Voar, texto de Juan Gabriel Vásquez

14 05 2018

 

 

avião sobre o mar, ilustração Lucille HollingIlustração de Lucille Holling

 

 

“E você nem imagina, Elena Fritts, você nem imagina o que é decolar à noite, a adrenalina que é decolar à noite entre as cordilheiras, com o rio embaixo feito uma lâmina de alumínio, um jorro de prata fundida, o rio Magdalena nas noites de lua é a coisa mais impressionante de se ver. E você não sabe o que é ver lá de cima e seguir o rio, sair para o mar, para o espaço infinito do mar, quando ainda não amanheceu, e ver o amanhecer no mar, o horizonte que se acende como se fosse de fogo, a luz que deixa a gente cego de tão clara que é.”

 


Em: O ruído das coisas ao cair, de Juan Gabriel Vásquez, Rio de Janeiro, editora Alfaguara: 2013. página 177





“Os livros de amor”, texto de Luís Sepúlveda

8 02 2018

 

 

 

Ferdinand Hodler - Reading priestPadre lendo

Ferdinand Hodler (Suíça, 1853-1918)

óleo sobre tela, 71 x 51 cm

 

 

“O livro nas mãos do padre foi como isca para os olhos de Antonio José Bolívar. Pacientemente, esperou até que o padre, vencido pelo sono, o deixasse cair de um lado.

Era uma biografia de são Francisco, a qual ele examinou furtivamente, sentindo que ao fazê-lo cometia um pequeno roubo.

Juntava as sílabas, e à medida que o fazia, o desejo de compreender tudo o que havia naquelas páginas o levou a repetir a meia voz as palavras capturadas.

O padre despertou e observou, divertido, Antonio José Bolívar com o nariz metido no livro.

— É interessante? — perguntou.

— Desculpe, eminência.  Mas eu o vi dormindo, e não quis incomodá-lo.

— Interessa-lhe? — repetiu o padre.

— Parece que fala muito de animais — respondeu timidamente.

— São Francisco amava os animais. Amava todas as criaturas de Deus.

— Eu também gosto deles.  À minha maneira. O senhor conhece são Francisco?

— Não.  Deus me privou de tal prazer. São Francisco morreu há muitíssimos anos. Quer dizer, deixou a vida terrena e agora vive eternamente junto ao criador.

— Como sabe disso?

— Porque li o livro. É um dos meus preferidos.

O padre enfatizava suas palavras acariciando a rafada brochura. Antonio José Bolívar o olhava enlevado, sentindo a coceira da inveja.

— O senhor leu muitos livros?

— Uma porção. Antes, quando ainda era jovem e meus olhos não se cansavam, devorava toda obra que parasse em minhas mãos.

— Todos os livros tratam de santos?

— Não. No mundo há milhões e milhões de livros. Em todas as línguas, e abrangem todos os temas, inclusive alguns que deveriam estar proibidos aos homens.

Antonio José Bolívar não entendeu aquela censura e continuou com os olhos cravados nas mãos do padre, mãos gorduchas, brancas sobre a brochura escura.

— De que falam os outros livros?

— Já lhe disse. De todos os temas. Há livros de aventuras, de ciência, histórias de seres virtuosos, de técnica, de amor…

O último interessou-lhe. Conhecia do amor aquilo que ouvia nas canções, especialmente nos pasillos cantados por Jurito Jaramillo, cuja voz de guaiaquilenho pobre às vezes escapava de um rádio de pilhas tornando os homens taciturnos. Segundo os pasillos, o amor era como uma picada de um inseto invisível, mas procurado por todos.

— Como são os livros de amor?

— Temo que não possa lhe falar disso. Não li mais que  um par.

— Não importa. Como são?

— Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam para vencer as dificuldades que os impede de ser felizes. ”

 

Em: Um velho que lia romances de amor, Luís Sepúlveda, tradução de Josely Vianna Baptista, São Paulo, Editora Ática: 1995, pp 42-43.

 





9 de janeiro e uma saudade

9 01 2018

 

 

 

Regina Antonia Fontenelle ReisRegina Antônia Fontenelle Reis

 

 

Todos os anos no dia nove de janeiro homenageio mentalmente uma de minhas grandes amigas que se foi, muito antes do tempo. Regina Antônia Fontenelle Reis não foi uma amiga de infância, mas quase.  Eu a conheci por volta dos meus 16 anos.  Ela era um pouquinho mais velha, mas não muito.  Namorou e casou com meu primo irmão, quase irmão mais velho, que me acompanhava nas festas, na praia, no cinema, na vida. Tínhamos muito em comum dentro da familiaridade de uma vida inteira de férias, brincadeiras, carnavais, passeios.   Morávamos no mesmo bairro e ele e sua irmã se aproximavam de mim em idade.   Dizer que a primeira vez que vi Regina foi como participante de uma gincana, na qual competiam alunos da PUC-Rio, pode dar a ideia do crescimento de uma amizade superficial.  Mas, a partir deste dia, passamos a nos ver quase todos os fins de semana, pela meia dúzia de anos que se seguiram até minha ida para fora do Brasil, onde fiquei décadas.  Mas todas as vezes que vinha ao Brasil, podia não ver todas as pessoas que conhecia, mas certamente me encontrava com Regina algumas vezes durante minha estadia.

Namorados a tiracolo Regina e eu fomos nos conhecendo e compreendendo naqueles anos iniciais.  Ela foi uma das pessoas mais criativas que conheci.  Formada em jornalismo teve uma breve carreira no jornal O Globo, até engravidar de sua primeira filha, minha afilhada.  Depois dedicou-se à maternidade até descobrir o teatro.  Era dramaturga.  Escreveu peças infantis e para adultos. Tocava piano.  Escreveu peças infantis com música e letra de sua autoria. Regina era também uma sonhadora.  Não havia um centímetro de praticidade em seu mundo e decidia fazer ou não alguma coisa, respondendo simplesmente às suas sensibilidades.  Se havia uma maneira prática e direta de resolver algo, você podia apostar que ela não iria optar por esta solução.  Era mística, também, quando adolescente pensou em ser freira.  E quando mencionava isso eu a imaginava como Santa Teresa em êxtase de Bernini.  Viajou por diversas religiões africanas e voltou ao cristianismo.  Pelo menos na última vez que a vi.  Dedicava-se de corpo e alma aquilo em que acreditava, apesar dos sacrifícios exigidos dela.  Em inglês há uma palavra cuja tradução não reflete bem seu total significado.  Whimsical.  Regina era whimsical: extravagante no pensar e no amar; mutável no dia a dia.  Ela fluía de um assunto ao outro. Era um tanto inconstante… uma borboleta perpetuamente à procura do essencial para sua alma, indo de flor em flor, de paixão em paixão. Entregando-se.  E também fazendo felizes aqueles que a amaram justamente por essas qualidades nem sempre bem compreendidas. Regina era uma força de amor.  Amou seus filhos, ainda que muitas vezes de maneira caprichosa, quase excêntrica. Adorava estar grávida,  gostava daqueles nove meses de espera.  Uma vez me confessou que, por ela, estaria grávida a vida inteira, pois seu corpo se sentia completo desta maneira.  Não é por acaso que teve quatro filhos, maravilhosos.  E hoje, muitos anos depois de sua morte, quando os vejo, cada um  me traz dela uma pontinha, um relampejo dessa amiga, pequenos detalhes que eles não sabem mostram sua presença entre nós.

Não sei exatamente como chegamos a ser tão boas amigas, porque éramos muito diferentes.  Mas sempre soubemos aceitar na outra aquilo que nos diferenciava. Nunca tentamos mudar a outra.  Apenas nos aceitamos.  Sinto sua falta até hoje e neste dia que seria seu aniversário finalmente ponho por escrito a minha saudade.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2018.




Sobre voar, texto de Julian Barnes

8 08 2017

 

 

Gabrielle Bakker, A leitora, 2007.the-reader-2007-gabrielle-bakkerLeitora, 2007

Gabrille Bakker (EUA, 1958)

óleo sobre madeira, 25 x 22 cm

 

 

 

“Nós vivemos na superfície, no nível horizontal, e no entanto, — e por isso — nós sonhamos. Animais rasteiros, às vezes chegamos tão longe quanto os deuses. Alguns voam por meio da arte, outros da religião; a maioria do amor. Mas quando voamos, podemos cair. Existem poucos pousos suaves. Podemos nos ver batendo no chão com violência, arrastados na direção de uma estrada de ferro estrangeira. Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial. Se não a princípio, então depois. Se não para um, então para o outro. Às vezes para ambos.”

 

Em: Altos voos e quedas livres, Julian Barnes, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2014, pp: 44-45.





As possessões da classe alta, texto de Julian Fellowes

15 11 2016

 

 

antiquárioClarabela vai ao antiquário © Walt Disney.

 

 

“A classe alta inglesa tem uma necessidade enorme e inconsciente de mostrar que é diferente graças ao que possui. Para eles, nada é mais deprimente (ou menos convincente) do que ter um status, um prestígio, algum lastro familiar, e não comprovar. Eles jamais pensariam em decorar um quarto de solteiro em Putney sem pendurar na parede uma estranha aquarela de uma avó usando crinolina; sem expor duas ou três antiguidades de valor e, sobretudo, algum objeto que denote uma infância privilegiada. Tudo isso é uma espécie de língua de sinais que mostra ao visitante o lugar ocupado pelo dono ou dona da casa dentro do sistema de classes…”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, páginas 128-9.

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Mudança de estação, texto de Nagai Kafu

27 09 2016

 

 

tsuchiya-koitsu-woodblock-print-teahouse-yotsuya-arakiCasa de chá, Yotsuya, Araki, 1937

Tsuchiya Koitsu, (Japão, 1870-1949)

xilogravura policromada

 

 

 

“Com o inverno se aproximando, as pessoas já não usavam mais quimonos leves. Os perfumados shimeji já não eram o prato mais requisitado do cardápio no restaurante Kagetsu, e os matsutake, caríssimos no início do outono, agora serviam para dar gosto aos ensopados na Casa Matsumoto. Os crisântemos, que até pouco tempo atrás haviam atraído multidões ao parque de Hibiya, desapareceram, dando lugar às folhas secas que o vento levava pelos caminhos de cascalho onde os meninos jogavam bola. O parlamento reabrira, e aos clientes habituais das casas de chá de Shinbashi vieram se somar as caras caipiras dos políticos do interior. Todos os estabelecimentos estavam lotados com financistas, ou ainda com convidados de importantes homens de negócios, vindos de reuniões de diretoria que aconteciam no bairro contíguo de Marunouchi. Aumentava o número de boatos sobre quais aprendizes haviam se tornado gueixas do ano passado para cá. Em Ginza, as folhas dos salgueiros já estavam amarelas, mas ainda não haviam começado a cair. As decorações das lojas mudaram, e viam-se aqui e ali flâmulas vermelhas e azuis, anunciando as promoções de fim de ano. As bandinhas musicais ocupavam as esquinas, e as pessoas apressavam o passo ao passarem pelo barulho. Nas manchetes gritadas pelos jornaleiros, as edições extras dos jornais anunciavam o início da temporada de sumô. As gueixas começavam a fazer as contas para os preparativos do Ano Novo, e, mesmo diante dos clientes, não hesitavam em pegar a caderneta e puxar do obi um lápis com a ponta por fazer, lambendo o grafite para anotarem os compromissos da primavera.”

 

 

Em: Guerra das Gueixas, Nagai Kafu, tradução de Andrei Cunha, São Paulo, Estação Liberdade: 2016, página 134 [original de 1918]

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O casamento, texto de Julian Fellowes

19 08 2016

Their_First_Quarrel,_Gibson2A primeira briga, 1914

Charles Dana Gibson (EUA, 1867-1944)

gravura

 

 

“O convívio social tem o grande mérito de abrandar a idiotice do consorte e o casal que não conversa, jamais descobre que não tem muitas afinidades. A companhia do outro tem o mesmo efeito da aposentadoria para as pessoas de classe média, ou seja, causa divórcio.”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, página 164.

 








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