As irmãs, texto de Jun’ichiro Tanizaki

9 08 2021

Três moças passeando com sombrinhas

Torii Kiyonaga ( Japão, 1752-1815)

Xilogravura policromada

da Série: Modos modernos na Brocado Leste

(Mundo flutuante)

 

 

 

“De fato, as três irmãs juntas constituíam um espetáculo único de beleza: eram parecidas, é verdade, mas de forma indefinida.  Cada uma possuía uma característica que a transformava num tipo de beleza contrastante com as demais, mas, ao mesmo tempo, todas elas tinham pontos que lhes eram indiscutivelmente comuns.  Para começar, a altura — que de Sachiko para Yukiko e desta para Taeko diminuía aos poucos de acordo com a idade — já consistia em interessante detalhe a chamar atenção dos que as viam passar juntas. Pelo tipo de vestuário e complementos que usavam, assim como pela aparência geral, Yukiko teria gosto genuinamente nipônico, e Taeko, gosto ocidentalizado. Já Sachiko seria considerada um meio-termo entre as duas irmãs. Taeko tinha nariz e olhos bem definidos num rosto arredondado e físico robusto com ele condizente, enquanto Yukiko, ao contrário, possuía rosto fino e corpo esguio. Quanto a Sachiko, constituía outra vez uma mistura das melhores características desses dois tipos físicos opostos. Taeko usava sempre roupas ocidentais, Yukiko, quimonos, enquanto Sachiko vestia roupas ocidentais no verão e quimono nas demais estações. No aspecto semelhanças, Sachiko e Taeko, ambas parecidas com o pai, tinham um tipo de beleza exuberante.  Yukiko era a única diferente. Mas apesar de possuir uma beleza algo sombria, ficava bem apenas em quimonos de crepe de seda com estampas vistosas, do tipo usado pelas antigas cortesãs. Os listrados de tonalidade suave, tão ao gosto das mulheres de Toquio, não lhe eram indicados.”

 

Em: As irmãs Makioka, Jun’ichiro Tanizaki,  tradução de: Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro, São Paulo, Estação Liberdade: 2005, p. 47





A professora de São Cristóvão, texto de Gilberto Amado

23 11 2020

Figura de mulher, 1929

Ismael Nery (Brasil, 1900 -1934)

óleo sobre cartão, 38 x 46 cm

Galeria Almeida e Dale

 

“Maria Cândida, solteira, magra, sempre de enxaqueca com rubores súbitos, vivia a passar a mão sobre a cabeça dolorida. Certos dias colava nas venezianas um papel azul, para coar o sol e criar na sala da escola uma atmosfera opalina. Mas papel azul não podia ser obstáculo a que o sol de Itaporanga ferisse com sua violência a cabeça sensível da solteirona frágil, moça velha de peito murcho nas desesperanças do celibato. Maria Cândida, professora pública não ilustrada como Sá Limpa, professora particular.  Sá Limpa “puxava” pelos meninos. “Mulher não precisa saber”, dizia no tempo a maioria dos pais. Mas o meu, querendo dar a Iaiá instrução melhor, andou procurando professora; veio uma de São Cristóvão, grandalhona, muito recomendada. Abriu aula na Praça do Mercado.  Meninas das melhores famílias deixaram a escola pública para se matricular na dela. Viu-se logo, porém, que a recomendação não tinha fundamento. Num exemplo escandaloso, revelou-se-lhe a impreparação. Ensaiando as meninas para um recital, não se soube por que artes do demônio obrigou a que devia recitar o “Navio Negreiro” a pronunciar “albátros” em vez de albatroz, “albatroz, albatroz, águia do oceano”, dizia o poeta; albátros queria a professora que as meninas dissessem. Passava a esse tempo por Itaporanga Baltazar Góis, literato, professor do Liceu em Aracaju. Hospedado lá em casa, soube do fato. “É maluca… e escangalhou o decassílabo!”  A história propagou-se; a professora encalistrou, raspou-se sem se despedir, deixando os trastes; reintegrou São Cristóvão onde talvez não fizessem questão da pronúncia do nome da ave.”

 

Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição, pp. 68-9





Chuva, texto de Gilberto Amado

1 08 2020

 

 

chuva 2Cebolinha em dia de chuva © Maurício de Sousa

 

“…Chuva para menino é festa, é rego barrento cachoeirando à porta de casa, chamando a gente para brincar com a água que passa fazendo cócegas nos pés … É goteira pingando, é de noite música no telhado. Na calçada, reúne-se a meninada, na exuberância, no contentamento de ver a água cair, meninada pançudinha, inchada pelas sezões, de frieira rosada nos pés, de boca sem dentes caídos na muda, de boqueira, meninotas de tranças, ossudinhas, uma de olhos de sapiranga, batendo palmas e se esgoelando:

 

Chove chuva

pra nascê capim

pro boi comê

pra papai matá

pra mamãe comê!”

 

Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição, p. 72.





Rua do Gato-que-pesca, Paris, Yolanda Foldes

7 07 2020

 

 

plaque-de-rue-de-localisationPlaca da Rua do Gato-que-pesca, Paris

 

“Rua do Gato-que-pesca…rua curiosa que suscita o riso: dois passos bastam para a atravessar; para a percorrer, menos de trinta. Encontram-se, em Paris, destas espantosas ruelas de palmo e meio, não só nos bairros pobres, mas mesmo em pleno centro da cidade, muito próximo das artérias mais concorridas.

A rua do Gato-que-pesca, vai dar ao Sena, ligando o cais de Saint-Michel com a pequena mas animada rua Huchette.

Entrando no cais, vereis, à direita, as duas torres de Notre Dame, em frente a prefeitura da polícia, o que prova que a rua do Gato-que-pesca se encontra situada num bairro respeitável, mesmo no coração da grande cidade.

Numa rua com a largura inverossímil de dois passos, não se concebe, é claro, o problema da circulação nem o do pavimento. este consta, em suma, de umas seis a oito grandes pedras que vão de uma casa a outra. Nas duas extremidades da rua, colocaram duas barras de ferro para impedir a passagem de veículo, bastante estreito, para poder introduzir-se na ruela, mesmo que lhe tirem os varões de ferro.

De um lado e outro da rua uma fileira de quatro casas. Mas os prédios dos extremos têm a entrada no cais de Saint-Michel, por uma lado, e na rua Huchette, pelo outro, o que dá, no fim das contas, duas casas de cada lado… Qual a idade destas casas? Ninguém sabe. São casas sem idade, que tanto podem ter quinhentos como cinquenta anos. As entradas são inverossimelmente estreitas, extraordinariamente escuras. Escadas de madeira levam-nos de andar em andar, mergulhando, à medida que se sobe, numa treva cada vez mais densa. De espaço a espaço, na sombra opaca dos quatro andares de cada casa, advinha-se um patamar… Nas janelas, festivamente, cordas de roupa branca secam ao sol e ao vento.”

 

Em: A Rua do Gato-que-pesca, Yolanda Foldes, tradução de Francisco Quintal, Lisboa, Renascença:s/d [1959]. 2ª edição, páginas 15-6

 

A Rua do Gato-que-pesca recebeu o Grande Prêmio Internacional do Romance do Pinter Publishing Ltd (Londres). em 1936.





Bombaim moderna, por Thrity Umrigar

10 06 2020

 

 

Robin FreedenfeldRetrato de Merry

Robin Freedenfeld (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 66 x 81 cm

 

 

“Antigamente, as mulheres pelo menos eram poupadas das cotoveladas e dos empurrões que aconteciam sempre que um ônibus aparecia no ponto como se fosse uma fera mitológica. Mas, na Bombaim de hoje, é cada um por si, e os delicados, os fracos, os mais novos e os mais velhos, entram nos ônibus superlotados por sua própria conta e risco. Bhima se sentiu como se mal conhecesse a cidade agora — algo de confuso, perverso e cruel se desencadeou dentro dela. Via os sinais dessa nova perversidade em todo lugar. As crianças das favelas amarravam bombinhas nos rabos dos vira-latas e depois riam e batiam palmas ao ver o pobre animal correndo em círculos , enlouquecido de medo. Universitários ricos ficavam loucos de raiva se um pivete de rua de cinco anos sujasse a janela de seus BMWs e de seus Hondas faiscantes.  Todos os dias, Serabai lia o jornal e lhe contava a última desgraça — um representante de um sindicato morto a pauladas por ter ousado exortar os operários da fábrica a organizar um movimento reivindicando um aumento de duas rúpias; o filho de um político absolvido depois de atropelar três crianças faveladas a caminho de uma festa; um casal de idosos parses assassinado na cama por uma empregada que trabalhou para eles durante quarenta anos; jovens nacionalistas hindus escrevendo com seu próprio sangue notas de congratulações para celebrar o teste bem-sucedido de uma nova arma nuclear. A cidade parecia ter enlouquecido de ganância e fome, de poder e impotência, de riqueza e pobreza.

Bhima podia sentir a maldade correndo como lodo em suas veias enquanto esperava o ônibus. Quando a fera vermelha aparecia em meio a uma nuvem de fumaça, sentia seu coração disparar enquanto observava os outros passageiros, na tentativa de avaliar quem parecia mais fraco e vulnerável, e que, portanto, podia ser empurrado a cotoveladas para fora do seu caminho. Assim que o ônibus parava, a fila se desintegrava e se transformava numa multidão amorfa. Outras pessoas chegavam correndo de todas as direções, tentando entrar no ônibus, antes mesmo de ele parar. Uma vez, um idoso com um pé no degrau e o outro ainda na calçada foi arrastado durante meio quarteirão até que os gritos de outros passageiros fizeram com que o motorista parasse. Bhima notou que as pernas do homem estavam tremendo tanto que seria impossível para ele embarcar. O motorista o olhou com impaciência, do alto do seu poleiro imperial.

— Vai entrar ou não vai? — perguntou, mas o pobre homem ficou parado ali, ofegante.

O motorista estalou a língua e tocou o sinal novamente.  O ônibus partiu, deixando o passageiro no meio da rua, despejado como um pacote sem destinatário.”

 

Em: A distância entre nós, Thrity Umrigar, tradução de Paulo Andrade Lemos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 2006, pp 97-99.

 





Paisagem sertaneja, texto de Gustavo Barroso

7 04 2019

 

 

 

AMaral araçoiabaAraçoiaba da Serra

Joel Firmino do Amaral (Brasil, 1951)

aquarela sobre papel

 

 

Paisagem sertaneja

 

Gustavo Barroso

 

“Vasto, dourado à luz do meio-dia,…o vale de Araçoiaba era duma beleza forte e impressionante de paisagem sertaneja. Ao fundo barravam-lhe a perspectiva, altas, abruptas, as serras de Baturité e do Acarape, onde emergiam da verdura brancos telhados de granito, faiscando ao sol. A glória luminosa do dia enchia tudo. Sob ela cintilavam os penhascos, incendiam-se as micas, palhetavam-se de tons flavos as águas paradas de uma lagoa ao longe. Aqui e ali uma grande árvore derramava sombra numa fachada clara de casa matuta ou espargia frescura sobre um quintalejo benfeitorizado. Pelo recosto do cerro descia em ondulações de veludo novo uma capoeira densa, de fetos, de marmeleiros e ameixeiras bravas. Por tudo e em tudo, do alto azul do céu à calma horizontal das águas empoçadas, do dorso corcovado dos montes às extensões lisas da planície, sorria farta, orgulhosa, a pompa régia do inverno. A terra tinha um nobre e calmo aspecto de abundância; o céu, um claro riso de bondade e proteção.”

 

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 37.

 

Este livro foi usado no curso secundário da década de 1960, quase 60 anos se passaram e talvez seja necessário uma ajuda com vocabulário:

palhetar — salpicar

flavo — amarelado, dourado

quintalejo — pequena quinta

 

 





Voar, texto de Juan Gabriel Vásquez

14 05 2018

 

 

avião sobre o mar, ilustração Lucille HollingIlustração de Lucille Holling

 

 

“E você nem imagina, Elena Fritts, você nem imagina o que é decolar à noite, a adrenalina que é decolar à noite entre as cordilheiras, com o rio embaixo feito uma lâmina de alumínio, um jorro de prata fundida, o rio Magdalena nas noites de lua é a coisa mais impressionante de se ver. E você não sabe o que é ver lá de cima e seguir o rio, sair para o mar, para o espaço infinito do mar, quando ainda não amanheceu, e ver o amanhecer no mar, o horizonte que se acende como se fosse de fogo, a luz que deixa a gente cego de tão clara que é.”

 


Em: O ruído das coisas ao cair, de Juan Gabriel Vásquez, Rio de Janeiro, editora Alfaguara: 2013. página 177





“Os livros de amor”, texto de Luís Sepúlveda

8 02 2018

 

 

 

Ferdinand Hodler - Reading priestPadre lendo

Ferdinand Hodler (Suíça, 1853-1918)

óleo sobre tela, 71 x 51 cm

 

 

“O livro nas mãos do padre foi como isca para os olhos de Antonio José Bolívar. Pacientemente, esperou até que o padre, vencido pelo sono, o deixasse cair de um lado.

Era uma biografia de são Francisco, a qual ele examinou furtivamente, sentindo que ao fazê-lo cometia um pequeno roubo.

Juntava as sílabas, e à medida que o fazia, o desejo de compreender tudo o que havia naquelas páginas o levou a repetir a meia voz as palavras capturadas.

O padre despertou e observou, divertido, Antonio José Bolívar com o nariz metido no livro.

— É interessante? — perguntou.

— Desculpe, eminência.  Mas eu o vi dormindo, e não quis incomodá-lo.

— Interessa-lhe? — repetiu o padre.

— Parece que fala muito de animais — respondeu timidamente.

— São Francisco amava os animais. Amava todas as criaturas de Deus.

— Eu também gosto deles.  À minha maneira. O senhor conhece são Francisco?

— Não.  Deus me privou de tal prazer. São Francisco morreu há muitíssimos anos. Quer dizer, deixou a vida terrena e agora vive eternamente junto ao criador.

— Como sabe disso?

— Porque li o livro. É um dos meus preferidos.

O padre enfatizava suas palavras acariciando a rafada brochura. Antonio José Bolívar o olhava enlevado, sentindo a coceira da inveja.

— O senhor leu muitos livros?

— Uma porção. Antes, quando ainda era jovem e meus olhos não se cansavam, devorava toda obra que parasse em minhas mãos.

— Todos os livros tratam de santos?

— Não. No mundo há milhões e milhões de livros. Em todas as línguas, e abrangem todos os temas, inclusive alguns que deveriam estar proibidos aos homens.

Antonio José Bolívar não entendeu aquela censura e continuou com os olhos cravados nas mãos do padre, mãos gorduchas, brancas sobre a brochura escura.

— De que falam os outros livros?

— Já lhe disse. De todos os temas. Há livros de aventuras, de ciência, histórias de seres virtuosos, de técnica, de amor…

O último interessou-lhe. Conhecia do amor aquilo que ouvia nas canções, especialmente nos pasillos cantados por Jurito Jaramillo, cuja voz de guaiaquilenho pobre às vezes escapava de um rádio de pilhas tornando os homens taciturnos. Segundo os pasillos, o amor era como uma picada de um inseto invisível, mas procurado por todos.

— Como são os livros de amor?

— Temo que não possa lhe falar disso. Não li mais que  um par.

— Não importa. Como são?

— Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam para vencer as dificuldades que os impede de ser felizes. ”

 

Em: Um velho que lia romances de amor, Luís Sepúlveda, tradução de Josely Vianna Baptista, São Paulo, Editora Ática: 1995, pp 42-43.

 





9 de janeiro e uma saudade

9 01 2018

 

 

 

Regina Antonia Fontenelle ReisRegina Antônia Fontenelle Reis

 

 

Todos os anos no dia nove de janeiro homenageio mentalmente uma de minhas grandes amigas que se foi, muito antes do tempo. Regina Antônia Fontenelle Reis não foi uma amiga de infância, mas quase.  Eu a conheci por volta dos meus 16 anos.  Ela era um pouquinho mais velha, mas não muito.  Namorou e casou com meu primo irmão, quase irmão mais velho, que me acompanhava nas festas, na praia, no cinema, na vida. Tínhamos muito em comum dentro da familiaridade de uma vida inteira de férias, brincadeiras, carnavais, passeios.   Morávamos no mesmo bairro e ele e sua irmã se aproximavam de mim em idade.   Dizer que a primeira vez que vi Regina foi como participante de uma gincana, na qual competiam alunos da PUC-Rio, pode dar a ideia do crescimento de uma amizade superficial.  Mas, a partir deste dia, passamos a nos ver quase todos os fins de semana, pela meia dúzia de anos que se seguiram até minha ida para fora do Brasil, onde fiquei décadas.  Mas todas as vezes que vinha ao Brasil, podia não ver todas as pessoas que conhecia, mas certamente me encontrava com Regina algumas vezes durante minha estadia.

Namorados a tiracolo Regina e eu fomos nos conhecendo e compreendendo naqueles anos iniciais.  Ela foi uma das pessoas mais criativas que conheci.  Formada em jornalismo teve uma breve carreira no jornal O Globo, até engravidar de sua primeira filha, minha afilhada.  Depois dedicou-se à maternidade até descobrir o teatro.  Era dramaturga.  Escreveu peças infantis e para adultos. Tocava piano.  Escreveu peças infantis com música e letra de sua autoria. Regina era também uma sonhadora.  Não havia um centímetro de praticidade em seu mundo e decidia fazer ou não alguma coisa, respondendo simplesmente às suas sensibilidades.  Se havia uma maneira prática e direta de resolver algo, você podia apostar que ela não iria optar por esta solução.  Era mística, também, quando adolescente pensou em ser freira.  E quando mencionava isso eu a imaginava como Santa Teresa em êxtase de Bernini.  Viajou por diversas religiões africanas e voltou ao cristianismo.  Pelo menos na última vez que a vi.  Dedicava-se de corpo e alma aquilo em que acreditava, apesar dos sacrifícios exigidos dela.  Em inglês há uma palavra cuja tradução não reflete bem seu total significado.  Whimsical.  Regina era whimsical: extravagante no pensar e no amar; mutável no dia a dia.  Ela fluía de um assunto ao outro. Era um tanto inconstante… uma borboleta perpetuamente à procura do essencial para sua alma, indo de flor em flor, de paixão em paixão. Entregando-se.  E também fazendo felizes aqueles que a amaram justamente por essas qualidades nem sempre bem compreendidas. Regina era uma força de amor.  Amou seus filhos, ainda que muitas vezes de maneira caprichosa, quase excêntrica. Adorava estar grávida,  gostava daqueles nove meses de espera.  Uma vez me confessou que, por ela, estaria grávida a vida inteira, pois seu corpo se sentia completo desta maneira.  Não é por acaso que teve quatro filhos, maravilhosos.  E hoje, muitos anos depois de sua morte, quando os vejo, cada um  me traz dela uma pontinha, um relampejo dessa amiga, pequenos detalhes que eles não sabem mostram sua presença entre nós.

Não sei exatamente como chegamos a ser tão boas amigas, porque éramos muito diferentes.  Mas sempre soubemos aceitar na outra aquilo que nos diferenciava. Nunca tentamos mudar a outra.  Apenas nos aceitamos.  Sinto sua falta até hoje e neste dia que seria seu aniversário finalmente ponho por escrito a minha saudade.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2018.




Sobre voar, texto de Julian Barnes

8 08 2017

 

 

Gabrielle Bakker, A leitora, 2007.the-reader-2007-gabrielle-bakkerLeitora, 2007

Gabrille Bakker (EUA, 1958)

óleo sobre madeira, 25 x 22 cm

 

 

 

“Nós vivemos na superfície, no nível horizontal, e no entanto, — e por isso — nós sonhamos. Animais rasteiros, às vezes chegamos tão longe quanto os deuses. Alguns voam por meio da arte, outros da religião; a maioria do amor. Mas quando voamos, podemos cair. Existem poucos pousos suaves. Podemos nos ver batendo no chão com violência, arrastados na direção de uma estrada de ferro estrangeira. Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial. Se não a princípio, então depois. Se não para um, então para o outro. Às vezes para ambos.”

 

Em: Altos voos e quedas livres, Julian Barnes, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2014, pp: 44-45.








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