Outras citações visuais de Vik Muniz: um pedido de responsabilidade política e social

28 01 2011

 Narciso, c.1597-99

Caravaggio, [Michelangelo Merisi da Caravaggio](1571-1610)

óleo sobre tela,  110 x 92 cm

Galeria Nacional de Arte Antiga, Palazzo Barberini, Roma

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Narciso, d’ après Caravaggio

Vik Muniz ( Brasil, 1961)

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Narciso, na mitologia grega, foi um caçador conhecido por sua beleza.  Muito orgulhoso, não gostava de ninguém, pois não considerava ninguém à sua altura. As ninfas que ele rejeitou, belíssimas todas,  pediram aos deuses que fosse castigado por sua arrogância.   Por isso os deuses o fizeram apaixonar-se pela sua própria imagem refletida num lago. Narciso morre afogado ao tentar abraçar a imagem refletida.   A citação dessa imagem por Vik Muniz traz a implicação do nosso próprio suicídio: estamos nos afogando nos restos dos nossos desejos.

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Atlas, segurando o globo celestial, 1646

Giovanni Francesco Barbieri, conhecido como Guercino (1591-1666)

óleo sobre tela,  127 x 101 cm

Museu Mozzi Bardini, Florença

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Atlas, d’après Guercino

Vik Muniz ( Brasil, 1961)

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Atlas, filho de Gaia e de Urano era um dos Titãs gregos.  Ele cometeu o erro, de junto com seu irmão Cronus de lutar contra Zeus.  Foi então condenado por este a carregar a esfera celeste nos ombros.

No século XVI, o cartógrafo Mercator, colocou a imagem de Atlas, carregando a Terra, e não o céu, na primeira página de seu livro de mapas.  Isso porque o local para onde Atlas foi a mando de Zeus segurar a esfera celeste era conhecido pelos gregos como o fim do mundo, onde é hoje o oceano Atlântico, cujo nome deriva desse Titã.  A partir desse momento, Atlas passa a ser representado, por muitos, como segurando a Terra ou o peso do mundo.

O Atlas de Vick Muniz carrega o peso do lixo do mundo.

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Passadeira, 1904

Pablo Picasso (Espanha,1881–1973)

óleo sobre tela, 116.2 x 73 cm

The Solomon Guggenheim, Foundation, Nova York

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Isis, mulher Passando a ferro,

Vick Muniz

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Obras de pintura do chamado Período Azul de Picasso se concentraram em grande parte no retrato dos marginalizados, das classes sociais mais carentes, que tanto preocupavam a imaginação européia do final do século XIX até as primeiras duas décadas do século XX.  Dançarinos, atores circenses, trabalhadores braçais foram tema de muitos artistas plásticos que os retratavam como as pessoas fatigadas, exploradas e economicamente desfavorecidas que eram.

Vik Muniz não perdeu a ocasião de fazer seu próprio comentário sobre os catadores de lixo do Jardim Gramacho sob essa mesma luz ao citar a Passadeira de Pablo Picasso.

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Saturno devorando seu filho, 1819-23

Francisco Goya, (Espanha, 1746-1828)

Óleo sobre tela, 146 × 83 cm

Museu do Prado, Madri

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Saturno devorando seu filho, d’ après Goya

Vik Muniz (Brasil, 1961)

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Saturno, o rei dos Titãs, foi avisado que um de seus filhos iria tirá-lo do trono, derrubá-lo.  Aterrorizado com essa profecia, ele não os deixou crescer, devorando um a um os quase doze filhos que teve. Nenhuma das crianças sobreviveu.  Ele, na loucura de permanecer e de garantir seu poder, não deixa espaço para a próxima geração, separa sua consciência de seus sentimentos e corta a conexão que tem com a vida futura.

Vik Muniz nos mostra como agimos à semelhança de Saturno, preocupados com o nosso viver, sem considerar que o nosso lixo virá a matar as futuras gerações.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

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VIDEO DE COMO A OBRA É FEITA

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Jacques-Louis David e Vik Muniz, unidos pelo lixo

27 01 2011

A morte de Marat, 1793

Jacques-Louis David ( França, 1748-1825)

óleo sobre tela 165 x 128 cm

Museu Real de Belas Artes, Bruxelas

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O noticiário da semana tem-se dedicado ao documentário Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, codirigido por Karen Harley e João Jardim.  Uma produção anglo-brasileira que se tornou candidata ao Oscar de 2011.  Apesar de as estrelas do documentário serem os próprios catadores do Lixão em Jardim Gramacho, o filme está centrado na obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz junto aos catadores.

Ainda não vi o documentário.  Mas fui atraída para o assunto: primeiro, se entendi bem, pelo caráter de denúncia ambiental e a preocupação com as 7.000 pessoas que dependem do trabalho no lixão, que está programado para fechar em 2012.  E segundo, a obra de Vik Muniz em si, responsável pela imagem que se tornou símbolo do documentário.

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Marat (Sebastião)

Vick Muniz (São Paulo, 1961)

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Em nenhum artigo sobre esse documentário consegui ver  alguma menção estabelecendo que a cena retratada por Vik Muniz parodia o trabalho de Jacques-Louis David.  Esse pintor francês retratou em grande estilo, o revolucionário Jean-Paul Marat, seu amigo pessoal,  no momento de sua morte.  Marat foi assassinado por Charlotte Corday —  na banheira em que permanecia boa parte do tempo cheia de água com sais minerais para a imersão que o ajudava a controlar o desconforto causado pela doença de pele que o afligia.   É verdade que esse quadro está entre os mais conhecidos no mundo, mas isso não justifica a falta de menção.   O fato de Marat estar no título não exonera as publicações de mencionarem o original, principalmente porque jornais e revistas têm que assumir que nem todos que os lêem saberão da referência.

Em se tratando de Vik Muniz, seria de se esperar a referência:  afinal este é um artista plástico brasileiro conhecido pelas citações visuais.  São exemplos disso: as Mona Lisas de geléia de uva e de manteiga de amendoim, 1999 e também, a reinterpretação de diversos quadros de Monet e da Última Ceia de Leonardo Da Vinci, entre outros.  Mas precisamos saber por que?  Por que A Morte de Marat, de Jacques-Louis David e não, digamos,  O grito de Edward Munch, ou qualquer outra obra?   Na verdade, por que fazer essa alusão?

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Mona Lisa de Geléia de Uva e Mona Lisa de Manteiga de Amendoim, 1999

Vik Muniz (Brasil, 1961)

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Jean Paul Marat (1743-1793) foi médico, filósofo, cientista , ensaísta, jornalista e panfletário, que ficou mais conhecido por sua participação nos eventos políticos e que na companhia de Danton e de Robespierre levaram a França à Revolução.  Marat advogou reformas básicas a favor dos pobres, e perseguição constante aos Inimigos do Povo.  Foi assassinado por Charlotte Corday, que disfarçada de colaboradora do movimento, chegou à sua casa e o esfaqueou.

Com isso, a alusão que Vik Muniz faz em seu trabalho no Lixão de Caxias passa a ter uma conotação muito mais forte de engajamento político.  No eco visual de um líder revolucionário, que foi assassinado justamente por causa de suas posições em defesa do povo, Vik Muniz faz o seu próprio panfleto revolucionário, seu próprio discurso político.

É por isso que é necessário se prestar atenção às imagens.  Artistas plásticos, pintores, escultores, não chegam ao ápice de uma carreira — como Vik Muniz chegou — sem terem um vocabulário visual bem cultivado, sem terem guardados na memória o impacto das obras de arte que os precederam e seus significados.  A julgar pelas imagens que consegui ver das fotos de Vik Muniz no lixão esse deve ser, de fato, um documentário extraordinário e  rico em citações visuais.  Gostarei de vê-lo.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011

Uma boa análise do quadro de Jacques-Louis David pode ser encontrada no blog Abstração Coletiva.








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