Os melhores livros do ano, pela Peregrina

14 12 2016

 

59c63e62cc4743b775aed6e9994006eaDesconheço a autoria da ilustração, parece russa, certamente Europa Oriental.
Livros lidos em 2016

(esta lista inclui livros lidos na última semana de 2015, depois do Natal)

A rainha da neve, Michael Cunningham

O livro secreto, Gregory Samak

Beije-me onde o sol não alcança, Mary del Priore

A jornada de Felícia, William Trevor

Nora Webster, Colm Tóibin

Memórias de um casamento, Louis Begley

O pescoço da girafa, Judith Schalansky

Mudança de clima, Hilary Mantel

Um homem chamado Ove, Fredrik Backman

Euforia, Lily King

O rouxinol, Kristin Hannah

Amor e memória, Ayelet Waldman

Isso também vai passar, Milena Busquets

Bonita Avenue, Peter Buwalda

A caderneta vermelha,  Antoine Laurain

O ruído das coisas ao cair, Juan Gabriel Vásquez

As aventuras de um coração humano, William Boyd

A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha

O romance inacabado de Sofia Stern, Ronaldo Wrobel

As mulheres do meu pai, José Eduardo Agualusa

Setembros de Shiraz, Dalia Sofer

A maleta da Sra. Sinclair, Louise Walters

A delicadeza, David Foenkinos

A mulher desiludida, de Simone de Beauvoir

Uma história de solidão, John Boyne

Esnobes, Julian Fellowes

Que ninguém nos ouça, Leila Ferreira e Cris Guerra

Meu nome é Lucy Barton, Elizabeth Strout

Dom Quixote, de Cervantes

A última palavra, Hanif Kureishi

A garota de Boston, Anita Diamant

Imperatriz Orquídea, Anchee Min

Cavalos roubados, Per Petterson

A garota no trem, Paula Hawkins

Pequena abelha de Chris Cleave

Guerra das Gueixas, Nagai Kafu

Cinco esquinas, Mario Vargas Llosa

Balzac e a costureirinha chinesa, Dai Sijie

O último amigo, Tahar Ben Jelloun

O papel de parede amarelo, Charlotte Perkins Gilman

O fuzil de caça, Yasushi Inoue

Enclausurado,  Ian McEwan

Sapiens, Yuval Noah Harari

Moça com chapéu de palha, Menalton Braff

Toda lista é falha.  Há filtros: o que você já leu antes, seu momento emocional; se é um autor de quem você já gostou e se sente mais afável ao ler seu novo livro ou se é uma obra que toca em assuntos que são particularmente desconfortáveis. Tudo acaba entrando no julgamento.  Foram 44 livros, até dia 15 de dezembro de 2016. Aqui ficam os livros que permanecerão comigo, em minha memória, reverberando suas emoções, ensinamentos. Memórias gravadas.

as_aventuras_de_um_coracao_humano_1258491923bAs aventuras de um coração humano

William Boyd (UK, 1952)

Editora Rocco: 2008, 512 páginas

Sinopse

Um diário é escrito para reunir as várias facetas de uma personalidade. E, se comprometido com a verdade, mostra uma realidade conturbada e caótica, afinal, toda vida é feita de altos e baixos uma gangorra demasiadamente humana. Assim são os relatos do fictício Logan Gonzago Mountstuart, lembranças remendadas de uma vida que atravessou todas as décadas do século XX e que contam As aventuras de um coração humano.
Viajando o mundo Uruguai, Inglaterra, França, Espanha, Portugal, EUA, Bahamas, Suíça, Nigéria a bordo das experiências do protagonista, Boyd constrói um personagem cativante e que seduz por completo o leitor com a sua trajetória, que alterna bons e maus momentos, como a de qualquer pessoa. Sob a forma de diários ficcionais compilados, com uma prosa fluida, situações verossímeis e entremeadas por fatos e pessoas reais, reflexões e riqueza de cenários, o livro traz um William Boyd em alto estilo, entretendo o leitor com ousadia.

o_ultimo_amigo_1327443063bO último amigo

Tahar Ben Jelloun (Marrocos, 1944)

Editora Bertrand: 2006, 128 páginas

Sinopse

Aconteceu em Tânger, cidade cosmopolita, no final dos anos 1950. Dois adolescentes, Ali e Mamed, conhecem-se no Liceu Francês, passam a andar juntos e se tornam amigos. Durante quase trinta anos, essa relação será afetada por mal-entendidos, duras provações sofridas juntos, ciúme disfarçado e traição. Essa amizade arrebatadora quase chega a se assemelhar a uma história de amor de final infeliz.

cavalos_roubados_1297118469bCavalos Roubados

Per Petterson (Noruega, 1962)

Editora Verus: 2010, 253 páginas

Sinopse

Neste romance contido e envolvente, Trond Sander, um homem de 67 anos, muda para uma região remota da Noruega, em busca da vida de contemplação silenciosa que sempre desejou. Um encontro casual com um vizinho – irmão, como ele descobre mais tarde, de seu amigo de infância Jon – lhe traz à memória o verão de 1948, que passou com seu adorado pai.
As lembranças de Trond se concentram em uma tarde em que ele e Jon saem para roubar cavalos de uma fazenda próxima. O que começa como uma emocionante aventura adolescente termina de forma abrupta e traumática. Confrontado com a descoberta do erotismo, da morte e da falsa harmonia familiar, Trond passa da adolescência à idade adulta em um único e fatídico verão.
“Cavalos Roubados” é um livro de rara intensidade dramática, habilmente construído em torno de segredos, buscas e perdas. As reminiscências do narrador no crepúsculo da vida e sua evocação de um verão inesquecível são líricas e vigorosas, revelando a prosa precisa e irresistível de um mestre da literatura.

12443009_1121336827886049_827048097_nO romance inacabado de Sofia Stern

Ronaldo Wrobel (Brasil, 1968)

Editora Record: 2016, 256 páginas

Sinopse

Autor de Traduzindo Hannah, livro finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, Ronaldo Wrobel constrói um thriller instigante neste novo romance. Na trama, o protagonista Ronaldo vive com a avó, Sofia Stern, em Copacabana. Ela é uma refugiada da guerra: nasceu na Alemanha em 1919 e veio para o Brasil às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Quando Ronaldo encontra um diário da avó perdido no apartamento, percebe que as histórias de sua juventude revelam paixões, traições e conflitos. Ele decide trazer os fatos à tona e embarca numa viagem para preencher as lacunas do relato.

o_fuzil_de_caca_1271098405bO fuzil de caça

Yasushi Inoue (Japão, 1907-1991)

Editora Estação Liberdade: 2010, 102 páginas

Sinopse

No Japão, o período do pós-guerra trouxe definitivamente à tona toda sorte de questões que mantiveram caráter de tabu durante tanto tempo, numa tradição secular de silêncio e discrição. Isso faz com que o enredo de O fuzil de caça, cujos personagens estão enleados em um caso de amor extraconjugal, não constitua por si só uma novidade ou um fator de estranhamento. É também na forma, e não apenas em sua temática, que a obra se consolida como fundamental no panorama da literatura japonesa contemporânea.

Lançando mão da tradição do romance epistolar, convida o leitor à posição de voyeur de uma comunicação unilateral e inusitada entre um caçador, Josuke Misugi, e um escritor. Três cartas, endereçadas a um mesmo homem por três mulheres diferentes, imprimem uma textura trágica à trama.

O jogo de narradores; as cartas como único veículo para a torrente de alta tensão emocional que se revela ao leitor; o exercício constante da concisão e o lirismo que transpira de uma prosa que se mantém sempre vizinha do território poético: a estética e o conteúdo se entrelaçam, e o entrecho se apresenta belo como uma trilha na neve. Ao mesmo tempo, o equilíbrio entre o que é dito e o que é velado mantém o mundo da solidão presente em cada linha e constante em todos os personagens. Permeiam estas páginas o isolamento e a carência de franqueza nas relações humanas, que as cartas reveladas por Misugi tentam romper e atravessar.

sapiens__uma_breve_historia_d_1452391838439373sk1452391838bSapiens: uma breve história da humanidade

Yuval Noah Harari (Israel, 1976)

Ediitora L&PM:2015, 464 páginas

Sinopse

Um relato eletrizante sobre a aventura de nossa extraordinária espécie – de primatas insignificantes a senhores do mundo. O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras? Yuval Noah Harari aborda de forma brilhante estas e muitas outras questões da nossa evolução. Ele repassa a história da humanidade, relacionando com questões do presente. E consegue isso de maneira surpreendente. Doutor em história pela Universidade de Oxford e professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, seu livro não entrou por acaso nas listas dos mais vendidos de 40 países para os quais foi traduzido. Sapiens impressiona pela quantidade de informação, oferecida em linguagem acessível, atraente e espirituosa. Tanto que, na primeira semana de lançamento nos Estados Unidos, já figurava entre os mais vendidos na lista do The New York Times. Em Sapiens, Harari nos oferece não apenas conhecimento evolutivo, mas também sociológico, antropológico e até mesmo econômico. Ele se baseia nas mais recentes descobertas de diferentes campos como paleontologia, biologia e antropologia. E, especialmente para a edição brasileira, realizou algumas atualizações no final de 2014. Esta edição traz dezenas de imagens, mapas e tabelas que o deixam ainda mais dinâmico.

Quero ressaltar outros livros que foram do meu agrado, dos quais guardo boas lembranças, em ordem alfabética pelo título:

Enclausurado,  Ian McEwan

Esnobes, Julian Fellowes

A garota de Boston, Anita Diamant

Guerra das Gueixas, Nagai Kafu

Um homem chamado Ove, Fredrik Backman

Nora Webster, Colm Tóibin

O papel de parede amarelo, Charlotte Perkins Gilman

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O golfe, texto de William Boyd

18 10 2016

Bia Betancourt [Beatriz Falanghe Betancourt] (Brasil, 1963) Golfista, ast, 70 x 180 cmGolfista

Bia Betancourt  (Brasil, 1963)

acrílica sobre tela, 70 x 180 cm

 

 

“Uma das coisas da África de que mais sinto saudade é meu golfe com Dr. Kwaku no campo mirrado de Ikiri. Sinto falta do golfe e da cerveja na ladeira do clube, assistindo ao por do sol.Por que será que gosto de golfe? Não é um esporte estrênuo o que é uma vantagem. O grande benefício é que, ainda que o sujeito não seja um exímio jogador, é ainda possível que realize jogadas no mesmo nível daquelas dos grandes jogadores mundiais. Lembro que um dia eu tinha levado um fragmentário sete à paridade quatro no oitavo buraco em Ikiri e me posicionei para o curto nono, uma paridade três, com um seis-ferro. Morrendo de calor, suado e irritado, balancei, golpeei, a bola planou, quicou uma vez no marrom e caiu no buraco. Um buraco em um. Foi a tacada perfeita — não dava para ninguém fazer melhor, nem mesmo o campeão mundial. Não consigo pensar em nenhum outro esporte que dê ao amador a chance da perfeição. Aquela jogada me deixou feliz por um ano, todas as vezes que eu me lembrava dela….”

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 421-22.

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Minutos de sabedoria — William Boyd

29 06 2016

 

Andrzej Malinowski, La lecture interrompue, ostA leitura interrompida

Andrzej Malinowski (Polônia, 1947)

óleo sobre tela

 

 

“A vida se recusa a se conformar às nossas necessidades — as necessidades da narrativa que você considera essenciais para dar um pouco de forma ao seu tempo neste planeta.”

 

 

118438099_boyd_367375cWilliam Boyd

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Minutos de sabedoria — William Boyd

16 06 2016

 

 

André DEYMONAZ was born in 1946 in CASABLANCA.No jardim

André Deymonaz (França, 1946)

 

“Sabemos se uma amizade é verdadeira quando ela resiste às inevitáveis intempéries da vida.”

William Boyd

118438099_boyd_367375cWilliam Boyd (GB, 1952)

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No futuro… texto de William Boyd

31 05 2016

 

 

john a copley (EUA) seedling_jpgPlantando, 2007

John A. Copley (EUA,contemporâneo)

acrílica sobre tela, 20 x 25 cm

www.johnacopley.com

 

 

“Fui até o jardim e fumei um cigarro. Na semana passada, plantei uma árvore no último canteiro do jardim, em homenagem ao nosso bebê. A muda tem a minha altura e, pelo que vejo, pode atingir doze metros de altura. Então, daqui a trinta anos, se ainda estivermos vivos, vou poder voltar aqui e vê-la no esplendor de sua maturidade. Entretanto, a ideia me deprime: daqui a trinta anos estarei na casa dos sessenta e vejo que esses projetos, feitos de forma irrefletida, começam a se extinguir. Vamos supor um período de quarenta anos então. Seria demais. Cinquenta? Eu provavelmente não estarei mais aqui. Sessenta? Morto e enterrado, certamente. Graças a Deus não plantei um carvalho. Seria esse um bom exemplo de limite temporal? O momento em que você percebe — meio racionalmente, meio inconscientemente — que o mundo, num futuro não muito distante, não terá mais você: que as árvores que você plantou continuarão a crescer, mas você não estará aqui para testemunhar isso.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 217-18.





A companhia de um cão, texto de William Boyd

14 04 2016

 

393.0LJovem homem e seu cão, 2005

Mihail Aleksandrov (Rússia/EUA, 1949)

óleo sobre tela,  55 x 65 cm

 

 

“Senti uma espécie de aflição tão intensa e pura, que achei que fosse morrer. Uivei feito um bebê com meu cachorro nos braços. Então coloquei-o em uma caixa de vinho, e o levei para o jardim onde o enterrei debaixo de uma cerejeira.

Ele é só um cachorro velho, digo para mim mesmo, e viveu uma vida de cachorro plena e feliz. Mas o que me deixa indescritivelmente triste, é que, sem ele, fico sem amor na vida. Pode parecer estúpido, mas eu o amei e sei que ele me amou. Isso significou que houve um fluxo descomplicado de amor recíproco na minha vida e acho difícil admitir que terminou. Olhe só para mim, murmurando, mas é verdade, é verdade. E, ao mesmo tempo, sei que uma parte da  minha tristeza é apenas autopiedade disfarçada. Precisei daquela troca e estou preocupado por não saber como viverei sem ela nem se conseguirei arranjar um substituto — quem dera fosse tão fácil quanto comprar um novo cachorro. Sinto muita pena de mim mesmo — é isso que é aflição.”

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 503-4.





Um ser urbano, texto de William Boyd

8 04 2016

 

walsh_CENTRALCAMERA1webCentral Camera, 2012

Nathan Walsh (GB, 1972)

óleo sobre tela, 60 x 103 cm

Coleção Particular

 

 

“Minha natureza é essencialmente urbana e, embora Los Angeles seja indubitavelmente uma cidade, de algum modo seus costumes não são. Talvez seja o clima que confira um eterno ar suburbano e provinciano: as cidades precisam de extremos de climas, de forma que você almeje  fugir delas. Acho que eu poderia morar em Chicago — gosto quando viajo para lá. Além disso, tem de haver algo brutal e descuidado sobre a verdadeira cidade — o habitante precisa se sentir vulnerável — e não se encontra isso em Los Angeles, ou pelo menos, não vi nada disso no curto espaço de tempo que passei no lugar. Sinto-me muito à vontade aqui, muito aninhado. Essas não são experiências da verdadeira cidade: sua natureza entra por baixo da porta e pelas janelas — não dá para se ver livre. E o sujeito genuinamente urbano é sempre curioso — curioso sobre a vida nas ruas. Isso definitivamente não se aplica ao caso de Los Angeles: o cara mora em Bel Air e não se pergunta o que está acontecendo em Pacific Palisades — ou se ele está perdendo alguma coisa.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 373





Só falta Ernst Hemingway… – texto de William Boyd

24 03 2016

 

 

Black Suit, red wine, PerezTerno preto e vinho tinto

Fabian Perez (Argentina, 1967)

 

 

“Passo a noite no hotel do aeroporto, o Ikeja Arms — pegarei o voo de volta a Ibadan amanhã. Gosto deste hotel velho com seus grandes bares escuros cheios de tripulação e aeromoças de folga. Eles conferem aquele pequeno toque de vulgaridade  que o visitante sempre traz a uma taverna como esta. Adicione a isso uma noite tropical, álcool abundante, uma nação envolvida em uma guerra civil…  eu quase espero que Hemingway entre pela porta.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 403-404.





Resenha: “As aventuras de um coração humano” de William Boyd

13 03 2016

 

Danielle Klebes (EUA,)Dalton the writer, ost,50x60cmDalton, o escritor

Danielle [Klebes] James (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 50 x 60cm

 

As aventuras de um coração humano é um livro extraordinário e se destaca na literatura contemporânea. Meu primeiro contato com William Boyd foi com Brazzaville Beach, lido no início dos anos 90. Seduzida pela narrativa, procurei e li as obras anteriores do autor: The Ice Cream War e A Good Man in Africa, e mais tarde Armadillo. Depois, dei uma pausa. Comprei Solo e Restless. Ambos se encontram na minha estante. Mas não os li. Fui aconselhada a ler As aventuras de um coração humano. Ainda bem que segui o conselho. Que obra! Ficção da melhor qualidade.

Trata-se da história de Logan Mountstuart, cidadão inglês, nascido em 1906. Acompanhamos sua vida desde a universidade, Oxford, onde ele se esforça para obter um diploma em história. Seguimos sua trajetória até falecer, aos oitenta e cinco anos, em 1991. Nosso conhecimento do personagem é intimo, pois vem através de seus diários. Sabemos o que faz, seus motivos, suas fragilidades. Tomamos conhecimento do que lhe dá medo, prazer, alegria, desespero. Podemos achar que é um bobo, um sem-vergonha, um escritor inteligente, um oportunista, um homem honesto, um herói. Rico ou pobre (ele vai de um extremo ao outro) seguimos sua vida, a aventura de viver, sua saga particular.

 

AS_AVENTURAS_DE_UM_CORACAO_HUMANO_1258491923B

 

No ano passado, as teorias do Dr. Arthur Aron que há mais de 20 anos mostrou como duas pessoas desconhecidas poderiam se apaixonar, se respondessem a 36 perguntas íntimas, olhando nos olhos um do outro, voltaram às notícias científicas. Sua teoria, que muitos haviam questionado, parece ter sido redescoberta e reavaliada. O que se provou é que há maior probabilidade de uma paixão ser iniciada quando há aproximação, contato entre duas pessoas, através do conhecimento de detalhes íntimos que são revelados enquanto se olha nos olhos do interlocutor até então desconhecido. É claro que o leitor de As aventuras de um coração humano não consegue olhar nos olhos de Logan Mountstuart, mas é capaz de conhecer intimamente o homem através de seu diário, revelador de detalhes íntimos, de desejos recônditos, desgostos, esperanças, amores e fantasias eróticas. Acompanhamos esse homem por mais ou menos sessenta anos. E assim como na teoria de Arthur Aron professor de psicologia na SUNY [State University of New York], nos apaixonamos por Logan Mountstuart à medida que o conhecemos intimamente. Amor que independe das idiossincrasias, do comportamento ocasionalmente duvidoso, do conhecimento de motivos nem sempre nobres do nosso herói do cotidiano do século XX.

A vida de Logan se desenvolve em paralelo e por dentro da história do século passado. Por isso, vemos como os eventos que nada têm a ver com o homem comum, chegam a influenciar suas decisões, sua sorte, seu destino. Isso, adicionado às escolhas feitas, às vezes por capricho, pode ter consequências inimagináveis na vida de uma pessoa. A sorte distribui suas benesses, vendada. Sobreviver é “matar um leão por dia”, mas muito do que fazemos, muito do que decidimos, tem uma grande percentagem da ocasião, do momento, da chance, do azar, da coincidência. Logan não é um herói, é um homem comum, um escritor que atinge um certo sucesso. No entanto sua vida tem viradas incríveis, ocasionais, acontecidas por decisões pequenas, dele ou daqueles que o circundam, ou até mesmo daqueles que não conhece. É natural, portanto, que ao final da vida ele escreva: “No fim, é isto que se leva da vida: o agregado de toda a sorte e de todo o azar que se experimenta. Tudo é explicado por essa fórmula simples. Junte tudo — olhe as respectivas pilhas. Não há nada que se possa fazer: ninguém compartilha, aloca isso para esse ou para aquele, simplesmente acontece. Temos que sofrer as leis da condição humana silenciosamente, como diz Montaigne.” [p. 482] Logan luta pela sobrevivência física, profissional, emocional toma decisões que nem sempre são as melhores e por vezes só encontra suas consequências uma ou duas décadas mais tarde. Mas ele não deixa de ser um herói do dia a dia, um homem comum que reflete tudo que fazemos com heroísmo para a sobrevivência.

Muito deve ser dito a respeito da maravilhosa montagem dessa história. Li numa entrevista de William Boyd para o jornal inglês The Guardian, em novembro de 2004 [Nice one, Cyrill] que uma das coisas que ele achou mais difíceis foi escrever as entradas nos diários, em linguagem plena, sem ser uma linguagem literária, e que não viesse a descortinar o futuro, porque quando se escreve um diário, não se tem ideia daquilo que virá a ser importante na sua vida no futuro. “O futuro é um vazio: não sabemos se esta decisão que tomamos virá a mudar a nossa vida.” [The future is a void: we don´t know if this decision we have taken will be life-changing…] Por isso, escrever ficção como entradas em um diário parece requerer outra dose de criatividade.

 

118438099_boyd_367375cWilliam Boyd

 

William Boyd trabalhou seu texto com excelente artesania. Tão convincente, de fato, tão preciso na escolha dos detalhes da cena artística europeia da primeira metade do século passado, e de novo tão verossímil nas descrições do mundo das artes em Nova York depois da Segunda Guerra, tão crível, que me encontrei, mais de uma vez, procurando por Logan Mountstuart no Google, certa de que se tratava, de fato, da vida de algum um escritor e crítico de arte de pequeno porte, mas do mundo real e não imaginário. Isso graças à enorme pesquisa de detalhes das cenas artísticas de Paris, Londres e Nova York, fatos talvez nem tão importantes, e certamente desconhecidos da maioria do público, mas que sendo verdadeiros dão uma imensa riqueza na contextualização do personagem.

Em 2010 li um livro de ficção, também em forma de diário da escritora canadense Carol Shields, que achei uma obra espetacular, de grande criatividade. Chama-se Os diários de pedra [RJ, Record:1996]. Também em forma de diário, esse livro me deixou igualmente perplexa: saber que se trata de ficção, mas simultaneamente não acreditar que tudo, tudo não fazia parte de uma vida real, foi difícil. O livro de Shields, no entanto, baseava-se quase todo em fatos imaginados, e os eventos descritos tinham a ver quase que exclusivamente com os personagens envolvidos. A obra ainda se apoiava em fotografias em preto e branco dos supostos membros da família retratada. As aventuras de um coração humano não usa desse artifício, nem precisa. E além disso, a ficção se entremeia tão bem com a vida histórica que outros leitores também expressaram sua perplexidade, sua descrença de que não se tratava de alguém que havia de fato existido. Suas opiniões no site da Amazon, como no site Goodreads, mostram que eles também tiveram reações semelhantes à minha.

Quando Logan Mountstuart chega ao final, viveu uma vida plena. Compartilhamos suas ilusões e frustrações. Somos seus amigos. Sabemos de quem se trata. Ele consegue ainda assim nos surpreender, mas de acordo com sua filosofia de vida. E sentimos o seu fim, como sentimos a morte de um amigo, de alguém que conhecemos bem. Poucas vezes me emociono com o que leio. Mas reconheço que fiquei entristecida ao saber do fim, desse amigo que eu adquirira através as quinhentas e poucas páginas do livro. Acho que você também poderia gostar dele. Não perca essa oportunidade.

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Sublinhando…

12 03 2016

 

Abel Boulineau Auberive, França,1839 -), 1934 La lectrice Huile sur toile, leilão

A leitora

Abel Boulineau Auberive, (França,1839 – 1934?)

óleo sobre tela, 45 x 31 cm

 

“É sempre estranho quando um pintor competente começa a pintar mal deliberadamente. Só os grandes mestres conseguem fazer isso bem (Picasso).”

 

 

William Boyd

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 384.








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