Trilha da saudade, poesia de Sonia Carneiro Leão

1 06 2019

 

 

 

GOTUZZO, Leopoldo (1887 - 1983) Paisagem, o.s.t. - 61 x 46 cm. Assinado.Paisagem

Leopoldo  Gotuzzo (Brasil, 1887 – 1983)

óleo sobre tela,  61 x 46 cm

 

 

 

Trilha da saudade

 

Sonia Carneiro Leão

 

Gotinha meiga e mansa

acaricia meu rosto,

descendo suave

a trilha da saudade.

 

Lá fora as rosas rosas

E os hibiscos dourados

saúdam o outono.

 

Negro curió entre os poleiros

saltita de júbilo e gorjeia,

mesmo nos confins

das grades da vida.

 

Só eu,

do outro lado das coisas,

choro.

 

Tornei-me o poro por onde passa,

no vazio de uma lágrima,

o peso de tua falta.

 





Cinco haicais de Sônia Carneiro Leão

16 10 2018

 

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Passeia a sombra

No abismo do chão

Sem deixar rastro.

[43]

 

Barulho do céu

Sobre o luar da montanha.

Cochicha o silêncio.

[61]

 

 

Invade o meu leito

A brisa da Primavera

Sem me conhecer.

[22]

 

 

As flores preferem

A pura água da chuva.

Guardo o regador.

[61]

 

 

Veio da montanha

O ruído do silêncio

Acordar o nada

[52]

 

 

Em: O olhar de Buda: haicais, Sonia Carneiro Leão, 2018, páginas em [colchetes].

 





Final de ano concorrido, dois grupos de leitura se juntam para a festa!

12 12 2016

 

fim-de-ano-2016-3©Ao pé da letra

 

Os grupos de leitura Ao pé da letra e Papalivros fizeram sua festa de fim de ano juntos, num bistrô do Rio de Janeiro.  Trinta e quatro leitores participaram do evento. Combinaram de ler o mesmo livro, O papel de parede amarelo, da escritora americana Charlotte Perkins Gilman, um livro pequeno, um conto, publicado em 1892 e resgatado pelo movimento feminista na década de 1970 do século passado.

 

dsc01637©Papalivros

 

Uma discussão de mais de trinta pessoas não daria certo.  Por isso os grupos convidaram dois palestrantes.  Primeiro a psicanalista e poeta Sonia Carneiro Leão que fez uma análise da obra do ponto de vista da psicanálise pois trata-se da escrita de um personagem que tem alucinações.

 

dsc01641©Ladyce West

 

Em seguida o escritor Ronaldo Wrobel falou de sua reação à obra, levando em conta a perspectiva de quem escreve.  Foi um sarau literário, sem música, mas de grande virtude por se poder ver perspectivas diferentes da mesma obra

 

dsc01660©Ladyce West

 

O encontro animado foi enriquecedor.  Depois dessas curtas palestras, trechos de livros das escritoras do grupo foram lidos.  Um verdadeiro buquê de variadas expressões literárias.

 

dsc01650©Ladyce West

 

Um jantar previamente estabelecido foi então servido, e um brinde ao ano que se aproxima, que todos esperam seja melhor do que o que finda, encerrou o encontro.

 

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FELIZ ANO NOVO a todos os leitores!

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O Maracatu, poesia de Sônia Carneiro Leão

22 03 2016

 

ROSINA BECKER DO VALLE (1914- 2000) - Maracatu em Pernambuco (Folclore Brasileiro),ost, 50 x 62. Assinado no c.i.e. e datado (1966)Maracatu em Pernambuco, 1966

Rosina Becker do Valle (Brasil, 1914-2000)

óleo sobre tela, 50 x 62 cm

 

 

O Maracatu

 

Sônia Carneiro Leão

 

 

Ouvi uma batucada

vindo da encruzilhada

de uma rua do Recife.

 

Parei para dar uma olhada

e vi uma frota armada

de alfafas e abes

num batuque alucinado

o tal do baque virado

batuque de endoidecer.

 

Não um baque arrumadinho

feito o pagode e o chorinho

que cantam devagarinho

coisas boas de dizer.

 

Não.

Era um baque puro corte

saudando a vida e a morte

indo fundo até doer.

 

E algo foi-me exibido

em pleno Recife antigo

que mexeu tanto comigo

como nunca aconteceu.

 

Minh’alma já desarmada

pelo baque seco e cru

viu descer do céu Xangô

e toda nação Nagô

pra dançar Maracatu.

 

 

 

Em: Remendando Trapos: poesias, Sônia Carneiro Leão, Olinda, PE, Babeco: 2010, p. 42-3.





O Maracujá, poesia de Sônia Carneiro Leão

10 04 2014

 

Aquarela_Passiflora_edulis_01Ilustração botânica do maracujá [Passiflora edulis Sims] de Maria Cecília Tomasi.

O Maracujá

Sônia Carneiro Leão

Pego o maracujá e me assusto

Tão dura e tão oca

essa fruta mais louca

me deixa perplexa

de tão desconexa.

Sua carne é só casca.

Seu ventre, sementes.

Sua polpa tão pouca,

não dá pros meus dentes,

Maracujá intrigante,

enrugado, velhinho,

de gosto aceso, bacante,

como o do vinho.

Quero morder, não consigo.

Chupar, tão pouco não posso.

Que fazer, então, contigo,

com o teu paradoxo?

Ninguém o fura com o dedo

para evitar contusão,

esconde dentro o segredo

o doce-azedo da paixão.

Respeitamos o non-sense

da sua concepção.

Em: Respostas ao Criador Das Frutas, Sônia Carneiro Leão, auto-publicação,Holos Design,  ilustrado por Renata Vilanova, p. 13.

 –

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.

 








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