A lebre com olhos de âmbar, um livro inesquecível de Edmund de Waal

11 04 2012

Songoku, o Rei Macaco e a Lebre com pedras preciosas ao luar, 1891

Tsukioka Yoshitoshi (Japão, 1839 – 1892)

xilogravura policromada, 24 x 35 cm

Museu de Arte de Brooklyn, Nova York

Texto com contexto, biografias e memórias, uma saga familiar que conta a história do mundo no século XX: este é um livro inesquecível; uma série de biografias que leem como romance, uma memória familiar escrita através de um processo detetivesco.  Não há melhor combinação de elementos para seduzir o leitor ainda mais quando se trata de uma narrativa bem escrita, sensível, desapegada quando poderia ser melodramática,  quase irônica como todo bom inglês consegue ser.  Em um parágrafo: isso é  A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal [Intrínseca: 2011].

O autor recebe de herança uma coleção de netsuquês –  pequenas esculturas-botões de acabamento de artigos de vestuário japonês.  Herda-os de seu tio-avô embrulhados em histórias de família, em aventuras  transcontinentais e perseguição nazista.  Inicialmente, quando meus amigos me falaram desse livro, suspeitei que se tratasse de algo semelhante a Memórias do Livro de Geraldine Brooks, [Ediouro: 2008] onde participamos de uma pseudo-arqueologia da Hagadá de Sarajevo, ou até mesmo a saga de uma família judia vista através da passagem de um espelho, de geração em geração, como aconteceu com o livro da brasileira Chaia Zisman, O Espelho [Sete Letras: 2006].   Hesitei inicialmente porque me pareceu que eu iria embarcar em um modismo narrativo e tudo indicava que me exporia mais uma vez a um truque ficcional que já se achava “cansado” antes mesmo da primeira página ser lida.  Mas me enganei.

Antes de escrever essa resenha procurei entrevistas com o autor, que até a publicação desse livro não era um escritor, mas um afamado ceramista, conhecido e respeitado internacionalmente.  Reconheço que ele se sai melhor com a palavra escrita, pensada e bem colocada do que com a palavra falada, sobre a qual sua timidez parece levar a melhor…  No entanto, foi através dos vídeos de entrevistas com o autor que vim a conhecer sua grande familiaridade com os trabalhos do escritor francês Proust.  Não só porque Proust foi amigo do primeiro colecionador de netsuquês e tetravô do Edmund de Waal, mas porque de Waal, formou-se em inglês, e admitiu ter-se apaixonado,  lido e relido, os volumes de Proust, através dos anos.  Esse conhecimento não só justifica a prosa límpida, delicada e precisa de que se utiliza na composição das biografias a que se dedica, como explica a visão de “Busca do tempo perdido” que transmite através de seu texto.

Netsuquê da lebre com olhos de âmbar da coleção do autor.

Digo isso porque parte do charme dessa narrativa é a sensação que o leitor tem de que presencia, através de pequenos detalhes do cotidiano, a vida como ela era no último quarto do século XIX em Paris, no início do século XX em Viena, durante a ocupação nazista da Áustria e durante os anos de reconstrução do Japão após a Segunda Guerra Mundial.  Os detalhes baseados em pesquisa incansável dos diversos membros da família retratada nos dão a sensação de conhecer o dia a dia dos bem-sucedidos protagonistas.  E entramos sem nos darmos conta, num mundo semelhante ao dos contos de fadas, dos multimilionários banqueiros, de suas paixões e de sua magnanimidade.  Esse texto, bem escrito e detalhista, é fascinante, não importa que geração se encontre retratada.  E o contexto vem nas entrelinhas, nas reticências e meias palavras, mais eloquentes do que se poderia imaginar, que descrevem o preconceito antissemita tecido nas sociedades da época, até mesmo por aqueles cujas vidas e sobrevidas dependiam do patrocínio, do mecenato, da tutela dessas mãos judias.

Quando pensamos na história do século XX temos a tendência a vê-lo partido ao meio: antes e depois da Segunda Guerra Mundial.  Podemos datar quase todos os aspectos sociais, políticos e artísticos pela guerra. E aqui, nesse volume, tratando de episódios que começam mais de cem anos antes e que se desenvolvem por mais de cinquenta anos depois, descobrimos que de fato, só há um único assunto que caracteriza o século XX: o preconceito generalizado, indiscriminado, politizado.   A guerra não foi o ponto da virada que acabou redimindo as últimas décadas do século XX.  Ela foi a essência do que veio antes e do que foi feito depois.   Assim como a loucura coletiva da Inquisição caracterizou o século XVI, o século XX comungou da mesma fonte, fazendo seu, um  único tema, o antissemitismo.  Todo o resto, aspectos políticos, sociais, emocionais, financeiros, de uma maneira ou de outra se encontram nesse preconceito.  Mesmo que ele não seja abordado diretamente como acontece nesse livro, ele é visivelmente, a “éminence grise”, o “modus operandi”, a força motora que impulsionou o mundo.

Edmund de Waal

Edmund de Waal não escreveu esse livro para que descobríssemos a essência do século XX.  Ele escreveu de maneira encantadora a história da vida de seus antepassados usando a coleção que netsuquês, que os unia, como ponto de partida e de ligação entre gerações.  E elas o foram, todas essas 264 mini esculturas japonesas.  Mas talvez pela compactação dos eventos em poucas páginas, pela delicadeza da narrativa, pela riqueza de detalhes apresentados nos episódios, nas décadas, no século retratado, a leitura de A lebre com olhos de âmbar pede uma observação com um ponto de vista mais distante que abrace, de uma só vez, todas as situações complexas e ache o denominador comum, o fio da meada do que está sendo apresentado.   De modo que a biografia particular se torna uma história do mundo ocidental visto por olhos quase neutros de um escritor que é ceramista, de um descendente de banqueiros que trabalha para sobreviver, de um inglês, membro da igreja anglicana que se volta para seus antepassados judeus.  É estamos, de fato, diante da história do século XX.


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