Maugham, Globo: 1959, tradução de Leonel Vallandro, pp 49-51

 

 

* um de um par

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É assim que acabará, c. 1900 *

L. Riedler (Alemanha, meados do século XIX)

óleo sobre painel de madeira, 26 x 25 cm

 





Desenvolvendo um romance, W. Somerset Maugham

18 12 2017

 

 

 

Claude Andrew CalthropVelhas cartas e folhas secas

Claude Andrew Calthrop (Inglaterra, 1845-1893)

óleo sobre tela

Christopher Wood Gallery, Londres

 

 

“Só consigo escrever algo quando disponho de amplo e sólido cabedal de informações com que trabalhar. Esperava que essa visita me permitisse dar um pouco de forma às profusas impressões que havia colhido e completar a trama que se esboçava vagamente na minha fantasia. Decidi não trabalhar enquanto não estivesse na Índia; até então, brincaria com as ideias que me acudiam ao espírito e trataria de conhecer mais intimamente as criaturas da minha imaginação que deviam tomar parte na narrativa. É esse o setor da atividade do romancista que lhe proporciona o mais puro prazer; não envolve nenhum trabalho e nenhuma responsabilidade ; o exercício fácil e espontâneo da faculdade criadora enche-o de exultação e o mundo inventado por ele é tão real que faz com que o mundo de verdade pareça um tanto vago e nebuloso, tornando-se-lhe difícil levar a sério. Esse mundo do romancista é tão importante e tão rico que ele se sente inclinado a protelar indefinidamente o dia em que, empunhando por fim a pena, terá de quebrar o encanto e permitir que o seu mundo pessoal e completo se perca no mundo comum a toda gente.”

 

 

Em: Assunto pessoal, William Somerset Maugham, Globo: 1959, tradução de Leonel Vallandro, pp 8-9





Lendo: William Somerset Maugham

17 12 2017

 

 

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ASSUNTO PESSOAL

William Somerset Maugham

Editora Globo: 1959, 226 páginas

 

SINOPSE

A deflagração da 2ª guerra mundial surpreende Somerset Maugham a viver no conforto de sua principesca Villa Mauresque, em Cap Ferrat, na Riviera francesa. O escritor, como um protegido dos deuses, colhia em vida os generosos frutos da glória literária.

Mas o conflito não o deixa insensível nem inativo. Oferece seus préstimos ao Ministério de informações da Inglaterra e recebe a tarefa de observar o moral das forças francesas e do operariado nas fábricas de munições e armamentos.

Isso lhe dá a oportunidade de ver a guerra por dentro e de acompanhar dia a dia aquele lamentável estado de coisas que conduziu a França à derrota, fazendo descer sobre o mundo civilizado a longa “noite de agonia” a que se referiu Maritain.

Sobrevém a capitulação. Maugham é obrigadoa dispensar a criadagem e a abandonar à própria sorte sua magnífica vivenda em Cap Ferrat, embarcando para a Inglaterra num pequeno navio carvoeiro na companhia de mais quinhentos refugiados.  Que viagem espantosa! Mais de vinte dias sob ameaça dos submarinos alemães, sujeira, desconforto, privações de toda sorte. Momentos trágicos, cômicos e patéticos nessa verdadeira odisseia em busca da velha Albion, a ilha da resistência. Depois: Londres, a blitzkrieg, a fleuma britânica e as durezas de uma guerra impiedosa e sem entranhas, cenas comoventes e heroicas daquela luta que exigiu “sangue, suor e lágrimas”, e o desfilar, diante de nossos olhos, de algumas figuras de dirigentes nacionais, que pertencem à história.

Finalmente, a viagem do autor para os Estados Unidos, onde permanecerá até 1945. A história de uma derrota – a da França – e de uma resistência – a da Inglaterra, contada por um homem vivido e experimentado, eis a matéria deste livro, que constituindo um dos capítulos mais agitados de sua biografia,  William Someset Maugham apresentou, ao público como sendo estritamente pessoal.








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