Teia de aranha, poesia de Olegário Mariano

3 03 2017

 

 

gao-qipei-finger-painting-of-a-spider-on-a-web-china-1684Teia de aranha,  1684

Gao Qipei (China, 1660-1734)

Pintura a dedo, sobre o papel

 

 

 

Teia de aranha

 

Olegário Mariano

 

Dizem que traz felicidade a teia

De aranha. Surge um dia, malha a malha.

E a aranha infatigável que trabalha,

Mata os insetos quanto mais se alteia.

 

Sobe ao beiral. É um berço e balanceia

Ao vento que os filetes de oiro espalha.

E ao sol iluminado, que a amortalha,

A trama iluminada se incendeia.

 

Voa a primeira borboleta ebriada.

Vem louca, primavera de ansiedade,

Mas de repente, a asa despedaçada,

 

Rola… É o fim… A tortura da grilheta…

Maldita seja essa felicidade

Que vem da morte de uma borboleta!

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 117.

 

 





Soneto à Bomba Atômica, de Lêdo Ivo

8 08 2016

 

 

atomic-garden-ii-carissa-rose-stevensJardim Atômico II, 2010

Carissa Rose Stevens (EUA,contemporânea)

aquarela e marcador permanente sharpie

 

 

Soneto à Bomba Atômica

Lêdo Ivo

 

 

O mundo em peso cai-me sobre os ombros

e em seguida se evola, sol de urânio.

Arquipélago branco, sai da terra

a rosa nuclear da anunciação.

 

Fossem meus braços límpidas colunas

e eu deteria o mundo enfurecido

por esta luz atômica que sobe

ao convívio dos céus despedaçados.

 

Ó corola de átomos, leitosa

flor da quinta estação da terra em pânico

que se exibe à feição do Apocalipse,

 

sê para nós igual à rosa branca

da paz, sempre banhada pelo orvalho

monumental das lágrimas dos homens!

 

 

Em: Central poética, Lêdo Ivo,  Rio de Janeiro, Nova Aguillar: 1976, p. 98-9.

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A aranha, poesia de Da Costa e Silva

7 06 2016

 

 

aranha1Aranha, ilustração de Christina Rossetti.

 

 

A aranha

 

Da Costa e Silva

 

Num ângulo do teto, ágil e astuta, a aranha,

Sobre invisível tear tecendo a tênue teia,

Arma o artístico ardil em que as moscas apanha

E, insidiosa e sutil, os insetos enleia.

 

Faz do fluido que flui das entranhas a estranha

E fina trama ideal  de seda que a rodeia

E, alargando o aranhol, os elos emaranha

Do alvo, disco nupcial, que a luz do sol prateia.

 

Em flóculos de espuma urde, borda e desenha

O arabesco fatal, onde os palpos apoia

E tenaz, a caçar os insetos se empenha.

 

Vive, mata e produz, nessa fana enfadonha;

E, o fascinante olhar a arder como uma joia,

Morre na própria teia, onde trabalha e sonha.

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.166





Mãe, poesia de Gonçalves Crespo

3 05 2016

 

J.U. CAMPOS (Jurandir Ubirajara Campos) (Brasil, 1903-1972)Maternidade - óleo sobre tela - 71 x 58 cm - ass. dat. 1959 inf. dir.Maternidade, 1959

Jurandir Ubirajara Campos (Brasil, 1903-1972)

óleo sobre tela, 71 x 58 cm

 

 

Mãe
A M. De Campos Carvalho

 

 

Gonçalves Crespo

 

 

 

Ela velava perto

Do filho, que dormia,

E cândida sorria

Ao lírio entreaberto.

 

Da lua um raio incerto

No quarto se perdia;

E a mãe olhava o Dia

E a Luz do seu deserto.

 

No berço flutuante

Moveu-se agora o infante

E acorda pranteando…

 

Não há quadro mais belo

Que a mãe, solto o cabelo,

O filho acalentando!

 

1869

 

Em: Obras Completas, Gonçalves Crespo, Livros de Portugal, s/d, Rio de Janeiro, p. 122.





Destino, poema de Menotti del Picchia

10 03 2016

 

 

Goeldi,Oswaldo(1895-1961)pescador,1973,xilo,25x37Pescador, 1973

[Tiragem póstuma por Reynal]

Oswaldo Goeldi (Brasil, 1895-1961)

Xilogravura policromada

 

 

Destino

 

Menotti del Picchia

 

 

Amanhã eu vou pescar.

 

Há um peixe fatalizado

que a Ritinha vai guisar

na panela de alumínio

que brilha mais que o luar.

Hoje ele está no seu líquido

e opaco mundo lunar,

pequena seta de prata

furando a carne do mar.

 

Qual será? O bagre flácido

de cabeça triangular?

O lambari que faísca

como uma mola a vibrar?

O feio e molengo polvo,

monstruoso, tentacular?

O peixe-espada, de níquel,

a viva espada do mar?

 

Hoje estão vivos e lépidos

os lindos peixes do mar.

Amanhã…

 

Nem pensem nisso!

 

Amanhã eu vou pescar…

 

 

Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 55.





Na roça, soneto de Gonçalves Crespo

3 03 2016

 

 

Eliseu Visconti, OVITELOOST1889COLPARTICULARO vitelo, 1889

Eliseu Visconti (Itália/Brasil, 1866-1944)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Na roça
ao Dr. Luiz Jardim

 

Gonçalves Crespo

 

 

Cercada de mestiças, no terreiro,

Cisma a Senhora Moça; vem descendo

A noite, e pouca a pouco escurecendo

O vale umbroso e o monte sobranceiro.

 

Brilham insetos no capim rasteiro,

Vêm das matas os negros recolhendo;

Na longa estrada ecoa esmorecendo

O monótono canto do tropeiro.

 

Atrás das grandes, pardas borboletas,

Crianças nuas lá se vão inquietas

Na varanda correndo ladrilhada.

 

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;

Enquanto às portas do curral ondeia

A mugidora fila da boiada.

 

1869

 

 

Em: Obras Completas, Gonçalves Crespo, Livros de Portugal, s/d, Rio de Janeiro, p. 114.





Poema de Natal, Carlos Pena Filho

8 12 2015

 

 

sinos vermelhos, 1934Sinos, 1934.

 

 

Poema de Natal

 

Carlos Pena Filho

 

 

— Sino, claro sino,

tocas para quem?

— Para o Deus menino

que de longe vem.

 

— Pois se o encontrares

traze-o ao meu amor.

— E que lhe ofereces

velho pecador?

 

— Minha fé cansada,

meu vinho, meu pão,

meu silêncio limpo,

minha solidão.

 

 

Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição, p.36.

 








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