Trova da realidade…

1 10 2014

 

lá se vai uma fortuna Tio Patinhas desconfia das contas a pagar. Ilustração de Walt Disney.

 

 

Na terra do cambalacho,

há sempre um jeitinho novo,

por lei ou simples despacho,

de dar o “cano” no povo…

 

(Thereza Costa Val)





De olhos vendados, resenha de “A mulher silenciosa”, de A.S.A. Harrison

30 09 2014

 

 

frag_blindCabra-cega, 1756

Jean-Honoré Fragonard (França, 1732-1806)

óleo sobre tela,  116 x 91 cm

Toledo Museum of Art, Ohio

 

 

Ralph Waldo Emerson estava certo ao dizer: “É o bom leitor que faz o bom livro”. Isso se tornou evidente após a leitura de A mulher silenciosa de A. S. A. Harrison. Enquanto a maior parte das resenhas se concentra no suspense da trama, considerando esta publicação detetivesca, no meu grupo de leitura, o livro foi foco de uma discussão de hora e meia considerando o retrato psicológico da pessoa que se nega a ver a realidade de que não gosta. No hemisfério norte este livro foi lançado como ‘leitura de verão’, ‘leitura de férias’, o que quer dizer algo leve, inconsequente – aqui no Brasil estamos longe dessas segmentações editoriais por falta de leitores mesmo — e como ‘leitura praiana’ é entendida para a maioria como bom entretenimento, corretamente aliás, para nós, que aceitamos essa publicação sem a expectativa de um prazo de validade tão curto quanto a estação mais quente do ano, abre-se a possibilidade, não preconceituosa, de encontrarmos na intriga literária espaço para uma discussão aferventada sobre comportamentos decorrentes de traumas psicológicos.

Creio que fomos ajudadas em grande parte por termos duas psicanalistas na rodada de discussões, que nos enriqueceram o suficiente com referências de Freud a Lacan. Para mim, de forma oblíqua, este livro me lembrou um dos livros mais marcantes que li há uns anos, A solidão dos números primos de Paolo Giordano, por tratar das consequências na vida adulta de grandes problemas na infância. Em A mulher silenciosa, Jodi Brett é uma psicanalista que para -sobreviver traumas de infância, comporta-se como se não existissem, conseguindo mesmo esquecê-los providencialmente. Ela silencia. Passa a vida dessa maneira, organizada, sistemática, em controle. Vive maritalmente com um empreiteiro de sucesso, pelos último vinte anos. Ele, Todd Gilbert, também vítima de outro tipo de problema na infância, apesar de não gostar de falar no assunto, não o nega. Os dois parecem satisfeitos.

 

 

A_MULHER_SILENCIOSA_1396467668P

 

Todd que é um Don Juan tem casos inconsequentes com diversas mulheres. Jodi sabe. Age como se só desconfiasse. Mas, na prática, cala sobre o problema, movendo-se como um gato, silenciosamente, cozinhando sedutores jantares na esperança de mantê-lo no ninho caseiro o maior tempo possível. Ela trabalha só pelas manhãs e ele, homem de sucesso financeiro, permite que nada falte na vida luxuosa que têm em Chicago, à beira do lago, com o cachorro Freud, e sem filhos. O problema é que Todd se envolve com uma moça muito mais jovem. Envolvimento típico de crise de meia-idade, mas ela leva a sério. Engravida. Separação à vista para Jodi, vindo de surpresa. Há perda, muita perda, emocional, financeira e de confiança. Com o casamento dele, a pressão emocional aumenta e situação financeira despenca. Tudo acontece muito rápido e de modo definitivo. À beira da ruína, Jodi, traída, sente-se tentada a tomar uma atitude radical. Há dúvidas… Se ela toma ou não faz parte do enredo com desfecho absolutamente inesperado.

 

MAC18_THE_ENDMERGE-150x150A.S.A. Harrison

Mas não é a trama a única parte interessante deste romance. São as questões levantadas, principalmente aquelas girando em torno da ética, do comportamento moral de todos os quatro principais personagens do romance. Omissão e silêncio são as grandes ferramentas que alavancam essas questões. Culpa é uma companheira próxima. Fica assim a porta entreaberta para as considerações de responsabilidade pessoal de cada qual com a vida que se leva, e o alerta: temos muito a ver com destino que nos damos. Este desenvolvimento da leitura fica muito mais claro quando consideramos os fatos que levam ao final surpreendente.

Infelizmente não teremos nenhuma outra obra da autora. A. S. A. Harrison faleceu aos 65 anos de câncer, logo após a publicação deste livro.





Na boca do povo: escolha de provérbio popular

30 09 2014

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formigas com frutas-

“Formiga sabe que folha come”.




Imagem de leitura — Alexandra Tyng

29 09 2014

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Alexandra Tyng, o lampião alladin,O lampião Aladin

Alexandra Tyng ( Itália/EUA, 1954)

óleo sobre tela, 51 x 76 cm

www.alexandratyng.com

 

 





Nossas cidades — Diamantina

29 09 2014

 

 

 

Baptista gariglio gr Carmo_diamantina BRedit29x41

Igreja do Carmo em Diamantina, 2009

Baptista Gariglio (Brasil, 1961)

óleo sobre tela colada em eucatex, 29 x 41

www.gariglio.com.br





Natureza Maravilhosa — besouro trilobita

29 09 2014

 

 

1045198_10154629390935603_5605387846530938629_nBesouro Trilobite, Platerodrilus sp.Coleoptera,Lycidae.

Mais informações:  besouro trilobita

 

Fonte: Project Noah





Eco, poesia de Henriqueta Lisboa

29 09 2014

 

picture-1Ilustração de Nicoletta Ceccoli.

 

 

Eco

 

Henriqueta Lisboa

 

Papagaio verde

deu um grito agudo.

Rocha numa raiva

brusca, respondeu.

 

Ganhou a floresta

um grande escarcéu.

Papagaios mil

o grito gritaram

rocha repetiu.

 

De um e de outro lado

metralhando o espaço

os gritos choveram

e choveram, de aço.

 

Gritos agudíssimos!

 

Mas ninguém morreu.

 

Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971, p. 38








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