Conselho de pai, texto de Yaa Gyasi

23 08 2018

 

 

Keepin Her Close by Cbabi bayocMantendo-a por perto

Cbabi Bayoc (EUA, contemporâneo)

[Da série, 365 dias de um pai]

 

 

“Ele a encontrou na cabana e se sentou ao seu lado.

— Por que está chorando? — perguntara ele.

— As plantas todas morreram, e eu podia ter ajudado! — disse ela entre soluços.

— Abena, o que você teria feito diferente se soubesse que as plantas iriam morrer?

Ela pensou um pouco, limpou o nariz com o dorso da mão e respondeu:

— Eu teria trazido mais água.

O pai concordou.

— Então, da próxima vez, traga mais água, mas não chore por essa vez. Não deveria haver lugar na sua vida para lamentações. Se,  no momento em que fez alguma coisa, você sentia clareza, por que se lamentar mais tarde?”

 

 

Em: O caminho de casa, Yaa Gyasi, tradução Waldéa Barcellos, Rio de Janeiro, Rocco: 2017, página 219.

 

 





Resenha: “O caminho de casa” de Yaa Gyasi

6 07 2018

 

Titouan Lamazou (Marrocos, 1955)Retrato de Mulher, da exposição Tenebres au Paradis, Africaines des Grands Lacs, aquarelaRetrato de mulher

Titouan Lamazou (Marrocos, 1955)

Aquarela

 

 

É um projeto ambicioso O Caminho de Casa de Yaa Gyasi, com tradução de Waldéa Barcellos, no Brasil. Mas ficou aquém das minhas expectativas dado o volume de aplausos aqui e no exterior à obra. O livro permanece em voga, não por sua qualidade literária, mas pelo fôlego requerido ao abordar o tema: a história de africanos nos últimos  quase 300 anos. Yaa Gyasi contrasta aqueles que permaneceram na África, no século XVIII, com os que, escravizados, chegaram ao Novo Mundo.  Retratadas estão as gerações dos descendentes das meias irmãs Effia e Esi: uma permaneceu na África, outra veio para o Novo Mundo como escrava. Linhagens separadas que se espelham nos dois lados do Atlântico.  “E na minha aldeia nós temos um ditado sobre irmãs separadas. Elas são como uma mulher e a imagem do seu reflexo, condenadas a ficar cada uma de um lado do lago.” [65]

 

O_CAMINHO_DE_CASA_1496700281680965SK1496700281B

 

A maior objeção que tenho é o formato.  Ele dá a sensação de uma trama picadinha.  Porque cada capítulo é uma história completa e pertence a um personagem descendente das meias irmãs.  Portanto, não há seguimento. Trata-se, de fato, uma coleção de pequenos retratos, perfis de vidas sofridas, cá e lá, que não dão continuidade, não formam uma história coesa. Este formato leva o leitor a repetidamente consultar as árvores genealógicas dos retratados para se situar na leitura.  Além disso, o romance que se propõe a ser histórico sofre de pesquisa limitada, de descrição superficial dos diferentes costumes, hábitos e até acontecimentos históricos mundiais que ajudariam o leitor a se localizar na narrativa e enriquecer a visão de época. Preocupada em contar a história dos que não têm voz, “ …quando se estuda História, é preciso sempre fazer perguntas. Que história não está sendo contada? De quem é a voz que foi reprimida para que essa voz pudesse se fazer ouvir?” [337] Yaa Gyasi pecou por não posicionar melhor no tempo, nos hábitos e costumes de cada era e de cada terra, o que acontecia, para enraizar a trama no conteúdo geral da história.

 

GYASI-SMYaa Gyasi

 

A coleção de contos, não permite que tenhamos simpatia por qualquer personagem, por mais do que algumas dezenas de páginas; no entanto é rica em acontecimentos, repleta do padecer típico dos séculos XIX e XX, e recheada de lágrimas e sofrimento pessoais para cada um dos diversos personagens.  Se você aprecia um drama sequencial, se gosta de contos variados, que partem o coração, talvez este seja um livro de que goste. Mas não é a obra prima que se descreve no momento.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Yaa Gyasi: “Entre força e fraqueza”

6 07 2018

 

 

8855bd0cfd37585d5ea658be1f1508a7Metamorfose, 2011

Carol Chen Poun Joe (Suriname, 1989)

acrílica sobre tela, 50 x 40 cm

 

 

“Você quer saber o que é fraqueza? Fraqueza é tratar alguém como se pertencesse a você. Força é saber que cada pessoa pertence a si mesma.”

 

 

Em: O caminho de casa, Yaa Gyasi, tradução Waldéa Barcellos, Rio de Janeiro, Rocco: 2017, página 63








%d blogueiros gostam disto: