Brooklyn, de Colm Tóibín, uma história inesquecível!

20 06 2011

Prospect Park, Brooklyn, s/d

William Merrit Chase ( EUA, 1849-1916

óleo sobre tela

Há um nicho literário que cobre as experiências de deslocamento social de imigrantes.  Países do Novo Mundo como os Estados Unidos e o Brasil têm tido regularmente em sua literatura adições significativas da experiência do imigrante.  No Brasil, esta experiência pode ser delineada mais recentemente, nas obras de Milton Hatoum, Nélida Piñon, Salim Miguel, Francisco Azevedo, para nomear alguns.  Essa tradição ainda é mais vigorosa nos EUA que, assim como o Brasil, receberam levas e levas de imigrantes do mundo inteiro, Michael Chabon, Amy Tan, Jhumpa Lahiri, Bernard Malamud estão entre dezenas de escritores americanos que desde o século XIX, se dedicaram aos desassossegos funcionais e emocionais causados pela imigração.

O deslocamento cultural tem sido também objeto de estudo do escritor  Amin Maalouf, cujo fantástico In the Name of Identity: Violence and the Need to Belong, [Penguin: 2003] –  demonstra as falhas de requerermos que um indivíduo faça uma única escolha de identidade, quando somos de fato a comunhão dos fatores que nos formam.  Maalouf está hoje entre os mais influentes pensadores contemporâneos no assunto.  Talvez porque eu tenha vivido a maior parte da minha vida adulta fora da minha identidade de nascença, este assunto há algumas décadas me fascina e sensibiliza.

Em Brooklyn [Cia das Letras: 2011] Colm Tóibín se dedica ao assunto retratando a imigração de Eiliss Lacey, uma jovem irlandesa que vai para os Estados Unidos na década de 1950.  O romance é simultaneamente um romance em que a protagonista principal cresce e aprende, na tradição literária do Bildungsroman [romance de educação] e um retrato da impotência feminina diante do papel que lhe é reservado nas relações familiares da época.

Eiliss Lacey é a filha mais moça de uma família irlandesa.  Introvertida e tímida, depois de um curso técnico em contabilidade não consegue encontrar um emprego satisfatório na pequena cidade onde mora.  Seus irmãos já saíram de lá à procura de melhores oportunidades.  Sua irmã mais velha, calorosa, cheia de vida, ainda está em Enniscorthy.  Eiliss sobrevive dentro dos parâmetros de uma vidinha limitada e medíocre, até que é surpreendida pela família que arranja de emigrá-la – através de um contato com um padre irlandês nos EUA – para o outro lado do Atlântico.  Sua opinião não é requisitada.  E Eiliss embarca, com seus muitos receios abafados, na estarrecedora viagem transatlântica.

Colm Tóibín

Com a chegada a Nova York o mundo de Eiliss se amplia.  Diferente de muitos imigrantes ela não precisa lidar com dificuldades por causa da língua.  De fato, seu mundo tem muitas similaridades com o que deixou para trás, como se os elementos que o compõem fossem os mesmos, só que arranjados de maneira diversa.  Esses ecos servem para contrastar, ao final da leitura, os dois mundos em que vive a jovem: são dois rapazes com quem se envolve; são duas chefes de trabalho difíceis; são duas matronas irlandesas que dispõem a bel-prazer da vida de Eiliss; são dois grupos de amigas irlandesas, são dois salões de dança.  A distância que os separa também os une e encontram terreno fértil nas emoções da moça.

Colm Tóibín dá continuação, em Brooklyn, a diversas tendências da literatura inglesa.  Eiliss Lacey, tem parentesco com Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito [Jane Austen] apesar de não ter o mesmo senso de humor.  Como ela, no entanto, vive presa pela teia das convenções sociais e dos laços familiares.  Além disso, ele retrata as pequeninas transformações na vida de uma pessoa comum, com a precisão e o colorido de dezenas de outros escritores britânicos, que se superam no retrato rigoroso dos detalhes da vida cotidiana.  Desta maneira, Colm Tóibín consegue extrair do particular, o universal.  Ampliando em muitas vezes a relativa grandiosidade das decisões tomadas por seu personagem.

Com uma narrativa enxuta que não desmerece as minúcias reveladoras que nos auxiliam no entendimento de Eiliss Lacey, e de sua época, Colm Tóibín nos induz a compreender as  dúvidas e a solidão da personagem.  Percebemos também o vazio daqueles à sua volta; a autoridade dos familiares e dos homens com quem se relaciona; as teias sociais que a aprisionam em ambos os lados do Atlântico.   Mas como na vida há surpresas, e algumas tão grandes que mudam a projetada trajetória do destino, assim acontece aqui.  E o que parece ser um final surpreendente torna-se simplesmente um final em aberto, como também são as grandes decisões que tomamos na vida.  Apesar de um início vagaroso, a história ganha um ritmo crescente e de suspense que arrebata o leitor até o último parágrafo, deixando um travo ou uma pergunta.  Este é um livro cuja história continua a ser contada nas nossas imaginações, muito depois da última palavra lida.


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4 responses

21 06 2011
Nanci Sampaio

Querida Ladyce:

Que bom que você está 100% de volta: recuperada da gripe! Senti sua falta.

Fiquei tentada pelo Brooklyn recentemente, mas acabei comprando e lendo de imediato Traduzindo Hannah, do Ronaldo Wrobel que, como muitos, interessado em descobrir mais sobre seu passado de filho de imigrantes (judeus no Brasil, antes e nos anos 1930: período da ditadura de Vargas), acabou também por nos oferecer um romance interessante, fruto de pesquisa, lembranças e invenções. Esse trecho mostra um pouco do sentimento inicial do imigrante, dono de outra cultura e identidade [o Brasil] “que era uma afável algazarra, um cortiço hospitaleiro contanto que as regras — ou a falta delas — fossem acatadas. E o judeu típico, impregnado de culpas e medos, tradicional intruso na casa alheia, ia se achegando em levas sorrateiras, como um bloco errante que se agrega à folia e, mais cedo ou mais tarde, ronca a cuíca da irmandade.”

Acredito que, em muitos casos, o ato da emigração encerra em si uma violência. O imigrante abre mão de tudo e perde inclusive o que teria pela frente. Esse tema também me fascina e sensibiliza, seja pela herança individual ou coletiva que recebemos de tantos sangues antigos, parafraseando Jorge Amado acerca da imigração italiana em “Siamo tutti oriundi”. Roberto Gambini além de pesquisar, analisar e abordar o tema de sua ascendência italiana em ensaios, palestras etc., traz à tona outro viés de nossa identidade, da formação de nossa alma: nossos antepassados índios, dos quais aparentemente a coletividade brasileira se esquece e dos quais, aparentemente, não temos orgulho.

Bem, passaria horas conversando com você sobre esse assunto, mas para não tomar seu tempo, gostaria de comentar que já comprei o Brooklyn e certamente vou ler In the Name of Identity: Violence and the Need to Belong. Mais uma vez, obrigada pelas dicas e pelo texto, sempre tão bem cuidado e generoso com o leitor do blog. Depois lhe mando minhas impressões sobre o Brooklyn.

Beijo, da Nanci.

22 06 2011
peregrinacultural

Querida Nanci: Sim, melhorei, ainda resta uma tosse que está gostando de me fazer companhia… Há tempos não caía assim, completamente sem energia. Agora, estou correndo atrás do que ficou por fazer… do que ficou esquecido. Coloquei Traduzindo Hannah, do Ronaldo Wrobel na minha lista de futuras leituras – obrigada pela sugestão.

O assunto da imigração é muito rico e ainda muito pouco explorado por aqui. Você tem razão quanto à herança indígena. Mas temos memória curta no Brasil. Às vezes o Brasil me lembra a Califórnia, um lugar para onde as pessoas com problemas na costa leste dos EUA costumavam fugir e recomeçar a vida com nova identidade, esquecendo tudo que deixavam para trás. Em parte, a diferença entre o país EUA [que é extremamente conservador – muito, muito mais do que imaginamos por cá] e a Califórnia, está justamente ligada a este passado “livre” onde ninguém tinha nada a perder. Há um pouco disso aqui no Brasil. E a influência indígena também está muito diluída através dos séculos. Famílias que vieram para cá há muitos e muitos anos, já perderam a noção dessa ligação.

Parte da minha família (parte de mãe) – diz a lenda, ainda incomprovada – começou com o “casamento” de um padre de uma bandeira de Paes Leme, com uma índia, ainda no estado de São Paulo, antes de a família se deslocar para MT, (os dois, Norte e Sul) onde permanece comprovadamente desde 1690. Mas isso é história oral, ainda mais nessas circunstâncias onde temos um casamento amancebado com uma indígena. Esta árvore genealógica no meu lado para em 1730 e não conseguimos ir avante… Há uma “cortina de ferro no assunto”.

Vai ser interessante saber a sua opinião sobre Brooklyn. No meu grupo de leitura a discussão sobre esse livro durou mais de hora e meia, mas opinião sobre o final variou muito. Nós éramos onze e onze opiniões diferentes… Foi muito interessante, porque as pessoas vêem diferentes aspectos. Espero saber da sua opinião.

Um beijinho, aproveite o feriadão, e obrigada pela maneira sempre gentil com que me escreve. Ladyce

18 12 2011
peregrinacultural

Nanci já faz muito tempo que quero lhe agradecer pela sugestão de leitura de Traduzindo Hannah, que foi um dos livros mais interessantes que li este ano e talvez até mesmo o melhor. Achei a história cativante, com um humor finíssimo e com uma boa pesquisa sobre a época do Rio de Janeiro de Vargas. Muito obrigada pela sugestão. Mais alguma? Um Feliz Natal para você!

11 01 2012
Nanci Sampaio

Querida Ladyce:

Em primeiro lugar, gostaria de lhe desejar que o ano novo venha carregado de boas leituras e de muitas possibilidades de apreciação da beleza, por meio de obras de arte…

Estive em férias de 26/12 a 6/1 e me afastei do computador – essa distância, de quando em quando, me faz bem – e por isso não lhe respondi antes.

Vi seu comentário recente a respeito dos contos; sem querer polemizar e, não podendo discordar de uma preferência, gostaria que considerasse a leitura de alguns livros de contos excelentes, como é o caso de “Antes do baile verde”, da minha queridíssima Lygia Fagundes Telles; “O fio das missangas”, de Mia Couto; “A solidão do diabo”, de Paulo Bentancur; “A sombra do cipreste”, de Menalton Braff e “Menina a caminho”, de Raduan Nassar. Histórias inesquecíveis, lhe asseguro, me limitando a alguns escritores de língua portuguesa. Confesso que o conto é meu gênero favorito e me senti tentada a contaminá-la…

Mas em se tratando de romances, minhas sugestões são “A máquina de fazer espanhóis”, de Valter Hugo Mãe e “A chave de casa”, da Tatiana Levy, cujo livro mais recente, “Dois rios”, também me empolgou na primeira metade da trama e me decepcionou, mas não demasiado, no fim. Junto de “A máquina de fazer espanhóis”, coloco outros destaques lidos em 2011: “Nada”, de Carmem Laforet; “Reparação” de Ian McEwan; “Enquanto agonizo”, de William Faulkner e “Os emigrantes”, de W. G. Sebald.

Não listei outros bons livros lidos recentemente porque ora foram recomendados por você, ora por nossa coincidência de escolha. Acho que 2011 foi um ano de boas leituras e de algumas descobertas literárias, embora ainda prefira ler autores com obra vasta – tenho o hábito de ler toda a obra de um escritor que me agrada.

É isso! Obrigada pelo blog, que continuarei visitando sempre.

Abraço, da Nanci.

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