Sobre voar, texto de Julian Barnes

8 08 2017

 

 

Gabrielle Bakker, A leitora, 2007.the-reader-2007-gabrielle-bakkerLeitora, 2007

Gabrille Bakker (EUA, 1958)

óleo sobre madeira, 25 x 22 cm

 

 

 

“Nós vivemos na superfície, no nível horizontal, e no entanto, — e por isso — nós sonhamos. Animais rasteiros, às vezes chegamos tão longe quanto os deuses. Alguns voam por meio da arte, outros da religião; a maioria do amor. Mas quando voamos, podemos cair. Existem poucos pousos suaves. Podemos nos ver batendo no chão com violência, arrastados na direção de uma estrada de ferro estrangeira. Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial. Se não a princípio, então depois. Se não para um, então para o outro. Às vezes para ambos.”

 

Em: Altos voos e quedas livres, Julian Barnes, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2014, pp: 44-45.





As possessões da classe alta, texto de Julian Fellowes

15 11 2016

 

 

antiquárioClarabela vai ao antiquário © Walt Disney.

 

 

“A classe alta inglesa tem uma necessidade enorme e inconsciente de mostrar que é diferente graças ao que possui. Para eles, nada é mais deprimente (ou menos convincente) do que ter um status, um prestígio, algum lastro familiar, e não comprovar. Eles jamais pensariam em decorar um quarto de solteiro em Putney sem pendurar na parede uma estranha aquarela de uma avó usando crinolina; sem expor duas ou três antiguidades de valor e, sobretudo, algum objeto que denote uma infância privilegiada. Tudo isso é uma espécie de língua de sinais que mostra ao visitante o lugar ocupado pelo dono ou dona da casa dentro do sistema de classes…”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, páginas 128-9.

Salvar

Salvar

Salvar





Mudança de estação, texto de Nagai Kafu

27 09 2016

 

 

tsuchiya-koitsu-woodblock-print-teahouse-yotsuya-arakiCasa de chá, Yotsuya, Araki, 1937

Tsuchiya Koitsu, (Japão, 1870-1949)

xilogravura policromada

 

 

 

“Com o inverno se aproximando, as pessoas já não usavam mais quimonos leves. Os perfumados shimeji já não eram o prato mais requisitado do cardápio no restaurante Kagetsu, e os matsutake, caríssimos no início do outono, agora serviam para dar gosto aos ensopados na Casa Matsumoto. Os crisântemos, que até pouco tempo atrás haviam atraído multidões ao parque de Hibiya, desapareceram, dando lugar às folhas secas que o vento levava pelos caminhos de cascalho onde os meninos jogavam bola. O parlamento reabrira, e aos clientes habituais das casas de chá de Shinbashi vieram se somar as caras caipiras dos políticos do interior. Todos os estabelecimentos estavam lotados com financistas, ou ainda com convidados de importantes homens de negócios, vindos de reuniões de diretoria que aconteciam no bairro contíguo de Marunouchi. Aumentava o número de boatos sobre quais aprendizes haviam se tornado gueixas do ano passado para cá. Em Ginza, as folhas dos salgueiros já estavam amarelas, mas ainda não haviam começado a cair. As decorações das lojas mudaram, e viam-se aqui e ali flâmulas vermelhas e azuis, anunciando as promoções de fim de ano. As bandinhas musicais ocupavam as esquinas, e as pessoas apressavam o passo ao passarem pelo barulho. Nas manchetes gritadas pelos jornaleiros, as edições extras dos jornais anunciavam o início da temporada de sumô. As gueixas começavam a fazer as contas para os preparativos do Ano Novo, e, mesmo diante dos clientes, não hesitavam em pegar a caderneta e puxar do obi um lápis com a ponta por fazer, lambendo o grafite para anotarem os compromissos da primavera.”

 

 

Em: Guerra das Gueixas, Nagai Kafu, tradução de Andrei Cunha, São Paulo, Estação Liberdade: 2016, página 134 [original de 1918]

Salvar

Salvar





O casamento, texto de Julian Fellowes

19 08 2016

Their_First_Quarrel,_Gibson2A primeira briga, 1914

Charles Dana Gibson (EUA, 1867-1944)

gravura

 

 

“O convívio social tem o grande mérito de abrandar a idiotice do consorte e o casal que não conversa, jamais descobre que não tem muitas afinidades. A companhia do outro tem o mesmo efeito da aposentadoria para as pessoas de classe média, ou seja, causa divórcio.”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, página 164.

 





Um ser urbano, texto de William Boyd

8 04 2016

 

walsh_CENTRALCAMERA1webCentral Camera, 2012

Nathan Walsh (GB, 1972)

óleo sobre tela, 60 x 103 cm

Coleção Particular

 

 

“Minha natureza é essencialmente urbana e, embora Los Angeles seja indubitavelmente uma cidade, de algum modo seus costumes não são. Talvez seja o clima que confira um eterno ar suburbano e provinciano: as cidades precisam de extremos de climas, de forma que você almeje  fugir delas. Acho que eu poderia morar em Chicago — gosto quando viajo para lá. Além disso, tem de haver algo brutal e descuidado sobre a verdadeira cidade — o habitante precisa se sentir vulnerável — e não se encontra isso em Los Angeles, ou pelo menos, não vi nada disso no curto espaço de tempo que passei no lugar. Sinto-me muito à vontade aqui, muito aninhado. Essas não são experiências da verdadeira cidade: sua natureza entra por baixo da porta e pelas janelas — não dá para se ver livre. E o sujeito genuinamente urbano é sempre curioso — curioso sobre a vida nas ruas. Isso definitivamente não se aplica ao caso de Los Angeles: o cara mora em Bel Air e não se pergunta o que está acontecendo em Pacific Palisades — ou se ele está perdendo alguma coisa.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 373





Casas tranquilas nos EUA, texto de Dalia Sofer

24 01 2016

 

 

Jessica Rohrer (EUA, 1974) 2014-Street-Center-12x19, ospRua Central, 2014

Jessica Rohrer (EUA, 1974)

óleo sobre placa, 30 x 48 cm

 

 

“Na sala de aula, durante uma projeção de slides de arquitetura, ele escreve uma carta para os pais. Na semi-escuridão do auditório de palestras ele escreve que tudo está bem na faculdade, que o proprietário do apartamento é muito simpático e cuida bem dele. Quando termina, levanta a cabeça e vê os perfis dos colegas de classe iluminados pela luz do projetor, hipnotizados pelo clique-clique das transparências, pelo tom de voz monótono do professor e pelas brilhantes imagens das casas californianas na tela — o exterior de madeira, os pátios, as grandes extensões de vidro com vista para os jardins. Essas casas todas parecem muito limpas, simples, ensolaradas e alegres, portando em suas linhas descomplicadas a promessa de décadas dóceis, passadas na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, mas sem oferecer proteção nenhuma contra o tédio que acompanha tudo isso. Olhando para as imagens, ele conclui que seus colegas de classe — simpáticos, com seus trajes impecáveis e essencialmente ilesos — são produtos de tais lares.”

 

 

Setembros de Shiraz, Dalia Sofer, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, p. 40

 

 





O grito da Buganvília, José Eduardo Agualusa

20 10 2015

 

 

Ruth MOTTA GRANDE, OST, Flores no Muro, med. 36x41cm. Ass. CID. Datado 77.Flores no muro, 1977

Ruth Motta Grande (Brasil,? -?)

óleo sobre tela, 36 x 41 cm

 

 

O grito da buganvília

 

“No quintal, no lugar onde Félix Ventura enterrou o corpo estreito de Edmundo Barata dos Reis, floresce agora a rubra glória de uma buganvília. Cresceu depressa. Cobre já uma boa parte do muro. Debruça-se sobre o passeio, lá fora, numa exaltação — ou numa denúncia — à qual ninguém presta atenção.”

 

Em: O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Gryphus: 2004.








%d blogueiros gostam disto: