Resenha:”A vida peculiar de um carteiro solitário” de Denis Thériault

22 01 2018

 

 

 

480px-Vincent_van_Gogh_-_Portret_van_de_postbode_Joseph_RoulinO carteiro Joseph Roulin, 1888

Vincent van Gogh  (Holanda, 1853–1890)

óleo sobre tela,  81x 65

Museu de Belas Artes de Boston

 

 

 

A vida peculiar de um carteiro solitário, de Denis Thériault, traduzido por Daniela P. B. Dias, é um livro difícil de definir. Prosa e verso se misturam e formam um todo potente.  O enredo trata de um homem solitário, carteiro, com personalidade limítrofe ao autismo  que, para seu próprio divertimento, abre sistematicamente cartas que leva para casa, cartas vindas ou endereçadas a pessoas na sua rota.  Sua curiosidade inicial é a fascinação pela caligrafia que vê nos envelopes,  arte a qual se dedica.  Durante a execução destes pequenos crimes, levando as cartas para casa, abrindo-as com vapor, lendo-as e colocando-as de volta na rota original, apaixona-se simultaneamente por uma mulher que não conhece e pela poesia japonesa.

Com encanto, este pequeno romance trouxe-me memórias vívidas de duas obras: uma do cinema e outra da literatura.  Lembrei-me da comédia australiana Malcolm (1986), dirigido por Nadia Tessa e estrelado por Colin Friels, que trata de um homem com características de autismo cuja paixão por carros de controle remoto o leva a cometer um crime: as habilidades de Malcolm são usadas por uma quadrilha para assaltar um banco. Aqui também a personalidade limítrofe de Bilodo, um homem tão solitário e recluso quanto Malcolm, o leva a se envolver em crime, ainda que de sua própria vontade. Outra lembrança foi da peça de teatro Cyrano de Bergerac,  de Edmond de Rostand, que será  muito provavelmente conhecida de  Denis Thériault, canadense da província de Quebec, cuja língua materna é francês.  Nesse clássico da literatura francesa,  obra trágica, um poeta declama os versos de outro que se esconde da amada, por não se achar à altura da bela moça.  O versos são de sua autoria, mas quem os declama, a voz e a aparência são de outro homem. Há uma quase simetria com o que acontece com carteiro Bilodo, que toma o lugar do poeta Gaston Grandpre e escreve haicais em seu  nome para conquistar Ségolène, na distante Guadalupe, no Caribe.

 

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Em um livro tão pequeno é de surpreender as reviravoltas caracterizando uma linha narrativa complexa, que além da história de amor, explana claramente sobre poesia japonesa, do haicai ao enso, forma circular da poesia nipônica.  Thériault passa alguns conhecimentos da filosofia zen,  explora o uso  do kimono mágico e ainda produz para deleite do leitor uma coletânea de belos haicais.  Para minha surpresa, que sempre considerei haicai poesia quase enigmática, evanescente,  um punhado dos haicais apresentados no texto vêm repletos de forte sensualidade, claras imagens eróticas, que fazem paralelo interessante às conhecidas xilogravuras policromadas, Ukiyo-e, retratando o  mundo flutuante pelos tradicionais mestres japoneses.

 

5778747Denis Thériault

 

Com o uso de imagens surpreendentes, poucos e inesquecíveis personagens, esta história está localizada entre o mundo do sonho e a realidade. Traz um pouco de assombro ao leitor, do início ao fim. A trama, muito bem desenvolvida, ressalta a solidão de Bilodo, cujo único amigo é Bill, o peixe de aquário, seu animal de estimação.  A solidão forma cada um de seus pensamentos e ações.  Este é um homem que vive através da vida dos outros, no canto seguro de seu pequeno, previsível e metódico mundo. Há uma tênue conexão que o segura, que o mantém no dia a dia, agindo no mundo que conhecemos.  Ela é ancorada nas suas obsessões, na tenacidade e precisão com que enfrenta o que há de novo no mundo.  Bilodo é um homem que aprecia detalhes e encontra beleza não só no gesto de uma caligrafia bem feita mas nas regras precisas da poesia japonesa.  É a rigidez desses conceitos que o seguram no cotidiano.  E ele se esforça para superar suas limitações, reconhece a dificuldade de trazer aos seus pequenos poemas a mágica da poesia, mas quando o consegue, encontra finalmente seu destino cármico. Este livro é quase um poema-prosa, que se desdobra em múltiplos significados e ângulos cada vez que o examinamos.  Um prazer de leitura.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Poema de Mário Quintana

10 07 2017

 

 

autumn-landscape-at-dusk-1885(1).jpg!HalfHDPaisagem de outono ao cair da tarde, 1885

Vincent van Gogh (Holanda, 1853 – 1890)

óleo sobre tela

Centraal Museum, Utrecht, Holanda

 

 

“Esta vida é uma estranha hospedaria,

De onde se parte quase sempre às tontas,

Pois nunca as nossas malas estão prontas,

E a nossa conta nunca está em dia.”

 

Mário Quintana

 

Em: Esconderijos do tempo, Mário Quitana, Porto Alegre, L&PM: 1980.

 





Sobre árvores: Erri de Luca

20 06 2017

 

 

vangoghcypresses1889Ciprestes, 1889

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 93 x 74 cm

Metropolitan Museum, N.Y.

 

 

” Vou pelo campo com uma nova muda de macieira para plantar.

Deposito-a no chão, viro-a, olho seus ramos mal esboçados tentarem lugar no espaço em torno.

Uma árvore precisa de duas coisas: sustança sob a terra e beleza fora. São criaturas completas mas impulsionadas por uma força de elegância. Beleza necessária a elas é vento, luz, pássaros, grilos, formigas e uma meta de estrelas em direção às quais apontar a fórmula dos ramos.

A máquina que nas árvores impulsiona linfa para cima é beleza, porque só a beleza na natureza contradiz a gravidade.

Sem beleza a árvore não quer. Por isso para num ponto do campo e pergunto: “Aqui, quer?”

Não espero uma resposta, um sinal no punho em que seguro seu tronco, mas gosto de dizer uma palavra à árvore. Ela sente as bordas, os horizontes e procura um lugar exato para se erguer.

Uma árvore escuta cometas, planetas, nuvens e enxames. Sente as tempestades do sol e as cigarras sobre ela com a mesma urgência de velar. Uma árvore é aliança entre o próximo e o perfeito longínquo.

Se vem de um viveiro e tem de enraizar-se em solo desconhecido, fica confusa como uma jovem camponês no primeiro dia de fábrica. Assim levo-a a um passeio antes de escavar-lhe o lugar.”

 

 

Em: Três cavalos, Erri de Luca, São Paulo, Berlendis & Vertecchia: 2006, tradução de Renata Lúcia Bottini, página 26.





Perguntas a editoras, resenha de Desvendando Margaux

16 02 2017

 

 

 

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Vinhedos de Auvers, 1890

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela

Saint Louis Art Museum

 

 

De quando em quando um livro atravessa o meu mundo que suscita a pergunta: o que foi que uma editora brasileira viu nessa obra, que valeria o investimento na compra dos direitos autorais, no pagamento de um tradutor, no investimento de imprimir e distribuir uma obra, com a confiança, até certo ponto, de que tal investimento iria trazer o lucro mínimo que a companhia precisa ter para continuar sua vida editorial.

Essa pergunta voltou a me perseguir na leitura de Desvendando Margaux, dos autores Jean-Pierre Alaux e Noël Balen. Estava a procura de uma leiturinha fácil, de um livrinho de mistério, detetive, qualquer coisa, para passar uma tarde de folga e esquecer o cotidiano quente do verão carioca.  Peguei esse livro que é o segundo de uma série policial da dupla, passado nos vinhedos franceses.  Um dos autores é especialista em vinhos e seu parceiro é jornalista.

 

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É um dos livros policiais mais insossos que já li.  Não há tensão.  Não há um mistério que agarre a atenção.  Os personagens são comuns, o drama sofrível, o mistério quase inexistente.  Há sim algumas noções de gerenciamento de vinhedos e o panorama por trás da produção de vinhos.  Mas falta aquela trama que não deixa dormir.  Essa obra não dá ao leitor o frenesi de ter que chegar ao final, nem é cheia do charme de uma Miss Marple que resolve as intrigas da cadeira de balanço de sua casa na aldeia.

 

alaux-balen2david_nakache_640Jean-Pierre Alaux e Noël Balen

 

Depois da leitura, enquanto me deliciava com um bom Simenon, procurei mais informações sobre outros livros da dupla.  E realmente há muitos.  Os autores são populares e até traduzidos para o inglês.  É possível que eu tenha tido a falta de sorte de pegar uma de suas  obras mais fracas. Mas para isso confia-se no selo da editora.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

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No museu van Gogh, poesia de Marialzira Perestrello

18 04 2016

 

 

unnamedBoulevard de Clichy, 1887

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 46 x 55 cm

Museu van Gogh, Amsterdã

 

 

No museu van Gogh

Marialzira Perestrello

 

 

I

 

Já te conhecia tanto, poeta danado!

Num mundo de demônios

Só Théo era teu anjo.

 

Visitando esses quadros,

caminho em tua vida.

1887, 1888, Boulevard de Clichy,

essa paisagem, esse bosque tranquilo,

essa sombra, essa luz,

tu, impressionista calmo, aceito.

Onde teu mundo caótico?

 

Depois,

árvores ameaçadas,

céus em fogo em Saint Remy-Provence.

Nesse auto-retrato

braço e paleta unidos, fundidos.

Ah! Vincent!

pintavas com tua própria alma.

 

 

Em: Mãos dadas, Marialzira Perestrello, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1989, p. 15





Oito pequenos notáveis: livros inesquecíveis com menos de 200 páginas

8 09 2015

 

 

Still Life (French Novels) painting by Vincent van Gogh (c. 1888 Paris, France) Van Gogh Museum, Amsterdam, NetherlandsRomances franceses, 1888

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 73 x 53 cm

Museu van Gogh, Amsterdam

 

 

Tendo lido recentemente O sentido de um fim, de Julian Barnes, uma obra com meras 156 páginas, resolvi listar outras pequenas joias literárias que se apresentam de maneira sucinta e que nem por isso perdem o verdadeiro objetivo da boa literatura: mover o leitor a refletir.   Assim aqui vai mais uma lista para quem segue o blog, escolhido pela Peregrina.

 

Pequenos notáveis

Livros inesquecíveis com menos de 200 páginas

 

 

EM ORDEM ALFABÉTICA

 

As Avós de Doris Lessing

 

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Billy Budd, marinheiro de Herman Melville

 

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A Casa de Papel de Carlos Maria Dominguez

 

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A Fera na Selva de Henry James

 

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O Sentido de um fim de Julian Barnes, obra vencedora do Man Booker Prize de 2011.

 

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A Trégua de Mário Benedetti

 

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Vermelho Amargo de Bartolomeu Campos de Queirós

 

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24 horas na vida de uma mulher, de Stefan Zweig

 

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Mais algum que deixei de lado?  Tem que ser sensacional.  Obras com menos de 200 páginas existem aos borbotões.  Mas que deixem marcas no coração?

 





Aprendendo com os mestres: o caso de Van Gogh

26 06 2015

 

artista 08_05_1960Achille Beltrame.1Homenagem: Achille Beltrame copiando e desenhando, 1960

Walter Molino (Itália, 1915-1997)

Capa da revista Domenica del Corriere, 8/03/1960

 

 

O conselho universal aos que querem se tornar escritores é conhecido: leia. Leia sempre. Leia bons escritores. Leia maus escritores. Perceba a diferença entre eles.  Imite.  Tente escrever no estilo de algum escritor de que você gosta; tente o estilo de quem você não gosta.  Aprenda as diferenças.  É claro que o conteúdo é importante.  Esse não se aprende.  Mas a técnica pode ser aprendida. É um caminho solitário e tortuoso.  Solitário principalmente.

Meu avô se dedicou à escrita além da advocacia.  Contribuiu por algum tempo com colunas semanais para jornais brasileiros, e vendo que eu, criança, havia mostrado uma certa habilidade para a palavra escrita, recomendou que eu copiasse um, dois, ou três parágrafos, um conto ou uma crônica de que eu gostasse; que eu simplesmente copiasse o texto, para aprender melhor como o escritor chegou ao resultado que havia me encantado.

 

van gogh, les premiers pas, 1890Os primeiros passos, 1890

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 92 x 72 cm

Metropolitan Museum, Nova York

 

Por isso mesmo, através dos anos, acabei com uma quantidade grande de trechos de livros copiados numa série de cadernos simples com anotações bibliográficas em geral incompletas. Esse hábito me persegue até hoje. Este blog se assemelha um tanto a esses meus cadernos.  Mas ainda me surpreendo quando escolho um trecho, que me encantou, porque descubro o uso de uma palavra que passou despercebida na leitura inicial ou uma colocação de vírgulas, dois pontos, ou divisão de parágrafos que eu não teria notado se não tivesse tido o cuidado de copiar o texto.  Esse hábito me tornou uma leitora cuidadosa.

 

millet les premier pas 1853Os primeiros passos, 1858

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

pastel e crayon sobre papel, 32 x 43 cm

Lauren Rogers Museum of Art, Laurel, Mississippi

 

O  mesmo conselho foi dado aos pintores. Tradicionalmente, desde a idade média, quando eram treinados nas Guildas de São  Lucas, pintores que demonstravam habilidades, copiavam seus mestres. Começando aos onze ou doze anos, dedicavam-se primeiro à fabricação de tintas, aprendendo a ralar as pedras coloridas usadas pelos mestres.  Esse longo aprendizado – de muitos anos — ensinava todos os truques do ofício até o jovem ter o direito de pintar os ramos de flores em uma tela do pintor responsável pela sua educação, ou a paisagem de fundo.  Era uma escola rígida, o ofício era levado a sério. E só era permitido que alguém se chamasse pintor depois de passar por tal sistema.  Dentro desse esquema, copiar o mestre era comum e um mérito.

 

Louis_Beroud_-_peintre_copiant_un_Murillo_Au_Musee_Du_LouvreCopiando Murillo no Louvre, 1912

Louis Beroud (França, 1852-1930)

óleo sobre tela,  130 x 161 cm

Coleção Particular

 

A cópia de obras de arte sempre foi uma maneira dos pintores entenderem  como um mestre do passado, de outro século, resolvera um problema, como combinara uma cor, ou como posicionara os elementos na tela.

 

mulher com ancinho, van gogh, 1889Muher com ancinho, 1889

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

Conhecidos exemplos desses estudos podem ser encontrados na obra dos maiores pintores da arte ocidental de Delacroix, que copiou Rubens, a  Manet que estudou a obra de Velazquez ou Picasso copiando Manet.  O círculo é infinito e demonstra como o sistema é uma das melhores maneiras de se aprender o ofício da pintura.

 

mullher com ancinho, millet1854Camponesa com ancinho, 1857

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

pastel e crayon sobre papel, 39 x 34 cm

Metropolitan Museum, Nova York

 

Venho a esse texto porque tenho recebido muitos emails de pessoas que sabem do meu envolvimento com as artes plásticas, emails que anunciam a fraude, em geral de um pintor famoso, nesse caso van Gogh mostrado acima, em que um texto maldoso e ignorante do estudo da técnica, sugere a falta de criatividade, a falta de caráter mesmo, de um artista.  Com títulos sensacionalistas tal como — Fraude ou falsificação? ;  Artista … plagiador — esses emails têm enchido a minha caixa postal.

 

800px-Noon,_rest_from_work_-_Van_GoghA sesta, 1890

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 73 x 91 cm

Musée d’Orsay, Paris

 

No caso de van Gogh, a cópia era absolutamente necessária já que se tratava de um artista com muito pouco estudo, não mais do que um ano na Academia Real de Belas Artes em Bruxelas, por volta de 1880 e algum tempo, quase dois anos com seu primo o pintor Anton Mauve.  Foi de fato necessário para seu próprio aprendizado a cópia de outros artistas.  Ela não se limitou às obras de Millet.

 

Slide5.jpg a sesta 1866, milletA sesta, 1866

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

pastel e crayon sobre papel, 29 x 41 cm

Museum of Fine Arts, Boston

 

Essa obra de Millet, A Sesta, inspirou pelo menos mais um pintor.  John Singer Sargent, americano, impressionista que passou toda sua vida na Europa, dedicando-se às paisagens americanas só na última década de vida.

john singer sargentA sesta, c. 1875

[d’après Millet]

John Singer Sargent (EUA,

grafite sobre papel, 14 x 21 cm

Metropolitan Museum, Nova York

 

Vincent van Gogh admirava Millet. Seus temas de peões no campo, gente de vida simples, pareciam inundados da espiritualidade dos homens comuns que teve grande ressonância no pintor holandês, que havia desejado estudar teologia.

 

Jean-Francois Millet Night 1867 Fine Arts Museum, BostonA vigília, 1867

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

pastel e crayon sobre papel, 29 x 41 cm

Museum of Fine Arts, Boston

 

evening-the-watch-after-millet-1889(1)Vigília noturna, 1890

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 74 x 93 cm

The van Gogh Museum, Amsterdam

 

Mas van Gogh nunca chegou a se sentir satisfeito com as telas que produziu tendo como modelo as obras de Millet.  Sabe-se por exemplo que as oito telas inspiradas no Semeador de Millet, nunca lhe agradaram, ainda que para nós hoje elas pareçam muito boas. Ele desistiu do tema, frustrado, porque achava que em nenhuma das versões conseguira chegar próximo da mestria de seu predecessor.

 

sower-after-millet-1889(1).jpg!BlogO semeador, 1890

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 80 x 66 cm

Coleção Particular

 

SC269804O semeador, 1850

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

óleo sobre tela, 101 x 82 cm

Museum of Fine Arts, Boston

 

Mas van Gogh não limitou seu aprendizado a Millet.  Copiou, entre outros, o trabalho de Gustave Doré, como vemos abaixo:

 

f_0669O exercício na prisão, 1890

[d’après Gustave Doré]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm

Museu Pushkin, Moscou

 

Newgate Prison Exercise Yard Gustave DorePátio de exercícios da prisão Newgate, 1872

Gustave Doré (França, 1832-1883)

Gravura, ilustração para ‘London: a Pilgrimage‘ [Londres: uma peregrinação] de Blanchard Jerrold e Gustave Doré, 1872.

Museu de Londres

 

A cópia de telas e gravuras dos mestres do passado é uma técnica difundida há muitos séculos, que teve grande ímpeto no coração da Idade Média, quando monges se dedicavam à ilustração de textos religiosos e filosóficos, e às cópias desses textos com as quais difundiam o conhecimento para outros ramos das ordens religiosas a que pertenciam. É uma técnica usada até hoje.   Pobre é a escola ou o professor de pintura que não incentiva esse método a seus alunos, mesmo que no futuro eles venham a ser artistas dedicados ao abstracionismo, ao conceitualismo ou a qualquer outro estilo que pareça não ter nada a ver com o passado.  O conhecimento do lugar em que a sua arte se enquadra na história das artes, é uma sólida base para a produção de qualquer artista, qualquer pintor, mesmo nos dias hoje.








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