O tempo passa, soneto de Maria Braga Horta

31 10 2020
Ilustração, Clara M. Burd
         V

 

Maria Braga Horta

 

O tempo passa.  E passam sol e lua

tantas vezes no céu, que perco a conta

do tempo que, passando, se insinua

na vida que a velhice hoje defronta.

 

O tempo passa, a história continua.

É uma história de amor que se reconta.

Uma história de amor que perpetua

a vida: ora uma acaba, outra desponta.

 

Venho outra vez com bruxas e dragões

e princesas e príncipes e anões

para o mundo irreal dos dois netinhos.

 

Vejo em seus olhos sempre o mesmo brilho

que pairava no olhar de cada filho

…e ainda vão passando os carneirinhos…

 

Brasília, 28-2-1968

 

 

Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo,  Massao Ohno Editor: 1996, p. 239





Visitantes da noite, soneto de José Otávio Gomes Venturelli

27 07 2020

 

 

From Unknown, 1940.Unknown Magazine, 1940.

 

Visitantes da noite

 

José Otávio Gomes Venturelli

 

Sonâmbula tristeza me rodeia,

Inebria-me  a prece dos crepúsculos,

Já não mais sinto a força que semeia

A resistência física dos músculos.

 

E o coração, minha esquecida aldeia,

Onde as casas são místicos corpúsculos,

Sente sua alma de saudades cheia,

E de prazeres parcos e minúsculos.

 

Os sonos se aproximam… Vêm vestidos

De horríveis pesadelos que me falam

De insônias infernais aos meus ouvidos.

 

Espíritos do mal, seres medonhos,

Eu não posso dormir se não se calam,

Porque querem roubar também meus sonhos!

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p.397

 





10 de junho, dia de Camões

10 06 2020

 

JESSER VALZACCHI - Tarde de domingo - Óleo sobre tela - 90 x 70 - 2014Tarde de domingo,  2014

Jesser Valzacchi (Brasil, 1983)

óleo sobre tela,  90 x 70 cm

 

Quem vê, Senhora, claro e manifesto

 

Luís de Camões

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.





A fonte, poesia de Faustino Nascimento

8 06 2020

 

 

product-image-196722180Ilustração Sung Kim.

 

 

A fonte

Faustino Nascimento

 

Do seio da floresta secular,

Ao abrigo do sol mais inclemente,

Gota por gota, vê-se derivar

A fonte cristalina e refulgente.

 

Deitada no seu leito, a murmurar.

Talvez. uma canção de amor fremente,

Reflete, no seu prisma, ao sol e ao luar,

Tudo que a cerca, a plácida corrente.

 

Repousa, assim, no leito, a correnteza,

Aos embalos sutis da natureza,

Como encantada Ninfa, em seu ritual.

 

Dorme… Depois, num sobressalto, acorda

E, como que a fremir de amor, transborda

E se espreguiça pelo branco areal…

 

Em:  Antologia Poética, Faustino Nascimento, Rio de Janeiro, Freitas Bastos: 1960, p. 15

 

Antônio Faustino Nascimento (Missão Velha, CE, 1901-)  advogado, magistrado, escritor, poeta, ensaísta, jornalista, tradutor.  Em Fortaleza, fundou a revista Argus.

Obras

Juvenília, poesia, 1927

As Cosmogonias, ensaio, 1929

Paisagens sonoras, poesia, 1937

Ritmos do novo continente, poesia, 1939, 1943

Elogio do amor e da ilusão, poesia, 1941

Cantos da paz e da guerra, poesia, 1943

O refúgio sublime, poesia, 1945

Exortação, soneto em cinco idiomas, 1949

O sonho do fauno, poesia, 1950

Cântico ao nordeste, poesia, 1954

Caminhos do Infinito, poesia, 1956

A  fonte de Afrodite, poesia, 1958

A Alvorada, cântico a Brasília, 1958

Antologia poética, 1960

A vida, o amor e a ilusão, poesia, 1962

A terra de Israel, ensaios, 1967

Oriente e ocidente, história, 1973





Soneto XXXVIII de Guilherme de Almeida

6 01 2020

 

 

 

Pierre Brissaud (1885-1964 - FrenchIlustração de Pierre Brissaud (França, 1885- 1964)

 

Soneto XXXVIII

 

Guilherme de Almeida

 

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia, de papel, toda uma armada,
e estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino.
ao longo das sarjetas, na enxurrada…

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são de papel, são como aqueles,

perfeitamente, exatamente iguais…
_Que meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!





Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de Luiz Vaz de Camões

30 12 2019

 

 

 

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Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

 

Luiz Vaz de Camões

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

 

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.





Soneto de Natal, Alphonsus de Guimaraens Filho

19 12 2019

 

 

 

3 REIS, baseado em xilogravura

 

 

Soneto de Natal

 

Alphonsus de Guimaraens Filho

 

 

É Natal. Foram tantos os Natais…

Pois que é Natal mais uma vez, apreende

esse cântico longo que se estende

por terras, mares, não termina mais.

 

Natal mais uma vez. Uma vez mais,

o menino que só a estrela entende,

os pais que a treva inquieta, ela, a quem rende

a certeza das coisas abissais.

 

Pois que é Natal, pensemos no menino,

apenas no menino. E o contemplemos

no berço onde ora está, tão pequenino.

 

Já quanto aos pais, a meditar deixemos.

Sabem os pais qual a hora do destino.

Fingindo não saber, sonhando olhemos.

 

Em: Todos os sonetos, Alphonsus de Guimaraens Filho, Rio de Janeiro, Editora Galo Branco: 1996





Estela e Nize, soneto de Alvarenga Peixoto

11 04 2019

 

 

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)SSem título,  2014

[No camarote]

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela

 

 

Estela e Nize

 

Alvarenga Peixoto

 

Eu vi a linda Estela, e namorado

Fiz logo eterno voto de querê-la;

Mas vi depois a Nize, e é tão bela,

Que merece igualmente o meu cuidado.

 

A qual escolherei, se neste estado

Não posso distinguir Nize d’Estela?

Se Nize vir aqui, morro por ela;

Se Estela agora vir, fico abrasado.

 

Mas, ah! que aquela me despreza amante,

Pois sabe que estou preso em outros braços,

E esta não me quer por inconstante.

 

Vem, Cupido, soltar-me destes laços,

Ou faz de dois semblantes um semblante,

Ou divide o meu peito em dois pedaços!

 

Em: Alvarenga Peixoto, Obras Poéticas.  Edição da Prefeitura do Município de São Paulo, [Coleção Documentos – Clube da Poesia], 1956, p.29.

 

Alvarenga Peixoto (Brasil, 1742-1793) advogado e poeta do círculo da Inconfidência Mineira.  Foi preso e degredado para a África.





Que insônia, poesia de Corina [Coryna] Ferreira Rebuá

16 03 2019

 

 

 

faa0ec6253aa1d9268dbccd55d5af63cLuz da manhã

James H. Crank (EUA, ?)

óleo sobre tela, 91 x 66 cm

 

 

Que insônia

 

Coryna Ferreira Rebuá

 

Como faz frio neste quarto agora!

A chuva bate em cheio na vidraça

E o relógio da igreja, de hora em hora,

Soa. Há passos na rua… E a ronda passa…

 

Não consigo dormir. Como demora

Essa vigília que me torna lassa!

Se abro um livro, não leio. E lá fora

Chove.  Há passos na rua… E a ronda passa…

 

Dormes? Não creio. Eu sei que estás velando,

Porque eu pressinto que, de quando em quando,

Vem o teu corpo fluídico e me enlaça.

 

O relógio da igreja está batendo.

São quatro horas. Que insônia! Está chovendo.

Ouço passos na rua… E a ronda passa.

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 318

 

 

Bibliografia:

Felicidade, 1930

Alma Sedenta, 1932

Vida, 1940

Meu Romance de Amor, 1942

 

 

 





Indiferença, poesia de Guilherme de Almeida

21 02 2019

 

 

 

95ebef1a8428ae23f80bdbcb6b241453Ilustração de Coby Whitmore

 

 

Indiferença

 

Guilherme de Almeida

 

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!








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