Cartas de viagem: Espanha III

15 09 2009

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Casa Mila, Barcelona.

 

Barcelona, outubro de 19…

Meus queridos:

Nossa entrada em Barcelona foi uma experiência inesquecível.  Graças ao extraordinário senso de direção de H. só levamos uma hora para chegar ao hotel.  Chegamos no engarrafamento de 16:30.  Ainda não pensamos como os espanhóis.  Não imaginávamos que o engarrafamento dessa hora fosse o de “volta ao trabalho”, ou seja, para o centro da cidade…  Mas, verdade seja dita, não estávamos preparados para as grandes avenidas em que nos metemos que cortam a cidade em fatias de bolo, triangulares; avenidas das quais não se pode sair facilmente, não se pode dobrar à direita ou à esquerda; avenidas que uma vez nelas, você tem que sair do outro lado da cidade quer queira ou não.  Isso com uns malucos não só buzinando, mas achando ruim que você com o seu carro de placa de Paris (que mostra de cara que é estrangeiro) ande meio titubeando!  Se o meu casamento sobreviveu à relação piloto x co-piloto na entrada de Barcelona, vai sobreviver a muita tempestade! (Cá pra nós, não há nada pior que um co-piloto que sabe dirigir mas que acima de tudo se sente correta – como eu!)  Barcelona é uma cidade muito grande, a maior que visitamos dessa vez.

Essa metrópole é uma parte diferente da Espanha.  É uma das Grandes Senhoras Cidades do mundo!  Não é por causa de seu tamanho.  Ou por causa de seu tráfego ou até mesmo por seu comércio (de lojas caríssimas às que só vendem porcarias).  Tampouco é por causa de seus museus, monumentos históricos ou igrejas.  É a atmosfera de Barcelona, cheia de uma energia inebriante e envolvente, que seduz.

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Igreja da Sagrada Família, Barcelona.

 

A impressão é de que nada aqui pode acontecer de uma maneira medíocre.  As coisas aqui ou são grandiosas ou umas bombas, mas o que a gente não conseguirá é ser indiferente a elas.  Essa maneira de ser, de tentar coisas novas, de arriscar-se a fazer um papel ridículo, é magnética.  Barcelona é assim, e como conseqüência há uma variedade grande de coisas inesperadas.  E a única coisa que se pode fazer é ficar deslumbrada.

De cima de um morro a cidade revela todos os seus segredos de terra ao mar.  Monumentos bonitos e horrorosos que passam desapercebidos ao rês do chão aparecem no horizonte; desde a catedral inacabada de Gaudi até a praça monumental de Espanha.

O chão de pé-de-moleque das ruas do bairro gótico esconde embaixo de si mesmo, num museu de escavações, as ruínas da cidade romana.  Carrancas em goteiras e outros monstros observam das fachadas dos edifícios do passado, os pedestres de hoje; enquanto que durante o dia inteiro milhares de pessoas são cuspidas para fora do metrô super moderno, para andarem nas Ramblas – uma série de pequenas ruas que desembocam numa longa avenida que leva ao mar.  Essa população parece andar de sol a sol.

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Bairro gótico, Barcelona.

 

As Ramblas são um capítulo à parte em Barcelona.  A avenida principal, Rambla de Barcelona, tem um calçadão bem no centro, coberto de quiosques vendendo flores e pequenos animais domésticos, jornaleiros colossais com jornais e revistas do mundo inteiro.  Há restaurantes e bares que, apesar de serem localizados nos prédios ao longo da avenida, mantêm grandes barracas onde se pode comer e beber o que aquele restaurante oferece, desde um café até um jantar, com o garçom atravessando um trânsito impossível para nos servir.  É três ou quatro vezes o preço do cardápio, mas pelo menos uma vez vale a pena!

As ruazinhas que saem dessa avenida principal são deliciosas: estreitas e ensebadas;  Elas oferecem uma variedade interessante de gostos e perfumes desde suas lojas de vinhos, em que todo o vinho bebido vem de barricas postas umas sobre as outras nas paredes laterais das lojas, até as lojas de churros onde se pode comprar uma cornucópia dessa fritura em qualquer sabor imaginável!  Essas ruelas também têm restaurantes, pequenas lojas de roupas, caras ou não.  Tudo que existe para ser vendido, achará um lugar por lá.  No entanto, as ruas são tão estreitas que às vezes nem uma Kombi poderia passar.  Como a mercadoria chega às lojas é um fato a ser investigado.  De vez em quando há uma pracinha.  Lá algum dono de um bar próximo coloca umas mesinhas com cadeiras e um povaréu toma champanha ou sangria enquanto que – como em Nova York – alguém toca um saxofone ou violino, passando o chapéu a cada quinze minutos.   Este é o centro da cidade.  É aqui que tudo acontece.  O povo irá, de fato, andar andar nessas ruas 24 horas por dia.  As últimas sessões de cinema em Barcelona começam a 1 hora da manhã.  O jantar é sempre muito tarde.  Nós fomos a restaurantes às 11 horas da noite e tivemos que esperar em fila para vagar uma mesa.  Mas às 7 da manhã as Ramblas já estão cheias de gente.  Às 9 todo o comércio volta a abrir, para fechar às 13 horas.  Nessas horas realmente faz calor.  Faz muito CALOR!   Mesmo agora no final de outubro.  Tudo reabre as 16:30 para fechar às 21 horas.

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Las Ramblas, Barcelona.

 

A energia evidente no movimento da população é uma característica espanhola.  Madri entre outras é uma cidade em que todo mundo anda como se desfilasse nas ruas antes do jantar.  Mas na Catalunha é diferente.  Em Barcelona, a cidade inteira parece estar presa nesse rodamoinho.  Ela efervesce!  Produz energia por si só.  Essa energia, sentida no ar que se respira, complementa bem a forma orgânica de como a cidade parece ter crescido.  Na verdade há muito pouco em Barcelona que pareça simplesmente racional.  Ela cresceu como um cogumelo.  Até parece que os artistas minimalistas com aquela pureza de linhas e de superfícies bem lisas não seriam capazes de terem admiradores por aqui.  Mas não é verdade.  Eles têm.  Não é que a gente não encontre edifícios bem modernos e tecnologia de ponta por todo canto.  Mas há sempre um jeitinho diferente, espremido numa profusão de formas inesperadas no desenho moderno catalão.  Formas orgânicas aparecem em todo canto produzindo uma marca inesquecível não só na arquitetura ( que outro lugar poderia ter produzido um Gaudi?) mas em tudo mais que é criado aqui.   Essa para mim é a mais clara faceta do espírito catalão, a que separa esta região encantadora do resto também maravilhoso da Espanha. 

 

Beijinhos,  L.


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