Vanitas e os arlequins de Ado Malagoli

20 02 2012

Arlequim e o gato preto, 1956

Ado Malagoli (Brasil, 1906-1994)

óleo sobre tela, 61 x 49 cm

Instituto de Arte, UFRGS

A obra de Ado Malogoli sempre me encantou.  Mas, nessa época carnavalesca, em que o pensamento circula a volta de fantasias e canções e que, sem me dar conta, colombinas, pierrôs e arlequins surgem no meu inconsciente, evocados por um refrão de marchinha ou no verso solto de um folião, lembrei-me dos diversos arlequins que Malagoli pintou.

Muitos são os artistas que se dedicaram seguidamente às imagens do trio de zanni — empregados domésticos — personagens originários da Commedia dell’ Arte.  Picasso é só um dentre os muitos europeus que exploraram o tema.  E como não havia um roteiro específico regendo a interação desses personagens, já que eles faziam parte de companhias de teatro de improviso, cada espetáculo era diferente, com peripécias e desfechos diversos.  Mas cada personagem agia sempre dentro dos limites pré-estabelecidos, que toda a platéia conhecia. Com a variação de histórias, a comédia era única à cada cidade visitada, mas Arlequim continuava sabido, Colombina namoradeira, Pierrô ingênuo.  Aos poucos, do século XVI ao século XVIII, essas características se modificaram.  Antoine Watteau, pintor francês, esteve entre os primeiros a representar esses personagens com uma maior carga emocional  do que lhes havia sido atribuída até então.

Os comediantes italianos, 1719-20

Antoine Watteau ( França, 1684-1721)

óleo sobre tela, 81 x 67 cm

National Gallery, Washington DC

Já tratei aqui no blog das diversas ondas de popularidade, através dos séculos desses três personagens, que parecem desaparecer por algum tempo para depois voltarem com força. [O sumiço dos Arlequins, Pierrôs e Colombinas…].  O interesse renovado nesses personagens no século XIX, nas artes visuais, fica focado sobretudo na figura de Pierrô, que se torna trágica, sofredora, injustiçada, triste, vitimizada.

Sem trupe itinerante,  sem improviso, personagens convencionais, estereotipados,  perderam suas funções e já não eram utilizados.  No entanto, eles representavam aquilo que é humano: a esperteza, a inconstância, a ingenuidade.  Ficou difícil deixá-los morrer.  Temos sempre à nossa volta esses tipos.  São nossos irmãos, pais, tios, amigos, primos.  São nós mesmos.  São como nos vemos e como vemos os outros.  A libertação dos zanni, de seus limites, trouxe drama para Pierrô, que durante o romantismo do século XIX, tornou-se  o romântico injustiçado por natureza.

Duelo depois do baile, 1857

Jean-Léon Gerôme (França, 1824-1904)

óleo sobre tela, 37 x 54 cm

The Walters Art Gallery, Baltimore, Md.

Um exemplo da carga emocional do Pierrô no século dezenove está representado no quadro de Gerôme, onde a figura de Pierrô é mostrada ferida, como consequência de um duelo pós-baile.  Nada mais romântico, nada mais dilacerante para corações mal-entendidos e ingênuos.  No entanto, passado os meados do século XIX,  nenhum dos três personagens da Commedia dell’ Arte parece conquistar terreno na pintura.  Ocasionalmente vemos um deles, mas com os movimentos artísticos do realismo ao impressionismo, deu-se menos importância ao pesado conteúdo dramático que Pierrô parecia representar.  O interesse dos artistas estava em outras áreas, em grande parte fundamentadas nas questões de percepção da luz e forma, como vemos no impressionismo.  Arlequim e Pierrô retornam nas últimas décadas do século.  Diferentes.  Suas vestimentas de cores contrastantes atraem pelo potencial à estilização.  Pierrô, em geral de traje branco com pompons contrastantes, oferece a possibilidade de um ensaio sobre os tons de branco, enquanto Arlequim trajado de malha em losangos coloridos oferece um “quebra-cabeças” natural para o pintor.  Não é à toa que a dupla Arlequim e Pierrô frequenta muitas telas de Cézanne em diante.

Mas é o século XX que traz Arlequim à cena, onde  passa a protagonizar grandes telas, importantes, trazidas ao centro do mundo artístico pelas mãos de Picasso.  Ele adquire, um aspecto mais sério.  Do conquistador, esperto, sem palavra, traquinas de séculos atrás conservou só a característica de conquistador e ganhou densidade ao refletir alguns dissabores, talvez até mesmo uma angústia hamletiana. Não foi à toa que Picasso se identificou com ele e não só uma vez, mais em um número incontável de representações, foi Arlequim quem tomou o lugar do pintor, um alterego.

No Lapin Agile, 1905

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

óleo sobre tela

MET  [The Metropolitan Museum of Art], Nova York

No quadro acima Picasso se autoretrata como Arlequim no bar Lapin Agile [A lebre ágil].   Nesse meio tempo Pierrô quase sai de cena.  Volta no final da década de 20 e nos anos 30. Transforma-se em modelo preferencial no movimento Art Deco não só nas artes gráficas como também na cerâmica e escultura.  Ficam de fora o drama, a tristeza e a fragilidade.  Pierrô passa a ser código do estilo da época, é adotado como adorno.

Esta divisão, esses dois caminhos seguidos pelos personagens da Commedia dell’ Arte nas artes visuais, no século XX, encontra diferentes seguidores no Brasil.  Se observarmos dois dos mais importantes artistas cubistas das primeiras décadas do século XX, Picasso e Juan Gris, podemos ver claramente a evolução das duas tendências que vieram a afetar a arte moderna brasileira.

Arlequim com violão, 1919

Juan Gris (Espanha, 1887-1927)

óleo sobre tela

Artistas como Antonio Gomide, Yara Tupinambá e Adelson do Prado — todos entre os que se dedicaram seguidamente ao tema dos personagens da Commedia dell’ arte — continuaram na evolução natural do  cubismo sintético — o movimento decorativo —  cujo maior expoente é Juan Gris.  Eles mostram em suas telas os passos seguintes ao que havia sido proposto anteriormente.

Pierrô e Colombina, 1922

Antônio Gomide (Brasil, 1895-1967)

óleo sobre cartão, 41 x 31 cm

Acervo de John Graz

Arlequim, 2007

Yara Tupinambá (Brasil, 1932)

acrílica sobre tela, 30 x 30 cm

Arlequim, 1980

Adelson do Prado (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 61 x 50 cm

Ado Malagoli está entre os pintores brasileiros que deram à imagem de Arlequim um conteúdo emocional semelhante ao que Picasso procurava.  Não está sozinho.  Gino Bruno, Inimá de Paula, João Quaglia seguem a trilha aberta por Picasso.

Arlequim, 1955

Gino Bruno (Itália, 1899 — Brasil, 1977)

óleo sobre tela, 65 x 50 cm

Arlequim, 1957

Inimá de Paula (Brasil, 1918 – 1999)

óleo sobre tela, 100 x 80 cm

Além do arlequim ter sido um tema para o qual Ado Malagoli se voltou com alguma frequência a intensidade emocional de suas telas provocam uma reação semelhante a que temos quando Picasso se retratava como Arlequim.

Arlequim, década de 1950

Ado Malagoli (Brasil, 1906-1994)

óleo sobre madeira,  35 x 27 cm

Arlequim, 1982

Ado Malagoli (Brasil, 1906-1944)

óleo sobre tela

Arlequim, s/d

Ado Malagoli (Brasil, 1906 – 1994)

óleo sobre tela, 81 x 60 cm

Arlequim com gato preto, década de 1980

Ado Malagoli (Brasil, 1906-1994)

óleo sobre tela

Não tenho os detalhes da obra que serviu de capa do livro de Mário Quintana sobre o pintor.

É forte o impacto desses arlequins quando os vemos em grupo.  Parecem envelhecer frente aos nossos olhos. Colocá-los em ordem por ano de produção poderia ser ainda mais interessante.  E quantos mais haverá?  Não sei.  Eu mesma me surpreendo com o número que consegui captar.  Infelizmente,  acredito que não haja um catalogue raisonné da obra de Ado Malagoli.  Fica aqui a idéia, o projeto para algum futuro historiador da arte, quem sabe até mesmo para o museu no Rio Grande do Sul que leva o seu nome.  Porque a carga emotiva dessas imagens merece a nossa atenção; elas projetam mais do que a roupa colorida de um zanni.  Elas dialogam com os arlequins de Picasso.  A seriedade da expressão facial, as cores sizudas, os corpos rígidos nos convidam a refletir.  Eles nos levam à introspecção por se mostrarem introspectivos.

Ado Malagoli parecia estar dialogando com seus pares.  Um diálogo imagístico, sem duvida.  Sua obra tem grande afinidade com a de Picasso.  Mas o convite à introspecção é dos grandes artistas.  O tema, Vanitas, é universal.  Um mero arlequim, um zanni, um personagem na comédia da vida parece o meio perfeito para lembrar que nem tudo é comédia, nem tudo  é carnaval ou folia.  Em espírito, esses retratos são um momento mori . Eles lembram a passagem do tempo,  a finitude da vida.  Com a mesma intenção da idéia por trás da obra de um  pintor francês, e grande ilustrador de livros, Dutriac, que em 1895 pintou o quadro, Revelação preocupante.

Revelação preocupante, 1895

Georges Pierre Dutriac ( França)

óleo sobre tela.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2012


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