Sobre solos: Erri de luca

7 10 2017

 

 

sir_george_clausen_ra_rws_planting_a_tree_d5396451gPlantando uma árvore

Sir George Clausen, R.A., R.S.W. (GB, 1852-1944)

óleo sobre tela, 35 x 29 cm

 

 

“Há duas espécies de terra… Uma tem água embaixo, faz-se um buraco e aflora. É terra fácil.

A outra depende do céu. tem só aquela fonte. É magra, ladra, capaz de roubar água ao vento e à noite, e assim que consegue um pouco gasta-a logo toda em cores retidas no miolo das pedras e põe força de açúcares nos frutos e atira perfume de descarada.  É terra de céu seco, prefiro-a.”

 

 

Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Barlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 35.





Sobre livros: Erri de Luca

10 07 2017

 

 

Matisse,still-life-with-books-and-candle-1890Natureza morta com livros, 1890

Henri Matisse (França, 1869 – 1954)

óleo sobre tela, 45 x 38 cm

Coleção Particular

 

 

“E para ele encompridar mais um pouco me pergunta o que tenho no bolso. Um livro, digo. Qual? Um usado, leio livros em final de exercício. Por quê? Digo-lhe outra vez. A mão dele vai ao bolso do meu casaco, mas não tira, sopesa.

Leio os usados porque as páginas muito folheadas e engorduradas dos dedos pesam mais nos olhos, porque cada cópia de livro pode pertencer a muitas vidas e os livros deviam ficar desvigiados nos lugares públicos e deslocar-se junto com os passantes que os levam consigo por um pouco e deveriam morrer como eles, consumidos por doenças, infectados, afogados ponte abaixo junto com os suicidas, enfiados num aquecedor no inverno, rasgados pelas crianças para fazer barquinhos, em suma deveriam morrer em qualquer lugar a não ser de tédio e de propriedade privada, condenados a uma prateleira pela vida toda.”

 

Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Barlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 25.

 





Resenha: “Três Cavalos” de Erri de Luca

20 06 2017

 

 

The Woodcutter by Camille Pissarro (oil on canvas, 35x45-3-4 CourtO lenhador, 1879

Camille Pissarro (França, 1830 – 1903)

óleo sobre tela, 89 x 116 cm

The Robert Homes a Court Collection, Perth, GB

 

 

Nunca tinha ouvido falar de Erri de Luca até receber de Nanci Sampaio, uma amiga conhecedora dos meus gostos, esse livrinho chamado Três Cavalos.  Levei algum tempo até abrir suas páginas.  Dizem os budistas que as coisas acontecem na hora certa.  Então aconteceu agora esse amor pela obra do escritor italiano, cuja lista de publicações é longa e abrangente: o autor é jornalista, romancista e poeta.

 

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Sua prosa é seca e precisa. Concisa.  Mas de imagens vívidas e maneira de ver as coisas simultaneamente poética e inesperada.  Eu me encontrei relendo muitas passagens, marcando no texto, dois, três parágrafos pela beleza ou pela surpresa.  E como um poema, este é um livro pequenino que passa uma poderosa história em dois tempos, presente no sul da Itália e passado na Argentina.  Há também o paralelo entre dois amores, o de então e o do momento.  Duas mulheres perturbadoras que conquistam o coração quase inocente de um homem  que agora, aos cinquenta anos, leva a vida de jardineiro.

 

Erri_De_LucaErri de Luca

 

Ainda que este seja um romance com descrições da perseguição política na Argentina, o tema serve  de pano de fundo.  Maior que ele é o amor, força que impulsiona atos impensáveis. Também fala de amizade e da honra entre amigos.  A honra entre o narrador e seu amigo africano Selim, um trabalhador temporário que vai e volta da África e tem o dom da divinação. São 108 páginas concisas, repletas de poesia e determinação.  E emoção. Emoção contida como cabe a um europeu.  Mas lá está para nos puxar página após página ao seu surpreendente final.  Uma obra poderosa, marcante.  De grande impacto. Excelente leitura.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Sobre árvores: Erri de Luca

20 06 2017

 

 

vangoghcypresses1889Ciprestes, 1889

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 93 x 74 cm

Metropolitan Museum, N.Y.

 

 

” Vou pelo campo com uma nova muda de macieira para plantar.

Deposito-a no chão, viro-a, olho seus ramos mal esboçados tentarem lugar no espaço em torno.

Uma árvore precisa de duas coisas: sustança sob a terra e beleza fora. São criaturas completas mas impulsionadas por uma força de elegância. Beleza necessária a elas é vento, luz, pássaros, grilos, formigas e uma meta de estrelas em direção às quais apontar a fórmula dos ramos.

A máquina que nas árvores impulsiona linfa para cima é beleza, porque só a beleza na natureza contradiz a gravidade.

Sem beleza a árvore não quer. Por isso para num ponto do campo e pergunto: “Aqui, quer?”

Não espero uma resposta, um sinal no punho em que seguro seu tronco, mas gosto de dizer uma palavra à árvore. Ela sente as bordas, os horizontes e procura um lugar exato para se erguer.

Uma árvore escuta cometas, planetas, nuvens e enxames. Sente as tempestades do sol e as cigarras sobre ela com a mesma urgência de velar. Uma árvore é aliança entre o próximo e o perfeito longínquo.

Se vem de um viveiro e tem de enraizar-se em solo desconhecido, fica confusa como uma jovem camponês no primeiro dia de fábrica. Assim levo-a a um passeio antes de escavar-lhe o lugar.”

 

 

Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Berlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 26.








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