Tradutor americano seleciona leituras japonesas para as férias

26 09 2018

 

Kasyou TakabatakeBela senhora de kimono

Kasyou Takabatake (Japão, 1888 – 1966)

 

 

O tradutor americano Dan Bradley publicou na revista GRANTA uma lista de obras japonesas que ele recomenda para leitura nas suas férias de verão.  Como todos sabem por aqui, adoro listas de livros porque estou sempre à procura de um bom livro de uma boa semana de leituras.  Assim sendo, passo logo a listar por aqui as obras que ele mencionou e que já se encontram traduzidas para o português.  Literatura japonesa tem sido objeto de interesse para mim.  É um amor maduro.  Descobri-a graças a amigos leitores, e não tenho nenhum conhecimento formal da história da literatura japonesa.  Mas diria que tenho lido sistematicamente uns 4 a 5 livros japoneses por ano.

 

1 — O homem que passeia, de Jiro Taniguchi, Editora Devir: 2017

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Com desenhos de Taniguchi e roteiro de Masayuki Kusumi (o mesmo roteirista de “Gourmet”), “O homem que passeia” é formado por oito passeios de um mesmo homem por sua cidade japonesa. O quinto passeio, “Os pepinos amargos no meio da noite”, é bem emblemático da maneira taniguchiana de pensar a (ou passear pela) vida. Começa com uma visita à casa de um amigo, que termina às 3 da madrugada. Nosso querido passeador resolve voltar para casa a pé, caminhada que levará uma hora e quinze minutos. Há algum suspense no ar: pepinos amargos e a travessia de ruas desertas. Mas nada de ruim acontece. Apenas reflexões ambulantes sobre a cidade que dorme e o amigo que acaba de se separar da mulher. Tudo menos dramático que o som do mergulho de uma rã ou o movimento sutil do pousar de uma borboleta em haiku mais que perfeito e tranquilo. Essas qualidades de Taniguchi, mais sua sensibilidade diante daquilo que existe de poesia na banalidade do cotidiano (tanto na natureza quanto na cidade), já produziram uma legião de admiradores para sua obra, como o cineasta belga Sam Garbarski, que levou para as telas – em 2010 – um de seus mangás, Bairro Distante.

 

2 — Opus, Satoshi Kon, Editora Panini: 2017

 

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Antes de se tornar um dos diretores de animes mais conceituados, Satoshi Kon trabalhou com mangás. Opus é da década de 90. Com roteiro e arte dele, mistura elementos de realidade e imaginação, de sonho, podemos dizer. Os fãs de filmes como Perfect Blue e Paprika perceberão o traço marcante, lembrando o mestre Katsushiro Otomo, de Akira (mangá no qual Kon trabalhou), e a tensão vivida pelos personagens, em enquadramentos de tirar o fôlego. Há também uma metalinguagem com o universo dos mangás levada às ultimas consequências. A Panini acaba de lançar o primeiro volume de dois. Opus é uma joia escondida nas bancas.

 

3 — O país das neves, Yasunari Kawabata, Estação Liberdade: 2004

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Neste livro, de grande repercussão no Japão e no exterior (inclusive com adaptações para o cinema), Kawabata expõe a densidade e as contradições das relações humanas por meio do encontro entre Shimamura, um culto senhor de posses, Komako, uma gueixa das montanhas, e Yoko, uma bela jovem provinciana, trazendo ao leitor um texto comovente e lírico ao extremo. Em vez de provocantes paixões, o desperdício do amor e o sacrifício pessoal dos personagens conduzem-nos a uma atmosfera gélida, com pinceladas de forte afetividade, em que o branco da neve e o frio penetrante contribuem para dar o tom melancólico da narrativa. Não à toa: a estação termal de Yusawa, que o escritor visitou pela primeira vez em 1934, serviu de inspiração para a criação do cenário onde a história se passa.

 

Outros escritores mencionados por ele não têm as obras em tradução, mas a maioria tem outras outras obras em português. Eles são: Yoko Ogawa, Hiromi Kawakami, Ryu Murakami, Hideo Yokoyama e Alex Kerr. 

Está na hora de começarmos a planejar as leituras de verão.

 

 





Resenha: “A Casa das Belas Adormecidas”, Yasunari Kawabata

31 07 2015

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roario mangaRosario Mangá.

 

Meu grupo de leituras da internet abriu uma discussão sobre a obra do autor Yasunari Kawabata, ganhador do Nobel em 1968. Neste grupo discutimos autores.  Todas as obras. Cada um menciona aquela obra que conhece.  E a conversa rola, através das semanas. Eu havia lido dois livros de Kawabata, Mil Tsurus, em 2009 e Kioto não me lembro quando.  Havia gostado, mas não havia lido a obra que parece encantar a um número enorme de críticos: A Casa das Belas Adormecidas.  Por isso mesmo pouco participei da discussão. Ainda mais, que descobri que as Belas Adormecidas haviam inspirado Gabriel Garcia Marquez ao escrever Memórias de Minhas Putas Tristes, outro livro que nunca li. Senti-me portanto mais ou menos na obrigação de considerar a leitura dessa obra de Kawabata.

Contrária à opinião da maioria dos leitores, não gostei de A Casa das Belas Adormecidas. De fato, cheguei a me forçar a ler essa até a última página, tal foi o meu repúdio ao romance — que nada mais é do que um conto! Concordo com muitos que a linguagem, mesmo em tradução, é sensível.  Concordo também que o personagem principal, um senhor de 67 anos, que tem a oportunidade de divagar sobre a vida passada, relembra-a de maneira quase poética. Mas isso não foi suficiente para me agradar.

 

 

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O problema com a obra: ter que aceitar a mulher tratada como coisa, em um nível de sofisticação muito além do imaginável. A mulher objeto ainda mais desumanamente abusada: jovens de carne e osso que têm o papel de bonecas de borracha, existindo unicamente para dar prazer a homens velhos, impotentes. O abuso – são drogadas a tal ponto que dormem pesadamente a noite toda e não sabem o que acontece com seus corpos drogados – é de um requinte malicioso que me impediu de julgar serenamente o texto. Talvez à época de sua publicação, 1961, esse aspecto da trama não fosse tão censurável quanto hoje.  Mas hoje é impossível que esse, ou um ato semelhante, possa ser tratado de maneira tão banal, que seja aceito sem uma rigorosa e visceral rejeição.  Como não há um personagem que se oponha a esse abuso, e como as meninas não sabem o que lhes acontece e portanto não podem fugir, nem reclamar, o leitor se vê psicologicamente alinhado ao homem que desfrutará desse abuso, o leitor se vê como cúmplice de uma ação que despreza.

 

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Reconheço que Yasunari Kawabata tinha em primeiro lugar a intenção de dissertar sobre masculinidade, sobre a impotência como consequência da velhice, sobre a frustração e a humilhação sofridas por aqueles que vivem muito além dos anos de fertilidade, dos anos de proezas sexuais.  Mas hoje, esses assuntos provavelmente seriam abordados de maneira diferente.  Não é uma questão de ser politicamente correto.  É que a moral mudou nos últimos cinquenta anos.  É isso.








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