Resenha: “O livro secreto” de Grégory Samak

31 12 2015

 

 

jogo de xadrez com a morteJogo de xadrez com a morte, 1480

Albertus Pictor (1440-1507)

pintura mural

Igreja em Täby, Suécia

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O livro secreto é uma fábula. Partindo da premissa que estamos à beira de esquecer o passado, Samak pondera sobre as lições no nazismo. E, concluindo que continuamos a puxar para debaixo do tapete a magnitude do que aconteceu durante a Segunda Guerra, podemos repetir o erro e contribuir para um novo “genocídio de todos os indesejáveis — fossem eles comunistas, judeus, ciganos, homossexuais, enfermos” (109). Esta é uma obra de alerta.

É um conto fantástico sobre um livro sagrado onde estão escritos todos os detalhes das vidas dos seres humanos, desde seu nascimento até a morte. O livro chega às mãos de Elias Ein, um senhor aposentado, que trabalhara com seguros, austríaco, sem família, que se muda para uma pequena cidade às margens do rio Inn, para aproveitar os últimos anos de vida. Elias percebe que além da lista dos seres humanos, esse livro também lhe dá o poder de viajar no tempo. Ele já se encontrava pessimista com os rumos da humanidade:

“Guiada pela culpa, a pós-modernidade europeia, a do século de Elias, se emaranhava na obsessão neurótica pelo esquecimento, uma vontade de “virar a página”, que era nada mais do que a página do seu fracasso moral.

Elias via a memória do antigo mundo se apagar, o mundo de seus pais e de seu velho legado, abrindo a porta para uma nova era de perigos semelhantes aos do passado…”(89)

Elias pensa então: já que pode visitar o passado, por que não mudá-lo?

Apesar de ser um livro de 170 páginas, Grégory Samak constrói uma trama com diversas referências culturais que servem para honrar todos os que morreram nas mãos assassinas do nazismo. Ele nos dá a chave desse entendimento ao dividir a obra em três partes e nomeá-las em latim: Rex, TremendaeMajestatis, uma referência musical.

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Réquiem é uma composição musical fúnebre de oração aos mortos. É triste. É uma lamentação que começa com as palavras “requiem aeternam” que querem dizer: repouso eterno. Em 1791, o austríaco Wolfgang Amadeus Mozart se dedicou à composição de um Réquiem, hoje conhecido como “O Réquiem em ré menor“, que foi, possivelmente, sua última composição e, hoje, uma das mais conhecidas. Uma das partes deste Réquiem, chama-se: Rex tremendae majestatis. [Rex tremendae majestatis/qui salvandos salva gratis/salva me, fons pietatis.   Tradução: Ó rei de tremenda soberania/que salva os escolhidos livremente/salva-me, ó fonte de piedade]

É dessa maneira então que Grégory Samak nos avisa que se trata de uma obra de queixume. É uma lamentação, uma elegia. Assim como o Livro das Lamentações do Velho Testamento chora pela destruição do primeiro templo em Jerusalém, O livro secreto é um livro de lamúrias, de lástima e queixa sobre o rumo da civilização europeia após a Segunda Guerra.

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g.samakGrégory Samak

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E quem melhor para desfiar seus clamores numa melancólica meditação do que Elias Ein, que fica conhecido como Elias, o sábio, homem que leva o nome do profeta bíblico, numa referência direta ao milagre de ressuscitar os mortos?  Elias que trouxe o fogo dos céus e que foi levado aos céus numa carruagem em chamas?  Ele, o profeta que retornará antes que venha o grande e assustador dia do Senhor? Não é a toa que ele está nessa obra, liderando a repulsa quanto aos caminhos tomados pela civilização ocidental.

Para um pequeno livro, essa é uma grande mensagem.  Um texto rápido, corrido, de pequeníssimos capítulos, cheios de referências que o alargam, o engrandecem e o fazem relevante. É uma meditação em forma de fábula e como esta nos dá um questionamento moral.

Leitura muito recomendada.


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