Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

10 08 2008
Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

Na penúltima vez que estive em Recife esta sinagoga ainda não estava aberta ao público. Mas recentemente, visitando o nordeste, pude verificar este grande marco do Brasil colônia que foi a primeira sinagoga oficial de todas as Américas: Sinagoga Kahal Zur Israel (ou Congregação Rochedo de Israel).  Aberta no Período em que Recife era o centro do governo holandês. A foto mostra o nome da Rua dos Judeus, onde ela está localizada.  Este era o antigo nome da rua.  Hoje em dia chama-se Rua do Bom Jesus.

 

Diz-se que foi a primeira sinagoga oficial porque sabemos da existência de uma sinagoga anterior: Maguen Abraham (Escudo de Abraão).  Tudo indica que esta ficava na antiga ilha de Antônio Vaz, que depois se chamou Maurícia.  Mas até hoje ainda não foram encontrados vestígios arqueológicos desta sinagoga.  Há relatos também de sinagogas formadas em pequenas comunidades na Paraíba e na Bahia.

 

 

No século XVI é certo houve um grande número de judeus vindo para o Brasil.  Quando as prisões portuguesas foram esvaziadas e seus presos trazidos para o Brasil com a intenção de popular a terra, muitos dos que se encontravam presos eram novo-cristãos que haviam sido presos por continuarem praticas judaizantes.   Ainda que Portugal estivesse sob orientação da Inquisição, havia um grande problema nas mãos do reinado:  a necessidade de popular  a terra descoberta, com terras costeiras de perímetro generoso e defendê-las mesmo assim contra invasores.  Isto tudo para um dos menores países europeus com uma população também pequena.

 

Rua do Bom Jesus antiga Rua dos Judeus, Recife, PE

Rua do Bom Jesus antiga Rua dos Judeus, Recife, PE

 

 

 

 

 

 

 

Com a invasão holandesa, o Nordeste brasileiro passa a ser regrado pelas leis e costumes dos invasores.  Assim um grupo de judeus vem se estabelecer no Novo Mundo, contando com  a liberdade religiosa já existente no país flamengo.   Foi só nesta época que a sinagoga Kahal Zur Israel esteve ativa sendo sustentada por 180 famílias de judeus brasileiros e europeus no Recife.

 Junto a esta sinagoga havia duas escolas religiosas: Etz Hayim e Talmud Torah.   Mas estas não foram recuperadas.  O que se tem hoje é o edifício onde o templo exercia suas funções religiosas.  Ocupava duas casas, como pode ser visto na foto da fachada postada anteriormente. A comunicação entre as duas casas era feita por uma única pequena porta bem na frente; enquanto que o acesso ao segundo andar era feito exclusivamente por uma das casas, através de uma bela escada de madeira nos moldes do mobiliário vistos aqui.

Interior da sinagoga; segundo andar.

Interior da sinagoga; segundo andar.

 

 

 

 

 

Hoje o andar térreo desta sinagoga está dedicado a uma exposição permanente da história desta comunidade judaica que construiu e estabeleceu este templo.  Pode-se ver as escavações do local, que passou para as mãos de João Fernandes Vieira, em 1656.  Podemos ver os alicerces da construção e examinar o  piso original holandês, a descoberto depois de terem sido encontrados 8 diferentes níveis, principalmente porque a história do edifício inclui diversas funções.  Em1679 o prédio foi doado aos padres da Congregação do Oratório de Santo Amaro.  Daí por diante há uma troca constante de funções sendo que até recentemente era uma casa de material elétrico.   No térreo pode-se observar  também o muro de contenção das águas do rio Beberibe, a fundação do Micvê,  assim como vitrines com pedaços de  louça, cachimbos, faiança, utensílios de barro esmaltado trazidos tanto pelos colonizadores portugueses como pelos holandeses.   

Fragmentos de louça encontrados nas excavações

Fragmentos de louça encontrados nas excavações

 

 

 

No primeiro andar está a sala de orações. Esse espaço está hoje destinado ao publico participante de conferências e seminários sobre a cultura judaica que fazem parte dos estudos realizados no centro de pesquisa localizado no andar de cima.  O mobiliário desta parte foi construído de acordo com os moldes usados nos Países Baixos na época.  Enquanto que o formato e o material do teto da sinagoga são baseados nas  sinagogas da península ibérica do século XVII.   A arca que contém a Torah está em frente ao púlpito.  O salão do serviço religioso se encontra na direção leste, como requerido.   No mezanino ficava a parte reservada às mulheres, que acompanhavam as cerimônias religiosas, separadamente.   No segundo andar  encontra-se a sede do Centro de Documentação da Memória Judaica de Pernambuco.

 

Com a retomada portuguesa do território sob  Maurício de Nassau  muitas das famílias judias pernambucanas, temendo a volta dos processos da Inquisição, saíram da cidade de Recife.  Algumas delas vieram para o sul do Brasil, para Minas Gerais, onde se juntaram aos bandeirantes na procura por metais e pedras preciosas. Outras 150 famílias decidiram retornar à Holanda.   23 destas famílias, que se encontravam a bordo do navio Valk, de regresso aos Países Baixos,  foram deixadas presas na Jamaica depois que a embarcação sofreu um ataque de piratas espanhóis.  Quando liberadas, tomaram um navio francês que seguia para a America do Norte e chegaram ao vilarejo de Nova Amsterdam,  com  1500 habitantes, no coração da ilha de Manhattan, em setembro de 1654.

 

***

 

A sinagoga encontra-se aberta ao público desde 2001.  


Ações

Information

27 responses

19 10 2009
rebeca

E u adorei amei estou estudando sobre isso e isso vai me ajudar muito estou muito feliz com isso muito obrigado

21 10 2009
peregrinacultural

Que bom!

11 05 2010
João Batista Jardim

Ainda bem que a sinagoga de Recife foi preservada. os judeus estão presentes no Brasil desde o descobrimento. Aquela comunidade de judeus que foram para Nova
amsterdam, foram os primeiros judeus de Nova Iorque.

22 05 2010
duu

Ainda bem mesmo, fui nela sexta!

22 05 2010
duu

Eu também tô estudando isso!VALEU!!!!!!! 🙂

18 01 2011
andre de barros

amo toda historia judaica, amo israel shalom.andre de barros

18 01 2011
andre de barros

orai pela paz de jerusalem abençoados seram todos aqueles que orar por tua paz.andre de barros

21 03 2011
Nina

Meu Deus e fantastico amei tudo que vi e ouvi, e um tesouro sim que faz parte da nossa historia e bem apresentado. Foi um prazer ter ido a Kahal Zur Israel

22 03 2011
peregrinacultural

Nina, é mesmo, um tesouro ainda desconhecido por muitos de nós. Vale a pena fazermos a propaganda dele, não é mesmo? Obrigada pela visita ao blog. Volte sempre, um grade abraço, Ladyce

27 10 2011
Ezrah Ben David

shalom fico emocionado com a historia de meu povo mesmo vivendo hoje ainda em exilio , somos nos os judeus um povo que sonha com o tenpo da Olam Haze ! ou tenpos vindouros ! quando o Mashiach Ben David estabeler seu reino . ass Ezrah Ben David

20 06 2012
pilipus_carpedien@hotmail.com

Algo em muito perdido estas origens judáicas de muitas famílias tidas como Portuguesas (leia-se judeus portugueses). Deste seio nordestino, mesmo recifense, muitas famílias sefarditas migraram para o interior, adentrando-se até os confins de Estados como o Amazonas, Tocantins, Pará, etc, como as famílias Carneiro Leão, Costa, Brito, Dias, Gomes etc. Todas criptojudeus, ou mesmo cristãos novos da época.

Tais famílias buscavam o isolamento nas fazendas destas regiões, fugindo da inquisição, muitas delas, hoje totalmente convertidas ao cristianismo e totalmente alheias as suas origens judáicas, mesmo porque, especialmente para os cristãos novos, se buscava esconder, mesmo entre familiares, suas origens, com base no receio de serem novamente perseguidos.

Algo interessante é que mesmo isoladas dos restantes, houve muito casamento entre eles, de modo que, pode ser percebido, especialmente no norte do País, uma mistura muito grade de tais sobrenomes, alguns muito tradicionais como o sobrenome “Carneiro Leão”, mesmo sobrenome de José Fernando Carneiro Leão, primeiro e único conde da vila de São Jósé.

20 06 2012
peregrinacultural

Muito interessante essa sua observação. No jornal O Globo na semana passada — sábado, se não me engano — apareceu uma lista dos sobrenomes adotados pelas famílias e origem judia no Brasil. Sim, acredito que a influência de muitos costumes judaicos no Brasil seja ainda maior do que se admite. Um grande abraço e obrigada pela contribuição.

25 06 2012
antonio fabiano de oliveira cavalcante

vico! cada vez mais animado ao descobrir que gente tão santa já estava aqui no nosso Brasil colonial, shalom a yisrael!!!!!!!!!

3 08 2012
alesson

oi pessoal tive o privilegio de conhecer esta sinagoga no dia 03 08 12 no passeio do colegio foi muito legal conhecer esta historia sou aluno da escola santos cosme e damiao em igarassu

6 08 2012
peregrinacultural

É realmente uma beleza!

11 09 2012
maria jose gonçalves de lima

É uma honra para nós recifenses, termos este grande monumento histórico-cultural em nossa cidade, vale a pena conferir.

12 09 2012
peregrinacultural

Com certeza!

14 09 2012
clausius

no interior do nordeste há muitos indicios da cultura judaica : varrer o lixo para o centro da casa ; mesas de cozinha com gavetas ( trocar rapidamente a comida kosher por uma tipica se por acaso chegar uma visita ) , ferraduras atrás da porta , mortalhas , modo de enterro (sem caixão) , casamentos consanguineos . É fácil reconhecer em algumas comunidades mais isoladas uma cultura diferente do entorno .
basta um levantamento sistemático para observar que o interior do nordeste tem uma grande influência desta cultura – ao contrário do que levam a crer a maldita e reacionário midia nacional , o sertanejo é um individuo que tem uma sede cultural muito grande – que o diga meus alunos de pós-graduação nas mais diversas localidades de pernambuco e paraiba

21 10 2012
Lindalberto Seixas Alves

Ezrah ben Yehudah.
Faço parte desta história também. Senti muito quando fui a Recife e encontrei a Sinagoga fechada; estava sendo reformada; mas, fico feliz por estar pronta.Brevemente visitarei este local de minhas origens.
Shalom a todos.

23 10 2012
peregrinacultural

🙂 Obrigada!

20 01 2013
maria do carmo

por favor gostaria de saber qual o bairro que fica a sinagoga, e tambem se é possivel descobrir se tive parentes meu bisavo ‘e que qdo pequena escutei minha avo dizer que era judia, apenas isso , mas ela costumava acender vela na sexta a tarde e dizia que não podia varrer a casa mas é pouco a unica coisa que sei é que vieram da holanda e italia mas eram catolicos o nome era jose valentim de moura e ela acredito que tenha nome errado felismina maria da conceição e moravam em taquaritinga eu acho ai recife obrigada se puder me ajudar sei que e muito dificil

20 01 2013
peregrinacultural

Boa tarde, Maria do Carmo. Quanto ao bairro, é bem no centro, na parte velha de Recife, onde as primeiras ruas foram estabelecidas no tempo dos holandeses. Vou pedir a uma amiga minha que me dê a resposta e responderei aqui mesmo, ela é de Recife. Eu moro no Rio de Janeiro e esta postagem no blog se refere a uma visita que fiz a Recige faz uns 4 anos ou mais. Quanto a descobrir suas origens judias, tenho certeza de que deve haver alguna instituição que possa lhe dar as respostas. Não sei onde você mora, mas procure a sinagoga mais próxima de sua casa e verifique. Lembre-se que a internet deve poder lhe dar uma pista sobre onde procurar saber sobre sua família. Muitas pessoas no Brasil tiveram origem de famílias judias. Você não seria um caso isolado ou fora do comum. Um abraço,

20 01 2013
peregrinacultural

Maia do Carmo, a sinagoga fica no bairro do RECIFE ou às vezes também chamado de RECIFE ANTIGO. abç

28 01 2013
ANTONIO FABIANO DE OLIVEIRA CAVALCANTE

ANTONIO FABIANO DE OLIVEIRA CAVALCANTE já estive na primeira sinagoga das américas,breve votarei-lá é muito impressionantemente, só estando lá para saber! quem ainda não foi ! não perca essa oportunidade de conhecer sobre as origens da maior parte dos nordestinos!

29 01 2013
peregrinacultural

Vale a pena mesmo! 🙂

24 08 2014
Rogério de Carvalho França Dias

Minha vó que é viva tem o sobrenome Carvalho, ela veio de recife à 80 anos atrás… será que tenho alguma descendência judaica? obrigado

25 08 2014
peregrinacultural

Nem todos os Carvalhos são de origem judaica, mas há possibilidades… Procure informações em sites de genealogia. Há muitos. Um abraço,

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